— Que
vão dizer os outros do Corpo de Mutantes, quando souberem de minhas
férias de um mês?
— Nada —
respondeu Rhodan. — Porque os outros tiram suas férias
normalmente, enquanto você... você já está há mais de setenta
anos conosco e afastado de sua terra pátria. Se fôssemos seguir as
palavras da lei, Gucky, você teria direito a três ou quatro anos de
férias, que você nunca gozou. Teria até direito a...
— Ah!
Isso não, Perry! — interrompeu-o Gucky assustado. — Ou você
quer se ver livre de mim, ou quer que eu morra saturado de não fazer
nada? Dê estas férias a que tenho ou teria direito, então, ao
gorducho. Ele adora ficar sem fazer nada.
— Apesar
de ordem expressa, seu malandro, você está lendo de novo meus
pensamentos? Não adianta nada a proibição, hein? — disse Bell,
um tanto irritado.
— Não
estou indo contra a proibição, de modo algum. Não há necessidade
de ler seus pensamentos, quando você, em suas fantasias preguiçosas,
fala constantemente deles.
— Eu lhe
vou ensinar logo o que são fantasias preguiçosas, seu comedor de
cenoura!... Perry, você vai prestar o maior favor a todo o sistema
solar quando, durante um mês inteiro, nos livrar deste... deste...
— Chefe,
ele quer me chamar de animal porco, mas não se atreve a fazê-lo na
sua presença.
— Sem-vergonha!
— exclamou Bell, querendo pegar Gucky, mas suas mãos encontraram
só o ar tremeluzente, pois Gucky se havia teleportado, isto é, se
afastou num grande salto.
Bell deu
uma enorme gargalhada.
— Este
malandro! Mas como estou contente por ele estar de novo cem por
cento. O fato de ele ter saudade é muito natural e mesmo muito
sadio. As férias, ele já as mereceu mil vezes. Perry, você
concorda com que eu me preocupe com a adaptação de um Space-Jet?
*
* *
Na tarde
do dia 4 de janeiro de 2.045, chegou à seção de confecção de
uniformes espaciais sob medida uma encomenda de trinta peças. O
pedido tinha a assinatura do Tenente Gucky.
A referida
seção não estava muito contente com a encomenda, pois Gucky exigia
que os trinta uniformes fossem entregues ainda no mesmo dia. Mas o
diretor da seção de confecção não teve coragem de apresentar
reclamação a Perry Rhodan. Porém levou seus protestos para
Reginald Bell, que, conforme os boatos, devia estar constantemente em
briga com o arrogante rato-castor.
— O que
é que o preocupa? — perguntou Bell amavelmente, assim que o
diretor da seção acabou de se apresentar.
Começou a
falar, mas não foi muito longe com sua reclamação.
— Que
ousadia a sua! — gritou Bell furioso no microfone do videofone,
vendo na tela como o pobre homem estremecia todo. — O quê que o
senhor está pensando? Quando um tenente do Corpo de Mutantes
requisita com urgência a confecção de qualquer coisa, o senhor tem
de entregar a encomenda. E agora, por favor, não me aborreça mais.
Desligou
exacerbado, para depois cocar a cabeça e dizer:
— Que
será que Gucky vai fazer com trinta uniformes espaciais? Três
uniformes de reserva, ainda vai, mas trinta? E será que atrás desta
encomenda urgente de Gucky não se esconde uma missão secreta? Mal
se recuperou, já quer entrar no fogo. Estou curioso para saber o que
vai acontecer com seu vôo solitário para o pequeno planeta.
*
* *
Às quatro
horas da madrugada seguinte, o Tenente Gucky deu ordem para ser
levado ao Space-Jet, o SJ-09, que o conduziria ao planeta Vagabundo
em duas transições.
O sol
estava se levantando sobre Terrânia. Mas os homens da metrópole
ainda dormiam, com exceção dos que tinham trabalho noturno. Era
pequeno o movimento no gigantesco espaçoporto. Na pista 56, já
estavam ligadas as turbinas de um cruzador pesado. O ronco assustador
dos primeiros metros de subida foi desaparecendo aos poucos.
O
Space-Jet SJ-09 foi adaptado na véspera por um comando de robôs. A
nave em forma de disco com trinta e cinco metros de diâmetro podia
agora ser decolada, dirigida e aterrissada apenas por um tripulante.
Gucky se
sentia mais ou menos como um imperador da China, ao entrar no seu
SJ-09, em direção ã cabina de comando. Em pensamento, já estava
vendo seu vôo maravilhoso e sua chegada triunfal ao planeta. Nesta
euforia, tomou lugar na poltrona do piloto, confeccionada
especialmente para seu pequeno corpo.
Ligou os
motores. Seu dente roedor estava permanentemente à vista e, dentro
de poucos instantes, seria dono do espaço. As possantes turbinas do
jato estavam em aquecimento. A porta se fechou. A ligação com a
torre de controle de vôo era feita por fonia. A positrônica de
bordo aguardava apenas uma simples ligação para levar o SJ-09, em
duas transições, automaticamente para Vagabundo. Mas, antes disso,
Gucky queria mostrar que ele pessoalmente era capaz de manobrar um
aparelho daquele tipo.
— Decolagem
às 4:18 h, Tenente Gucky — comunicou-lhe a torre de controle de
vôo.
Já eram
4:18 h. O que os velhos pilotos das grandes naves comerciais chamavam
de “pull”,
usando mesmo a expressão “calcar
o pull”
para designar acelerar ao máximo, já era um termo conhecido de
Gucky, devido às conversas com Reginald Bell.
— Calcar
o pull — foi a ordem que Gucky deu a si mesmo, exibindo feliz seu
dente roedor.
O SJ-09
roncava surdo e a “disparada”
começou. Da torre de controle veio um comando, mas Gucky não ouviu,
nem queria ouvir.
— Subir
mais!
A
aceleração do jato aumentava, mas Gucky mantinha o aparelho a três
metros acima de Terrânia, isto é, do espaçoporto de Terrânia,
tendo como alvo a própria torre de comando. Controlava tudo através
da tela panorâmica, ampliação 1:1, velocidade, treze segundos após
decolagem, 530 km/h.
Quando,
perigosamente próximo da torre de controle, deu uma guinada para o
alto, já havia quebrado a barreira do som.
Centenas
de milhares de terranos pularam da cama esbravejando contra o barulho
infernal naquela hora da madrugada. Um desses terranos foi Reginald
Bell. Sabia quem era o culpado por isto.
— Aqui
fala Bell — disse para o controle de vôo. — Este louco foi o
nosso Tenente Gucky?
No céu de
Terrânia, em espirais executadas numa velocidade incrível, um
Space-Jet ganhava altura, naquela madrugada sem nuvens.
— O que
você disse?
Bell não
havia entendido nada da resposta do oficial da torre de controle,
devido ao barulho ensurdecedor.
— O
Tenente Gucky...
O resto
desapareceu de novo no barulho que ainda continuava quebrando a calma
daquela manhã tão linda e deixando muita gente exasperada.
— Telegrafe
a ele, proibindo terminantemente esta indisciplina — disse Bell no
microfone, esquecendo-se de que ele também, de vez em quando, fazia
o mesmo quando tomava a direção de uma espaçonave para uma
“aterrissagem
catastrófica”,
como era sua expressão.
Neste
sentido, Gucky era um aluno-modelo, pelo menos no tocante aos maus
hábitos de Reginald Bell.
A torre de
controle ligou para os aposentos de Bell:
— Estamos
tentando, há dez minutos, trazer o Tenente Gucky para o bom senso.
Mas como resposta, escutamos apenas suas exclamações repetidas:
“Calcar
o pull,
calcar
o pull...”
Senhor, está se sentindo mal?
Preocupado,
o oficial da torre olhava para Bell pelo videofone.
Bell,
porém, não se sentia mal; quem se sentia mal era sua consciência.
“Calcar
o pull”,
isto era uma expressão dele, Bell, quando intervinha para realizar
uma aterrissagem de emergência.
— Não,
não estou sentindo nada não, é só o barulho que me escangalha os
nervos. Eu lhe agradeço muito — apressou-se Bell em dizer,
desligando em seguida.
Gucky era
um bom piloto e gostava muito de voar. Por isso fazia estas espirais
para ganhar altura. Para ele, era a mesma coisa chegar uma hora mais
cedo ou mais tarde. O principal era voar.
— Calcar
o pull! Bonito, como a “canoa”
desliza.
Gucky
estava só, mas tagarelava o tempo todo no jargão de Bell. Mas, de
repente, chegou à conclusão que não tinha graça nenhuma em
repetir aquelas expressões chulas. Não havia ninguém para
ouvi-las.
De repente
saiu uma voz aguda do alto-falante, fazendo-o estremecer.
— Tenente
Gucky, aqui fala o controle de vôo espacial de Vênus. Prossiga sua
viagem normal e disciplinadamente, do contrário estaremos obrigados
a interceptar seu vôo para Vagabundo. Aguardamos sua resposta,
tenente.
— Com
quem tenho o prazer de conversar? — redargüiu o rato-castor com
toda frieza.
Lembrara-se
imediatamente que era obrigação do operador do controle de vôo de
Vênus identificar-se com nome e grau de hierarquia.
— Major
Eltzahn, Tenente Gucky.
— Certo,
major, meu SJ-09 está em rota de ascensão. Mas de qualquer maneira,
vou-lhe fazer este favor.
Observações
deste tipo eram uma coisa que somente Gucky se atrevia a fazer, e o
próprio Major Eltzahn, não obstante toda sua sisudez, teve que
aceitá-las.
“Que
diabo”,
pensou ele depois de ter desligado, “não
devia ter tratado o rapaz tão secamente assim, pois quando ele me
faz um favor, o envergonhado sou eu.”
Com seu
glorioso brinquedo, Gucky estava fazendo sensacionais acrobacias. Há
muito o SJ-09 estava em curso de ascensão. Os envoltórios de
proteção da nave quase não encontravam mais a resistência do ar e
a aceleração subia sempre. Já estava chegando a hora em que Gucky
devia ligar o piloto automático, deixando então a nave entregue ao
vôo programado pela positrônica de bordo. Não houve protestos por
parte de Gucky, quando Rhodan lhe explicara:
— Faltam-lhe
as experiências necessárias para realizar os cálculos exatos para
a transição. Vou pois deixar o computador já programado com todos
os dados para que você, a oito milhões de quilômetros antes de
Vagabundo, saia do hiperespaço. O pulo do gato você vai fazer então
com a pata esquerda.
A última
frase estimulou o orgulho de Gucky. Oito milhões de quilômetros em
relação aos 2.438 anos-luz de distância do planeta eram de fato um
pulo de gato. E fazer aterrissar um Space-Jet, que não era outra
coisa senão um tipo de gazela melhorada, tornava-se tão fácil que
qualquer cadete da Frota Solar, depois das dez primeiras horas de
vôo, o conseguiria realizar.
Dirigir
carro na Terra era muito mais difícil e perigoso.
Gucky
engrenou a chave geral do sincronizador. Era a única coisa que tinha
a fazer. A partir daí, o vôo do SJ-09 estava nas mãos da
positrônica de bordo.
A primeira
transição se realizou logo após a órbita de Plutão. E a 1.365
anos-luz da Terra, o Space-Jet se rematerializou no espaço normal.
Trinta minutos depois se deu a segunda transição ou hipersalto.
Gucky
continuava afivelado à sua poltrona. Tinha-se esquecido de tudo e
não conseguia mais nem pensar.
— Estou
ficando louco — disse espantado e olhando para a tela panorâmica.
— Saí completamente errado — com isso estava se referindo à sua
última volta ao contínuo normal de tempo-espaço. — Não são
oito milhões de quilômetros até Vagabundo, são cem milhões. Ah!
Malandro do gorducho. Como é doce a vingança... você vai me pagar
bem caro. Malandragem, me obrigar a voar estes cem milhões de
quilômetros com velocidade inferior à da luz.
Na
realidade, as ameaças de Gucky não eram tão sérias assim. Seu
coração começou de repente a pulsar de alegria. Aquele pontinho de
coloração avermelhada era seu planeta-pátria e o olho de um
vermelho-escuro no fundo era o sol moribundo, o único numa extensão
de muitas centenas de anos-luz. Possuía apenas um planeta pequeno e
gelado.
O ruído
típico da queda de uma tira perfurada, que cai do computador, fê-lo
olhar para trás e apanhar a folha de papel.
— O quê?
Um grande
susto o obrigou a soltar esta expressão de interrogação. O planeta
Vagabundo tinha alterado sua órbita em oitenta milhões de
quilômetros. Desta maneira ele se aproximaria do sol, seria atraído
e...
A
temperatura na superfície de Vagabundo estaria oscilando entre 45 e
57 graus Celsius.
O tempo de
rotação diminuíra de 18,8 horas para 16,1 horas.
“Este
calor, este calor”,
pensava Gucky horrorizado.
O
rato-castor, de ordinário tão calmo que nada o arrancava de seu
sossego, perdeu neste momento toda noção do que tinha ou não tinha
de fazer, em determinadas circunstâncias.
Não ia
poder aterrissar em Vagabundo e tinha que enviar um hiper-rádio para
Rhodan. Sabia, aliás, que nos últimos dias haviam surgido em
Vagabundo coisas muito estranhas, ainda não esclarecidas.
Gucky
assim teria agido, se seus dons telepáticos não captassem no
momento o desespero, o medo, a miséria e a morte lá reinantes.
Aqueles seres, de cuja raça ele descendia, expandiam por via
telepática a situação de desespero das profundezas de Vagabundo
para o espaço afora.
Imediatamente
desligou o piloto automático, de controle positrônico,
desengrenando o sincronizador.
Não,
nesta hora não lhe passou pela cabeça de repetir aquelas expressões
chulas de Bell, como “calcar
o pull”
e outras. Mas simplesmente ligou o mecanismo de propulsão no máximo.
O gerador
de absorção de compressão já estava zunindo, quando duas sirenes
de alarme começaram a apitar, indicando sobrecarga. Contra todas as
regras do bom senso, Gucky continuou voando.
O SJ-09 se
atirava como um bólide na direção de Vagabundo.
Salvar,
salvar, salvar. Era o único pensamento que achava acolhida na cabeça
de Gucky.
— Tenho
que salvá-los do calor destruidor, sou responsável por eles. E quem
é que está destruindo minha pátria? Os druufs, os saltadores ou os
aras? Oh, Perry, você tem de me ajudar a castigar estes malandros e
assassinos.
Mas não
teve a idéia de passar um Telecom a seu amigo, expondo-lhe a
situação. Houve um verdadeiro curto-circuito em suas faculdades
mentais.
Disparava
seu Space-Jet, exigindo o máximo dos motores, na direção do
planeta, cuja órbita se tornara menor. A aceleração do SJ-09
atingiu os valores máximos. As sirenes de alarma continuavam
sibilando, sem que Gucky percebesse o que isto representava para a
segurança. Luzes vermelhas se acendiam em todos os painéis,
inutilmente. Dois relês já estavam queimados. Foram substituídos
imediatamente pelos dois reservas, mas quando estes também
queimassem, não haveria mais jeito.
Deixou que
as sirenes gritassem, que o conjunto de propulsão trabalhasse com os
ponteiros constantemente no vermelho. Só via uma coisa: chegar o
mais depressa a Vagabundo, ainda com a luz do dia.
“Este
calor desgraçado!”,
pensava desesperado.
Em lugar
de 8 graus menos, 45 até 57 graus positivos. Era uma temperatura de
inferno para os de sua raça.
Gucky
voava apenas com o auxílio da tela panorâmica. Estava fazendo tudo
errado. Já poderia ter iniciado a aterrissagem, se tivesse pedido ao
computador os dados para uma transição curta.
— Neste
calor estão morrendo milhares deles. Meu Deus, quem provocou tudo
isto?
Fazia todo
esforço para entrar em contato telepático com um deles, mas nada
conseguiu. E isto o deixava cada vez mais atordoado. Mesmo sem a
transição, a velocidade era tanta que o pontinho avermelhado do
planeta Vagabundo já tomava a forma de pequeno disco. Numa ira
inútil, quase inconsciente, olhava estarrecido para a tela.
“Tenho
trinta uniformes a bordo”,
foi o pensamento que lhe veio no momento. “Por
que mandei fazer tantos assim? Por que foi que demorei tanto a
perceber esta saudade?”
E, num piscar de olho, todos estes pensamentos desapareceram.
Distância
— 28 milhões de quilômetros.
Velocidade
— 185 mil metros por segundo.
O pequeno
disco começou a crescer, como um balão de soprar. As sirenes davam
o alarma de colisão.
Será que
Gucky está voltando a si?
Mais duas
sirenes entraram no coro do alarme urgentíssimo; o último
dispositivo automático teve de entrar em atividade para evitar uma
colisão com o solo do planeta. A compressão era enorme, mas ainda
eliminada pelos dispositivos de absorção. A velocidade foi dominada
pelo mecanismo automático que agora tomou o controle da rota. A sete
mil e quinhentos quilômetros do planeta, o SJ-09 passou a grande
velocidade. Gucky viu seu planeta pátrio passar a bombordo.
E o toque
das sirenes... para que seria?
Quando
percebeu, substituiu a última ligação automática por outra feita
ao acaso, também contra as determinações de vôo.
— Para
baixo com o Space-Jet!
A nave
achatada obedeceu ao comando e Vagabundo apareceu de novo na tela
panorâmica, no lugar de sempre, na mesma direção.
Gucky
parecia fora de si, horrorizado e zangado, captando as transmissões
telepáticas, que exprimiam a miséria e a destruição do seu mundo
de origem. Achava-se num estado de prostração quase hipnótica.
Vagabundo
já estava bem maior.
— Para
baixo com o Space-Jet! Penetrar em sua atmosfera!
As
primeiras camadas de ar começaram a se fazer sentir no envoltório
de proteção do SJ-09. Da fricção surgiu um sibilar agudo, um
bramido, terminando num ronco cavernoso. Parecia que o solo vinha de
encontro a Gucky.
Gucky
chegava a Vagabundo para fazer sua apresentação. Mas foi uma
apresentação catastrófica. Primeiro o chão... o impacto, o
estrondo, a areia incandescente, areia projetada por um furacão de
calor. Um Space-Jet, enterrado até a metade no solo abrasador,
destruído, encalhado, um monte de ferro velho, não mais um
orgulhoso SJ-09. Preso ao cinturão, com a cabeça de rato caída no
peito, Gucky continuava inconsciente na poltrona do piloto, ajeitada
especialmente para ele. Não ouvia nada do furacão que zunia em
torno do seu SJ-09, nem sentia a onda de calor que penetrava na nave
destruída!
O calor e
a areia incandescente...
5
Na mesma
hora em que Gucky fazia sua aterrissagem desastrosa em Vagabundo, o
Dr. Innogow comparecia ao escritório de Rhodan. Não estava levando
nenhum documento. Mas que sua visita era para assunto muito sério,
podia-se ver no seu rosto. Foi-lhe um tanto difícil começar a
falar.
— Sir...
— seguiu-se uma respiração profunda. — O senhor se lembra ainda
daquela pedrinha de material fosforescente que Walter Grimpel trouxe
de Vagabundo, não é? No primeiro instante, não nos foi possível
analisá-la...
— Mas
agora já está analisada, não é, Innogow?
Tomado de
um súbito entusiasmo, Rhodan se levantou e, com toda atenção,
encarou o cientista.
Este
meneou a cabeça, um pouco deprimido.
— Analisado,
sir, não é bem o termo, mas de qualquer maneira dei com um fenômeno
misterioso. A confusão de amplitudes no oscilógrafo do rastreador
não me deixou sossegado. Entretanto, apesar de grande esforço,
permaneço na mesma. Anteontem, estava estudando uma questão no
Instituto de Psicologia. Entre outros assuntos, fizemos lá algumas
fotografias dos cérebros dos mutantes telepáticos. Felizmente, ou
infelizmente, não posso dizer ainda, medimos também o dispêndio de
energia telepática e tentamos visualizar o tipo de ondas, a fim de
guardá-las para futuras pesquisas. Mostraram-me duas fotos
especialmente boas. Tenho de confessar que não me entusiasmei muito
com elas.
“Mas
esta noite, sir, pedi que me trouxessem uma cópia destas duas
chapas.”
O
cientista parou por um momento, como se estivesse muito cansado.
— Sir, o
pedacinho de material do planeta Vagabundo contém uma parcela de
energia orgânica.
— Doutor
Innogow, tenha a bondade de repetir o que disse — solicitou Rhodan.
— Com
prazer. Este material de Vagabundo, de um aço azulado e
fosforescente, é em parte uma energia orgânica; é, numa forma
concentrada, a mesma coisa que nossos telepatas irradiam, quando
atuam com suas forças parapsicológicas.
— E o
senhor descobriu isto, quando fez a comparação das amplitudes de um
telepata em atividade com as amplitudes registradas em Vagabundo pelo
radiotelegrafista Macintosh e por Walter Grimpel?
O Doutor
Innogow não se sentiu bem com esta pergunta direta.
— Sir,
minha descoberta é, em grande parte ainda, uma hipótese. Antes de
mais nada, eu mesmo tenho que estudar muito ainda sobre este conceito
“energia
orgânica”.
Deu um
sorriso.
— É bom
que nós, pesquisadores, levemos de vez em quando uma sacudidela
deste tipo, para nos lembrarmos de que ainda sabemos muito pouco... E
hoje, nesta hora, meu conhecimento sobre a matéria parece menor que
antes. Cada vez mais, a tal pedra torna-se misteriosa e complicada. E
esta complicação chegou ao estágio da combinação do orgânico
com a energia produzida artificialmente... Por mais de uma vez, nas
primeiras horas deste dia, nas experiências que fiz para analisar
este material, descobri vestígios de um metal que não existe, sir,
nem entre nós, nem entre os arcônidas.
— O que
o senhor entende por “energia
orgânica”,
Innogow?
O
cientista olhou para Rhodan meio desanimado.
— Só
lhe posso dar uma definição não científica. Eu distingo, e isto
somente para não perder este capinzinho seco que ainda me serve de
apoio para não me afogar no emaranhado confuso dos mistérios da
matéria... eu distingo entre energia natural e energia orgânica.
Deve-se deixar em suspenso o que seja energia natural, mas energia
orgânica é aquela energia que um organismo vivo produz. Mas no caso
presente, as coisas se complicam, porque esta energia orgânica se
acha concretizada numa forma fixa, sir, não em matéria. O que
Grimpel trouxe de Vagabundo contém areia e vestígios de metal, mas
nenhuma matéria.
“Sir,
como cientista, nunca me senti tão desprotegido assim, como agora. E
embora possa correr o risco de passar por um eterno vexame e de botar
em xeque meu nome de cientista, com o que vou dizer agora, não posso
deixar de declarar: o que Grimpel trouxe, conforme minha opinião, é
uma matéria orgânica adormecida, ou seja, latente.”
O
cientista não sabia como estava realmente perto da verdade, pois não
podia prever a existência dos Ogros, aquele produto híbrido
técnico-orgânico do mundo de uma desconhecida raça de monstros.
Muito
menos podia prever que existiam monstros que, após a erupção
energética em Vagabundo, voltaram outra vez, não apenas para
despertar esta energia adormecida, por meio de sua técnica, mas para
aplicá-la e aplicá-la... para a destruição.
— Doutor
Innogow — pediu Rhodan — por favor, continue com seus trabalhos.
Quero lhe declarar expressamente que, perante mim e perante todos os
responsáveis pela segurança do Império Solar, sua reputação de
cientista não está em jogo. Pelo contrário: nós lhe agradecemos
por sua coragem. Ponha-nos sempre a par de suas pesquisas.
Rhodan
pôde observar como o cientista deixou seu escritório muito mais
seguro de si mesmo, do que quando entrou há meia hora atrás.
Quase em
seguida, Rhodan ligou para a grande estação de rastreamento
estrutural de Terrânia. O contato com Walter Grimpel foi rápido. A
tela de Rhodan mostrou o rosto espantado do diretor.
— Grimpel,
você já tem informações se a segunda transição de Gucky foi
rastreada?
— Perfeitamente,
senhor. Ambas as transições ocorreram normalmente. O rato-castor já
deve estar em Vagabundo descansando. Mas, até agora não recebemos
ainda seu telecom.
Perry
Rhodan sorriu. Lembrou-se das brincadeiras todas que Gucky pretendia
fazer quando de sua chegada ao planeta. Era natural que todo seu
tempo fosse para brincar com seus irmãos de raça, não sobrando,
pelo menos nas primeiras horas, nada para um hiper-rádio para a
Terra.
— Ele
não tardará a se comunicar — disse Rhodan, interrompendo de
repente a frase, pois neste momento lhe passara pela cabeça um mau
pressentimento.
Depois
continuou:
— O
motivo porque o chamei, Grimpel, é para lhe pedir que continue
observando o planeta Vagabundo, até quando tivermos certeza de que
Gucky esteja regressando. Obrigado.
Logo
depois, Grimpel subiu mais um andar, entrou na central de medições,
onde oito homens estavam de serviço.
— Alguma
novidade, meus senhores? Malya, um cingalês, que neste turno de
trabalho era o responsável pela seção, respondeu:
— Não,
senhor Grimpel, com exceção de uma declinação magnética de 2,35
por cento. Vagabundo está com energia demais. Por este motivo já
pedi o auxílio do departamento de astrofísica, mas o pessoal de lá
me tranqüilizou. Esta declinação deve ter sua explicação na
irradiação ainda mantida no espaço, proveniente das últimas
erupções.
Walter
Grimpel deu um sorriso zombeteiro. Afinal de contas, era ele um dos
melhores especialistas em rastreamento energético e era muito
versado em astrofísica.
— Quem
foi que contou isto a você, Malya? — perguntou com ironia.
— Foi o
professor Alskund, do departamento de astrofísica.
— Opa!
Se foi ele quem afirmou, deve ser então sério. Apesar de tudo, não
estou compreendendo uma coisa. Por favor, se o rastreamento de
Vagabundo acusar qualquer coisa estranha, comunique-me imediatamente.
Transmita este recado às outras duas turmas de serviço. Obrigado.
Ao voltar
para seu gabinete de trabalho, Walter Grimpel tomou lugar à mesa,
mas não conseguia tirar da cabeça aquela declinação polar de 2,35
por cento. Ligou o videofone para a central de medições.
— Malya,
você deu ao professor Alskund todos os dados referentes a estes 2,35
por cento positivos?
— Naturalmente,
senhor Grimpel. Tivemos de esperar três horas para que o
departamento de astrofísica nos desse o resultado. O professor
chegou até a consultar o grande computador.
Infelizmente
Walter Grimpel não era nenhum Reginald Bell, para não confiar
totalmente no cérebro eletrônico e sempre se opor aos que
consideravam o computador o non
plus ultra.
Walter
Grimpel se esqueceu dos 2,35 por cento positivos. Mas quando,
terminado o serviço, o carro o levava a seu apartamento,
voltaram-lhe novamente à mente as mesmas preocupações. Mas
conseguiu escapar de tais inquietações. Apoiou-se no fato de que o
professor Alskund, o especialista em astrofísica, estava em
Terrânia.
*
* *
Gucky
jazia completamente abatido na pequena central do seu Space-Jet. As
lágrimas lhe corriam dos olhos. Lágrimas de cólera, lágrimas de
auto-incriminação.
— Sou um
grande bobo — comentava a respeito de si mesmo, falando dentro do
capacete de seu uniforme, onde se refugiara assim que seus
pensamentos ficaram mais claros.
Depois de
alguns momentos reflexivos, pôde compreender que seu planeta pátrio,
com a temperatura média de oito graus Celsius abaixo de zero se
transformara na antecâmara do inferno.
— Meu
belo SJ-09. Minha sucata... e eu... eu piloto brevetado... voei como
um ignorante, um superbobo.
Cambaleou
até sua poltrona, feita especialmente para ele, e ali se encostou.
Lá fora sibilava o furacão do calor, revolvendo a areia do deserto.
O sol, duas vezes maior do que antes, inundava o pequeno planeta com
um calor sufocante e, embora a cabina do SJ-09 fosse de vedação
perfeita, a temperatura já estava a 42 graus.
O ar
refrigerado também não funcionava mais. O Telecom havia emudecido e
o resto do jato era um montão de ferro retorcido. Gucky já havia
inspecionado minuciosamente seu belo SJ-09, reconhecendo claramente
que fizera uma aterrissagem contra toda a regra de bom senso.
E era
exatamente isto que não compreendia. E o pior de tudo: não
conseguia lembrar-se de nada.
Tentou
despertar sua memória. Não deu resultado. Depois da segunda
transição não se lembrava mais de nada. A partir de um certo
momento, havia na sua mente um vácuo e não podia saber o que fez, o
que pensou e o que sentiu neste espaço de tempo.
A
temperatura em seu uniforme espacial era de 18 graus, mas na central,
em menos de 10 minutos, passara de 42 para 43 graus.
De repente
sobressaltou-se.
Ouviu
gritos de socorro por via telepática. Mas agora não o deixavam mais
com aquele torpor hipnótico. Conseguiu determinar a direção de
onde vinham. Concentrou-se e, quase no mesmo instante, desapareceu
num salto de teleportação. Rematerializou-se em plena escuridão.
Quase que
de um momento para outro, veio-lhe a consciência de que era um
tenente do Corpo de Mutantes do Império Solar e tinha que se portar
como tal. O farolete de seu uniforme espacial se acendeu e, na ampla
faixa de luz, viu o que há mais de setenta anos não via: uma
galeria de tocas dos ratos-castores.
Estava
portanto em casa!
Estava na
toca e numa toca daquelas foi que ele nascera, convivera com seus
pais e irmãos, comera, dormira e... brincara.
Mas, da
extremidade interna daquelas tocas, provavelmente não muito
profundas, vinham gritos de socorro telepáticos de seus irmãos de
raça. Andou o mais rápido que podia. O farolete lhe mostrava o
caminho em declive. Os gritos de socorro continuavam martirizando seu
coração bondoso.
“Que
aconteceu com minha terra natal? Por que razão estão se abrigando a
estas profundidades?’’
Ficou
hesitante por uns segundos. Depois, resolveu teleportar-se, para
vencer mais rápido um trecho longo, terminando numa toca.
Gritos e
sussurros o receberam, quando um pequeno a luz do farolete iluminou
grupo de ratos-castores.
“Meu
Deus”,
pensava Gucky horrorizado, “são
todos filhotes! Onde estão seus pais?”
Ofuscados
pela luz, os ratos-castores de pouco mais de meio metro fecharam os
olhos, para juntos irromperem num choro que tocaria o coração de
qualquer um. Gucky tentou ler-lhes os pensamentos, mas só o
conseguiu apenas com alguns. A maior parte deles — eram uns quinze
— não passava de filhotinhos, cujos dons parapsicológicos pouco
evoluídos ainda não iam além das necessidades mais ou menos
instintivas: comer, beber, dormir e carência do aconchego materno.
Não
tentou falar diretamente com nenhum deles. A telepatia já era
suficiente para lhe dar um grande alívio, podendo se comunicar. Mas
foi aí que Gucky teve a primeira grande decepção. Nenhum daqueles
animais de pouca idade era capaz de se concentrar para manter um
contato com o recém-chegado, que com isto ficava cada vez mais
desanimado.
Medo,
terror, fome e sede ocupavam totalmente os pensamentos dos infelizes
filhotes, encurralados naquela toca escura. Água e alimentos tinham
de ser encontrados para eles. E Gucky não hesitou um segundo.
Teleportou-se de volta para os escombros do SJ-09. Constatou
horrorizado que o congelador não estava mais funcionando. O
termômetro indicava nove graus positivos. Com nove graus ainda não
dava para estragar nada.
Gucky
abriu a porta das câmara frigorífica, saltou para dentro e a
fechou.
— Alimentação
infantil... Santa Via Láctea! Isso eu não estudei com Rhodan na
Academia Espacial! Que será que os filhotinhos poderão ou não
comer?
Gucky
começou a esvaziar o estoque de leite condensado, pegou quatro
caixas de cenouras muito especiais, encheu uma lata de 50 litros com
água. A seguir, arrumou tudo e saltou.
A toca com
os filhotes abandonados jazia a oitocentos metros de profundidade.
Gemeram assustados, quando Gucky rematerializou-se diante deles com
sua carga e a luz forte do farolete. Virou para trás o capacete do
uniforme, achou que o ar da caverna era bem respirável e pela
primeira vez os filhotes ouviram sua voz. Falou-lhes em sua língua
materna, num tom que todos, filhotes e mais crescidos, pudessem
entender, como se estivesse conversando na Terra com crianças de
seis anos.
Quanto
mais falava, mais calmos ficavam os animais. Tirou seu uniforme
espacial e, com o coração pulsando de emoção, pegou o primeiro
filhote e o acariciou. Lágrimas lhe correram dos olhos, quando as
patinhas do animal se agarraram em seu pêlo e sua cabeça se
encostou nele. O pequeno rato-castor, de um momento para o outro,
adormeceu, apesar da sede e da fome.
“O
que vou fazer agora?”,
perguntou ele, desanimado e triste.
Completamente
sem jeito, encontrava-se no meio dos animaizinhos que não paravam de
choramingar, segurando nos braços o filhotinho adormecido, sem
coragem de se mover.
— Coitadinho
— dizia ele — dorme tranqüilo, que Gucky não vai abandonar
você.
*
* *
Ao
consultar o relógio pela primeira vez, Gucky percebeu espantado que
levara sete horas para cuidar daquele grupo de animais. Entrementes,
ouvira outros gritos de socorro, por via telepática. Vinham ou da
região do pólo norte ou do pólo sul, onde, há setenta anos atrás,
nenhum grupo de ratos-castores residia. Seus impulsos telepáticos
para localizar mais irmãos de raça na zona equatorial, foram
infrutíferos. Ficaram sem resposta.
Cada vez
mais se convencia de que, em todo o planeta, não viviam mais do que
duas ou três centenas de irmãos seus. Os demais, principalmente os
adultos, deviam estar mortos.
Vestiu de
novo o traje espacial, deixou ali um farolete, com pilha nova. Um bom
raio de luz iluminava o local onde estava a água e a caixa com
comestíveis. Em contraste com as crianças da Terra, os filhotes, já
logo depois de nascidos, estavam em condições de se alimentar
sozinhos.
— Eu
volto logo — disse para tranqüilizá-los, antes de desaparecer.
Saltou
para o Space-Jet. A temperatura na cabina tinha subido para 47 graus.
“Tenho
que me comunicar com Perry Rhodan”,
pensava ele.
O fato de
o Telecom do seu SJ-09 não funcionar mais, não o preocupava muito.
Com uma série de minicomunicadores ligados entre si, haveria de
atingir por hiper-rádio a grande estação de Terrânia. E estes
minicomunicadores, ele os tinha facilmente, abrindo uns dez uniformes
espaciais.
Correu
para o armário do depósito e seus olhos brilharam de alegria ao
ver, através do vidro da viseira, os trinta uniformes, um ao lado do
outro, pendurados com todo capricho. Usando seus dons telecinéticos,
tirou o primeiro do cabide, abriu e... ficou estarrecido!
Depois de
ter aberto o décimo deles, começou a tremer de fúria.
— Estes
bandidos... estes bandidos! — repetia transtornado. — Meus Deus,
como é que poderei entrar em contato com Rhodan ou com uma de suas
espaçonaves? Não pretendo ficar apenas olhando a destruição
destes coitados.
Nos trinta
trajes espaciais não havia nenhum minicomunicador. E seu Space-Jet
não passava de um montão de destroços. E a cada rotação, o
planeta Vagabundo se aproximava um pouco mais do sol inclemente e
mortífero.
Nas fundas
tocas de Vagabundo, os ratos-castores estavam ocultando seus próprios
filhotes, na ânsia desesperada de salvá-los do extermínio. Muitos
deles já tinham morrido, tentando salvar os filhotes.
Para o
terrano que se esquecera de colocar no uniforme espacial o
minicomunicador — relaxamento imperdoável — Gucky não podia ter
mais do que desprezo. Não o odiava, nem o fazia responsável pela
destruição da raça dos ratos-castores. Não, Gucky achava que o
maior culpado era ele mesmo. Seu Space-Jet era um montão de
escombros, por sua culpa. Com aquela aterrissagem maluca, cortara
toda possibilidade de um retorno e, assim, assinara a sentença de
morte para ele e seus poucos irmãos de raça.
Perdeu
toda esperança de entrar em contato com alguma espaçonave terrana
por meio do minicomunicador. O pequeno aparelho era para pequena
distância e sua transmissão não penetrava quase nada no
hiperespaço. Mas nem por isto um tenente do Corpo de Mutantes iria
ficar ali, apenas lamentando a sorte.
Gucky
ligou seu minicomunicador, deu os sinais convencionais de alarme,
acrescentando nome e localização. Repetiu tudo umas vinte vezes.
Depois passou para a escuta.
Do
alto-falante só se ouvia um quase imperceptível ciciar do Universo,
mas nenhuma resposta ao seu pedido de socorro.
*
* *
Descobrira
até então oito grupos de ratos-castores entocados nas mais
profundas cavernas do planeta e a todos atendera com água e
alimentos, na medida do possível. É claro que sabia que o estoque
não era infinito. Cenoura, não havia mais nenhuma. Leite condensado
começou a faltar desde o dia anterior. Quanto à água potável,
restava-lhe um recipiente com 1.120 litros.
Mal Gucky
acabara de fazer o balanço do que ainda dispunha na despensa do
SJ-09, e ia voltando para a cabina de comando, quando recebeu um
forte impulso telepático.
“Até
que enfim, um rato-castor adulto!”,
pensou.
— Já
vou — respondeu Gucky. — Vou levar de comer e de beber para você.
Qual é seu nome? Eu me chamo Gucky... Ah!... Plofre fre dag ga.
O final
era intraduzível, mas o interlocutor deve ter entendido muito bem.
Foi com surpresa que Gucky ouviu que o rato-castor não queria nem
água, nem alimento.
— Por
que adiar a morte por mais uns dias, se a muralha negra pode chegar a
qualquer momento?
Embora a
expressão “muralha
negra”
lhe despertasse grande curiosidade, Gucky não perguntou nada.
— Espere
um pouco que já vou logo. Voltou para a câmara frigorífica, que, a
esta altura, não tinha mais nada de gelo, encheu um cantil com água
fresca, pegou um pacote de alimentos. Tirou do armário um dos trinta
uniformes espaciais, após o que desapareceu no ar.
A 1.700
quilômetros ao norte do equador, quatro dias após sua desastrosa
aterrissagem em Vagabundo, encontrava o primeiro rato-castor adulto.
O termômetro externo lhe indicava um calor estúpido de 61 graus. Do
desesperado rato-castor, nenhum vestígio.
— Aqui!
— ouviu Gucky depois de um longo chamado telepático.
Mas este
“aqui”
chegou-lhe tão fraco, que não conseguiu saber de onde vinha.
— Apresente-se
com um pouco mais de força, para eu perceber a direção — emitiu
Gucky.
Não se
conseguia ver nada além de três metros. Em volta de todo o planeta,
rugia constantemente um furacão de areia que esquentava ainda mais o
ar já escaldante.
Das
profundidades de uma antiga caverna outrora habitada, que não tinha
mais de 50 metros, veio um impulso mental.
Gucky
saltou. Quando seu farolete acendeu, viu-se diante de um rato-castor
adulto, cuja morte por asfixia parecia próxima. Já há muito tempo
que Gucky achava-se novamente possuído daquele frio autodomínio,
digamos sangue-frio, característico de Rhodan e de todos que com ele
trabalhavam. Pegou o traje espacial que trouxera e obrigou o coitado
a vesti-lo, atarraxando-lhe o capacete. Só então foi que cuidou do
medidor de pressão.
O
instrumento mostrava com toda clareza que o planeta Vagabundo estava
começando a perder sua camada de ar. Para Gucky, isto era um sinal
evidente de que sua terra natal estava com as horas contadas e de que
a força de atração do sol já estava com suas garras para sugar
toda a atmosfera de Vagabundo. Ou talvez...
Gucky
começou a refletir.
Ou talvez,
Vagabundo aumentaria de tal forma a velocidade de sua rotação,
atingindo assim um ponto em que a camada de ar seria tocada para o
espaço afora. Viria, depois disso, um tremor de terra no planeta que
abalaria ainda mais a estrutura do pequeno sistema solar, acabando
por destruí-lo.
Sob a
proteção do traje espacial e devido à temperatura mais agradável
dentro dele — dezoito graus positivos — o esgotado animal se
recuperou rapidamente. Curioso, olhava para Gucky. Mas sua apatia
ainda era muito grande. Não perguntou quem era seu salvador, nem
quem lhe dera aquele uniforme. Também não perguntou nada sobre a
luz forte do capacete de Gucky.
Em
compensação, a atividade de Gucky reduplicava. Tinha ouvido
mencionar uma “muralha
negra”.
Não podia se comparar com seus irmãos de raça. Apesar de ser um
rato-castor como eles, sabia que sete decênios de vida na Terra o
transformaram num terrano. Só com muito esforço estava em condições
de compreender os pensamentos de seu semelhante, a quem faltava
qualquer conceito de técnica.
“Sede,
sede!”,
era o que diziam seus pensamentos.
— Quem...
é você?
— Gucky,
e você?
— Bikre...
água!
Gucky
reparou no manômetro do aparelho de pressão. Fez um gesto de
contentamento. Podia retirar por uns instantes o capacete do
convalescente, para lhe dar de beber, pois, apesar da rarefação do
ar, não havia perigo de asfixia.
— Chega!
— disse Gucky telepaticamente, quando o ponteiro do cantil indicava
que o rato-castor bebera um litro de água. — E agora, Bikre,
explique-me o que vem a ser a muralha negra.
Começou
“falando”
da muralha negra e dos muitos que desapareceram dentro dela. E sem
maior nexo, começou a falar de repente de uma sombra escura que
avançava rapidamente.
— Como?
Sombra escura avançando rapidamente? Bikre, como era ela?
Gucky
sobressaltou-se. Lembrou-se, com toda nitidez, de como ele, seus
irmãos e irmãs, seus pais e todos que pertenciam à família
chamavam, há setenta e tantos anos atrás, a Stardust II, quando
aterrissara em Vagabundo: “sombra
escura que avançava com rapidez”.
Fez com
que Bikre descrevesse a forma da espaçonave.
Da figura
que ele traçou, com duas dimensões, Gucky não pôde deduzir muita
coisa.
— Tente
lembrar-se de como era esta sombra escura que avançava com
rapidez... como você a viu, Bikre?
No mesmo
instante, Gucky começou a ouvir.
— Tinham
a forma de gota d’água. Dois corpos ligados entre si.
Marrom-escuro, quase preto.
— E o
que foi que estas estranhas naves descarregaram? Procure pensar de
novo, Bikre, esta nave grande, dupla...
Gucky
ainda reforçou sua ordem telepática com uma carga hipnótica.
“Isto
parece com um enorme guindaste”,
constatou Gucky, através os pensamentos irradiados pelo outro
rato-castor. “Cem
metros de comprimento! Mas o que que está pensando agora? Que este
imenso guindaste foi afundado no solo e só um pedacinho dele ficou
para fora? E de repente veio disparada esta muralha negra, mas Bikre
teleportou-se ainda a tempo. Depois, quando ele teve coragem de
voltar, em torno do guindaste afundado na areia não havia mais
nenhum rato-castor.”
Gucky
tentou fazer as vezes de um grande centro de computação:
“...Espaçonaves estranhas, de duas fuselagens... construções
semelhantes a guindastes verticais... afundamento no solo... e agora
a distância entre Vagabundo e seu sol já não é a mesma...”
Aproximou-se
de Bikre:
— Você
pode me mostrar o lugar onde esta coluna enorme foi afundada no solo?
Antes de
se teleportarem, Bikre teve que beber mais um pouco d’água e tomar
umas drágeas do alimento concentrado.
Rematerializaram-se
no centro de um remoinho de areia escaldante.
— Foz
por aqui que enterraram a grande coluna de metal — emitiu Bikre.
Depois de
três pequenos saltos de teleportação, Gucky estava diante de uma
construção escura com alguma aparência de coluna ou guindaste
vertical, talvez com mais de um metro de diâmetro em seu centro.
Devido à tempestade de areia, achava-se com uns dez metros para fora
do solo.
“Antenas”,
pensou Gucky. “Mas
para haver uma antena, tem de haver também uma fonte de energia.”
A fim de
coordenar melhor os pensamentos, precisava de um lugar mais calmo.
No próximo
segundo, Bikre, assustado, se viu na cabina de comando do SJ-09.
— Sente
ali e não me atrapalhe. Tenho uma coisa importante afazer.
Quem
estava ordenando agora era o Tenente Gucky, do Exército de Mutantes.

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