domingo, 28 de agosto de 2016

P-098 - Forças Desencadeadas - Kurt Brand [Parte 2]

Que vão dizer os outros do Corpo de Mutantes, quando souberem de minhas férias de um mês?
Nada — respondeu Rhodan. — Porque os outros tiram suas férias normalmente, enquanto você... você já está há mais de setenta anos conosco e afastado de sua terra pátria. Se fôssemos seguir as palavras da lei, Gucky, você teria direito a três ou quatro anos de férias, que você nunca gozou. Teria até direito a...
Ah! Isso não, Perry! — interrompeu-o Gucky assustado. — Ou você quer se ver livre de mim, ou quer que eu morra saturado de não fazer nada? Dê estas férias a que tenho ou teria direito, então, ao gorducho. Ele adora ficar sem fazer nada.
Apesar de ordem expressa, seu malandro, você está lendo de novo meus pensamentos? Não adianta nada a proibição, hein? — disse Bell, um tanto irritado.
Não estou indo contra a proibição, de modo algum. Não há necessidade de ler seus pensamentos, quando você, em suas fantasias preguiçosas, fala constantemente deles.
Eu lhe vou ensinar logo o que são fantasias preguiçosas, seu comedor de cenoura!... Perry, você vai prestar o maior favor a todo o sistema solar quando, durante um mês inteiro, nos livrar deste... deste...
Chefe, ele quer me chamar de animal porco, mas não se atreve a fazê-lo na sua presença.
Sem-vergonha! — exclamou Bell, querendo pegar Gucky, mas suas mãos encontraram só o ar tremeluzente, pois Gucky se havia teleportado, isto é, se afastou num grande salto.
Bell deu uma enorme gargalhada.
Este malandro! Mas como estou contente por ele estar de novo cem por cento. O fato de ele ter saudade é muito natural e mesmo muito sadio. As férias, ele já as mereceu mil vezes. Perry, você concorda com que eu me preocupe com a adaptação de um Space-Jet?

* * *

Na tarde do dia 4 de janeiro de 2.045, chegou à seção de confecção de uniformes espaciais sob medida uma encomenda de trinta peças. O pedido tinha a assinatura do Tenente Gucky.
A referida seção não estava muito contente com a encomenda, pois Gucky exigia que os trinta uniformes fossem entregues ainda no mesmo dia. Mas o diretor da seção de confecção não teve coragem de apresentar reclamação a Perry Rhodan. Porém levou seus protestos para Reginald Bell, que, conforme os boatos, devia estar constantemente em briga com o arrogante rato-castor.
O que é que o preocupa? — perguntou Bell amavelmente, assim que o diretor da seção acabou de se apresentar.
Começou a falar, mas não foi muito longe com sua reclamação.
Que ousadia a sua! — gritou Bell furioso no microfone do videofone, vendo na tela como o pobre homem estremecia todo. — O quê que o senhor está pensando? Quando um tenente do Corpo de Mutantes requisita com urgência a confecção de qualquer coisa, o senhor tem de entregar a encomenda. E agora, por favor, não me aborreça mais.
Desligou exacerbado, para depois cocar a cabeça e dizer:
Que será que Gucky vai fazer com trinta uniformes espaciais? Três uniformes de reserva, ainda vai, mas trinta? E será que atrás desta encomenda urgente de Gucky não se esconde uma missão secreta? Mal se recuperou, já quer entrar no fogo. Estou curioso para saber o que vai acontecer com seu vôo solitário para o pequeno planeta.

* * *

Às quatro horas da madrugada seguinte, o Tenente Gucky deu ordem para ser levado ao Space-Jet, o SJ-09, que o conduziria ao planeta Vagabundo em duas transições.
O sol estava se levantando sobre Terrânia. Mas os homens da metrópole ainda dormiam, com exceção dos que tinham trabalho noturno. Era pequeno o movimento no gigantesco espaçoporto. Na pista 56, já estavam ligadas as turbinas de um cruzador pesado. O ronco assustador dos primeiros metros de subida foi desaparecendo aos poucos.
O Space-Jet SJ-09 foi adaptado na véspera por um comando de robôs. A nave em forma de disco com trinta e cinco metros de diâmetro podia agora ser decolada, dirigida e aterrissada apenas por um tripulante.
Gucky se sentia mais ou menos como um imperador da China, ao entrar no seu SJ-09, em direção ã cabina de comando. Em pensamento, já estava vendo seu vôo maravilhoso e sua chegada triunfal ao planeta. Nesta euforia, tomou lugar na poltrona do piloto, confeccionada especialmente para seu pequeno corpo.
Ligou os motores. Seu dente roedor estava permanentemente à vista e, dentro de poucos instantes, seria dono do espaço. As possantes turbinas do jato estavam em aquecimento. A porta se fechou. A ligação com a torre de controle de vôo era feita por fonia. A positrônica de bordo aguardava apenas uma simples ligação para levar o SJ-09, em duas transições, automaticamente para Vagabundo. Mas, antes disso, Gucky queria mostrar que ele pessoalmente era capaz de manobrar um aparelho daquele tipo.
Decolagem às 4:18 h, Tenente Gucky — comunicou-lhe a torre de controle de vôo.
Já eram 4:18 h. O que os velhos pilotos das grandes naves comerciais chamavam de “pull”, usando mesmo a expressão “calcar o pull” para designar acelerar ao máximo, já era um termo conhecido de Gucky, devido às conversas com Reginald Bell.
Calcar o pull — foi a ordem que Gucky deu a si mesmo, exibindo feliz seu dente roedor.
O SJ-09 roncava surdo e a “disparada” começou. Da torre de controle veio um comando, mas Gucky não ouviu, nem queria ouvir.
Subir mais!
A aceleração do jato aumentava, mas Gucky mantinha o aparelho a três metros acima de Terrânia, isto é, do espaçoporto de Terrânia, tendo como alvo a própria torre de comando. Controlava tudo através da tela panorâmica, ampliação 1:1, velocidade, treze segundos após decolagem, 530 km/h.
Quando, perigosamente próximo da torre de controle, deu uma guinada para o alto, já havia quebrado a barreira do som.
Centenas de milhares de terranos pularam da cama esbravejando contra o barulho infernal naquela hora da madrugada. Um desses terranos foi Reginald Bell. Sabia quem era o culpado por isto.
Aqui fala Bell — disse para o controle de vôo. — Este louco foi o nosso Tenente Gucky?
No céu de Terrânia, em espirais executadas numa velocidade incrível, um Space-Jet ganhava altura, naquela madrugada sem nuvens.
O que você disse?
Bell não havia entendido nada da resposta do oficial da torre de controle, devido ao barulho ensurdecedor.
O Tenente Gucky...
O resto desapareceu de novo no barulho que ainda continuava quebrando a calma daquela manhã tão linda e deixando muita gente exasperada.
Telegrafe a ele, proibindo terminantemente esta indisciplina — disse Bell no microfone, esquecendo-se de que ele também, de vez em quando, fazia o mesmo quando tomava a direção de uma espaçonave para uma “aterrissagem catastrófica”, como era sua expressão.
Neste sentido, Gucky era um aluno-modelo, pelo menos no tocante aos maus hábitos de Reginald Bell.
A torre de controle ligou para os aposentos de Bell:
Estamos tentando, há dez minutos, trazer o Tenente Gucky para o bom senso. Mas como resposta, escutamos apenas suas exclamações repetidas: “Calcar o pull, calcar o pull...” Senhor, está se sentindo mal?
Preocupado, o oficial da torre olhava para Bell pelo videofone.
Bell, porém, não se sentia mal; quem se sentia mal era sua consciência. “Calcar o pull”, isto era uma expressão dele, Bell, quando intervinha para realizar uma aterrissagem de emergência.
Não, não estou sentindo nada não, é só o barulho que me escangalha os nervos. Eu lhe agradeço muito — apressou-se Bell em dizer, desligando em seguida.
Gucky era um bom piloto e gostava muito de voar. Por isso fazia estas espirais para ganhar altura. Para ele, era a mesma coisa chegar uma hora mais cedo ou mais tarde. O principal era voar.
Calcar o pull! Bonito, como a “canoa” desliza.
Gucky estava só, mas tagarelava o tempo todo no jargão de Bell. Mas, de repente, chegou à conclusão que não tinha graça nenhuma em repetir aquelas expressões chulas. Não havia ninguém para ouvi-las.
De repente saiu uma voz aguda do alto-falante, fazendo-o estremecer.
Tenente Gucky, aqui fala o controle de vôo espacial de Vênus. Prossiga sua viagem normal e disciplinadamente, do contrário estaremos obrigados a interceptar seu vôo para Vagabundo. Aguardamos sua resposta, tenente.
Com quem tenho o prazer de conversar? — redargüiu o rato-castor com toda frieza.
Lembrara-se imediatamente que era obrigação do operador do controle de vôo de Vênus identificar-se com nome e grau de hierarquia.
Major Eltzahn, Tenente Gucky.
Certo, major, meu SJ-09 está em rota de ascensão. Mas de qualquer maneira, vou-lhe fazer este favor.
Observações deste tipo eram uma coisa que somente Gucky se atrevia a fazer, e o próprio Major Eltzahn, não obstante toda sua sisudez, teve que aceitá-las.
Que diabo”, pensou ele depois de ter desligado, “não devia ter tratado o rapaz tão secamente assim, pois quando ele me faz um favor, o envergonhado sou eu.”
Com seu glorioso brinquedo, Gucky estava fazendo sensacionais acrobacias. Há muito o SJ-09 estava em curso de ascensão. Os envoltórios de proteção da nave quase não encontravam mais a resistência do ar e a aceleração subia sempre. Já estava chegando a hora em que Gucky devia ligar o piloto automático, deixando então a nave entregue ao vôo programado pela positrônica de bordo. Não houve protestos por parte de Gucky, quando Rhodan lhe explicara:
Faltam-lhe as experiências necessárias para realizar os cálculos exatos para a transição. Vou pois deixar o computador já programado com todos os dados para que você, a oito milhões de quilômetros antes de Vagabundo, saia do hiperespaço. O pulo do gato você vai fazer então com a pata esquerda.
A última frase estimulou o orgulho de Gucky. Oito milhões de quilômetros em relação aos 2.438 anos-luz de distância do planeta eram de fato um pulo de gato. E fazer aterrissar um Space-Jet, que não era outra coisa senão um tipo de gazela melhorada, tornava-se tão fácil que qualquer cadete da Frota Solar, depois das dez primeiras horas de vôo, o conseguiria realizar.
Dirigir carro na Terra era muito mais difícil e perigoso.
Gucky engrenou a chave geral do sincronizador. Era a única coisa que tinha a fazer. A partir daí, o vôo do SJ-09 estava nas mãos da positrônica de bordo.
A primeira transição se realizou logo após a órbita de Plutão. E a 1.365 anos-luz da Terra, o Space-Jet se rematerializou no espaço normal. Trinta minutos depois se deu a segunda transição ou hipersalto.
Gucky continuava afivelado à sua poltrona. Tinha-se esquecido de tudo e não conseguia mais nem pensar.
Estou ficando louco — disse espantado e olhando para a tela panorâmica. — Saí completamente errado — com isso estava se referindo à sua última volta ao contínuo normal de tempo-espaço. — Não são oito milhões de quilômetros até Vagabundo, são cem milhões. Ah! Malandro do gorducho. Como é doce a vingança... você vai me pagar bem caro. Malandragem, me obrigar a voar estes cem milhões de quilômetros com velocidade inferior à da luz.
Na realidade, as ameaças de Gucky não eram tão sérias assim. Seu coração começou de repente a pulsar de alegria. Aquele pontinho de coloração avermelhada era seu planeta-pátria e o olho de um vermelho-escuro no fundo era o sol moribundo, o único numa extensão de muitas centenas de anos-luz. Possuía apenas um planeta pequeno e gelado.
O ruído típico da queda de uma tira perfurada, que cai do computador, fê-lo olhar para trás e apanhar a folha de papel.
O quê?
Um grande susto o obrigou a soltar esta expressão de interrogação. O planeta Vagabundo tinha alterado sua órbita em oitenta milhões de quilômetros. Desta maneira ele se aproximaria do sol, seria atraído e...
A temperatura na superfície de Vagabundo estaria oscilando entre 45 e 57 graus Celsius.
O tempo de rotação diminuíra de 18,8 horas para 16,1 horas.
Este calor, este calor”, pensava Gucky horrorizado.
O rato-castor, de ordinário tão calmo que nada o arrancava de seu sossego, perdeu neste momento toda noção do que tinha ou não tinha de fazer, em determinadas circunstâncias.
Não ia poder aterrissar em Vagabundo e tinha que enviar um hiper-rádio para Rhodan. Sabia, aliás, que nos últimos dias haviam surgido em Vagabundo coisas muito estranhas, ainda não esclarecidas.
Gucky assim teria agido, se seus dons telepáticos não captassem no momento o desespero, o medo, a miséria e a morte lá reinantes. Aqueles seres, de cuja raça ele descendia, expandiam por via telepática a situação de desespero das profundezas de Vagabundo para o espaço afora.
Imediatamente desligou o piloto automático, de controle positrônico, desengrenando o sincronizador.
Não, nesta hora não lhe passou pela cabeça de repetir aquelas expressões chulas de Bell, como “calcar o pull” e outras. Mas simplesmente ligou o mecanismo de propulsão no máximo.
O gerador de absorção de compressão já estava zunindo, quando duas sirenes de alarme começaram a apitar, indicando sobrecarga. Contra todas as regras do bom senso, Gucky continuou voando.
O SJ-09 se atirava como um bólide na direção de Vagabundo.
Salvar, salvar, salvar. Era o único pensamento que achava acolhida na cabeça de Gucky.
Tenho que salvá-los do calor destruidor, sou responsável por eles. E quem é que está destruindo minha pátria? Os druufs, os saltadores ou os aras? Oh, Perry, você tem de me ajudar a castigar estes malandros e assassinos.
Mas não teve a idéia de passar um Telecom a seu amigo, expondo-lhe a situação. Houve um verdadeiro curto-circuito em suas faculdades mentais.
Disparava seu Space-Jet, exigindo o máximo dos motores, na direção do planeta, cuja órbita se tornara menor. A aceleração do SJ-09 atingiu os valores máximos. As sirenes de alarma continuavam sibilando, sem que Gucky percebesse o que isto representava para a segurança. Luzes vermelhas se acendiam em todos os painéis, inutilmente. Dois relês já estavam queimados. Foram substituídos imediatamente pelos dois reservas, mas quando estes também queimassem, não haveria mais jeito.
Deixou que as sirenes gritassem, que o conjunto de propulsão trabalhasse com os ponteiros constantemente no vermelho. Só via uma coisa: chegar o mais depressa a Vagabundo, ainda com a luz do dia.
Este calor desgraçado!”, pensava desesperado.
Em lugar de 8 graus menos, 45 até 57 graus positivos. Era uma temperatura de inferno para os de sua raça.
Gucky voava apenas com o auxílio da tela panorâmica. Estava fazendo tudo errado. Já poderia ter iniciado a aterrissagem, se tivesse pedido ao computador os dados para uma transição curta.
Neste calor estão morrendo milhares deles. Meu Deus, quem provocou tudo isto?
Fazia todo esforço para entrar em contato telepático com um deles, mas nada conseguiu. E isto o deixava cada vez mais atordoado. Mesmo sem a transição, a velocidade era tanta que o pontinho avermelhado do planeta Vagabundo já tomava a forma de pequeno disco. Numa ira inútil, quase inconsciente, olhava estarrecido para a tela.
Tenho trinta uniformes a bordo”, foi o pensamento que lhe veio no momento. “Por que mandei fazer tantos assim? Por que foi que demorei tanto a perceber esta saudade?” E, num piscar de olho, todos estes pensamentos desapareceram.
Distância — 28 milhões de quilômetros.
Velocidade — 185 mil metros por segundo.
O pequeno disco começou a crescer, como um balão de soprar. As sirenes davam o alarma de colisão.
Será que Gucky está voltando a si?
Mais duas sirenes entraram no coro do alarme urgentíssimo; o último dispositivo automático teve de entrar em atividade para evitar uma colisão com o solo do planeta. A compressão era enorme, mas ainda eliminada pelos dispositivos de absorção. A velocidade foi dominada pelo mecanismo automático que agora tomou o controle da rota. A sete mil e quinhentos quilômetros do planeta, o SJ-09 passou a grande velocidade. Gucky viu seu planeta pátrio passar a bombordo.
E o toque das sirenes... para que seria?
Quando percebeu, substituiu a última ligação automática por outra feita ao acaso, também contra as determinações de vôo.
Para baixo com o Space-Jet!
A nave achatada obedeceu ao comando e Vagabundo apareceu de novo na tela panorâmica, no lugar de sempre, na mesma direção.
Gucky parecia fora de si, horrorizado e zangado, captando as transmissões telepáticas, que exprimiam a miséria e a destruição do seu mundo de origem. Achava-se num estado de prostração quase hipnótica.
Vagabundo já estava bem maior.
Para baixo com o Space-Jet! Penetrar em sua atmosfera!
As primeiras camadas de ar começaram a se fazer sentir no envoltório de proteção do SJ-09. Da fricção surgiu um sibilar agudo, um bramido, terminando num ronco cavernoso. Parecia que o solo vinha de encontro a Gucky.
Gucky chegava a Vagabundo para fazer sua apresentação. Mas foi uma apresentação catastrófica. Primeiro o chão... o impacto, o estrondo, a areia incandescente, areia projetada por um furacão de calor. Um Space-Jet, enterrado até a metade no solo abrasador, destruído, encalhado, um monte de ferro velho, não mais um orgulhoso SJ-09. Preso ao cinturão, com a cabeça de rato caída no peito, Gucky continuava inconsciente na poltrona do piloto, ajeitada especialmente para ele. Não ouvia nada do furacão que zunia em torno do seu SJ-09, nem sentia a onda de calor que penetrava na nave destruída!
O calor e a areia incandescente...
5



Na mesma hora em que Gucky fazia sua aterrissagem desastrosa em Vagabundo, o Dr. Innogow comparecia ao escritório de Rhodan. Não estava levando nenhum documento. Mas que sua visita era para assunto muito sério, podia-se ver no seu rosto. Foi-lhe um tanto difícil começar a falar.
Sir... — seguiu-se uma respiração profunda. — O senhor se lembra ainda daquela pedrinha de material fosforescente que Walter Grimpel trouxe de Vagabundo, não é? No primeiro instante, não nos foi possível analisá-la...
Mas agora já está analisada, não é, Innogow?
Tomado de um súbito entusiasmo, Rhodan se levantou e, com toda atenção, encarou o cientista.
Este meneou a cabeça, um pouco deprimido.
Analisado, sir, não é bem o termo, mas de qualquer maneira dei com um fenômeno misterioso. A confusão de amplitudes no oscilógrafo do rastreador não me deixou sossegado. Entretanto, apesar de grande esforço, permaneço na mesma. Anteontem, estava estudando uma questão no Instituto de Psicologia. Entre outros assuntos, fizemos lá algumas fotografias dos cérebros dos mutantes telepáticos. Felizmente, ou infelizmente, não posso dizer ainda, medimos também o dispêndio de energia telepática e tentamos visualizar o tipo de ondas, a fim de guardá-las para futuras pesquisas. Mostraram-me duas fotos especialmente boas. Tenho de confessar que não me entusiasmei muito com elas.
Mas esta noite, sir, pedi que me trouxessem uma cópia destas duas chapas.”
O cientista parou por um momento, como se estivesse muito cansado.
Sir, o pedacinho de material do planeta Vagabundo contém uma parcela de energia orgânica.
Doutor Innogow, tenha a bondade de repetir o que disse — solicitou Rhodan.
Com prazer. Este material de Vagabundo, de um aço azulado e fosforescente, é em parte uma energia orgânica; é, numa forma concentrada, a mesma coisa que nossos telepatas irradiam, quando atuam com suas forças parapsicológicas.
E o senhor descobriu isto, quando fez a comparação das amplitudes de um telepata em atividade com as amplitudes registradas em Vagabundo pelo radiotelegrafista Macintosh e por Walter Grimpel?
O Doutor Innogow não se sentiu bem com esta pergunta direta.
Sir, minha descoberta é, em grande parte ainda, uma hipótese. Antes de mais nada, eu mesmo tenho que estudar muito ainda sobre este conceito “energia orgânica”.
Deu um sorriso.
É bom que nós, pesquisadores, levemos de vez em quando uma sacudidela deste tipo, para nos lembrarmos de que ainda sabemos muito pouco... E hoje, nesta hora, meu conhecimento sobre a matéria parece menor que antes. Cada vez mais, a tal pedra torna-se misteriosa e complicada. E esta complicação chegou ao estágio da combinação do orgânico com a energia produzida artificialmente... Por mais de uma vez, nas primeiras horas deste dia, nas experiências que fiz para analisar este material, descobri vestígios de um metal que não existe, sir, nem entre nós, nem entre os arcônidas.
O que o senhor entende por “energia orgânica”, Innogow?
O cientista olhou para Rhodan meio desanimado.
Só lhe posso dar uma definição não científica. Eu distingo, e isto somente para não perder este capinzinho seco que ainda me serve de apoio para não me afogar no emaranhado confuso dos mistérios da matéria... eu distingo entre energia natural e energia orgânica. Deve-se deixar em suspenso o que seja energia natural, mas energia orgânica é aquela energia que um organismo vivo produz. Mas no caso presente, as coisas se complicam, porque esta energia orgânica se acha concretizada numa forma fixa, sir, não em matéria. O que Grimpel trouxe de Vagabundo contém areia e vestígios de metal, mas nenhuma matéria.
Sir, como cientista, nunca me senti tão desprotegido assim, como agora. E embora possa correr o risco de passar por um eterno vexame e de botar em xeque meu nome de cientista, com o que vou dizer agora, não posso deixar de declarar: o que Grimpel trouxe, conforme minha opinião, é uma matéria orgânica adormecida, ou seja, latente.”
O cientista não sabia como estava realmente perto da verdade, pois não podia prever a existência dos Ogros, aquele produto híbrido técnico-orgânico do mundo de uma desconhecida raça de monstros.
Muito menos podia prever que existiam monstros que, após a erupção energética em Vagabundo, voltaram outra vez, não apenas para despertar esta energia adormecida, por meio de sua técnica, mas para aplicá-la e aplicá-la... para a destruição.
Doutor Innogow — pediu Rhodan — por favor, continue com seus trabalhos. Quero lhe declarar expressamente que, perante mim e perante todos os responsáveis pela segurança do Império Solar, sua reputação de cientista não está em jogo. Pelo contrário: nós lhe agradecemos por sua coragem. Ponha-nos sempre a par de suas pesquisas.
Rhodan pôde observar como o cientista deixou seu escritório muito mais seguro de si mesmo, do que quando entrou há meia hora atrás.
Quase em seguida, Rhodan ligou para a grande estação de rastreamento estrutural de Terrânia. O contato com Walter Grimpel foi rápido. A tela de Rhodan mostrou o rosto espantado do diretor.
Grimpel, você já tem informações se a segunda transição de Gucky foi rastreada?
Perfeitamente, senhor. Ambas as transições ocorreram normalmente. O rato-castor já deve estar em Vagabundo descansando. Mas, até agora não recebemos ainda seu telecom.
Perry Rhodan sorriu. Lembrou-se das brincadeiras todas que Gucky pretendia fazer quando de sua chegada ao planeta. Era natural que todo seu tempo fosse para brincar com seus irmãos de raça, não sobrando, pelo menos nas primeiras horas, nada para um hiper-rádio para a Terra.
Ele não tardará a se comunicar — disse Rhodan, interrompendo de repente a frase, pois neste momento lhe passara pela cabeça um mau pressentimento.
Depois continuou:
O motivo porque o chamei, Grimpel, é para lhe pedir que continue observando o planeta Vagabundo, até quando tivermos certeza de que Gucky esteja regressando. Obrigado.
Logo depois, Grimpel subiu mais um andar, entrou na central de medições, onde oito homens estavam de serviço.
Alguma novidade, meus senhores? Malya, um cingalês, que neste turno de trabalho era o responsável pela seção, respondeu:
Não, senhor Grimpel, com exceção de uma declinação magnética de 2,35 por cento. Vagabundo está com energia demais. Por este motivo já pedi o auxílio do departamento de astrofísica, mas o pessoal de lá me tranqüilizou. Esta declinação deve ter sua explicação na irradiação ainda mantida no espaço, proveniente das últimas erupções.
Walter Grimpel deu um sorriso zombeteiro. Afinal de contas, era ele um dos melhores especialistas em rastreamento energético e era muito versado em astrofísica.
Quem foi que contou isto a você, Malya? — perguntou com ironia.
Foi o professor Alskund, do departamento de astrofísica.
Opa! Se foi ele quem afirmou, deve ser então sério. Apesar de tudo, não estou compreendendo uma coisa. Por favor, se o rastreamento de Vagabundo acusar qualquer coisa estranha, comunique-me imediatamente. Transmita este recado às outras duas turmas de serviço. Obrigado.
Ao voltar para seu gabinete de trabalho, Walter Grimpel tomou lugar à mesa, mas não conseguia tirar da cabeça aquela declinação polar de 2,35 por cento. Ligou o videofone para a central de medições.
Malya, você deu ao professor Alskund todos os dados referentes a estes 2,35 por cento positivos?
Naturalmente, senhor Grimpel. Tivemos de esperar três horas para que o departamento de astrofísica nos desse o resultado. O professor chegou até a consultar o grande computador.
Infelizmente Walter Grimpel não era nenhum Reginald Bell, para não confiar totalmente no cérebro eletrônico e sempre se opor aos que consideravam o computador o non plus ultra.
Walter Grimpel se esqueceu dos 2,35 por cento positivos. Mas quando, terminado o serviço, o carro o levava a seu apartamento, voltaram-lhe novamente à mente as mesmas preocupações. Mas conseguiu escapar de tais inquietações. Apoiou-se no fato de que o professor Alskund, o especialista em astrofísica, estava em Terrânia.

* * *

Gucky jazia completamente abatido na pequena central do seu Space-Jet. As lágrimas lhe corriam dos olhos. Lágrimas de cólera, lágrimas de auto-incriminação.
Sou um grande bobo — comentava a respeito de si mesmo, falando dentro do capacete de seu uniforme, onde se refugiara assim que seus pensamentos ficaram mais claros.
Depois de alguns momentos reflexivos, pôde compreender que seu planeta pátrio, com a temperatura média de oito graus Celsius abaixo de zero se transformara na antecâmara do inferno.
Meu belo SJ-09. Minha sucata... e eu... eu piloto brevetado... voei como um ignorante, um superbobo.
Cambaleou até sua poltrona, feita especialmente para ele, e ali se encostou. Lá fora sibilava o furacão do calor, revolvendo a areia do deserto. O sol, duas vezes maior do que antes, inundava o pequeno planeta com um calor sufocante e, embora a cabina do SJ-09 fosse de vedação perfeita, a temperatura já estava a 42 graus.
O ar refrigerado também não funcionava mais. O Telecom havia emudecido e o resto do jato era um montão de ferro retorcido. Gucky já havia inspecionado minuciosamente seu belo SJ-09, reconhecendo claramente que fizera uma aterrissagem contra toda a regra de bom senso.
E era exatamente isto que não compreendia. E o pior de tudo: não conseguia lembrar-se de nada.
Tentou despertar sua memória. Não deu resultado. Depois da segunda transição não se lembrava mais de nada. A partir de um certo momento, havia na sua mente um vácuo e não podia saber o que fez, o que pensou e o que sentiu neste espaço de tempo.
A temperatura em seu uniforme espacial era de 18 graus, mas na central, em menos de 10 minutos, passara de 42 para 43 graus.
De repente sobressaltou-se.
Ouviu gritos de socorro por via telepática. Mas agora não o deixavam mais com aquele torpor hipnótico. Conseguiu determinar a direção de onde vinham. Concentrou-se e, quase no mesmo instante, desapareceu num salto de teleportação. Rematerializou-se em plena escuridão.
Quase que de um momento para outro, veio-lhe a consciência de que era um tenente do Corpo de Mutantes do Império Solar e tinha que se portar como tal. O farolete de seu uniforme espacial se acendeu e, na ampla faixa de luz, viu o que há mais de setenta anos não via: uma galeria de tocas dos ratos-castores.
Estava portanto em casa!
Estava na toca e numa toca daquelas foi que ele nascera, convivera com seus pais e irmãos, comera, dormira e... brincara.
Mas, da extremidade interna daquelas tocas, provavelmente não muito profundas, vinham gritos de socorro telepáticos de seus irmãos de raça. Andou o mais rápido que podia. O farolete lhe mostrava o caminho em declive. Os gritos de socorro continuavam martirizando seu coração bondoso.
Que aconteceu com minha terra natal? Por que razão estão se abrigando a estas profundidades?’’
Ficou hesitante por uns segundos. Depois, resolveu teleportar-se, para vencer mais rápido um trecho longo, terminando numa toca.
Gritos e sussurros o receberam, quando um pequeno a luz do farolete iluminou grupo de ratos-castores.
Meu Deus”, pensava Gucky horrorizado, “são todos filhotes! Onde estão seus pais?
Ofuscados pela luz, os ratos-castores de pouco mais de meio metro fecharam os olhos, para juntos irromperem num choro que tocaria o coração de qualquer um. Gucky tentou ler-lhes os pensamentos, mas só o conseguiu apenas com alguns. A maior parte deles — eram uns quinze — não passava de filhotinhos, cujos dons parapsicológicos pouco evoluídos ainda não iam além das necessidades mais ou menos instintivas: comer, beber, dormir e carência do aconchego materno.
Não tentou falar diretamente com nenhum deles. A telepatia já era suficiente para lhe dar um grande alívio, podendo se comunicar. Mas foi aí que Gucky teve a primeira grande decepção. Nenhum daqueles animais de pouca idade era capaz de se concentrar para manter um contato com o recém-chegado, que com isto ficava cada vez mais desanimado.
Medo, terror, fome e sede ocupavam totalmente os pensamentos dos infelizes filhotes, encurralados naquela toca escura. Água e alimentos tinham de ser encontrados para eles. E Gucky não hesitou um segundo. Teleportou-se de volta para os escombros do SJ-09. Constatou horrorizado que o congelador não estava mais funcionando. O termômetro indicava nove graus positivos. Com nove graus ainda não dava para estragar nada.
Gucky abriu a porta das câmara frigorífica, saltou para dentro e a fechou.
Alimentação infantil... Santa Via Láctea! Isso eu não estudei com Rhodan na Academia Espacial! Que será que os filhotinhos poderão ou não comer?
Gucky começou a esvaziar o estoque de leite condensado, pegou quatro caixas de cenouras muito especiais, encheu uma lata de 50 litros com água. A seguir, arrumou tudo e saltou.
A toca com os filhotes abandonados jazia a oitocentos metros de profundidade. Gemeram assustados, quando Gucky rematerializou-se diante deles com sua carga e a luz forte do farolete. Virou para trás o capacete do uniforme, achou que o ar da caverna era bem respirável e pela primeira vez os filhotes ouviram sua voz. Falou-lhes em sua língua materna, num tom que todos, filhotes e mais crescidos, pudessem entender, como se estivesse conversando na Terra com crianças de seis anos.
Quanto mais falava, mais calmos ficavam os animais. Tirou seu uniforme espacial e, com o coração pulsando de emoção, pegou o primeiro filhote e o acariciou. Lágrimas lhe correram dos olhos, quando as patinhas do animal se agarraram em seu pêlo e sua cabeça se encostou nele. O pequeno rato-castor, de um momento para o outro, adormeceu, apesar da sede e da fome.
O que vou fazer agora?”, perguntou ele, desanimado e triste.
Completamente sem jeito, encontrava-se no meio dos animaizinhos que não paravam de choramingar, segurando nos braços o filhotinho adormecido, sem coragem de se mover.
Coitadinho — dizia ele — dorme tranqüilo, que Gucky não vai abandonar você.

* * *

Ao consultar o relógio pela primeira vez, Gucky percebeu espantado que levara sete horas para cuidar daquele grupo de animais. Entrementes, ouvira outros gritos de socorro, por via telepática. Vinham ou da região do pólo norte ou do pólo sul, onde, há setenta anos atrás, nenhum grupo de ratos-castores residia. Seus impulsos telepáticos para localizar mais irmãos de raça na zona equatorial, foram infrutíferos. Ficaram sem resposta.
Cada vez mais se convencia de que, em todo o planeta, não viviam mais do que duas ou três centenas de irmãos seus. Os demais, principalmente os adultos, deviam estar mortos.
Vestiu de novo o traje espacial, deixou ali um farolete, com pilha nova. Um bom raio de luz iluminava o local onde estava a água e a caixa com comestíveis. Em contraste com as crianças da Terra, os filhotes, já logo depois de nascidos, estavam em condições de se alimentar sozinhos.
Eu volto logo — disse para tranqüilizá-los, antes de desaparecer.
Saltou para o Space-Jet. A temperatura na cabina tinha subido para 47 graus.
Tenho que me comunicar com Perry Rhodan”, pensava ele.
O fato de o Telecom do seu SJ-09 não funcionar mais, não o preocupava muito. Com uma série de minicomunicadores ligados entre si, haveria de atingir por hiper-rádio a grande estação de Terrânia. E estes minicomunicadores, ele os tinha facilmente, abrindo uns dez uniformes espaciais.
Correu para o armário do depósito e seus olhos brilharam de alegria ao ver, através do vidro da viseira, os trinta uniformes, um ao lado do outro, pendurados com todo capricho. Usando seus dons telecinéticos, tirou o primeiro do cabide, abriu e... ficou estarrecido!
Depois de ter aberto o décimo deles, começou a tremer de fúria.
Estes bandidos... estes bandidos! — repetia transtornado. — Meus Deus, como é que poderei entrar em contato com Rhodan ou com uma de suas espaçonaves? Não pretendo ficar apenas olhando a destruição destes coitados.
Nos trinta trajes espaciais não havia nenhum minicomunicador. E seu Space-Jet não passava de um montão de destroços. E a cada rotação, o planeta Vagabundo se aproximava um pouco mais do sol inclemente e mortífero.
Nas fundas tocas de Vagabundo, os ratos-castores estavam ocultando seus próprios filhotes, na ânsia desesperada de salvá-los do extermínio. Muitos deles já tinham morrido, tentando salvar os filhotes.
Para o terrano que se esquecera de colocar no uniforme espacial o minicomunicador — relaxamento imperdoável — Gucky não podia ter mais do que desprezo. Não o odiava, nem o fazia responsável pela destruição da raça dos ratos-castores. Não, Gucky achava que o maior culpado era ele mesmo. Seu Space-Jet era um montão de escombros, por sua culpa. Com aquela aterrissagem maluca, cortara toda possibilidade de um retorno e, assim, assinara a sentença de morte para ele e seus poucos irmãos de raça.
Perdeu toda esperança de entrar em contato com alguma espaçonave terrana por meio do minicomunicador. O pequeno aparelho era para pequena distância e sua transmissão não penetrava quase nada no hiperespaço. Mas nem por isto um tenente do Corpo de Mutantes iria ficar ali, apenas lamentando a sorte.
Gucky ligou seu minicomunicador, deu os sinais convencionais de alarme, acrescentando nome e localização. Repetiu tudo umas vinte vezes. Depois passou para a escuta.
Do alto-falante só se ouvia um quase imperceptível ciciar do Universo, mas nenhuma resposta ao seu pedido de socorro.

* * *

Descobrira até então oito grupos de ratos-castores entocados nas mais profundas cavernas do planeta e a todos atendera com água e alimentos, na medida do possível. É claro que sabia que o estoque não era infinito. Cenoura, não havia mais nenhuma. Leite condensado começou a faltar desde o dia anterior. Quanto à água potável, restava-lhe um recipiente com 1.120 litros.
Mal Gucky acabara de fazer o balanço do que ainda dispunha na despensa do SJ-09, e ia voltando para a cabina de comando, quando recebeu um forte impulso telepático.
Até que enfim, um rato-castor adulto!”, pensou.
Já vou — respondeu Gucky. — Vou levar de comer e de beber para você. Qual é seu nome? Eu me chamo Gucky... Ah!... Plofre fre dag ga.
O final era intraduzível, mas o interlocutor deve ter entendido muito bem. Foi com surpresa que Gucky ouviu que o rato-castor não queria nem água, nem alimento.
Por que adiar a morte por mais uns dias, se a muralha negra pode chegar a qualquer momento?
Embora a expressão “muralha negra” lhe despertasse grande curiosidade, Gucky não perguntou nada.
Espere um pouco que já vou logo. Voltou para a câmara frigorífica, que, a esta altura, não tinha mais nada de gelo, encheu um cantil com água fresca, pegou um pacote de alimentos. Tirou do armário um dos trinta uniformes espaciais, após o que desapareceu no ar.
A 1.700 quilômetros ao norte do equador, quatro dias após sua desastrosa aterrissagem em Vagabundo, encontrava o primeiro rato-castor adulto. O termômetro externo lhe indicava um calor estúpido de 61 graus. Do desesperado rato-castor, nenhum vestígio.
Aqui! — ouviu Gucky depois de um longo chamado telepático.
Mas este “aqui” chegou-lhe tão fraco, que não conseguiu saber de onde vinha.
Apresente-se com um pouco mais de força, para eu perceber a direção — emitiu Gucky.
Não se conseguia ver nada além de três metros. Em volta de todo o planeta, rugia constantemente um furacão de areia que esquentava ainda mais o ar já escaldante.
Das profundidades de uma antiga caverna outrora habitada, que não tinha mais de 50 metros, veio um impulso mental.
Gucky saltou. Quando seu farolete acendeu, viu-se diante de um rato-castor adulto, cuja morte por asfixia parecia próxima. Já há muito tempo que Gucky achava-se novamente possuído daquele frio autodomínio, digamos sangue-frio, característico de Rhodan e de todos que com ele trabalhavam. Pegou o traje espacial que trouxera e obrigou o coitado a vesti-lo, atarraxando-lhe o capacete. Só então foi que cuidou do medidor de pressão.
O instrumento mostrava com toda clareza que o planeta Vagabundo estava começando a perder sua camada de ar. Para Gucky, isto era um sinal evidente de que sua terra natal estava com as horas contadas e de que a força de atração do sol já estava com suas garras para sugar toda a atmosfera de Vagabundo. Ou talvez...
Gucky começou a refletir.
Ou talvez, Vagabundo aumentaria de tal forma a velocidade de sua rotação, atingindo assim um ponto em que a camada de ar seria tocada para o espaço afora. Viria, depois disso, um tremor de terra no planeta que abalaria ainda mais a estrutura do pequeno sistema solar, acabando por destruí-lo.
Sob a proteção do traje espacial e devido à temperatura mais agradável dentro dele — dezoito graus positivos — o esgotado animal se recuperou rapidamente. Curioso, olhava para Gucky. Mas sua apatia ainda era muito grande. Não perguntou quem era seu salvador, nem quem lhe dera aquele uniforme. Também não perguntou nada sobre a luz forte do capacete de Gucky.
Em compensação, a atividade de Gucky reduplicava. Tinha ouvido mencionar uma “muralha negra”. Não podia se comparar com seus irmãos de raça. Apesar de ser um rato-castor como eles, sabia que sete decênios de vida na Terra o transformaram num terrano. Só com muito esforço estava em condições de compreender os pensamentos de seu semelhante, a quem faltava qualquer conceito de técnica.
Sede, sede!”, era o que diziam seus pensamentos.
Quem... é você?
Gucky, e você?
Bikre... água!
Gucky reparou no manômetro do aparelho de pressão. Fez um gesto de contentamento. Podia retirar por uns instantes o capacete do convalescente, para lhe dar de beber, pois, apesar da rarefação do ar, não havia perigo de asfixia.
Chega! — disse Gucky telepaticamente, quando o ponteiro do cantil indicava que o rato-castor bebera um litro de água. — E agora, Bikre, explique-me o que vem a ser a muralha negra.
Começou “falando” da muralha negra e dos muitos que desapareceram dentro dela. E sem maior nexo, começou a falar de repente de uma sombra escura que avançava rapidamente.
Como? Sombra escura avançando rapidamente? Bikre, como era ela?
Gucky sobressaltou-se. Lembrou-se, com toda nitidez, de como ele, seus irmãos e irmãs, seus pais e todos que pertenciam à família chamavam, há setenta e tantos anos atrás, a Stardust II, quando aterrissara em Vagabundo: “sombra escura que avançava com rapidez”.
Fez com que Bikre descrevesse a forma da espaçonave.
Da figura que ele traçou, com duas dimensões, Gucky não pôde deduzir muita coisa.
Tente lembrar-se de como era esta sombra escura que avançava com rapidez... como você a viu, Bikre?
No mesmo instante, Gucky começou a ouvir.
Tinham a forma de gota d’água. Dois corpos ligados entre si. Marrom-escuro, quase preto.
E o que foi que estas estranhas naves descarregaram? Procure pensar de novo, Bikre, esta nave grande, dupla...
Gucky ainda reforçou sua ordem telepática com uma carga hipnótica.
Isto parece com um enorme guindaste”, constatou Gucky, através os pensamentos irradiados pelo outro rato-castor. “Cem metros de comprimento! Mas o que que está pensando agora? Que este imenso guindaste foi afundado no solo e só um pedacinho dele ficou para fora? E de repente veio disparada esta muralha negra, mas Bikre teleportou-se ainda a tempo. Depois, quando ele teve coragem de voltar, em torno do guindaste afundado na areia não havia mais nenhum rato-castor.”
Gucky tentou fazer as vezes de um grande centro de computação: “...Espaçonaves estranhas, de duas fuselagens... construções semelhantes a guindastes verticais... afundamento no solo... e agora a distância entre Vagabundo e seu sol já não é a mesma...”
Aproximou-se de Bikre:
Você pode me mostrar o lugar onde esta coluna enorme foi afundada no solo?
Antes de se teleportarem, Bikre teve que beber mais um pouco d’água e tomar umas drágeas do alimento concentrado.
Rematerializaram-se no centro de um remoinho de areia escaldante.
Foz por aqui que enterraram a grande coluna de metal — emitiu Bikre.
Depois de três pequenos saltos de teleportação, Gucky estava diante de uma construção escura com alguma aparência de coluna ou guindaste vertical, talvez com mais de um metro de diâmetro em seu centro. Devido à tempestade de areia, achava-se com uns dez metros para fora do solo.
Antenas”, pensou Gucky. “Mas para haver uma antena, tem de haver também uma fonte de energia.”
A fim de coordenar melhor os pensamentos, precisava de um lugar mais calmo.
No próximo segundo, Bikre, assustado, se viu na cabina de comando do SJ-09.
Sente ali e não me atrapalhe. Tenho uma coisa importante afazer.
Quem estava ordenando agora era o Tenente Gucky, do Exército de Mutantes.

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