Autor
K.
H. SCHEER
Tradução
S.
PEREIRA MAGALHÃES
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Surge uma
nova época da cosmonáutica e o cruzador
experimental
Fantasy sai para uma grande viagem...
Comemorando
o centésimo volume da série Perry Rhodan, o presente número
descreve o surgimento de uma nova era deste ciclo pujante.
Desde
os acontecimentos do último volume, passaram-se 57 anos. Na Terra, o
calendário acusa agora o ano 2.102.
A
situação em geral está mais consolidada. A posição de Atlan como
Imperador Gonozal conseguiu se estabilizar, graças à ajuda
eficiente de seus amigos, os terranos.
Por sua
vez, estes mesmos terranos assumem importantes postos em Árcon, para
que o Grande Império esteja em condições de funcionar.
O
Império Solar se tornou a maior potência comercial no setor
conhecido da Via Láctea e na Nebulosa M-13. Supertransportes de
colonizadores levam ininterruptamente os emigrantes para novos
mundos. Estabelece-se contato com as mais diversas e estranhas raças
inteligentes.
É
neste ambiente que se realiza, sob o maior sigilo, a experimentação
de uma nova propulsão para cosmonaves, propulsão esta que elevará
a cosmonáutica a um clímax jamais imaginado!
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Administrador
do Império Solar.
Reginald
Bell
— Amigo
e confidente de Perry.
Tenente
Brazo
Alkher
— Competente
oficial de artilharia da Fantasy.
Major
Jefe
Claudrin
— Gigante
em todas as suas ações.
Dr. Amo
Kalup
— Gênio
da Física.
Gucky
— O
rato-castor que mesmo semi-morto faz das suas.
Capitão
Slide
Narco
— Um
marciano. É também engenheiro.
Auris
de
Las-Toor
— Beldade
do planeta Azul.
1
— Se
estivesse em seu lugar, não faria isto, cavalheiro!
Alfo
Zartus levou um susto, ficando como que paralisado. Apertava na mão
de tal maneira a dentadura, como se fosse a mais perigosa arma de
fogo.
— Dê
meia-volta, deixe cair a dentadura e cruze as mãos sobre a cabeça —
ordenou a mesma voz, num tom quase impessoal, interrompendo Zartus em
sua atividade clandestina.
Acompanhou
atento o som daquelas palavras, tentando descobrir de onde vinham.
Bem na
frente de Zartus, corria a esteira transportadora, plenamente
automatizada, fazendo o ruído típico dos cilindros de aço. As
peças que estavam sendo transportadas na esteira eram componentes de
um braço oscilante teleguiado para artilharia pesada. Com toda
certeza, destinava-se às giratórias cúpulas externas dos grandes
cruzadores tipo Terra.
A novidade
naquelas construções eram os mancais de campo deslizante, por meio
dos quais se punha um ponto final nas terríveis dificuldades de
lubrificação, que surgiam sempre no vácuo absoluto.
Como que
acossado por força superior, Alfo Zartus olhou em volta e não viu
ninguém. No corredor estreito e comprido não havia jeito de ninguém
se esconder. Somente os pilares de sustentação da armação da
esteira rolante é que poderiam oferecer tal oportunidade.
Zartus
seguiu seu instinto. Num movimento muito rápido, meteu a dentadura
superior na boca. Sentiu-se um tanto incomodado: a pequena cápsula,
onde estava o microfilme, se deslocara. Desesperado, começou a
trabalhar com a língua, até a chapa côncava chegar ao lugar certo.
Desapareceu então a sensação de incômodo.
Respirando
apressadamente, e com um vago sorriso denunciando sua incerteza, o
homem de pequena estatura levantou as mãos.
— Bravo!
Gostei, mister — voltou a voz, em tom de ironia. — Como você faz
tudo direitinho, merecia até um emprego no circo de cavalinhos.
Zartus
estava ciente de que, se fosse surpreendido naquele setor da esteira
de transporte, toda automatizada, estaria em maus lençóis. A velha
Lua da Terra, nestes últimos 57 anos, sofrerá enormes
transformações.
Resumindo,
podia-se dizer que o satélite da Terra se transformara num
gigantesco estaleiro, no qual eram construídas as gigantescas
espaçonaves. Uma instalação fabril ao lado da outra, nos moldes
dos adiantados padrões arcônidas!
Ainda há
pouco tempo, inaugurara-se ali o maior conjunto da construção
astronáutica do Universo. A partir daí, a linha de produção
tornou-se constante e dirigida praticamente por poucos postos de
controle.
Zartus
devia supor que fora descoberto por algum circuito interno de
televisão, pois em toda parte havia instalações de segurança e
controle. Sendo assim — e não havia mesmo outra alternativa, como
Zartus procurava inculcar a si mesmo — era bem provável que
ninguém tivesse visto o que ele escondeu na dentadura. Confirmando
isto, existia o fato de não ter visto em lugar nenhum câmaras de
televisão. Como foi então que estavam tão bem informados sobre
seus movimentos?
Olhou de
novo em volta e começou a pensar na sua missão, na microcâmara
fotográfica, embutida na chapa de fundo do seu relógio de pulso.
Depois, seu pensamento pulou para o Serviço Lunar de Segurança, uma
ramificação da Defesa Solar.
Caso fosse
apanhado em flagrante com a câmara e o filme, estaria terminada sua
brilhante carreira de engenheiro de planejamento das esteiras
rolantes, controladas por robôs. Estaria na certa ameaçado de
processo penal e seria condenado à detenção, ou até a trabalhos
forçados num satélite qualquer sem oxigênio.
Perry
Rhodan, primeiro administrador do Império Solar, se reservara o
direito de presidir os julgamentos de casos de espionagem que
atingiam a segurança do Império Solar.
O
pensamento numa corte marcial — pois estaria de fato sujeito a ela
— fez com que Zartus perdesse a cabeça. Olhou de novo em volta e
não percebeu os sinais de alarme.
Soltando
um grito meio abafado, usando de toda força que possuía, deu um
grande galeio e pulou para a esteira transportadora, onde acabou
caindo. Foi levado com grande velocidade para a passagem estreita na
rocha.
Atrás
desta muralha de pedra começava a Seção de Montagem 136, onde as
peças, que vinham de várias direções, eram encaixadas para
formarem grandes conjuntos.
— Você
está ficando doido, homem? — ouviu de novo a voz do desconhecido.
— Salte daí para fora, está ouvindo? Salte daí! Perigo de vida!
Salte, homem!
Zartus
começou a rir contra sua vontade. Cravou as unhas nos rebordos de
reforço da esteira de plástico e equilibrou os solavancos dos
cilindros giratórios com gritos de dor meio abafados. Tentava ainda
descobrir um jeito de escapar da seção 136.
O
desconhecido continuava chamando por ele, mas as palavras ele nem as
ouvia.
Alfo
Zartus já estava chegando à conclusão de que tinha que destruir
aqueles documentos secretos, quando foi atingido e erguido pelas
garras de aço de uma instalação de descarga de funcionamento
robotizado.
Ouviu-se
um grito de desespero. Zartus percebeu tardiamente que os gritos de
alarme do desconhecido não haviam sido nenhum truque.
O pobre
homem foi dilacerado através da abertura na rocha e atirado no ar.
Não chegou a ver bem a boca de uma instalação de isolar metais com
injetor de plástico líquido. As peças semiprontas recebiam uma
camada de plástico para impedir a oxidação ou a dilatação
excessiva com o calor.
Atrás dos
portais de aço, havia chamas de um vermelho intenso. Com um calor de
mais de mil e duzentos graus Celsius, o plástico se liquefazia e era
injetado por diversos bocais, sob alta pressão.
O
movimento robotizado das garras era impiedoso. Não iria distinguir
entre um pedaço de metal e um corpo humano.
*
* *
O Coronel
Hildrun, chefe do Serviço de Segurança Lunar no setor F-81, colocou
de lado os documentos pessoais do engenheiro de planejamento Alfo
Zartus, nascido a 22 de junho de 2.062 em Lowman, no Estado de Idaho.
Olhava
atentamente e de cara fechada para o sargento que estava de pé
diante de sua mesa de trabalho; seus olhos o percorreram de alto a
baixo. Quando viu, porém, na cintura do guarda, a arma de choque
energético, sua ira chegou ao máximo. Com o dedo indicador apontado
para a arma, a voz de Hildrun foi firme:
— E isso
aí, o que é? Você acha que é um enfeite ou um radinho de pilha
que nós lhe colocamos na cintura para completar o uniforme? Por que
razão não atirou para deixar Zartus inconsciente? Estava bem perto
de você, não é?
O pobre
sargento estava branco como cera, em posição de sentido diante de
seu superior. Os oficiais do setor F-81 que estavam presentes não
disseram uma palavra. O caso não era tão simples como Hildrun
julgava.
— Estava
bem perto, sim — balbuciou o guarda do Serviço de Segurança. —
Liguei o envoltório de deflexão e assim Zartus não me podia ver.
Não queria deixá-lo inconsciente, pois o regulamento de serviço
proíbe o emprego de raios narcóticos, quando seu emprego não é
estritamente necessário. E a mim não parecia necessário. O espião
era de estatura baixa e fraco e podia dominá-lo com a maior
facilidade. Por que razão haveria de feri-lo?
O Coronel
Hildrun se levantou. Esbravejando, empurrou a cadeira para trás e de
braços cruzados caminhou até o bule de café.
— É
muito engraçado! Você não queria feri-lo, mas acabou mandando-o
para a morte certa, não é?
— Senhor,
não podia prever que iria saltar para cima da esteira rolante. Foi
tão inesperado! E depois de ele estar na esteira, não podia mais
atirar.
— Por
que não?
— Porque
a esteira transportadora movimenta-se muito mais depressa do que um
homem correndo. Senhor, tivesse eu usado os raios letárgicos contra
o técnico, ele não teria possibilidade de pular da esteira no
último momento. Seria sua última chance. Gritei-lhe avisando que
atrás da abertura na parede havia a instalação de isolamento. Não
quis me ouvir. Que o senhor acha que eu devia fazer?
O coronel
virou-se para ele. Tinha na mão uma caneca de café fumegando.
— Pode
provar que você chamou a atenção dele?
O sargento
olhou desesperado em volta, como a pedir socorro. Um tenente da turma
de vigilância deu a sua opinião:
— Existem
as fitas gravadas, sir. Assim que o sargento Rodzyn deu o sinal de
alarme com o transmissor do capacete, ligamos o aparelho de
telecontrole. Ele chamou a atenção do espião em voz bem alta.
Sem dizer
uma palavra, Hildrun voltou à sua mesa de trabalho. Colocou a caneca
de café com tanta força na mesa, que algumas gotas respingaram
sobre ela.
— É sua
sorte, Rodzyn, sua salvação! Como é que você teve a idéia de
seguir o espião sozinho, no setor de transporte?
— Já há
mais tempo que eu vinha observando Zartus. Queria pegá-lo em
flagrante, por isso fui atrás dele sob a proteção do defletor.
Estava de novo filmando com sua câmara miniatura do relógio de
pulso. Estava bem próximo a ele, esperando. Depois tirou o
microfilme, puxou da boca a dentadura e escondeu a diminuta cápsula
do filme numa depressão apropriada no centro da chapa. Foi aí que
lhe dirigi a palavra pela primeira vez. Devia estar muito nervoso e
perturbado, parecendo mesmo desesperado. Sir, seu salto até a
esteira foi uma surpresa para mim. Não podia esperar de maneira
alguma uma loucura daquela. Também não podia mais detê-lo.
Hildrun
olhou para os oficiais de seu estado-maior. O sargento estava quase
em pânico.
— Está
certo, sargento, por favor preste seu depoimento no Protocolo. Por
enquanto você está dispensado do serviço. Outra coisa, você sabe
que eu tenho a obrigação de comunicar o caso ao chefe da segurança?
Rodzyn
concordou hesitante. E momentos depois deixou o gabinete de seu
chefe. Na ante-sala procurou uma poltrona e esgotado sentou-se para
tentar se acalmar.
Por mais
que se esforçasse, não conseguia tirar aquela cena de sua memória.
A cara desesperada do pobre homem na esteira rolante estava sempre
diante de seus olhos.
— Foi um
acidente, Rodzyn — disse um oficial que passou pela ante-sala. —
Vá para seu alojamento e se prepare para prestar o depoimento. Você
está abatido demais.
— Minha
situação tem que ser mesmo de abatimento — respondeu Rodzyn com
os lábios ressecados. — Posso lhe fazer uma pergunta?
— Por
que não? Às ordens.
— Como é
que vai acabar tudo isto? Não tive culpa em nada do que aconteceu,
fiz o melhor que pude.
— Sabemos
disso. Se você não tiver sorte, a história passa para outras
esferas. Existe mesmo uma ordem de serviço que manda comunicar tais
casos ao administrador pessoalmente. Você sabe que os estaleiros de
astronaves da Lua são a menina dos olhos de Perry Rhodan.
O sargento
Rodzyn, retendo a respiração, olhou horrorizado para o oficial.
— Você...
desculpe, o senhor está se referindo a Perry Rhodan?
— Por
quê? Você conhece outro administrador? Se tiver que comparecer
perante ele, então conte o que aconteceu com toda franqueza. Ninguém
pode lhe imputar falta alguma. O que aconteceu foi um acaso, como lhe
disse. Vá agora, mas antes tire este uniforme de combate.
O oficial
bateu com as pontas dos dedos na aba do boné e abandonou o pequeno
aposento. Estava a uns cem metros abaixo da superfície da Lua. Nas
proximidades, estrugia a usina destinada a alimentar aquele setor de
fabricação.
2
Brazo
Alkher, com os olhos demasiadamente brilhantes, como se estivesse com
febre muito alta, olhava para a fenda aparentemente pequena da grande
aparelhagem de computação.
O conjunto
da aparelhagem para controle das tiras estreitas de plástico dava
mesmo uma impressão assustadora. Brazo Alkher, tenente da Frota
Solar, fora transferido por ordem especial para a base da Lua,
sentindo-se, desde algumas horas, como se estivesse num hospício.
Depois de
sua aterrissagem na Lua, já havia sido interrogado onze vezes por
guardas do Serviço de Segurança. Fizeram-lhe mil perguntas sobre
sua vida pregressa, interessaram-se por seus pais e seus avós,
inclusive perguntando sobre o que pretendia fazer, de onde vinha e
para onde ia.
Brazo
passava de um aborrecimento para outro. Mas tinha a oportunidade de
conhecer a mais poderosa base de cosmonáutica da Humanidade. Sabia
que a Lua tornara-se, nos últimos 57 anos, um gigantesco estaleiro
de cosmonáutica e de fabricação de material bélico. Praticamente,
o satélite natural da Terra estava sendo escavado por dentro. Na
superfície mesmo da Lua não se via nada das gigantescas instalações
industriais, que, a peso de ouro e com enormes sacrifícios, foram
instaladas sob a crosta morta do nosso satélite.
Na
superfície só se viam mesmo os grandes espaçoportos e as cúpulas
blindadas das enormes casamatas cósmicas.
Brazo
levou treze horas até chegar ao seu objetivo e, mesmo aí, surgiu
mais um empecilho.
Brazo
Alkher, um rapaz de vinte e três anos, esbelto e de boa estatura,
estava ainda sobraçando alguns pacotes, quando um capacete com um
brilho de prata pousou em sua cabeça.
Suportou
com muita paciência a tortura da medição das vibrações
cerebrais, que naturalmente era uma parte essencial dos testes
robotizados. Se alguma coisa tivesse escapado aos guardas humanos, o
robô haveria de descobrir.
— Deixe
estes pacotes de lado — veio o comando pelo alto-falante.
Brazo
ficou em posição de sentido e abrindo nervoso as duas mãos, deixou
os pacotes caírem no chão.
Alkher se
enrubesceu e olhou em volta com muita timidez.
— Desculpe
— disse apressadamente, com um sorriso incerto para a desalmada
máquina, que naturalmente não mostrava a menor reação às suas
palavras.
Quando no
robô acenderam-se as luzes verdes e de uma fenda saltava a tira ID,
respirou profundamente.
— Entrada
permitida, senhor — ouviu-se do alto-falante. — O senhor está
sendo esperado.
— Muito
obrigado — disse Brazo, em voz baixa.
Agachando-se
rápido para apanhar suas coisas, bateu com a cabeça numa alavanca
pintada de vermelho. O aparelho começou a fazer barulho e Brazo
ficou ainda mais assustado. Finalmente, com uns saltos um tanto
temerários, resolveu sair de perto daquela chapa metálica.
Brazo
Alkher, conhecido já na Academia Espacial como tremendamente
azarado, confiou demais no seu corpo magro e ossudo. Levado pela
força da gravidade, caiu com os braços elegantemente estirados e os
pés separados, sendo que sua cabeça coberta pelo capacete bateu
casualmente contra a canela de um homem parado no caminho.
Brazo, de
ordinário tão calmo e manso como um cão São Bernardo depois de
bem velho — como afirmavam seus colegas — deixou escapar nomes
pesados e imprecações. Depois, ainda levou algum tempo, até que
suas mãos tateantes colocassem no lugar o capacete que escorregara,
como também a correia, onde estavam presos os pequenos pacotes.
Levantou-se
resfolegando e logo a seguir veio mais um momento de angústia,
quando percebeu bem perto dele uma cara sorridente, toda lambuzada de
óleo e graxa, de um homem de boa estatura que usava o macacão do
pessoal da manutenção.
O tal
indivíduo alto e de boa compleição trazia um boné completamente
amarrotado, protegendo os cabelos castanhos. Não usava nenhum sinal
de classificação hierárquica, motivo pelo qual Brazo deu vazão à
sua ira acumulada, permanecendo, porém, num plano de boa educação.
Disse meio agastado:
— Você
não pode pular um pouco para o lado, vareta de medir o óleo do
cárter?! Puxa! O que você está parecendo...?
Surpreso
consigo mesmo, Brazo olhou para cima, depois disse meio sem jeito:
— Desculpe,
cavalheiro. Não me leve a mal. Acho que o culpado sou eu. Você quer
me ajudar um pouco?
— Com
prazer — respondeu o homem esbelto, de olhos claros. — Você
estava pulando como um macaco de três pernas.
— Existe
mesmo macaco de três pernas?
O estranho
deu uma boa gargalhada, batendo com suavidade nos ombros de Brazo.
— Está
tudo certo, senhor tenente, não é verdade? Pode-se perguntar para
onde o senhor vai?
Alkher
recomeçou com a procura desesperada pelos papéis que em todo lugar
lhe exigiam. O homem alto esperou com paciência até que o tenente,
cada vez mais nervoso, achou, no bolso da perna do seu uniforme, o
salvo-conduto.
Brazo não
sabia se devia perder a paciência com aquela gargalhada sonora ou se
controlar um pouco mais. Optou pela segunda alternativa. Além do
mais, sua visão inteligente estava à procura de uma cúpula de aço
reluzente de um cruzador tipo Terra, novinho em folha.
A
espaçonave de duzentos metros de diâmetro estava num enorme hangar.
Guardas armados e robôs de combate, por toda parte. Brazo sabia
estar agora no coração secreto dos moderníssimos estaleiros de
astronáutica da Lua. O que ali acontecia, sabiam poucos iniciados.
Não
demorou muito até Brazo constatar que o aro de reforço equatorial
do cruzador de duzentos metros tinha uma conformação bem diferente
das construções anteriores. O aro de propulsão era bem maior que
nos modelos anteriores e mais abaulado nas bordas. Mas era tudo que
se notava de diferente, assim à primeira vista.
O homem de
olhos claros não estava mais dando gargalhada. Observava o jovem
tenente com muita atenção. A fisionomia juvenil de Brazo, calma e
sonhadora, estava agora mais tensa, dando impressão de um senso de
determinação já de homem maduro.
O técnico
deu um sorriso quase imperceptível e, sem dizer uma palavra,
agachou-se e apanhou as várias sacolas.
— VAmos,
cavalheiro, o senhor é esperado.
Brazo
concordou, com o pensamento bem distante. Segundos depois, chegou até
a estranhar a saudação exemplar dos guardas presentes e dos
técnicos. Até mesmo os robôs de vigilância começaram a fazer
continência e numerosos gritos de “Atenção”
encheram de tal modo o espaço, quase suplantando os ruídos
contínuos das instalações.
Meio
desconfiado, parou, virou-se para seu risonho acompanhante e lhe
sussurrou nos ouvidos:
— Homem
de Deus! Diga-me uma coisa, será que todo tenente é recebido aqui
com tanta honra? Será que esta gente toda está meio maluca?
— Estão
se divertindo — disse o homem de boa estatura.
O sorriso
de Brazo foi forçado. Um coronel, que cruzou-lhes o caminho,
empertigou-se todo e fez a continência. Brazo estava com uma cara
esquisita, mais próxima do choro que do riso.
— Ele me
olhou com pouco-caso — disse ao seu acompanhante. — Olhe aqui,
meu amiguinho, você não me quer explicar que tipo de hospício é
este? Mas você está mesmo com uma aparência horrenda. Por que não
lava pelo menos o rosto? Se você estivesse sob meu comando, eu lhe
ia ensinar umas tantas coisas.
Abanando a
cabeça, olhou para a cara do acompanhante, que era tão alto como
ele, depois ergueu o braço e com o dedo indicador raspou a face do
homem de cabelos castanhos.
— Puxa!
Quase um metro de espessura de graxa! Tem que ser assim mesmo, como
um porco no chiqueiro?
— Não,
não tem que ser necessariamente assim — respondeu o homem alto que
lhe carregava os pacotes.
Um
tremendo ruído obrigou Brazo a cair de joelhos e depois a rolar no
chão. Os sons horríveis saíam, sem dúvida, de uma eclusa de ar do
singular cruzador pesado. Os sons fortíssimos terminaram num ronco
surdo, como o afogar lento de um grande sáurio.
— Santo
Deus, que será isto? — perguntou Brazo estupefato.
— O
comandante está cantando — explicou-lhe o outro. — Você já
ouviu o cântico de uma pessoa nascida em Epsal?
Brazo
desistiu. Parecia já saturado de tanta coisa esdrúxula. Talvez não
houvesse ninguém normal por ali. Nem do Serviço de Segurança, nem
entre os robôs, nem mesmo o comandante.
Desesperado,
foi caminhando ao lado do seu acompanhante ou carregador de pacotes,
até que a figura balofa de um gorducho careca lhe apareceu no
caminho, fungando e suando, com as bochechas riscadas por veias finas
e azuladas, pendentes dos dois lados do rosto, porém, com olhos tão
penetrantes, que Brazo ficou com receio de outra desgraça. Mas o
colosso não lhe deu a menor importância.
— Ah!
Até que enfim a gente pode ver o senhor — disse com vozeirão tão
forte como o do nascido em Epsal.
Olhando
com ar de zombaria, o careca se plantou na frente do carregador de
pacotes, de cara toda besuntada de graxa.
— Bom
dia, professor — disse seu acompanhante.
Vagarosamente,
tirou o boné da cabeça e passou a mão pelos cabelos molhados de
suor.
Brazo
ficou pálido. Depois que o seu acompanhante descobriu a cabeça,
levou poucos segundos para reconhecer, no carregador de pequenos
embrulhos, Perry Rhodan, o administrador do Império Solar. Os olhos
arregalados do pobre Brazo começaram a ver círculos de fogo no ar e
suas pernas se sentiam muito fracas.
Assim foi
que, depois de um rouco “Perdão,
senhor!”,
acabou caindo nos braços do maior físico dos tempos modernos,
Doutor Amo Kalup. Este cientista, conhecido como um homem colérico e
temperamental, tinha seu nome ligado à estonteante invenção da
chamada propulsão “Hiper
Line”.
Quando os
pilotos de prova e os especialistas em “comando
linear”
começaram a falar do supermoderno conversor de compensação para
construção de um campo de compensação, consistindo de linhas de
campo de seis dimensões superpostas, ninguém mais se deu ao
trabalho de se expressar com exatidão a respeito destas teorias tão
complicadas. Chamavam a máquina simplesmente de um “Kalup”,
e estava dito tudo.
Amo Kalup,
o maior cientista vivo, olhou espantado para o rosto lívido do pobre
tenente, e depois disse, quase gritando:
— Que é
isto, rapaz! Fique mais à vontade.
Meio sem
jeito, ajudou Brazo Alkher a sentar-se no chão, onde continuou se
sentindo mal.
Rhodan fez
um aceno de mão para dois guardas que observavam a cena. Postaram-se
ambos diante do administrador que os penetrou com seu olhar profundo.
Todos exaltavam em geral o bom humor de Rhodan, mas desta vez estava
superando a si mesmo.
Os dois
tenentes da vigilância eram bem diferentes não só quanto à
compleição física, mas também quanto ao temperamento. Mas os
lábios de ambos tremeram do mesmo modo. O mais baixo deles tinha nos
olhos um brilho úmido. Brazo começou a se erguer, quando Rhodan
falou com a maior calma:
— Acompanhem
seu colega, meus senhores, e ofereçam a ele uma bebida bem forte.
Este jovem, a julgar por seus documentos, é o mesmo Brazo Alkher, o
maluco oficial de artilharia de bordo, que conseguiu no setor de
Orion, com as bocas-de-fogo já bem danificadas do cruzador Formosa,
deixar fora de combate duas grandes naves dos saltadores. Como ele
conseguiu isto, é ainda mistério. Mas o fato é que o Estado-Maior
da Frota Espacial não conseguiu homem melhor do que ele. O
primeiro-oficial deve proceder à cerimônia do juramento. Partiremos
dentro de duas horas.
— Será
que a gente também pode falar alguma coisa? — perguntou o
professor Kalup, com sua perigosa mansidão.
— Um
momento, por favor — pediu Rhodan, para dar atenção a um major do
Serviço de Segurança.
— O
sargento Rodzyn está no posto de vigilância, sir. Ainda deseja
falar com ele?
— Espere
um momento. Deixe-me ver o sujeito que caiu no meu caminho — disse
Rhodan apontando para Brazo, que, meio cambaleante, caminhava entre
os dois tenentes em direção à escotilha do cruzador pesado.
Rhodan
sorriu. Esfregou as costas das mãos no rosto.
— Será
que estou mesmo tão horrendo assim? Ele me chamou de porco.
Kalup caiu
numa estrondosa gargalhada, ficando seu rosto meio roxo de tanto rir.
De sua luzidia careca escorriam gotas de suor.
— É a
melhor piada da semana — disse tossindo. — Bem, eu o espero na
nave. O que houve com este sargento?
— Acho
que nada de mais. Ele descobriu um espião na seção vizinha.
A
expressão de Kalup ficou mais séria.
— Oba! E
você supõe que este espião estivesse atrás de nossa nova nave?
— Tenho
impressão de que sim. Mas o espião sofreu um acidente mortal. De
qualquer maneira, quero saber se sua atividade foi nas proximidades
da estação linear e se isto foi mero acaso ou coisa planejada. Acho
que o sargento de serviço vai me esclarecer muita coisa. Com
licença, professor, estarei de volta em meia hora.
— Não
vá cair de novo num tanque de óleo — disse o cientista brincando.
— Você parece mesmo um leitãozinho. Acho que a gente devia beijar
os pés deste tenente pelas suas palavras francas.
Rhodan
saiu sorrindo. Os ponteiros do grande relógio dos estaleiros
indicavam treze horas e vinte e dois minutos do dia 4 de março de
2.102, tempo padronizado.
O
corpanzil de Kalup desapareceu sob o bojo esférico da extraordinária
espaçonave. Ao olhar para cima, viu os enormes bocais das turbinas
de propulsão.
Kalup
ficou imóvel naquele local, absorto na longa história do
desenvolvimento daquele novo projeto da tração linear, que, há
cinqüenta e oito anos atrás, fora mencionado por especialistas do
planeta Terra, e só agora chegara a ser executado.
Fora mais
ou menos naquela época que Kalup vira a luz do mundo, quando uma
poderosa frota espacial, dirigida por inteligências não humanas,
penetrou no sistema solar.
Deu-se a
estes gigantes de um outro plano temporário o nome de druufs. Eles
já usavam nesta época a tração linear e foi a partir deles que a
Humanidade começou a sonhar com esta nova propulsão. Levou-se,
porém, 57 anos para se descobrir o segredo da superpropulsão
linear. As pesquisas de Kalup foram decisivas para isto.
Ao atingir
a pequena escotilha na parte inferior da grande esfera, continuando
suas meditações, o cientista estava convencido de que, além dos
terranos, não havia nenhuma outra raça humanóide que soubera
aproveitar a herança dos já esquecidos druufs, herança esta de um
valor inestimável.
*
* *
— Meu
irmãozinho, você tem nervos de um robô, ou melhor dizendo, você
não tem nem sistema nervoso — constatou o Tenente Stana Nolinow.
Olhava
para Brazo Alkher muito curioso, notando que o coitado estava quase
esgotado e talvez bem próximo de um desmaio, sentado e encolhido,
ali, no seu beliche.
— Pare
com isto, por favor — suplicou quase chorando. — Como poderia
saber que exatamente eu...
— Está
bem! — interrompeu Nolinow, um baixote de cabelo louro-escuro bem
eriçado. — Vou mandar lhe trazer logo a comida.
Mahaut
Sikhra deu uma risada abafada. Baixo e magro, de uma aparência
insignificante, apoiou as costas na parede da cabina e, com um
movimento rápido, desceu até Brazo.
— Chamam-me
Sik na intimidade — disse se apresentando. — Minha função aqui
é de chefe dos comandos de ação para missões especiais. Stana é
o chefe das tropas robotizadas. E, se não estou enganado, você
tomará conta da central de artilharia.
Ainda meio
acanhado, Brazo apertou a mão dos novos colegas.
— Muito
prazer! — disse ele. — Mas... um momento, como é que vou ser
empossado no cargo de artilheiro-chefe? Isto é feito em geral por um
major, no mínimo por um capitão.
Mahaut
Sikhra apenas sorriu e Brazo não compreendeu bem seu sorriso
tranqüilo.
— Aqui a
bordo da Fantasy tudo é diferente. Realmente isto não é uma nave
convencional, mas um aparelho de pesquisa e de experimentação.
A atenção
e a curiosidade de Brazo foi se despertando cada vez mais. Olhou com
mais admiração os jovens oficiais que, como tudo indicava, deviam
ter qualidades especiais.
— Uma
nave experimental? — disse Brazo com destaque. — Bem que reparei
no extraordinário reforço do rebordo do aro central.
— Menino
inteligente! — disse Nolinow com uma ponta de ironia. — Você
apenas reparou? Nós já aprendemos a ficar de boca aberta. Aqui a
bordo da Fantasy se encontra a elite política, militar e
técnico-científica do Império Solar. Todos os homens que se
tornaram notórios, pelo menos a julgar pela fama que possuem, que
adquiriram uma relativa imortalidade, baseada em pressupostos
biomédicos, marcaram um encontro aqui na Fantasy.
— Pare
com isto, já estou sentindo um vácuo no estômago.
Stana
meteu as mãos nos bolsos externos de seu uniforme e se sentou,
bocejando e estirando as pernas, ao lado de Brazo.
— Mas
isto não é tudo ainda, meu irmãozinho. Todo homem da tripulação
é, em sua categoria, um ás. Por conseguinte você também deve ser
um craque em alguma coisa, do contrário não seria convocado. Está
compreendendo melhor por que foi testado de toda maneira, mesmo da
mais absurda?
Brazo
concordou. Seus olhos castanhos tinham um brilho febril. Stana olhava
para ele com cara de gozação. O esbelto nepalês Mahaut Sikhra
estava no videofone em conversa com a central da espaçonave.
— Dentro
de uma hora, no máximo, você prestará seu juramento e vai ser
muito solene, posso lhe garantir.
— Juramento?
— Exatamente.
Guardamos os maiores segredos da nova história da Humanidade a bordo
da Fantasy, que externamente parece um cruzador pesado do tipo Terra,
mas quando você vir a seção de máquinas, vai ficar de boca
aberta.
— Já
estou há muito tempo de boca aberta — disse Brazo.
Nolinow
gostou de seu modo de falar.
— Mas a
gente vai se acostumando, colega. Já fizemos alguns vôos espaciais,
vôos estes que Perry Rhodan em sua modéstia chama de “prova de
vôo curto”. Estes tais vôos curtos variam entre três a dez mil
anos-luz. Talvez ache um exagero, não é? E em todos estes vôos, a
performance da Fantasy foi excelente. Kalup estava radiante de
alegria e o nosso venerando comandante, que você ainda vai conhecer,
ria tão alto que as portas blindadas quase que vergavam, e nosso
chefe supremo, chamado Perry Rhodan, tinha no rosto um sorriso tão
sublime, que, sem querer, a gente ficava pensando na conquista de
toda a infinita Galáxia. Quando o velho olha assim, desta maneira,
para a gente, é sinal de que há algo de novo no ar.
Stana
acenou com a cabeça, confirmando as palavras do colega, e Brazo
enxugou as mãos suadas nas pernas das calças.
— Isso
mesmo, lambuze bem a calça, temos uma lavanderia a bordo — era a
voz de Sikhra.
Brazo se
desculpou imediatamente.
— Oh!
Por favor, nada de acanhamento! — disse Stana, sempre sorrindo. —
Estamos aqui para deixar você bem familiarizado com as coisas.
— Ah!
Não sabia.
— Gentileza
da casa, meu amigo. Você é o primeiro tenente do Império Solar a
quem Rhodan serviu de empregado, carregando as malas. Eu me sinto
profundamente comovido em poder dar instruções a um cavalheiro tão
importante.
— Malandros
— disse Brazo, sorrindo.
Nolinow
piscou o olho para o nepalês.
— Acho
que vamos viver muito bem, sabendo suportar um ao outro. Falando mais
claramente, irmãozinho, a Humanidade trabalhou, no verdadeiro
sentido da palavra, cinqüenta e sete anos, para desvendar o segredo
da tração linear. Há cinqüenta e oito anos, surgiram os chamados
druufs, seres monstruosos, que, em virtude de fenômenos físicos,
vieram de um outro plano temporal, a fim de conquistar o espaço de
Einstein. Nenhum de nós era ainda nascido naquela época, mas Rhodan
já era o primeiro-administrador. Isso lhe pode dar uma idéia de
qual deve ser a idade do nosso chefe.
— Idade?
— repetiu Brazo admirado. — Dá a impressão de um desportista
bem treinado, dos seus trinta anos.
— É
isto mesmo. No entanto, é o terrano mais idoso que existe. Se você
consultar a enciclopédia “Terrânia” haverá de achar que Rhodan
foi o primeiro homem a pisar na Lua, no ano 1.971. Naquele tempo, já
devia ter mais de trinta anos. Hoje, estamos no ano 2.102. Isto já
diz tudo. Foi ele quem, a despeito da ingente resistência de
inteligências estranhas e ambiciosas, criou, ou melhor, estabeleceu
a unificação do sistema solar.
“Neste
exato momento, iniciamos a terceira fase da História da Humanidade.
Estamos em vias de transformar em realidade os segredos conquistados
da astronáutica dos druufs, há cinqüenta e oito anos. Todo o
complexo mecanismo da propulsão linear já está pronto para ser
aplicado, ao menos neste cruzador pesado, que servirá de protótipo
para próxima construção em série. Você terá a honra de,
juntamente conosco, poder cooperar decisivamente no desenvolvimento
do poderio solar, ou...?”
— ...ou
o quê?
— ...ou
junto com a Fantasy ser uma vítima do espaço infinito — interveio
Sik. — Será que fui bem claro?
— Um
tanto confuso, acho eu.
— Ele
diz a verdade, Sik — constatou Nolinow um tanto preocupado. —
Você vai continuar?
— Prossiga
com seu talento retórico.
Stana fez
um gesto confirmativo. Observava Brazo com um princípio de
inquietação.
— Pois
bem, não há mais muita coisa a dizer, meu irmão, vamos partir
dentro de meia hora. Para onde vamos, desta vez, ninguém sabe. No
momento, a política espacial está calma, satisfatória. Os
comerciantes das galáxias, os saltadores, estão mais acomodados,
respeitando o poderio do Império Solar. Quanto ao Império Arcônida,
parece que Atlan é senhor absoluto do imenso império de centenas de
povos diferentes. A invasão dos druufs já caiu no esquecimento e
nossos colonizadores ocupam e exploram paulatinamente todos os
planetas habitáveis, isto é, onde haja oxigênio, nos setores
espaciais mais próximos do sistema solar.
“Há
cinqüenta e sete anos, iniciou-se a exploração da Lua. Hoje, o
satélite da Terra se assemelha a um imenso formigueiro, com as
enormes escavações subterrâneas para estaleiros de astronáutica,
instalações industriais, com grandes linhas de fabricação
automatizada. Mesmo as gigantescas espaçonaves são produzidas em
série. Desta forma, conseguimos agora o que os arcônidas possuíam
já há alguns milênios. Transformamos este grande corpo celeste
numa base da nossa frota espacial, para assim podermos enfrentar, sem
nenhum dano para a população civil, os hóspedes indesejáveis e
estrangeiros ávidos de uma conquista fácil.
“A Lua
passou a ser um posto avançado da defesa terrana. Seguindo o modelo
do Grande Império de Árcon, o Império Solar é hoje uma
organização estatal, cuja segurança repousa no seu poderio técnico
e militar. Afirma-se com conhecimento de causa que a capacidade de
construção astronáutica dos estaleiros da Lua se equipara hoje à
do terceiro planeta de Árcon. Mais de cem milhões de terranos de
excelente formação estão preparados para, em caso de necessidade,
provar nossa absoluta independência dos demais povos do espaço.
Você está me compreendendo?”
A resposta
de Brazo foi muito positiva.
— Este
retrospecto histórico é tão interessante como o conteúdo de suas
meias. Sei muito bem que dentro delas estão seus pés...
Sikhra riu
muito e Nolinow se levantou, soltando uma imprecação.
— Está
bem! Tinha que ser assim, não é? Ordem é ordem. De qualquer
maneira, você vai viver o início da terceira fase da História.
Agora, se quiser aprender alguma coisa sobre propulsão linear, por
favor, procure gente mais competente. Só posso dizer a você que o
tempo das transições já passou, pelo menos para a Fantasy. Até
hoje, conseguíamos vencer o hiperespaço por complicados e violentos
saltos executados pelo processo dos pulos da lebre. Ia relativamente
bem, mas os dificílimos cálculos necessários para cada transição,
a conseqüente desmaterialização e os muitos erros que podiam
ocorrer faziam sentir que não era a solução perfeita.
“A bordo
da Fantasy você vai fazer uma viagem espacial com velocidade muito
superior à da luz. Voamos com visão ótica para a estrela ou
planeta visado. Não se pula mais, no estrito sentido da palavra,
como antigamente, quando não se podia ver nem ouvir nada. Agora a
gente pode ver tudo o que quer. Mergulhamos no assim chamado
semi-espaço. O campo de compensação de Kalup cobre,
principalmente, as constantes da quinta dimensão que entram mais em
ação, sendo que, com isso, se evita um penetrar direto no
hiperespaço. Por este motivo não há necessidade de nenhuma
desmaterialização, como nas velhas naves de transição.
“Voamos
num setor do semi-espaço, que só pode ser explicado pela
Matemática, localizado entre a quinta e a quarta dimensão, onde
ambas as influências energéticas perdem toda a eficácia. Por isto,
um corpo que por ali passe se torna uma parte integrante deste
semi-espaço, onde, naturalmente, as leis de Einstein perdem sua
validade.
“Talvez,
se possa obter velocidade milhões e milhões de vezes mais elevada
do que a velocidade da luz, no vôo linear direto. Mas Rhodan não
quis ainda chegar a tanto. Com este vôo reto, não se produz nenhuma
onda frontal de algum vulto, nem choque estrutural, como acontecia
com as espaçonaves que rompiam violentamente a muralha do
tempo-espaço. As vantagens bélicas são mais que evidentes! Quem
possuir a propulsão linear, está automaticamente acima das demais
inteligências da Via Láctea. Eu... você já está ficando pálido
de novo?”
Brazo
fechara os olhos e sua respiração estava mais difícil. Mesmo com
Nolinow se esforçando para explicar estas coisas tão inovadoras e
sensacionais de maneira simples e entremeadas de piadinhas, Brazo
sentiu-lhes a seriedade e o significado profundo.
Quando
abriu os olhos de novo, os jovens oficiais estavam bem perto dele. O
rosto largo de Nolinow estava transfigurado, não ria mais.
— Isto é
um abacaxi, não é verdade? Você vai compreender com o tempo —
disse ele. — Talvez agora você justifique o cuidado do comandante
nos recomendando que o preparássemos. Jefe Claudrin é um bom
psicólogo, se bem que à primeira vista dê a impressão de um
tanque de guerra descontrolado, que ameaça destruir tudo que estiver
na frente. Ele nasceu em Epsal, um dos primeiros homens do programa
de adaptação de 2.045. Não perca o controle quando ele vier para
seu lado. É tudo que lhe posso dizer. Tem alguma pergunta a fazer?
Brazo não
queria saber de mais informações. Sik voltou do videofone e deu uma
explicação. Momentos depois, penetrou na cabina um robô de
serviço, com o sorriso estereotipado.
— Este é
o ômega-185 — explicou Stana. — Está encarregado do seu
bem-estar físico. Venho apanhá-lo aqui em meia hora.
Antes de
Sikhra deixar a cabina, ainda se dirigiu a Brazo.
— Você
naturalmente pode desistir do vôo, ninguém vai obrigá-lo a tomar
parte nesta missão. O negócio é perigoso. Pense bem. Depois de
você prestar o juramento...!
O nepalês
interrompeu bruscamente sua frase, preferindo calar. Àquela altura,
Brazo sabia exatamente que, por motivo nenhum deste mundo, haveria de
desistir, mesmo se lhe pintassem os futuros perigos, com as cores
mais exageradas.
Completamente
distraído, disse ao robô:
— Quero
tomar uma ducha. Minha arma de serviço, eu mesmo a limpo.
Trinta
minutos mais tarde, Brazo ostentava um uniforme verde-claro que lhe
mandara o oficial camareiro.
3
Tinha
estranhamente as mesmas dimensões, tanto na altura como na largura.
Um cofre-forte médio não seria muito diferente dele. O Major Jefe
Claudrin, na largura do tórax, correspondia a quatro homens bem
desenvolvidos. Naturalmente, possuía uma musculatura fenomenal.
Nascido e
crescido num planeta de 2,1 gravos, quando ingressou na Frota Solar
sentia muita dificuldade em se mover num ambiente de gravidade de
mais ou menos um gravo. Quando o nativo de Epsal notou que sua
musculatura começou a se tornar flácida sob a pressão de apenas um
gravo, resolveu trazer, dia e noite, um microgravitador, fabricado
especialmente, que lhe fornecia uma pressão duas vezes maior. Desta
forma, sem medir sacrifícios, conseguiu conservar sua estupenda
compleição física.
O maior
prazer de Jefe era quebrar, “por
acaso”,
cadeiras e bancos normais. Seus braços se assemelhavam a bielas de
tamanho exagerado e suas mãos eram respeitadas. Os tripulantes da
Fantasy evitavam de cumprimentar o colosso cúbico, pois sempre saíam
perdendo. Antes de Jefe perceber a periculosidade de suas mãos,
houve alguns incidentes desagradáveis.
Resumindo,
o comandante do cruzador de reconhecimento Fantasy parecia um gigante
cortado ao meio, cuja cabeçorra com cabelos cor de fogo se assentava
num senhor pescoço, tão largo e cheio de músculos que não havia
no almoxarifado da Frota Espacial o número do seu colarinho. Tinha
de ser confeccionado sob medida.
Como
comandante e galatonauta, Claudrin era inquestionavelmente um ás da
Frota Solar. Vinha comandando a super-moderna Fantasy desde o
primeiro vôo experimental e o fazia com garra.
Perry
Rhodan ouviu o ronco tonitruante normal do conjunto de propulsão,
cujas partículas de alta compressão e, com isso, de elevada força
motriz, davam ao pesado cruzador uma aceleração de quinhentos
quilômetros por segundo. As máquinas do novo gigante do espaço
funcionavam com a mesma perfeição e segurança como em dez mil
outras grandes naves da Frota Solar. Utilizando modelos arcônidas,
porém, muito mais aperfeiçoada em detalhes de vital importância, a
Fantasy representava, no momento, o clímax da neotecnologia. Ninguém
lhe podia apontar um senão. Parecia mesmo sem sentido experimentar
ainda mais seus motores.
No
entanto, Rhodan pessoalmente controlava com todo rigor os pequenos
painéis de instrumentos no rebordo central. Não se percebia nada de
anormal, a não ser uma leve cintilação azulada de aquecidas
camadas de ar que se levantavam. Devido à construção compacta da
Fantasy, bastavam-lhe seis conversores no aro de rebordo. Muito maior
espaço ocupavam, porém, os novíssimos motores de propulsão que
proporcionavam uma velocidade superior à da luz. Tais motores não
deveriam ser chamados de motores ou de máquina de propulsão, no
sentido estrito da palavra.
O
compensador Kalup tinha exclusivamente a função de abrigar a nave
num campo esférico, que agia refletindo ou absorvendo as influências
energéticas da quarta ou quinta dimensão.
Criou-se
desta forma, dentro do campo esférico, o estado instável de zonas
de libração, estado este que anularia a validade das leis do
hiperespaço, bem como das leis do Universo de Einstein.
As
velocidades alcançadas dentro do semi-espaço, com o sistema de
propulsão normal, que mal atingem a velocidade da luz, oscilam,
conforme a intensidade energética do campo de compensação de
Kalup, entre dez a muitos milhões de vezes mais do que a velocidade
da luz. Um dos pontos do programa de experimentação era exatamente
constatar os limites desta oscilação.
Até o
presente momento tinha-se como certo que o processo dependia de dois
fatores. Primeiro: as variações nas ondas de impulso, na zona de
influência das librações, eram de origem natural. Segundo: sua
velocidade podia ser, por sua vez, enormemente alterada pela variação
da carga no campo de Kalup — e isto veio provar mais uma vez que a
eliminação das leis físicas e das do Universo de Einstein era um
problema que envolvia conteúdo energético no campo kalupiano.
Quanto melhor for o campo de proteção, quanto mais o corpo da
Fantasy se adaptar à zona de semi-espaço, tanto mais facilmente a
nave se tornará uma parte do setor artificial entre as dimensões.
Para se
poder atingir este estado ideal, o cruzador foi equipado com um
quinto conjunto de propulsão, ainda nos estaleiros, o que lhe
possibilitaria uma produção adicional de vinte mil megawatts.
Assim,
Rhodan esperava atingir o ponto almejado, ou seja: a compensação
total das constantes da quarta e da quinta dimensão.
O zunido
dos conjuntos propulsores da faixa de rebordo foi se reduzindo.
Rhodan despertou de suas divagações. Os problemas relacionados com
o vôo linear só se resolverão com experiências práticas e não
com teoremas ainda discutíveis.
A
cintilação nos painéis de controle cessou e, num último bramido
abafado, desligaram-se os conversores de impulsos. Em queda livre,
com a metade da velocidade da luz, a Fantasy percorria a órbita de
Marte. Terra e Lua há muito estavam sepultadas nas trevas do espaço.
Nos painéis da grande nave viam-se apenas as estrelas da Via Láctea.
Com a mão
fechada, Perry Rhodan deu uma leve pancada num interruptor, e, no
mesmo instante, todos os cinturões de segurança, obrigatórios, a
bordo da Fantasy, se abriram. Reginald Bell, com sua mesma aparência
de 131 anos atrás, postara-se às costas do comandante da expedição.
Contemplando todos os instrumentos do painel, seu rosto irradiava
tranqüilidade.
Um pouco
mais à direita, estava a enorme poltrona especial do comandante, que
não deu maior atenção aos dois homens à sua esquerda. Sua missão
era controlar com todo rigor e a cada segundo o comportamento global
da nova maravilha. Rhodan olhou para o outro lado e fixou-se em
Claudrin, cujos ombros espadaúdos ultrapassavam um pouco o espaldar
da poltrona.
— Tudo
bem, Jefe?
O homem de
Epsal virou a cabeça e a pele morena de seu rosto se contraiu num
sorriso.
— Como
sempre, sir — reboou sua voz grave. — Quer fazer alguma
experiência? — continuou com a mesma voz cheia.
Rhodan
confirmou com a cabeça. Depois de um demorado olhar nos
instrumentos, levantou-se da poltrona. Bell ainda estava em pé e
parado. Seu rosto coberto de sardas se fechava naquele momento numa
seriedade pouco comum a seu temperamento brincalhão. Toda a equipe
da sala de comando olhava atentamente para Rhodan e seu
lugar-tenente. O administrador do Império Solar passou por entre as
poltronas e os diversos controles manuais. A central de comando da
Fantasy estava superlotada de instrumentos.
— Alguém
tem algum palpite? — perguntou ele, sem delongas.
Bell
fechou os olhos por uns instantes. Ao abri-los de novo, Rhodan já
estava na sua frente. E os olhares dos dois grandes amigos se
cruzaram.
— Palpites?
— repetiu Bell bem silabado. — Não, acho que não tenho nenhum
palpite. Esta casca de noz, o máximo que pode fazer é explodir,
nada mais.
Os lábios
de Rhodan se contraíram num sorriso irônico, mas na sua voz havia
muito sentimento, qualquer coisa de saudade.
— Oba!
Chama de casca de noz um cruzador pesado, de duzentos metros de
diâmetro? Interessante, acho que posso lhe dizer o que está se
passando com você.
— Ah!
Que nada!
Rhodan
continuou com sua voz tranqüila e muito pensativo:
— Há
cinqüenta e sete anos, mais ou menos nesta época do ano, morreu o
arcônida Crest. É pena que não pôde mais participar dos sucessos
da Humanidade. Você estava pensando nele, não?
Fazendo
que sim com a cabeça, Bell interferiu:
— Lembro-me,
como se fosse hoje, do dia em que encontramos na Lua sua espaçonave
de reconhecimento escangalhada no solo. Isto deve ter sido há mais
de 130 anos, num mês de junho. Algumas semanas depois, sentíamo-nos
orgulhosos e invencíveis, somente porque estávamos de posse de uma
nave auxiliar de origem arcônida. Depois veio a unificação dos
povos da Terra e logo a seguir nossos primeiros contatos com
inteligências extraterrenas. Finalmente surgiu Atlan e pouco depois
veio a invasão dos druufs. O cérebro robotizado de Árcon foi
desligado, e Atlan tornou-se o imperador do Grande Império Arcônida.
De lá para cá, passaram-se cinqüenta e sete anos e agora começa a
terceira fase da História da Humanidade...
Com um
gesto amplo, abrindo os braços, Bell fez uma pausa.
— Quando
olho agora, aqui em volta de mim, vêm-me à cabeça estranhas
comparações. Crest e Thora chegaram à Lua há 131 anos. Naquela
época, nossos primitivos foguetes nos enchiam de orgulho. Agora
partimos para pesquisas espaciais e os nossos colonizadores se
deparam com seres estranhos nos confins do Universo. A Terra se
tornou, em tão pouco tempo, uma potência de primeira grandeza. Qual
será o destino desta evolução vertiginosa desta nova potência da
Via Láctea? Quando e quem será que nos vai demarcar os limites
desta expansão incrível? Já ultrapassamos e quase que já
substituímos os degenerados arcônidas, de quem muito herdamos. O
imperador de Árcon, Atlan, vê esta nossa expansão com um olho
chorando e com o outro rindo. Compreende naturalmente que nossa
penetração constante em sua esfera de ação é mera conseqüência
do incrível progresso da Terra. Não é de se estranhar que
atualmente um bom número de terranos ocupem cargos importantes na
administração de Árcon. Posso lhe dizer mais uma coisa?
Bell olhou
para cima, vendo o rosto de Rhodan mergulhado na penumbra que reinava
na sala de comando, que, naquela hora, tinha como iluminação apenas
as pequenas luzes coloridas dos vários instrumentos. O rosto de
Rhodan recebia os reflexos multicores, dando a impressão de que um
poder oculto pretendia retalhar a face do grande líder da
Humanidade.
— Mas, o
que você quer dizer mesmo, Bell?
— Não é
nada de extraordinário. Eu penso apenas que estamos tendo e vamos
ter ainda um longo período de calma. Os saltadores só nos atacam de
vez em quando e... pelas costas. Parece mesmo que, no momento, não
há ninguém que possa nos ameaçar seriamente.
— Não;
há muitas inteligências no Universo que estão interessadas em nos
atacar. O que as impede de agir é nossa aliança com o Grande
Império de Árcon.
Bell fez
um aceno com a cabeça, concordando.
— Árcon
é um reino muito confuso. Atlan nos assusta a todo momento,
chamando-nos para sufocar no nascedouro as constantes revoltas de
seus povos. Mas Árcon não é toda a Galáxia. Conhecemos uma
pequena parte dela. O Império Arcônida, que no começo nos parecia
quase infinito, domina apenas um pontinho da Via Láctea. As
dimensões se alteraram muito nestes últimos anos... O que será que
vamos encontrar no centro da Via Láctea, lá onde ninguém ainda
penetrou?
— Novamente
suposições.
— Talvez
— disse Bell pensativo. — Este vôo me faz lembrar muito a viagem
de Crest e Thora, que saíram à procura da imortalidade. Em vez de
encontrarem a vida eterna, encontraram a Terra e nos trouxeram a
tecnologia arcônida. Agora, faço a pergunta: O que vamos descobrir
nesta viagem, ou melhor, nesta expedição?
Acendeu-se
uma tela, aparecendo o rosto do primeiro-oficial, o Major Hunt
Krefenbac.
— Estamos
à sua espera, sir.
— Já
estou indo — disse Rhodan ao microfone, e voltando-se para Bell,
falou em voz baixa: — Não assuste o pessoal assim. Você sabe tão
bem como eu, que existem seres inteligentes que nós não podemos
enfrentar assim, de uma hora para outra. E mesmo os saltadores, não
podemos menosprezar seu poderio. A nossa sorte é que estes nômades
do espaço talvez nunca consigam unir suas forças, devido às
divergências pessoais de seus chefes.
Afastando-se
dali, Bell se dirigiu para a escotilha blindada II. Rhodan acenou
para o comandante do outro lado, que naquele momento se levantara de
sua poltrona especial. Pesado como um rochedo, estava ele diante de
Rhodan. O administrador era um pouco mais alto que ele.
— Jefe,
continuaremos na mesma rota, não acelere mais do que isto. Só um
pouco antes da órbita de Júpiter, novas ordens serão dadas.
Enquanto isto, vá procurando no meio deste formigueiro de corpos
celestes a estrela vermelha e esqueça também tudo que aprendeu na
Academia Espacial sobre hipersaltos ou transições. Temos que voar
agora vendo o que está à nossa frente. Acho que só esta vantagem
da propulsão linear compensa todos os esforços que fizemos para sua
concretização. Daqui para frente, não faremos os complicadíssimos
cálculos para as transições. Voando nesta velocidade fantástica,
onde iríamos parar se houvesse apenas um pequeno erro de cálculo?
Claudrin,
de repente, virou para trás. Um radiotelegrafista, que “por
acaso”
estava parado perto, tomou posição de sentido.
— Qual é
o bobo que está xeretando por aqui? — perguntou o homem de Epsal,
com seu vozeirão cavernoso.
O jovem
telegrafista saiu correndo e Claudrin, contente, acariciou o
cavanhaque.
Rhodan
tossiu, levando a mão à boca e resolveu também deixar a sala de
comando.
— Acho
que ainda me verei obrigado a botar uma mordaça nesse sujeito —
disse Bell, um tanto irritado. — Esta voz berrante me faz mal aos
ouvidos.
*
* *
Toda a
tripulação da Fantasy fora convocada para o salão dos oficiais.
Brazo Alkher ainda não se sentia à vontade no meio destes homens
dos mais diferentes setores da Frota Espacial selecionados a dedo.
Eram-lhe apresentados constantemente outros homens, entre eles
personalidades de maior relevo, que conhecia apenas de nome.
Professor
Kalup, o matemático considerado a maior capacidade da Terra, Riebsam
e Gorl Nkolate, a sumidade médica da África, especialista em
cirurgia de adaptação, eram apenas alguns dos grandes nomes que
integravam a tripulação da Fantasy.
Além de
toda esta gente dos altos coturnos, havia outras pessoas que Brazo —
como muitos milhares de outros tenentes da Frota Espacial — olhava
com um misto de medo e de respeito. Eram os membros do lendário
Corpo de Mutantes, que, conforme todos sabiam, tiveram uma atuação
preponderante na formação do Império Solar. Até então, Brazo
nunca se defrontara com um deles.
Podia-se
ver a figura alongada e magra de Hunt Krefenbac junto dos registros
automatizados de alimentação. Brazo já percebera em conversa com
os colegas que Krefenbac não era tão vagaroso como parecia, embora,
no momento, seu rosto pudesse dar esta impressão. Aliás, a
tripulação da Fantasy parecia mesmo composta de pessoas dotadas de
inequívocas qualidades pessoais.
Neste
momento, entrou no salão dos oficiais o Tenente Mahaut Sikhra, em
companhia de um homem de aparência quase insignificante, portando o
emblema de engenheiro operacional. O singular neste engenheiro e
capitão do cruzador Fantasy era que seu tórax apresentava uma
exagerada saliência para frente, deixando supor que seus pulmões
eram duas ou três vezes maiores do que os de um homem normal.
— Apresento-lhe
o Capitão Slide Narco, nascido no planeta Marte — disse o tenente,
em tom mais baixo. — Falam que este marciano, com seus pulmões
descomunais, é capaz de encher num só sopro um balão do tamanho de
um arranha-céu, o que é, naturalmente, um belo exagero.
— Também
acho — confirmou Brazo. Sik se abriu num largo sorriso. Alguns dos
oficiais do setor técnico, ali reunidos, se entreolharam com ar de
zombaria. Realmente, o singular marciano parecia um pateta a bordo.
Brazo
mordeu os lábios para dominar o riso. Olhou em volta para disfarçar
e antes que achasse palavras adequadas, aconteceu algo que o deixou
desnorteado. Bem rente dele, o ar começou a tremeluzir e, no mesmo
instante, do meio deste estranho fenômeno luminoso, surgiu uma
figura estranha, de pouco mais de um metro, portando o uniforme da
Frota Espacial. Não era nenhuma alucinação.
Gucky
viera apenas para dar uma olhada e curioso começou a detectar os
impulsos mentais do subitamente lívido oficial Brazo. Os sentimentos
paternais de Gucky foram fundamente atingidos, ao ver o jovem tomar
posição de sentido, com o máximo de respeito, se bem que de início
ele se assustara, dando um pulo para trás e olhando decepcionado
para o focinho pontudo de rato.
“Fantástico!
Este deve ser o elemento mais sensacional do Corpo de Mutantes...
Parece um tipo muito simpático, um pouco cômico, mas formidável e
de olhos muito inteligentes.”
Gucky não
quis prosseguir na leitura dos pensamentos do recém-chegado a bordo
da Fantasy. Irradiando imensa satisfação pelos bons conceitos a seu
respeito, lidos nos pensamentos de Brazo, Gucky se apoiou nas patas
traseiras e, erguendo o corpo, estendeu a mão em cumprimento. Os
olhos de Brazo se arregalaram ao ver o dente roedor, bem saliente, do
intrépido mutante.
— Olá!
Bem-vindo a bordo! — disse Gucky, em tom sibilante. — Você é
Brazo Alkher, não é?
— Sim...
perfeitamente, senhor — gaguejou o jovem.
Gucky,
triunfante, deu uma olhada em volta. Todo mundo ouvira que ele fora
tratado por “Senhor”.
— Gucky,
chame-me simplesmente de Gucky — disse benévolo, nadando num
oceano de contentamento. — Para você, estou sempre às ordens.
Agora, não se deixe levar por estes malandros, está entendendo?
— Por
quem, senhor?
Gucky riu
com gosto. Seus olhos brilhavam de felicidade à luz indireta dos
tubos fluorescentes embutidos.
— Dos
malandros. Daqueles ali.
Sua mão
apontou para os homens em volta.
— Se não
o deixarem em paz, venha falar comigo que eu dou um jeito neles.
Ainda meio
confuso, apertou a mão daquele ser inteligente extraterreno.
Sentiu-se meio sem jeito, ao perceber a longa cauda em forma de
concha saindo para fora do uniforme. Enxugou o suor do rosto, depois
que o pequeno animal deu-lhe as costas. Sik tapava e apertava a boca
com a mão, enquanto seus olhos úmidos quase saltavam das órbitas.
Depois de esfregar as pálpebras com o indicador, pigarreou
fortemente.
— Saia
do caminho, seu anão! — gritou Gucky para um tripulante de
estatura avantajada.
— Rapazes!
— disse Brazo extenuado — isto foi realidade ou eu estava
sonhando de olhos abertos?
Sik
sorriu.
— Você
ainda vai conhecê-lo melhor. Dizem que é capaz de liquidar mil
homens ao mesmo tempo, sem uso de qualquer tipo de arma.
— Ah!
Essa não!
— É
sério, não estou brincando não. Ele é teleportador, telecineta e
ainda de sobra telepata. Você não vai acreditar como ele nestes
poucos segundos virou você pelo avesso. Estou conven..., oba, o
chefe está chegando, calma.
Antes que
Rhodan penetrasse no salão dos oficiais, captou um chamado
telepático de Gucky. O rato-castor, neste momento, se encontrava no
balcão que circundava uma parte do salão.
— Dei
uma olhada nele — continuou Gucky. — Tem um medo pueril de mim,
imagine.
— Extraordinário
— emitiu Rhodan, utilizando-se de seus fracos dons de telepatia.
Gucky o
entendeu perfeitamente.
— Não o
maltrate, grande chefe, por favor! O coitado ficou muito
impressionado comigo.
— Eu já
disse, extraordinário.
— Vamos
deixar isto de lado. Fiz apenas um teste rápido com ele. Gostaria de
dizer que está tudo cem por cento. Naturalmente, sente-se um tanto
inquieto devido à nova situação. Fora disso, vai tudo bem.
— Ótimo,
muito obrigado, Gucky. Rhodan interrompeu a comunicação telepática.
O chefe do Corpo de Mutantes, John Marshall, “ouviu”
toda esta conversa. Seu olhar perscrutante demorou-se por uns
instantes no novo oficial da artilharia, antes de sussurrar nos
ouvidos de Rhodan:
— Dá
uma ótima impressão, espírito jovem e sadio, sir.
— Não
há dúvida, John, conheço bem sua ficha. A bordo da Formosa, o
rapaz realizou proezas que fizeram Bell empalidecer. Isto quer dizer
muita coisa, e você não pode negar.
Marshall
tentou esconder o sorriso, enquanto correspondia aos cumprimentos dos
tripulantes da Fantasy, ali agrupados. Brazo Alkher ameaçava se
dissolver numa onda de respeito e admiração, quando Rhodan penetrou
no balcão do grande salão, puxando para junto de si o braço
articulado do microfone. Era este exatamente o homem que havia
ajudado Brazo a carregar as malas. Agora, porém, o administrador
envergava o sóbrio mas distinto uniforme da Força Espacial. Os
emblemas da hierarquia não tinham nada de bombástico nem de
espalhafatoso, mas eram facilmente reconhecíveis.
— Seremos
breves — soou a voz de Rhodan nos alto-falantes. — Mandei
convocá-los para este salão, a fim de informá-los do nosso vôo.
Trata-se desta vez de um teste de longo percurso. O nosso destino é
um grande sol vermelho nos confins da parte central da Galáxia, sol
este que ainda não tem nome. A distância deste sol ou estrela
vermelha, indicada nos catálogos, de quarenta e dois mil cento e
oitenta anos-luz, talvez não esteja exata. Com uma espaçonave
convencional, necessitaríamos de, pelo menos, dez transições,
tendo que executar os terríveis cálculos de distância de cada
salto, ainda sob a incerteza de não atingir o alvo com exatidão.
Gastaríamos para isto pelo menos uma semana de viagem.
“Tenho
intenção de transformar em realidade a maior velocidade já obtida
teoricamente. Assim sendo, a Fantasy vai rasgar o semi-espaço com
uma velocidade de vinte e cinco milhões de vezes superior à
velocidade da luz. Este valor deve ser visto de uma maneira sumamente
relativa e dependente de certas condições. Não se assustem, pois,
com a cifra gigantesca. O decisivo não é o conceito relativo sobre
uma escala de velocidade a ser mantida, mas tão-somente o período
de tempo real de que carecemos para perfazer uma distância mais ou
menos preestabelecida. Todo o resto é de somenos importância.
“As
espaçonaves de propulsão linear abrem assim novos horizontes para
viagens no hiperespaço. É, pois, necessário nos familiarizarmos
com conceitos novos, embora assustadores.”
Rhodan
apalpou o bolso da jaqueta e dele tirou uns papéis. Seu olhar sereno
perscrutou os trezentos membros da tripulação do cruzador de
experiência. Eram olhares atentos e fisionomias tensas de homens
escolhidos a dedo.
— O
outro ponto que merece uma explicação, diz respeito à exatidão do
nosso destino — continuou Rhodan. — Como nos vôos experimentais
anteriores, estaremos em condições de ver a estrela do nosso
objetivo à base do sistema paraótico. Voando 25 milhões de vezes
mais rápido que a luz, haveremos de atingir a estrela vermelha em
apenas quatorze horas e meia. Conforme todas as experiências feitas
até hoje, não haverá necessidade de prorrogação destas quatorze
horas, excluindo o caso de a proteção total do campo kalupiano
apresentar alguma surpresa, o que, aliás, até hoje nunca se deu.
Não podemos ter uma certeza absoluta, mas, de qualquer forma,
estamos preparados para tudo.
“Uma
coisa está totalmente fora de dúvida: os druufs, que não são
seres humanos e de quem herdamos o novo tipo de propulsão, atingiram
sempre seus objetivos com absoluta precisão. Sabemos, além disso,
através de nossos agentes cósmicos, que nos vôos de longo percurso
dos druufs jamais ocorreram dilatações de prazo devido ao tempo
relativo. Tenho a certeza de que manteremos nossa medição de tempo,
sem que com isso possam surgir fenômenos desagradáveis.
“Se
surgirem fatores de distorção, haveremos de enfrentá-los
normalmente. Isto seria tudo sobre a parte puramente técnica da
Operação Estrela do Destino. Tenente Alkher...!”
Brazo
estremeceu de susto ao ouvir seu nome dos lábios do administrador do
Império Solar. Perplexo, se deu conta de que todos os olhares se
convergiam para ele.
— Pronto,
sir! — respondeu com voz trêmula.
— Você
já inspecionou a central de artilharia da Fantasy?
— Perfeitamente,
sir.
— Está
claro a respeito de tudo?
— Acho
que sim, sir. Não é propriamente diferente das centrais das
espaçonaves tradicionais.
— Ótimo,
muito obrigado! Prepare-se para, se for necessário, poder agir com a
maior presteza. A Fantasy não é propriamente uma belonave nem um
supercouraçado, nem mesmo um cruzador pesado no sentido estrito da
palavra. Uma boa parte dos armamentos teve de ser suprimida para dar
lugar a outros mecanismos. Somos realmente uma usina energética
voando pelo espaço. Os poucos canhões de que dispomos devem pois
estar em condições de fazer fogo com extrema rapidez e pontaria
perfeita, para não termos surpresas desagradáveis. Tome todas as
providências neste sentido e não se preocupe com outras coisas.
— Certo,
sir.
Rhodan pôs
suas anotações no bolso e, olhando para o relógio, disse
determinadamente:
— Em
meia hora atingiremos a órbita de Júpiter. De lá passaremos ao
semi-espaço, acelerando rumo ao nosso destino. Vistam o uniforme
espacial e deixem ligados os aparelhos de intercomunicação.
Afivelem bem firme o cinturão de segurança. Esperamos já haver
eliminado as causas das vibrações celulares, observadas até então.
Porém não temos plena certeza disso. Não se esqueçam de que estão
a bordo de um protótipo. A questão é de tudo ou nada, sendo que
temos que arriscar tudo para conseguir nosso objetivo.
Antes de
se retirar do salão dos oficiais, Rhodan cumprimentou os presentes
com um sorriso afável. Por uns segundos, um pesado silêncio cobriu
todo o recinto. Depois, as vozes se entrelaçaram. Formaram-se então
grupos e grupinhos, onde o assunto devia ser um só.
— Puxa!
Mais de quarenta e dois mil anos-luz...! É dose para leão, é
espaço que não acaba mais — disse Stana Nolinow perplexo. —
Desta vez, o negócio é para valer. Como é que você se sente, meu
irmãozinho?
Brazo
tinha um sorriso esquisito estampado no rosto. Como que alheio a
tudo, olhava absorto para o lugar onde estivera Rhodan, há poucos
instantes.
4
Aquilo
tudo parecia mesmo um pesadelo, mentalmente um tanto obscuro e
materialmente inacessível às mãos humanas.
A manobra
fora impecável. Depois que se instalou o campo de compensação
kalupiano e se efetuou a conversão estrutural das ondas de impulso,
tinha-se a impressão de que nada de anormal acontecera a bordo da
nave experimental. As dores alucinantes habituais deixaram de existir
— eram coisas do passado.
Nada
mudara, nenhum corpo se dissolvera. A visão ótica do objetivo, que
estava na linha reta do protótipo Fantasy, era absolutamente
perfeita. Somente nas regiões em que a duração dos raios de
ressonância paraestáveis se tornava mais curta é que desapareciam
os contornos da parte conhecida da Via Láctea.
Na tela
central, como se fosse um grãozinho de areia, cintilava a estrela
vermelha, o destino daquela incrível expedição.
Voava-se
com o objetivo à vista, sem os complicados cálculos das transições
e os estudos meticulosos dos ângulos. A tremenda velocidade da
Fantasy tornava fácil a correção do pequeno desvio provocado pelo
movimento de translação do sol vermelho.
Bem abaixo
do posto de comando, estrugia o conjunto de propulsão kalupiano.
Apenas alguns minutos após o início da aceleração das zonas de
libração, havia-se constatado que o conversor de compensação,
apesar da altíssima solicitação a que era forçado, estava ainda
muito longe de qualquer sobrecarga. Duzentos e vinte mil megawatts
não era o suficiente para “afogar”
o monstro devorador de energia.
As
máquinas calculadoras trabalhavam ininterruptamente no Departamento
de Matemática. A compressão energética do campo kalupiano
aumentara apenas 5%, comparada a experiências de vôos anteriores,
se bem que a usina adicional montada na Fantasy continuava fornecendo
vinte mil megawatts a mais. Depois de um período de aceleração de
somente oito minutos no âmbito do semi-espaço instável, produzido
artificialmente, o cruzador experimental chegou à maior velocidade
possível, atingindo com as ondas de impulso a fantástica velocidade
de vinte e cinco milhões de vezes a velocidade da luz. Por outro
lado, tinha-se como certo e comprovado que esta alucinante velocidade
não poderia ser ultrapassada com nenhum recurso técnico, caso não
se conseguisse atingir a necessária proteção total das influências
energéticas quadridimensionais.
A visão
para o espaço normal era indecisa. Não se via outra coisa a não
ser formações luminosas de formas estratificadas, envoltas na
penumbra. Claridade mesmo existia apenas no setor dos raios
paraóticos refletidos. Com a distância que aumentava, ampliava-se
também o campo visual. Os primeiros resultados das medições
mostravam que o manto ou campo de proteção, baseado no princípio
kalupiano, mantinha sua estabilidade, embora a compressão energética
diminuísse com a crescente dilatação. A estrela vermelha, destino
daquela fantástica jornada, estrela esta que estava no foco do
rastreamento paraótico, surgia também nítida na tela panorâmica.
Em virtude
dos muitos afazeres a bordo da Fantasy, ninguém tinha propriamente
consciência exata de que a nave protótipo se encontrava num setor
irreal do espaço, fato este explicável somente pelos cálculos
matemáticos. As constantes da quinta dimensão eram absorvidas
plenamente pelo campo kalupiano. Realmente, não havia nenhum indício
de desmaterialização. Quando se penetrava no hiperespaço os
sintomas eram por demais notórios para se poder constatar que a
regularidade hiperfísica, ou simplesmente as leis da hiperfísica,
não possuíam nenhuma validade na zona de libração.
Rhodan
ligou o segundo posto de controle. Em caso de emergência poderia
assumir o comando manual da espaçonave. Jefe Claudrin estava sentado
tão calmo e descontraído na sua poltrona especial, que Rhodan aos
poucos começou a compartilhar daquela serenidade. O primeiro quarto
de hora de imersão no hiperespaço fora um tanto turbulento. Já
agora, os comunicados vinham sem afobação e não havia mais aquela
tensão nos olhos e nos gestos dos tripulantes.
Rhodan
chegou a apalpar com atenção seu corpo. Nada se alterara.
— Você
pensou que ia poder apalpar seu estômago por dentro? — perguntou
Bell, em tom de brincadeira.
Os olhos
do gorducho, de um azul-claro, irradiavam aquela cintilação que
demonstra avidez por novas aventuras.
— Aqui
tudo é possível — disse Rhodan, desconfiado. — Como é que você
se sente?
— Muito
bem. Chego mesmo a não acreditar que nos movemos a uma tal
velocidade.
— Quantas
vezes terei de lhe explicar que o fenômeno deve ser visto como coisa
de somenos importância, apenas como apoio para o pensamento?
Importante é...
— ...o
trecho realmente percorrido. Sim, sei disso.
Rhodan se
ergueu da poltrona. Momentos mais tarde deu uma instrução pelo
microfone:
— Todos
devem abrir o capacete do uniforme espacial. Prestem, porém,
atenção! Pode ser que, dentro de pouco tempo, tenhamos de nos
isolar novamente do mundo externo.
Dizendo
isto, se encaminhou para o assento do comandante. Jefe Claudrin não
tinha mãos suficientes para executar todas as instruções ditadas
pelo professor Kalup, que, calmo, controlava tudo. Eram geralmente
alterações mínimas quanto ao funcionamento das turbinas e à
correção da rota.
Rhodan
ficou parado atrás do homem de Epsal, cujas manobras eram de uma
rapidez e de uma precisão notáveis. Infelizmente não se havia
ainda inventado um piloto automático para o vôo linear. Desta
forma, seu fantástico poder de reação possuía um valor
inestimável. Rhodan olhou em volta. Bem à sua frente estava
instalada a tela abaulada de paraobservação em terceira dimensão.
A parte do vídeo de imagens normais mostrava apenas reflexos
indefinidos.
— Maravilhoso,
sir! — tonitroou o vozeirão de Claudrin. — Kalup quer me forçar
a um desperdício de energia. Que acha, sir?
Rhodan
refletiu um instante. O pensamento de Kalup era de fácil
compreensão. Queria tentar, a todo custo, aumentar a velocidade da
Fantasy, embora o compensador tivesse já atingido sua capacidade
máxima de carga.
— Experimente!
— disse Rhodan.
— De que
maneira? — perguntou Claudrin muito surpreso, mostrando no rosto um
misto de medo e de perplexidade.
— Experimente,
Jefe. Injete mais combustível e force um pouco mais o conversor de
impulsos. Eu também estou curioso para ver o que vai acontecer.
Afinal de contas, chegará a hora de termos de usar tal velocidade.
A central
de cálculos matemáticos ouviu as instruções. Por trás de um
rastreador superestrutural, cujas escalas cilíndricas giravam com
uma velocidade tremenda, apareceu a figura do corpulento Kalup.
— Até
que enfim! — esbravejou Kalup, com seus gestos temperamentais.
Suas
bochechas estufadas, sulcadas de veias azuladas, estavam agora mais
rígidas e tensas.
— Traga-me
o microfone para dar umas explicações.
Um técnico
de seu setor afastou-se, para dar passagem ao grande cientista.
Resmungando qualquer coisa, Kalup puxou para perto de si o braço
articulado do microfone.
— Aqui
fala Kalup — disse superfluamente, pois aquele vozeirão era
demasiadamente conhecido de todos os tripulantes. — Sir, está me
ouvindo?
— Claro
que sim!
Era a voz
de Rhodan pelo intercomunicador.
— Bem,
melhor assim! — continuou Kalup no seu estilo quase irreverente. —
Já que houve por bem acatar os conselhos de um homem experimentado,
então vamos resolver isto logo e... com perfeição. Para esta
experiência, necessito de trinta e duas toneladas de bismuto por
segundo para cada unidade de propulsão. Será que seus miseráveis
carregadores vão conseguir isto?
— O quê?
— tonitroou a voz de Claudrin em todos os alto-falantes. — O
senhor diz isto duas vezes, professor?
— Perfeitamente
— afirmou Amo Kalup, enfezado. — Por cada conjunto de propulsão
e por cada segundo. Senhor, está por aí o engenheiro-chefe?
— Você
está um pouco enganado, Amo — interveio o engenheiro-chefe, amigo
íntimo de Kalup. — O conteúdo energético de um plasma que está
se aproximando do estado sólido, quase atingindo o estágio de
desintegração nuclear, não pode mais ser controlado, em
determinadas proporções. Vou precisar de cada quilowatt para o
compensador. O fornecimento da estação de emergência não é
suficiente para a criação de um campo de proteção na potência
requerida.
— Nada
disso — acudiu Kalup, fora de si de tanta raiva. — O plasma é
controlável.
— Somente
com, pelo menos, três estações geradoras de boa potência.
— Com
duas estações de emergência, seu engenheiro de meia-tigela! —
gritou Kalup gesticulando demais.
— Você
tem uma idéia a que leis físicas estamos submetidos no momento? Vou
lhe provar que...
— Solicito
um pouco mais de silêncio no recinto — ecoou a voz fria de Rhodan,
através do ruído das turbinas e do intenso vozerio. — Senhor
Narco, ligue o aquecedor do tanque de bismuto até mil e quinhentos
graus e regule as turbinas até o ponto de carga solicitado, dando
toda a força ao conversor de impulsos pronto para a injeção das
cargas adicionais. Professor Kalup, estou arriscando muito. Não pode
ignorar que a potência de empuxo dos conjuntos de propulsão será
multiplicada muitas vezes em curto espaço de tempo. Suponho que deva
ter em mãos o resultado de todos os cálculos. Quais os coeficientes
de segurança que terá com trinta e duas toneladas por segundo?
Kalup
olhou com atenção para a tela panorâmica. Estava se controlando,
mas a muito custo. Sua calva brilhava com o suor a escorrer em bicas.

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