segunda-feira, 29 de agosto de 2016

P-100 - A Estrela do Destino - K. H. Scheer [Parte 1]

Autor
K. H. SCHEER



Tradução
S. PEREIRA MAGALHÃES




Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Surge uma nova época da cosmonáutica e o cruzador
experimental Fantasy sai para uma grande viagem...


Comemorando o centésimo volume da série Perry Rhodan, o presente número descreve o surgimento de uma nova era deste ciclo pujante.
Desde os acontecimentos do último volume, passaram-se 57 anos. Na Terra, o calendário acusa agora o ano 2.102.
A situação em geral está mais consolidada. A posição de Atlan como Imperador Gonozal conseguiu se estabilizar, graças à ajuda eficiente de seus amigos, os terranos.
Por sua vez, estes mesmos terranos assumem importantes postos em Árcon, para que o Grande Império esteja em condições de funcionar.
O Império Solar se tornou a maior potência comercial no setor conhecido da Via Láctea e na Nebulosa M-13. Supertransportes de colonizadores levam ininterruptamente os emigrantes para novos mundos. Estabelece-se contato com as mais diversas e estranhas raças inteligentes.
É neste ambiente que se realiza, sob o maior sigilo, a experimentação de uma nova propulsão para cosmonaves, propulsão esta que elevará a cosmonáutica a um clímax jamais imaginado!


= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry RhodanAdministrador do Império Solar.

Reginald BellAmigo e confidente de Perry.

Tenente Brazo AlkherCompetente oficial de artilharia da Fantasy.

Major Jefe ClaudrinGigante em todas as suas ações.

Dr. Amo KalupGênio da Física.

GuckyO rato-castor que mesmo semi-morto faz das suas.

Capitão Slide NarcoUm marciano. É também engenheiro.

Auris de Las-ToorBeldade do planeta Azul.
1



Se estivesse em seu lugar, não faria isto, cavalheiro!
Alfo Zartus levou um susto, ficando como que paralisado. Apertava na mão de tal maneira a dentadura, como se fosse a mais perigosa arma de fogo.
Dê meia-volta, deixe cair a dentadura e cruze as mãos sobre a cabeça — ordenou a mesma voz, num tom quase impessoal, interrompendo Zartus em sua atividade clandestina.
Acompanhou atento o som daquelas palavras, tentando descobrir de onde vinham.
Bem na frente de Zartus, corria a esteira transportadora, plenamente automatizada, fazendo o ruído típico dos cilindros de aço. As peças que estavam sendo transportadas na esteira eram componentes de um braço oscilante teleguiado para artilharia pesada. Com toda certeza, destinava-se às giratórias cúpulas externas dos grandes cruzadores tipo Terra.
A novidade naquelas construções eram os mancais de campo deslizante, por meio dos quais se punha um ponto final nas terríveis dificuldades de lubrificação, que surgiam sempre no vácuo absoluto.
Como que acossado por força superior, Alfo Zartus olhou em volta e não viu ninguém. No corredor estreito e comprido não havia jeito de ninguém se esconder. Somente os pilares de sustentação da armação da esteira rolante é que poderiam oferecer tal oportunidade.
Zartus seguiu seu instinto. Num movimento muito rápido, meteu a dentadura superior na boca. Sentiu-se um tanto incomodado: a pequena cápsula, onde estava o microfilme, se deslocara. Desesperado, começou a trabalhar com a língua, até a chapa côncava chegar ao lugar certo. Desapareceu então a sensação de incômodo.
Respirando apressadamente, e com um vago sorriso denunciando sua incerteza, o homem de pequena estatura levantou as mãos.
Bravo! Gostei, mister — voltou a voz, em tom de ironia. — Como você faz tudo direitinho, merecia até um emprego no circo de cavalinhos.
Zartus estava ciente de que, se fosse surpreendido naquele setor da esteira de transporte, toda automatizada, estaria em maus lençóis. A velha Lua da Terra, nestes últimos 57 anos, sofrerá enormes transformações.
Resumindo, podia-se dizer que o satélite da Terra se transformara num gigantesco estaleiro, no qual eram construídas as gigantescas espaçonaves. Uma instalação fabril ao lado da outra, nos moldes dos adiantados padrões arcônidas!
Ainda há pouco tempo, inaugurara-se ali o maior conjunto da construção astronáutica do Universo. A partir daí, a linha de produção tornou-se constante e dirigida praticamente por poucos postos de controle.
Zartus devia supor que fora descoberto por algum circuito interno de televisão, pois em toda parte havia instalações de segurança e controle. Sendo assim — e não havia mesmo outra alternativa, como Zartus procurava inculcar a si mesmo — era bem provável que ninguém tivesse visto o que ele escondeu na dentadura. Confirmando isto, existia o fato de não ter visto em lugar nenhum câmaras de televisão. Como foi então que estavam tão bem informados sobre seus movimentos?
Olhou de novo em volta e começou a pensar na sua missão, na microcâmara fotográfica, embutida na chapa de fundo do seu relógio de pulso. Depois, seu pensamento pulou para o Serviço Lunar de Segurança, uma ramificação da Defesa Solar.
Caso fosse apanhado em flagrante com a câmara e o filme, estaria terminada sua brilhante carreira de engenheiro de planejamento das esteiras rolantes, controladas por robôs. Estaria na certa ameaçado de processo penal e seria condenado à detenção, ou até a trabalhos forçados num satélite qualquer sem oxigênio.
Perry Rhodan, primeiro administrador do Império Solar, se reservara o direito de presidir os julgamentos de casos de espionagem que atingiam a segurança do Império Solar.
O pensamento numa corte marcial — pois estaria de fato sujeito a ela — fez com que Zartus perdesse a cabeça. Olhou de novo em volta e não percebeu os sinais de alarme.
Soltando um grito meio abafado, usando de toda força que possuía, deu um grande galeio e pulou para a esteira transportadora, onde acabou caindo. Foi levado com grande velocidade para a passagem estreita na rocha.
Atrás desta muralha de pedra começava a Seção de Montagem 136, onde as peças, que vinham de várias direções, eram encaixadas para formarem grandes conjuntos.
Você está ficando doido, homem? — ouviu de novo a voz do desconhecido. — Salte daí para fora, está ouvindo? Salte daí! Perigo de vida! Salte, homem!
Zartus começou a rir contra sua vontade. Cravou as unhas nos rebordos de reforço da esteira de plástico e equilibrou os solavancos dos cilindros giratórios com gritos de dor meio abafados. Tentava ainda descobrir um jeito de escapar da seção 136.
O desconhecido continuava chamando por ele, mas as palavras ele nem as ouvia.
Alfo Zartus já estava chegando à conclusão de que tinha que destruir aqueles documentos secretos, quando foi atingido e erguido pelas garras de aço de uma instalação de descarga de funcionamento robotizado.
Ouviu-se um grito de desespero. Zartus percebeu tardiamente que os gritos de alarme do desconhecido não haviam sido nenhum truque.
O pobre homem foi dilacerado através da abertura na rocha e atirado no ar. Não chegou a ver bem a boca de uma instalação de isolar metais com injetor de plástico líquido. As peças semiprontas recebiam uma camada de plástico para impedir a oxidação ou a dilatação excessiva com o calor.
Atrás dos portais de aço, havia chamas de um vermelho intenso. Com um calor de mais de mil e duzentos graus Celsius, o plástico se liquefazia e era injetado por diversos bocais, sob alta pressão.
O movimento robotizado das garras era impiedoso. Não iria distinguir entre um pedaço de metal e um corpo humano.

* * *

O Coronel Hildrun, chefe do Serviço de Segurança Lunar no setor F-81, colocou de lado os documentos pessoais do engenheiro de planejamento Alfo Zartus, nascido a 22 de junho de 2.062 em Lowman, no Estado de Idaho.
Olhava atentamente e de cara fechada para o sargento que estava de pé diante de sua mesa de trabalho; seus olhos o percorreram de alto a baixo. Quando viu, porém, na cintura do guarda, a arma de choque energético, sua ira chegou ao máximo. Com o dedo indicador apontado para a arma, a voz de Hildrun foi firme:
E isso aí, o que é? Você acha que é um enfeite ou um radinho de pilha que nós lhe colocamos na cintura para completar o uniforme? Por que razão não atirou para deixar Zartus inconsciente? Estava bem perto de você, não é?
O pobre sargento estava branco como cera, em posição de sentido diante de seu superior. Os oficiais do setor F-81 que estavam presentes não disseram uma palavra. O caso não era tão simples como Hildrun julgava.
Estava bem perto, sim — balbuciou o guarda do Serviço de Segurança. — Liguei o envoltório de deflexão e assim Zartus não me podia ver. Não queria deixá-lo inconsciente, pois o regulamento de serviço proíbe o emprego de raios narcóticos, quando seu emprego não é estritamente necessário. E a mim não parecia necessário. O espião era de estatura baixa e fraco e podia dominá-lo com a maior facilidade. Por que razão haveria de feri-lo?
O Coronel Hildrun se levantou. Esbravejando, empurrou a cadeira para trás e de braços cruzados caminhou até o bule de café.
É muito engraçado! Você não queria feri-lo, mas acabou mandando-o para a morte certa, não é?
Senhor, não podia prever que iria saltar para cima da esteira rolante. Foi tão inesperado! E depois de ele estar na esteira, não podia mais atirar.
Por que não?
Porque a esteira transportadora movimenta-se muito mais depressa do que um homem correndo. Senhor, tivesse eu usado os raios letárgicos contra o técnico, ele não teria possibilidade de pular da esteira no último momento. Seria sua última chance. Gritei-lhe avisando que atrás da abertura na parede havia a instalação de isolamento. Não quis me ouvir. Que o senhor acha que eu devia fazer?
O coronel virou-se para ele. Tinha na mão uma caneca de café fumegando.
Pode provar que você chamou a atenção dele?
O sargento olhou desesperado em volta, como a pedir socorro. Um tenente da turma de vigilância deu a sua opinião:
Existem as fitas gravadas, sir. Assim que o sargento Rodzyn deu o sinal de alarme com o transmissor do capacete, ligamos o aparelho de telecontrole. Ele chamou a atenção do espião em voz bem alta.
Sem dizer uma palavra, Hildrun voltou à sua mesa de trabalho. Colocou a caneca de café com tanta força na mesa, que algumas gotas respingaram sobre ela.
É sua sorte, Rodzyn, sua salvação! Como é que você teve a idéia de seguir o espião sozinho, no setor de transporte?
Já há mais tempo que eu vinha observando Zartus. Queria pegá-lo em flagrante, por isso fui atrás dele sob a proteção do defletor. Estava de novo filmando com sua câmara miniatura do relógio de pulso. Estava bem próximo a ele, esperando. Depois tirou o microfilme, puxou da boca a dentadura e escondeu a diminuta cápsula do filme numa depressão apropriada no centro da chapa. Foi aí que lhe dirigi a palavra pela primeira vez. Devia estar muito nervoso e perturbado, parecendo mesmo desesperado. Sir, seu salto até a esteira foi uma surpresa para mim. Não podia esperar de maneira alguma uma loucura daquela. Também não podia mais detê-lo.
Hildrun olhou para os oficiais de seu estado-maior. O sargento estava quase em pânico.
Está certo, sargento, por favor preste seu depoimento no Protocolo. Por enquanto você está dispensado do serviço. Outra coisa, você sabe que eu tenho a obrigação de comunicar o caso ao chefe da segurança?
Rodzyn concordou hesitante. E momentos depois deixou o gabinete de seu chefe. Na ante-sala procurou uma poltrona e esgotado sentou-se para tentar se acalmar.
Por mais que se esforçasse, não conseguia tirar aquela cena de sua memória. A cara desesperada do pobre homem na esteira rolante estava sempre diante de seus olhos.
Foi um acidente, Rodzyn — disse um oficial que passou pela ante-sala. — Vá para seu alojamento e se prepare para prestar o depoimento. Você está abatido demais.
Minha situação tem que ser mesmo de abatimento — respondeu Rodzyn com os lábios ressecados. — Posso lhe fazer uma pergunta?
Por que não? Às ordens.
Como é que vai acabar tudo isto? Não tive culpa em nada do que aconteceu, fiz o melhor que pude.
Sabemos disso. Se você não tiver sorte, a história passa para outras esferas. Existe mesmo uma ordem de serviço que manda comunicar tais casos ao administrador pessoalmente. Você sabe que os estaleiros de astronaves da Lua são a menina dos olhos de Perry Rhodan.
O sargento Rodzyn, retendo a respiração, olhou horrorizado para o oficial.
Você... desculpe, o senhor está se referindo a Perry Rhodan?
Por quê? Você conhece outro administrador? Se tiver que comparecer perante ele, então conte o que aconteceu com toda franqueza. Ninguém pode lhe imputar falta alguma. O que aconteceu foi um acaso, como lhe disse. Vá agora, mas antes tire este uniforme de combate.
O oficial bateu com as pontas dos dedos na aba do boné e abandonou o pequeno aposento. Estava a uns cem metros abaixo da superfície da Lua. Nas proximidades, estrugia a usina destinada a alimentar aquele setor de fabricação.
2



Brazo Alkher, com os olhos demasiadamente brilhantes, como se estivesse com febre muito alta, olhava para a fenda aparentemente pequena da grande aparelhagem de computação.
O conjunto da aparelhagem para controle das tiras estreitas de plástico dava mesmo uma impressão assustadora. Brazo Alkher, tenente da Frota Solar, fora transferido por ordem especial para a base da Lua, sentindo-se, desde algumas horas, como se estivesse num hospício.
Depois de sua aterrissagem na Lua, já havia sido interrogado onze vezes por guardas do Serviço de Segurança. Fizeram-lhe mil perguntas sobre sua vida pregressa, interessaram-se por seus pais e seus avós, inclusive perguntando sobre o que pretendia fazer, de onde vinha e para onde ia.
Brazo passava de um aborrecimento para outro. Mas tinha a oportunidade de conhecer a mais poderosa base de cosmonáutica da Humanidade. Sabia que a Lua tornara-se, nos últimos 57 anos, um gigantesco estaleiro de cosmonáutica e de fabricação de material bélico. Praticamente, o satélite natural da Terra estava sendo escavado por dentro. Na superfície mesmo da Lua não se via nada das gigantescas instalações industriais, que, a peso de ouro e com enormes sacrifícios, foram instaladas sob a crosta morta do nosso satélite.
Na superfície só se viam mesmo os grandes espaçoportos e as cúpulas blindadas das enormes casamatas cósmicas.
Brazo levou treze horas até chegar ao seu objetivo e, mesmo aí, surgiu mais um empecilho.
Brazo Alkher, um rapaz de vinte e três anos, esbelto e de boa estatura, estava ainda sobraçando alguns pacotes, quando um capacete com um brilho de prata pousou em sua cabeça.
Suportou com muita paciência a tortura da medição das vibrações cerebrais, que naturalmente era uma parte essencial dos testes robotizados. Se alguma coisa tivesse escapado aos guardas humanos, o robô haveria de descobrir.
Deixe estes pacotes de lado — veio o comando pelo alto-falante.
Brazo ficou em posição de sentido e abrindo nervoso as duas mãos, deixou os pacotes caírem no chão.
Alkher se enrubesceu e olhou em volta com muita timidez.
Desculpe — disse apressadamente, com um sorriso incerto para a desalmada máquina, que naturalmente não mostrava a menor reação às suas palavras.
Quando no robô acenderam-se as luzes verdes e de uma fenda saltava a tira ID, respirou profundamente.
Entrada permitida, senhor — ouviu-se do alto-falante. — O senhor está sendo esperado.
Muito obrigado — disse Brazo, em voz baixa.
Agachando-se rápido para apanhar suas coisas, bateu com a cabeça numa alavanca pintada de vermelho. O aparelho começou a fazer barulho e Brazo ficou ainda mais assustado. Finalmente, com uns saltos um tanto temerários, resolveu sair de perto daquela chapa metálica.
Brazo Alkher, conhecido já na Academia Espacial como tremendamente azarado, confiou demais no seu corpo magro e ossudo. Levado pela força da gravidade, caiu com os braços elegantemente estirados e os pés separados, sendo que sua cabeça coberta pelo capacete bateu casualmente contra a canela de um homem parado no caminho.
Brazo, de ordinário tão calmo e manso como um cão São Bernardo depois de bem velho — como afirmavam seus colegas — deixou escapar nomes pesados e imprecações. Depois, ainda levou algum tempo, até que suas mãos tateantes colocassem no lugar o capacete que escorregara, como também a correia, onde estavam presos os pequenos pacotes.
Levantou-se resfolegando e logo a seguir veio mais um momento de angústia, quando percebeu bem perto dele uma cara sorridente, toda lambuzada de óleo e graxa, de um homem de boa estatura que usava o macacão do pessoal da manutenção.
O tal indivíduo alto e de boa compleição trazia um boné completamente amarrotado, protegendo os cabelos castanhos. Não usava nenhum sinal de classificação hierárquica, motivo pelo qual Brazo deu vazão à sua ira acumulada, permanecendo, porém, num plano de boa educação. Disse meio agastado:
Você não pode pular um pouco para o lado, vareta de medir o óleo do cárter?! Puxa! O que você está parecendo...?
Surpreso consigo mesmo, Brazo olhou para cima, depois disse meio sem jeito:
Desculpe, cavalheiro. Não me leve a mal. Acho que o culpado sou eu. Você quer me ajudar um pouco?
Com prazer — respondeu o homem esbelto, de olhos claros. — Você estava pulando como um macaco de três pernas.
Existe mesmo macaco de três pernas?
O estranho deu uma boa gargalhada, batendo com suavidade nos ombros de Brazo.
Está tudo certo, senhor tenente, não é verdade? Pode-se perguntar para onde o senhor vai?
Alkher recomeçou com a procura desesperada pelos papéis que em todo lugar lhe exigiam. O homem alto esperou com paciência até que o tenente, cada vez mais nervoso, achou, no bolso da perna do seu uniforme, o salvo-conduto.
Brazo não sabia se devia perder a paciência com aquela gargalhada sonora ou se controlar um pouco mais. Optou pela segunda alternativa. Além do mais, sua visão inteligente estava à procura de uma cúpula de aço reluzente de um cruzador tipo Terra, novinho em folha.
A espaçonave de duzentos metros de diâmetro estava num enorme hangar. Guardas armados e robôs de combate, por toda parte. Brazo sabia estar agora no coração secreto dos moderníssimos estaleiros de astronáutica da Lua. O que ali acontecia, sabiam poucos iniciados.
Não demorou muito até Brazo constatar que o aro de reforço equatorial do cruzador de duzentos metros tinha uma conformação bem diferente das construções anteriores. O aro de propulsão era bem maior que nos modelos anteriores e mais abaulado nas bordas. Mas era tudo que se notava de diferente, assim à primeira vista.
O homem de olhos claros não estava mais dando gargalhada. Observava o jovem tenente com muita atenção. A fisionomia juvenil de Brazo, calma e sonhadora, estava agora mais tensa, dando impressão de um senso de determinação já de homem maduro.
O técnico deu um sorriso quase imperceptível e, sem dizer uma palavra, agachou-se e apanhou as várias sacolas.
VAmos, cavalheiro, o senhor é esperado.
Brazo concordou, com o pensamento bem distante. Segundos depois, chegou até a estranhar a saudação exemplar dos guardas presentes e dos técnicos. Até mesmo os robôs de vigilância começaram a fazer continência e numerosos gritos de “Atenção” encheram de tal modo o espaço, quase suplantando os ruídos contínuos das instalações.
Meio desconfiado, parou, virou-se para seu risonho acompanhante e lhe sussurrou nos ouvidos:
Homem de Deus! Diga-me uma coisa, será que todo tenente é recebido aqui com tanta honra? Será que esta gente toda está meio maluca?
Estão se divertindo — disse o homem de boa estatura.
O sorriso de Brazo foi forçado. Um coronel, que cruzou-lhes o caminho, empertigou-se todo e fez a continência. Brazo estava com uma cara esquisita, mais próxima do choro que do riso.
Ele me olhou com pouco-caso — disse ao seu acompanhante. — Olhe aqui, meu amiguinho, você não me quer explicar que tipo de hospício é este? Mas você está mesmo com uma aparência horrenda. Por que não lava pelo menos o rosto? Se você estivesse sob meu comando, eu lhe ia ensinar umas tantas coisas.
Abanando a cabeça, olhou para a cara do acompanhante, que era tão alto como ele, depois ergueu o braço e com o dedo indicador raspou a face do homem de cabelos castanhos.
Puxa! Quase um metro de espessura de graxa! Tem que ser assim mesmo, como um porco no chiqueiro?
Não, não tem que ser necessariamente assim — respondeu o homem alto que lhe carregava os pacotes.
Um tremendo ruído obrigou Brazo a cair de joelhos e depois a rolar no chão. Os sons horríveis saíam, sem dúvida, de uma eclusa de ar do singular cruzador pesado. Os sons fortíssimos terminaram num ronco surdo, como o afogar lento de um grande sáurio.
Santo Deus, que será isto? — perguntou Brazo estupefato.
O comandante está cantando — explicou-lhe o outro. — Você já ouviu o cântico de uma pessoa nascida em Epsal?
Brazo desistiu. Parecia já saturado de tanta coisa esdrúxula. Talvez não houvesse ninguém normal por ali. Nem do Serviço de Segurança, nem entre os robôs, nem mesmo o comandante.
Desesperado, foi caminhando ao lado do seu acompanhante ou carregador de pacotes, até que a figura balofa de um gorducho careca lhe apareceu no caminho, fungando e suando, com as bochechas riscadas por veias finas e azuladas, pendentes dos dois lados do rosto, porém, com olhos tão penetrantes, que Brazo ficou com receio de outra desgraça. Mas o colosso não lhe deu a menor importância.
Ah! Até que enfim a gente pode ver o senhor — disse com vozeirão tão forte como o do nascido em Epsal.
Olhando com ar de zombaria, o careca se plantou na frente do carregador de pacotes, de cara toda besuntada de graxa.
Bom dia, professor — disse seu acompanhante.
Vagarosamente, tirou o boné da cabeça e passou a mão pelos cabelos molhados de suor.
Brazo ficou pálido. Depois que o seu acompanhante descobriu a cabeça, levou poucos segundos para reconhecer, no carregador de pequenos embrulhos, Perry Rhodan, o administrador do Império Solar. Os olhos arregalados do pobre Brazo começaram a ver círculos de fogo no ar e suas pernas se sentiam muito fracas.
Assim foi que, depois de um rouco “Perdão, senhor!”, acabou caindo nos braços do maior físico dos tempos modernos, Doutor Amo Kalup. Este cientista, conhecido como um homem colérico e temperamental, tinha seu nome ligado à estonteante invenção da chamada propulsão “Hiper Line”.
Quando os pilotos de prova e os especialistas em “comando linear” começaram a falar do supermoderno conversor de compensação para construção de um campo de compensação, consistindo de linhas de campo de seis dimensões superpostas, ninguém mais se deu ao trabalho de se expressar com exatidão a respeito destas teorias tão complicadas. Chamavam a máquina simplesmente de um “Kalup”, e estava dito tudo.
Amo Kalup, o maior cientista vivo, olhou espantado para o rosto lívido do pobre tenente, e depois disse, quase gritando:
Que é isto, rapaz! Fique mais à vontade.
Meio sem jeito, ajudou Brazo Alkher a sentar-se no chão, onde continuou se sentindo mal.
Rhodan fez um aceno de mão para dois guardas que observavam a cena. Postaram-se ambos diante do administrador que os penetrou com seu olhar profundo. Todos exaltavam em geral o bom humor de Rhodan, mas desta vez estava superando a si mesmo.
Os dois tenentes da vigilância eram bem diferentes não só quanto à compleição física, mas também quanto ao temperamento. Mas os lábios de ambos tremeram do mesmo modo. O mais baixo deles tinha nos olhos um brilho úmido. Brazo começou a se erguer, quando Rhodan falou com a maior calma:
Acompanhem seu colega, meus senhores, e ofereçam a ele uma bebida bem forte. Este jovem, a julgar por seus documentos, é o mesmo Brazo Alkher, o maluco oficial de artilharia de bordo, que conseguiu no setor de Orion, com as bocas-de-fogo já bem danificadas do cruzador Formosa, deixar fora de combate duas grandes naves dos saltadores. Como ele conseguiu isto, é ainda mistério. Mas o fato é que o Estado-Maior da Frota Espacial não conseguiu homem melhor do que ele. O primeiro-oficial deve proceder à cerimônia do juramento. Partiremos dentro de duas horas.
Será que a gente também pode falar alguma coisa? — perguntou o professor Kalup, com sua perigosa mansidão.
Um momento, por favor — pediu Rhodan, para dar atenção a um major do Serviço de Segurança.
O sargento Rodzyn está no posto de vigilância, sir. Ainda deseja falar com ele?
Espere um momento. Deixe-me ver o sujeito que caiu no meu caminho — disse Rhodan apontando para Brazo, que, meio cambaleante, caminhava entre os dois tenentes em direção à escotilha do cruzador pesado.
Rhodan sorriu. Esfregou as costas das mãos no rosto.
Será que estou mesmo tão horrendo assim? Ele me chamou de porco.
Kalup caiu numa estrondosa gargalhada, ficando seu rosto meio roxo de tanto rir. De sua luzidia careca escorriam gotas de suor.
É a melhor piada da semana — disse tossindo. — Bem, eu o espero na nave. O que houve com este sargento?
Acho que nada de mais. Ele descobriu um espião na seção vizinha.
A expressão de Kalup ficou mais séria.
Oba! E você supõe que este espião estivesse atrás de nossa nova nave?
Tenho impressão de que sim. Mas o espião sofreu um acidente mortal. De qualquer maneira, quero saber se sua atividade foi nas proximidades da estação linear e se isto foi mero acaso ou coisa planejada. Acho que o sargento de serviço vai me esclarecer muita coisa. Com licença, professor, estarei de volta em meia hora.
Não vá cair de novo num tanque de óleo — disse o cientista brincando. — Você parece mesmo um leitãozinho. Acho que a gente devia beijar os pés deste tenente pelas suas palavras francas.
Rhodan saiu sorrindo. Os ponteiros do grande relógio dos estaleiros indicavam treze horas e vinte e dois minutos do dia 4 de março de 2.102, tempo padronizado.
O corpanzil de Kalup desapareceu sob o bojo esférico da extraordinária espaçonave. Ao olhar para cima, viu os enormes bocais das turbinas de propulsão.
Kalup ficou imóvel naquele local, absorto na longa história do desenvolvimento daquele novo projeto da tração linear, que, há cinqüenta e oito anos atrás, fora mencionado por especialistas do planeta Terra, e só agora chegara a ser executado.
Fora mais ou menos naquela época que Kalup vira a luz do mundo, quando uma poderosa frota espacial, dirigida por inteligências não humanas, penetrou no sistema solar.
Deu-se a estes gigantes de um outro plano temporário o nome de druufs. Eles já usavam nesta época a tração linear e foi a partir deles que a Humanidade começou a sonhar com esta nova propulsão. Levou-se, porém, 57 anos para se descobrir o segredo da superpropulsão linear. As pesquisas de Kalup foram decisivas para isto.
Ao atingir a pequena escotilha na parte inferior da grande esfera, continuando suas meditações, o cientista estava convencido de que, além dos terranos, não havia nenhuma outra raça humanóide que soubera aproveitar a herança dos já esquecidos druufs, herança esta de um valor inestimável.

* * *

Meu irmãozinho, você tem nervos de um robô, ou melhor dizendo, você não tem nem sistema nervoso — constatou o Tenente Stana Nolinow.
Olhava para Brazo Alkher muito curioso, notando que o coitado estava quase esgotado e talvez bem próximo de um desmaio, sentado e encolhido, ali, no seu beliche.
Pare com isto, por favor — suplicou quase chorando. — Como poderia saber que exatamente eu...
Está bem! — interrompeu Nolinow, um baixote de cabelo louro-escuro bem eriçado. — Vou mandar lhe trazer logo a comida.
Mahaut Sikhra deu uma risada abafada. Baixo e magro, de uma aparência insignificante, apoiou as costas na parede da cabina e, com um movimento rápido, desceu até Brazo.
Chamam-me Sik na intimidade — disse se apresentando. — Minha função aqui é de chefe dos comandos de ação para missões especiais. Stana é o chefe das tropas robotizadas. E, se não estou enganado, você tomará conta da central de artilharia.
Ainda meio acanhado, Brazo apertou a mão dos novos colegas.
Muito prazer! — disse ele. — Mas... um momento, como é que vou ser empossado no cargo de artilheiro-chefe? Isto é feito em geral por um major, no mínimo por um capitão.
Mahaut Sikhra apenas sorriu e Brazo não compreendeu bem seu sorriso tranqüilo.
Aqui a bordo da Fantasy tudo é diferente. Realmente isto não é uma nave convencional, mas um aparelho de pesquisa e de experimentação.
A atenção e a curiosidade de Brazo foi se despertando cada vez mais. Olhou com mais admiração os jovens oficiais que, como tudo indicava, deviam ter qualidades especiais.
Uma nave experimental? — disse Brazo com destaque. — Bem que reparei no extraordinário reforço do rebordo do aro central.
Menino inteligente! — disse Nolinow com uma ponta de ironia. — Você apenas reparou? Nós já aprendemos a ficar de boca aberta. Aqui a bordo da Fantasy se encontra a elite política, militar e técnico-científica do Império Solar. Todos os homens que se tornaram notórios, pelo menos a julgar pela fama que possuem, que adquiriram uma relativa imortalidade, baseada em pressupostos biomédicos, marcaram um encontro aqui na Fantasy.
Pare com isto, já estou sentindo um vácuo no estômago.
Stana meteu as mãos nos bolsos externos de seu uniforme e se sentou, bocejando e estirando as pernas, ao lado de Brazo.
Mas isto não é tudo ainda, meu irmãozinho. Todo homem da tripulação é, em sua categoria, um ás. Por conseguinte você também deve ser um craque em alguma coisa, do contrário não seria convocado. Está compreendendo melhor por que foi testado de toda maneira, mesmo da mais absurda?
Brazo concordou. Seus olhos castanhos tinham um brilho febril. Stana olhava para ele com cara de gozação. O esbelto nepalês Mahaut Sikhra estava no videofone em conversa com a central da espaçonave.
Dentro de uma hora, no máximo, você prestará seu juramento e vai ser muito solene, posso lhe garantir.
Juramento?
Exatamente. Guardamos os maiores segredos da nova história da Humanidade a bordo da Fantasy, que externamente parece um cruzador pesado do tipo Terra, mas quando você vir a seção de máquinas, vai ficar de boca aberta.
Já estou há muito tempo de boca aberta — disse Brazo.
Nolinow gostou de seu modo de falar.
Mas a gente vai se acostumando, colega. Já fizemos alguns vôos espaciais, vôos estes que Perry Rhodan em sua modéstia chama de “prova de vôo curto”. Estes tais vôos curtos variam entre três a dez mil anos-luz. Talvez ache um exagero, não é? E em todos estes vôos, a performance da Fantasy foi excelente. Kalup estava radiante de alegria e o nosso venerando comandante, que você ainda vai conhecer, ria tão alto que as portas blindadas quase que vergavam, e nosso chefe supremo, chamado Perry Rhodan, tinha no rosto um sorriso tão sublime, que, sem querer, a gente ficava pensando na conquista de toda a infinita Galáxia. Quando o velho olha assim, desta maneira, para a gente, é sinal de que há algo de novo no ar.
Stana acenou com a cabeça, confirmando as palavras do colega, e Brazo enxugou as mãos suadas nas pernas das calças.
Isso mesmo, lambuze bem a calça, temos uma lavanderia a bordo — era a voz de Sikhra.
Brazo se desculpou imediatamente.
Oh! Por favor, nada de acanhamento! — disse Stana, sempre sorrindo. — Estamos aqui para deixar você bem familiarizado com as coisas.
Ah! Não sabia.
Gentileza da casa, meu amigo. Você é o primeiro tenente do Império Solar a quem Rhodan serviu de empregado, carregando as malas. Eu me sinto profundamente comovido em poder dar instruções a um cavalheiro tão importante.
Malandros — disse Brazo, sorrindo.
Nolinow piscou o olho para o nepalês.
Acho que vamos viver muito bem, sabendo suportar um ao outro. Falando mais claramente, irmãozinho, a Humanidade trabalhou, no verdadeiro sentido da palavra, cinqüenta e sete anos, para desvendar o segredo da tração linear. Há cinqüenta e oito anos, surgiram os chamados druufs, seres monstruosos, que, em virtude de fenômenos físicos, vieram de um outro plano temporal, a fim de conquistar o espaço de Einstein. Nenhum de nós era ainda nascido naquela época, mas Rhodan já era o primeiro-administrador. Isso lhe pode dar uma idéia de qual deve ser a idade do nosso chefe.
Idade? — repetiu Brazo admirado. — Dá a impressão de um desportista bem treinado, dos seus trinta anos.
É isto mesmo. No entanto, é o terrano mais idoso que existe. Se você consultar a enciclopédia “Terrânia” haverá de achar que Rhodan foi o primeiro homem a pisar na Lua, no ano 1.971. Naquele tempo, já devia ter mais de trinta anos. Hoje, estamos no ano 2.102. Isto já diz tudo. Foi ele quem, a despeito da ingente resistência de inteligências estranhas e ambiciosas, criou, ou melhor, estabeleceu a unificação do sistema solar.
Neste exato momento, iniciamos a terceira fase da História da Humanidade. Estamos em vias de transformar em realidade os segredos conquistados da astronáutica dos druufs, há cinqüenta e oito anos. Todo o complexo mecanismo da propulsão linear já está pronto para ser aplicado, ao menos neste cruzador pesado, que servirá de protótipo para próxima construção em série. Você terá a honra de, juntamente conosco, poder cooperar decisivamente no desenvolvimento do poderio solar, ou...?”
...ou o quê?
...ou junto com a Fantasy ser uma vítima do espaço infinito — interveio Sik. — Será que fui bem claro?
Um tanto confuso, acho eu.
Ele diz a verdade, Sik — constatou Nolinow um tanto preocupado. — Você vai continuar?
Prossiga com seu talento retórico.
Stana fez um gesto confirmativo. Observava Brazo com um princípio de inquietação.
Pois bem, não há mais muita coisa a dizer, meu irmão, vamos partir dentro de meia hora. Para onde vamos, desta vez, ninguém sabe. No momento, a política espacial está calma, satisfatória. Os comerciantes das galáxias, os saltadores, estão mais acomodados, respeitando o poderio do Império Solar. Quanto ao Império Arcônida, parece que Atlan é senhor absoluto do imenso império de centenas de povos diferentes. A invasão dos druufs já caiu no esquecimento e nossos colonizadores ocupam e exploram paulatinamente todos os planetas habitáveis, isto é, onde haja oxigênio, nos setores espaciais mais próximos do sistema solar.
Há cinqüenta e sete anos, iniciou-se a exploração da Lua. Hoje, o satélite da Terra se assemelha a um imenso formigueiro, com as enormes escavações subterrâneas para estaleiros de astronáutica, instalações industriais, com grandes linhas de fabricação automatizada. Mesmo as gigantescas espaçonaves são produzidas em série. Desta forma, conseguimos agora o que os arcônidas possuíam já há alguns milênios. Transformamos este grande corpo celeste numa base da nossa frota espacial, para assim podermos enfrentar, sem nenhum dano para a população civil, os hóspedes indesejáveis e estrangeiros ávidos de uma conquista fácil.
A Lua passou a ser um posto avançado da defesa terrana. Seguindo o modelo do Grande Império de Árcon, o Império Solar é hoje uma organização estatal, cuja segurança repousa no seu poderio técnico e militar. Afirma-se com conhecimento de causa que a capacidade de construção astronáutica dos estaleiros da Lua se equipara hoje à do terceiro planeta de Árcon. Mais de cem milhões de terranos de excelente formação estão preparados para, em caso de necessidade, provar nossa absoluta independência dos demais povos do espaço. Você está me compreendendo?”
A resposta de Brazo foi muito positiva.
Este retrospecto histórico é tão interessante como o conteúdo de suas meias. Sei muito bem que dentro delas estão seus pés...
Sikhra riu muito e Nolinow se levantou, soltando uma imprecação.
Está bem! Tinha que ser assim, não é? Ordem é ordem. De qualquer maneira, você vai viver o início da terceira fase da História. Agora, se quiser aprender alguma coisa sobre propulsão linear, por favor, procure gente mais competente. Só posso dizer a você que o tempo das transições já passou, pelo menos para a Fantasy. Até hoje, conseguíamos vencer o hiperespaço por complicados e violentos saltos executados pelo processo dos pulos da lebre. Ia relativamente bem, mas os dificílimos cálculos necessários para cada transição, a conseqüente desmaterialização e os muitos erros que podiam ocorrer faziam sentir que não era a solução perfeita.
A bordo da Fantasy você vai fazer uma viagem espacial com velocidade muito superior à da luz. Voamos com visão ótica para a estrela ou planeta visado. Não se pula mais, no estrito sentido da palavra, como antigamente, quando não se podia ver nem ouvir nada. Agora a gente pode ver tudo o que quer. Mergulhamos no assim chamado semi-espaço. O campo de compensação de Kalup cobre, principalmente, as constantes da quinta dimensão que entram mais em ação, sendo que, com isso, se evita um penetrar direto no hiperespaço. Por este motivo não há necessidade de nenhuma desmaterialização, como nas velhas naves de transição.
Voamos num setor do semi-espaço, que só pode ser explicado pela Matemática, localizado entre a quinta e a quarta dimensão, onde ambas as influências energéticas perdem toda a eficácia. Por isto, um corpo que por ali passe se torna uma parte integrante deste semi-espaço, onde, naturalmente, as leis de Einstein perdem sua validade.
Talvez, se possa obter velocidade milhões e milhões de vezes mais elevada do que a velocidade da luz, no vôo linear direto. Mas Rhodan não quis ainda chegar a tanto. Com este vôo reto, não se produz nenhuma onda frontal de algum vulto, nem choque estrutural, como acontecia com as espaçonaves que rompiam violentamente a muralha do tempo-espaço. As vantagens bélicas são mais que evidentes! Quem possuir a propulsão linear, está automaticamente acima das demais inteligências da Via Láctea. Eu... você já está ficando pálido de novo?”
Brazo fechara os olhos e sua respiração estava mais difícil. Mesmo com Nolinow se esforçando para explicar estas coisas tão inovadoras e sensacionais de maneira simples e entremeadas de piadinhas, Brazo sentiu-lhes a seriedade e o significado profundo.
Quando abriu os olhos de novo, os jovens oficiais estavam bem perto dele. O rosto largo de Nolinow estava transfigurado, não ria mais.
Isto é um abacaxi, não é verdade? Você vai compreender com o tempo — disse ele. — Talvez agora você justifique o cuidado do comandante nos recomendando que o preparássemos. Jefe Claudrin é um bom psicólogo, se bem que à primeira vista dê a impressão de um tanque de guerra descontrolado, que ameaça destruir tudo que estiver na frente. Ele nasceu em Epsal, um dos primeiros homens do programa de adaptação de 2.045. Não perca o controle quando ele vier para seu lado. É tudo que lhe posso dizer. Tem alguma pergunta a fazer?
Brazo não queria saber de mais informações. Sik voltou do videofone e deu uma explicação. Momentos depois, penetrou na cabina um robô de serviço, com o sorriso estereotipado.
Este é o ômega-185 — explicou Stana. — Está encarregado do seu bem-estar físico. Venho apanhá-lo aqui em meia hora.
Antes de Sikhra deixar a cabina, ainda se dirigiu a Brazo.
Você naturalmente pode desistir do vôo, ninguém vai obrigá-lo a tomar parte nesta missão. O negócio é perigoso. Pense bem. Depois de você prestar o juramento...!
O nepalês interrompeu bruscamente sua frase, preferindo calar. Àquela altura, Brazo sabia exatamente que, por motivo nenhum deste mundo, haveria de desistir, mesmo se lhe pintassem os futuros perigos, com as cores mais exageradas.
Completamente distraído, disse ao robô:
Quero tomar uma ducha. Minha arma de serviço, eu mesmo a limpo.
Trinta minutos mais tarde, Brazo ostentava um uniforme verde-claro que lhe mandara o oficial camareiro.
3



Tinha estranhamente as mesmas dimensões, tanto na altura como na largura. Um cofre-forte médio não seria muito diferente dele. O Major Jefe Claudrin, na largura do tórax, correspondia a quatro homens bem desenvolvidos. Naturalmente, possuía uma musculatura fenomenal.
Nascido e crescido num planeta de 2,1 gravos, quando ingressou na Frota Solar sentia muita dificuldade em se mover num ambiente de gravidade de mais ou menos um gravo. Quando o nativo de Epsal notou que sua musculatura começou a se tornar flácida sob a pressão de apenas um gravo, resolveu trazer, dia e noite, um microgravitador, fabricado especialmente, que lhe fornecia uma pressão duas vezes maior. Desta forma, sem medir sacrifícios, conseguiu conservar sua estupenda compleição física.
O maior prazer de Jefe era quebrar, “por acaso”, cadeiras e bancos normais. Seus braços se assemelhavam a bielas de tamanho exagerado e suas mãos eram respeitadas. Os tripulantes da Fantasy evitavam de cumprimentar o colosso cúbico, pois sempre saíam perdendo. Antes de Jefe perceber a periculosidade de suas mãos, houve alguns incidentes desagradáveis.
Resumindo, o comandante do cruzador de reconhecimento Fantasy parecia um gigante cortado ao meio, cuja cabeçorra com cabelos cor de fogo se assentava num senhor pescoço, tão largo e cheio de músculos que não havia no almoxarifado da Frota Espacial o número do seu colarinho. Tinha de ser confeccionado sob medida.
Como comandante e galatonauta, Claudrin era inquestionavelmente um ás da Frota Solar. Vinha comandando a super-moderna Fantasy desde o primeiro vôo experimental e o fazia com garra.
Perry Rhodan ouviu o ronco tonitruante normal do conjunto de propulsão, cujas partículas de alta compressão e, com isso, de elevada força motriz, davam ao pesado cruzador uma aceleração de quinhentos quilômetros por segundo. As máquinas do novo gigante do espaço funcionavam com a mesma perfeição e segurança como em dez mil outras grandes naves da Frota Solar. Utilizando modelos arcônidas, porém, muito mais aperfeiçoada em detalhes de vital importância, a Fantasy representava, no momento, o clímax da neotecnologia. Ninguém lhe podia apontar um senão. Parecia mesmo sem sentido experimentar ainda mais seus motores.
No entanto, Rhodan pessoalmente controlava com todo rigor os pequenos painéis de instrumentos no rebordo central. Não se percebia nada de anormal, a não ser uma leve cintilação azulada de aquecidas camadas de ar que se levantavam. Devido à construção compacta da Fantasy, bastavam-lhe seis conversores no aro de rebordo. Muito maior espaço ocupavam, porém, os novíssimos motores de propulsão que proporcionavam uma velocidade superior à da luz. Tais motores não deveriam ser chamados de motores ou de máquina de propulsão, no sentido estrito da palavra.
O compensador Kalup tinha exclusivamente a função de abrigar a nave num campo esférico, que agia refletindo ou absorvendo as influências energéticas da quarta ou quinta dimensão.
Criou-se desta forma, dentro do campo esférico, o estado instável de zonas de libração, estado este que anularia a validade das leis do hiperespaço, bem como das leis do Universo de Einstein.
As velocidades alcançadas dentro do semi-espaço, com o sistema de propulsão normal, que mal atingem a velocidade da luz, oscilam, conforme a intensidade energética do campo de compensação de Kalup, entre dez a muitos milhões de vezes mais do que a velocidade da luz. Um dos pontos do programa de experimentação era exatamente constatar os limites desta oscilação.
Até o presente momento tinha-se como certo que o processo dependia de dois fatores. Primeiro: as variações nas ondas de impulso, na zona de influência das librações, eram de origem natural. Segundo: sua velocidade podia ser, por sua vez, enormemente alterada pela variação da carga no campo de Kalup — e isto veio provar mais uma vez que a eliminação das leis físicas e das do Universo de Einstein era um problema que envolvia conteúdo energético no campo kalupiano. Quanto melhor for o campo de proteção, quanto mais o corpo da Fantasy se adaptar à zona de semi-espaço, tanto mais facilmente a nave se tornará uma parte do setor artificial entre as dimensões.
Para se poder atingir este estado ideal, o cruzador foi equipado com um quinto conjunto de propulsão, ainda nos estaleiros, o que lhe possibilitaria uma produção adicional de vinte mil megawatts.
Assim, Rhodan esperava atingir o ponto almejado, ou seja: a compensação total das constantes da quarta e da quinta dimensão.
O zunido dos conjuntos propulsores da faixa de rebordo foi se reduzindo. Rhodan despertou de suas divagações. Os problemas relacionados com o vôo linear só se resolverão com experiências práticas e não com teoremas ainda discutíveis.
A cintilação nos painéis de controle cessou e, num último bramido abafado, desligaram-se os conversores de impulsos. Em queda livre, com a metade da velocidade da luz, a Fantasy percorria a órbita de Marte. Terra e Lua há muito estavam sepultadas nas trevas do espaço. Nos painéis da grande nave viam-se apenas as estrelas da Via Láctea.
Com a mão fechada, Perry Rhodan deu uma leve pancada num interruptor, e, no mesmo instante, todos os cinturões de segurança, obrigatórios, a bordo da Fantasy, se abriram. Reginald Bell, com sua mesma aparência de 131 anos atrás, postara-se às costas do comandante da expedição. Contemplando todos os instrumentos do painel, seu rosto irradiava tranqüilidade.
Um pouco mais à direita, estava a enorme poltrona especial do comandante, que não deu maior atenção aos dois homens à sua esquerda. Sua missão era controlar com todo rigor e a cada segundo o comportamento global da nova maravilha. Rhodan olhou para o outro lado e fixou-se em Claudrin, cujos ombros espadaúdos ultrapassavam um pouco o espaldar da poltrona.
Tudo bem, Jefe?
O homem de Epsal virou a cabeça e a pele morena de seu rosto se contraiu num sorriso.
Como sempre, sir — reboou sua voz grave. — Quer fazer alguma experiência? — continuou com a mesma voz cheia.
Rhodan confirmou com a cabeça. Depois de um demorado olhar nos instrumentos, levantou-se da poltrona. Bell ainda estava em pé e parado. Seu rosto coberto de sardas se fechava naquele momento numa seriedade pouco comum a seu temperamento brincalhão. Toda a equipe da sala de comando olhava atentamente para Rhodan e seu lugar-tenente. O administrador do Império Solar passou por entre as poltronas e os diversos controles manuais. A central de comando da Fantasy estava superlotada de instrumentos.
Alguém tem algum palpite? — perguntou ele, sem delongas.
Bell fechou os olhos por uns instantes. Ao abri-los de novo, Rhodan já estava na sua frente. E os olhares dos dois grandes amigos se cruzaram.
Palpites? — repetiu Bell bem silabado. — Não, acho que não tenho nenhum palpite. Esta casca de noz, o máximo que pode fazer é explodir, nada mais.
Os lábios de Rhodan se contraíram num sorriso irônico, mas na sua voz havia muito sentimento, qualquer coisa de saudade.
Oba! Chama de casca de noz um cruzador pesado, de duzentos metros de diâmetro? Interessante, acho que posso lhe dizer o que está se passando com você.
Ah! Que nada!
Rhodan continuou com sua voz tranqüila e muito pensativo:
Há cinqüenta e sete anos, mais ou menos nesta época do ano, morreu o arcônida Crest. É pena que não pôde mais participar dos sucessos da Humanidade. Você estava pensando nele, não?
Fazendo que sim com a cabeça, Bell interferiu:
Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que encontramos na Lua sua espaçonave de reconhecimento escangalhada no solo. Isto deve ter sido há mais de 130 anos, num mês de junho. Algumas semanas depois, sentíamo-nos orgulhosos e invencíveis, somente porque estávamos de posse de uma nave auxiliar de origem arcônida. Depois veio a unificação dos povos da Terra e logo a seguir nossos primeiros contatos com inteligências extraterrenas. Finalmente surgiu Atlan e pouco depois veio a invasão dos druufs. O cérebro robotizado de Árcon foi desligado, e Atlan tornou-se o imperador do Grande Império Arcônida. De lá para cá, passaram-se cinqüenta e sete anos e agora começa a terceira fase da História da Humanidade...
Com um gesto amplo, abrindo os braços, Bell fez uma pausa.
Quando olho agora, aqui em volta de mim, vêm-me à cabeça estranhas comparações. Crest e Thora chegaram à Lua há 131 anos. Naquela época, nossos primitivos foguetes nos enchiam de orgulho. Agora partimos para pesquisas espaciais e os nossos colonizadores se deparam com seres estranhos nos confins do Universo. A Terra se tornou, em tão pouco tempo, uma potência de primeira grandeza. Qual será o destino desta evolução vertiginosa desta nova potência da Via Láctea? Quando e quem será que nos vai demarcar os limites desta expansão incrível? Já ultrapassamos e quase que já substituímos os degenerados arcônidas, de quem muito herdamos. O imperador de Árcon, Atlan, vê esta nossa expansão com um olho chorando e com o outro rindo. Compreende naturalmente que nossa penetração constante em sua esfera de ação é mera conseqüência do incrível progresso da Terra. Não é de se estranhar que atualmente um bom número de terranos ocupem cargos importantes na administração de Árcon. Posso lhe dizer mais uma coisa?
Bell olhou para cima, vendo o rosto de Rhodan mergulhado na penumbra que reinava na sala de comando, que, naquela hora, tinha como iluminação apenas as pequenas luzes coloridas dos vários instrumentos. O rosto de Rhodan recebia os reflexos multicores, dando a impressão de que um poder oculto pretendia retalhar a face do grande líder da Humanidade.
Mas, o que você quer dizer mesmo, Bell?
Não é nada de extraordinário. Eu penso apenas que estamos tendo e vamos ter ainda um longo período de calma. Os saltadores só nos atacam de vez em quando e... pelas costas. Parece mesmo que, no momento, não há ninguém que possa nos ameaçar seriamente.
Não; há muitas inteligências no Universo que estão interessadas em nos atacar. O que as impede de agir é nossa aliança com o Grande Império de Árcon.
Bell fez um aceno com a cabeça, concordando.
Árcon é um reino muito confuso. Atlan nos assusta a todo momento, chamando-nos para sufocar no nascedouro as constantes revoltas de seus povos. Mas Árcon não é toda a Galáxia. Conhecemos uma pequena parte dela. O Império Arcônida, que no começo nos parecia quase infinito, domina apenas um pontinho da Via Láctea. As dimensões se alteraram muito nestes últimos anos... O que será que vamos encontrar no centro da Via Láctea, lá onde ninguém ainda penetrou?
Novamente suposições.
Talvez — disse Bell pensativo. — Este vôo me faz lembrar muito a viagem de Crest e Thora, que saíram à procura da imortalidade. Em vez de encontrarem a vida eterna, encontraram a Terra e nos trouxeram a tecnologia arcônida. Agora, faço a pergunta: O que vamos descobrir nesta viagem, ou melhor, nesta expedição?
Acendeu-se uma tela, aparecendo o rosto do primeiro-oficial, o Major Hunt Krefenbac.
Estamos à sua espera, sir.
Já estou indo — disse Rhodan ao microfone, e voltando-se para Bell, falou em voz baixa: — Não assuste o pessoal assim. Você sabe tão bem como eu, que existem seres inteligentes que nós não podemos enfrentar assim, de uma hora para outra. E mesmo os saltadores, não podemos menosprezar seu poderio. A nossa sorte é que estes nômades do espaço talvez nunca consigam unir suas forças, devido às divergências pessoais de seus chefes.
Afastando-se dali, Bell se dirigiu para a escotilha blindada II. Rhodan acenou para o comandante do outro lado, que naquele momento se levantara de sua poltrona especial. Pesado como um rochedo, estava ele diante de Rhodan. O administrador era um pouco mais alto que ele.
Jefe, continuaremos na mesma rota, não acelere mais do que isto. Só um pouco antes da órbita de Júpiter, novas ordens serão dadas. Enquanto isto, vá procurando no meio deste formigueiro de corpos celestes a estrela vermelha e esqueça também tudo que aprendeu na Academia Espacial sobre hipersaltos ou transições. Temos que voar agora vendo o que está à nossa frente. Acho que só esta vantagem da propulsão linear compensa todos os esforços que fizemos para sua concretização. Daqui para frente, não faremos os complicadíssimos cálculos para as transições. Voando nesta velocidade fantástica, onde iríamos parar se houvesse apenas um pequeno erro de cálculo?
Claudrin, de repente, virou para trás. Um radiotelegrafista, que “por acaso” estava parado perto, tomou posição de sentido.
Qual é o bobo que está xeretando por aqui? — perguntou o homem de Epsal, com seu vozeirão cavernoso.
O jovem telegrafista saiu correndo e Claudrin, contente, acariciou o cavanhaque.
Rhodan tossiu, levando a mão à boca e resolveu também deixar a sala de comando.
Acho que ainda me verei obrigado a botar uma mordaça nesse sujeito — disse Bell, um tanto irritado. — Esta voz berrante me faz mal aos ouvidos.

* * *

Toda a tripulação da Fantasy fora convocada para o salão dos oficiais. Brazo Alkher ainda não se sentia à vontade no meio destes homens dos mais diferentes setores da Frota Espacial selecionados a dedo. Eram-lhe apresentados constantemente outros homens, entre eles personalidades de maior relevo, que conhecia apenas de nome.
Professor Kalup, o matemático considerado a maior capacidade da Terra, Riebsam e Gorl Nkolate, a sumidade médica da África, especialista em cirurgia de adaptação, eram apenas alguns dos grandes nomes que integravam a tripulação da Fantasy.
Além de toda esta gente dos altos coturnos, havia outras pessoas que Brazo — como muitos milhares de outros tenentes da Frota Espacial — olhava com um misto de medo e de respeito. Eram os membros do lendário Corpo de Mutantes, que, conforme todos sabiam, tiveram uma atuação preponderante na formação do Império Solar. Até então, Brazo nunca se defrontara com um deles.
Podia-se ver a figura alongada e magra de Hunt Krefenbac junto dos registros automatizados de alimentação. Brazo já percebera em conversa com os colegas que Krefenbac não era tão vagaroso como parecia, embora, no momento, seu rosto pudesse dar esta impressão. Aliás, a tripulação da Fantasy parecia mesmo composta de pessoas dotadas de inequívocas qualidades pessoais.
Neste momento, entrou no salão dos oficiais o Tenente Mahaut Sikhra, em companhia de um homem de aparência quase insignificante, portando o emblema de engenheiro operacional. O singular neste engenheiro e capitão do cruzador Fantasy era que seu tórax apresentava uma exagerada saliência para frente, deixando supor que seus pulmões eram duas ou três vezes maiores do que os de um homem normal.
Apresento-lhe o Capitão Slide Narco, nascido no planeta Marte — disse o tenente, em tom mais baixo. — Falam que este marciano, com seus pulmões descomunais, é capaz de encher num só sopro um balão do tamanho de um arranha-céu, o que é, naturalmente, um belo exagero.
Também acho — confirmou Brazo. Sik se abriu num largo sorriso. Alguns dos oficiais do setor técnico, ali reunidos, se entreolharam com ar de zombaria. Realmente, o singular marciano parecia um pateta a bordo.
Brazo mordeu os lábios para dominar o riso. Olhou em volta para disfarçar e antes que achasse palavras adequadas, aconteceu algo que o deixou desnorteado. Bem rente dele, o ar começou a tremeluzir e, no mesmo instante, do meio deste estranho fenômeno luminoso, surgiu uma figura estranha, de pouco mais de um metro, portando o uniforme da Frota Espacial. Não era nenhuma alucinação.
Gucky viera apenas para dar uma olhada e curioso começou a detectar os impulsos mentais do subitamente lívido oficial Brazo. Os sentimentos paternais de Gucky foram fundamente atingidos, ao ver o jovem tomar posição de sentido, com o máximo de respeito, se bem que de início ele se assustara, dando um pulo para trás e olhando decepcionado para o focinho pontudo de rato.
Fantástico! Este deve ser o elemento mais sensacional do Corpo de Mutantes... Parece um tipo muito simpático, um pouco cômico, mas formidável e de olhos muito inteligentes.”
Gucky não quis prosseguir na leitura dos pensamentos do recém-chegado a bordo da Fantasy. Irradiando imensa satisfação pelos bons conceitos a seu respeito, lidos nos pensamentos de Brazo, Gucky se apoiou nas patas traseiras e, erguendo o corpo, estendeu a mão em cumprimento. Os olhos de Brazo se arregalaram ao ver o dente roedor, bem saliente, do intrépido mutante.
Olá! Bem-vindo a bordo! — disse Gucky, em tom sibilante. — Você é Brazo Alkher, não é?
Sim... perfeitamente, senhor — gaguejou o jovem.
Gucky, triunfante, deu uma olhada em volta. Todo mundo ouvira que ele fora tratado por “Senhor”.
Gucky, chame-me simplesmente de Gucky — disse benévolo, nadando num oceano de contentamento. — Para você, estou sempre às ordens. Agora, não se deixe levar por estes malandros, está entendendo?
Por quem, senhor?
Gucky riu com gosto. Seus olhos brilhavam de felicidade à luz indireta dos tubos fluorescentes embutidos.
Dos malandros. Daqueles ali.
Sua mão apontou para os homens em volta.
Se não o deixarem em paz, venha falar comigo que eu dou um jeito neles.
Ainda meio confuso, apertou a mão daquele ser inteligente extraterreno. Sentiu-se meio sem jeito, ao perceber a longa cauda em forma de concha saindo para fora do uniforme. Enxugou o suor do rosto, depois que o pequeno animal deu-lhe as costas. Sik tapava e apertava a boca com a mão, enquanto seus olhos úmidos quase saltavam das órbitas. Depois de esfregar as pálpebras com o indicador, pigarreou fortemente.
Saia do caminho, seu anão! — gritou Gucky para um tripulante de estatura avantajada.
Rapazes! — disse Brazo extenuado — isto foi realidade ou eu estava sonhando de olhos abertos?
Sik sorriu.
Você ainda vai conhecê-lo melhor. Dizem que é capaz de liquidar mil homens ao mesmo tempo, sem uso de qualquer tipo de arma.
Ah! Essa não!
É sério, não estou brincando não. Ele é teleportador, telecineta e ainda de sobra telepata. Você não vai acreditar como ele nestes poucos segundos virou você pelo avesso. Estou conven..., oba, o chefe está chegando, calma.
Antes que Rhodan penetrasse no salão dos oficiais, captou um chamado telepático de Gucky. O rato-castor, neste momento, se encontrava no balcão que circundava uma parte do salão.
Dei uma olhada nele — continuou Gucky. — Tem um medo pueril de mim, imagine.
Extraordinário — emitiu Rhodan, utilizando-se de seus fracos dons de telepatia.
Gucky o entendeu perfeitamente.
Não o maltrate, grande chefe, por favor! O coitado ficou muito impressionado comigo.
Eu já disse, extraordinário.
Vamos deixar isto de lado. Fiz apenas um teste rápido com ele. Gostaria de dizer que está tudo cem por cento. Naturalmente, sente-se um tanto inquieto devido à nova situação. Fora disso, vai tudo bem.
Ótimo, muito obrigado, Gucky. Rhodan interrompeu a comunicação telepática. O chefe do Corpo de Mutantes, John Marshall, “ouviu” toda esta conversa. Seu olhar perscrutante demorou-se por uns instantes no novo oficial da artilharia, antes de sussurrar nos ouvidos de Rhodan:
Dá uma ótima impressão, espírito jovem e sadio, sir.
Não há dúvida, John, conheço bem sua ficha. A bordo da Formosa, o rapaz realizou proezas que fizeram Bell empalidecer. Isto quer dizer muita coisa, e você não pode negar.
Marshall tentou esconder o sorriso, enquanto correspondia aos cumprimentos dos tripulantes da Fantasy, ali agrupados. Brazo Alkher ameaçava se dissolver numa onda de respeito e admiração, quando Rhodan penetrou no balcão do grande salão, puxando para junto de si o braço articulado do microfone. Era este exatamente o homem que havia ajudado Brazo a carregar as malas. Agora, porém, o administrador envergava o sóbrio mas distinto uniforme da Força Espacial. Os emblemas da hierarquia não tinham nada de bombástico nem de espalhafatoso, mas eram facilmente reconhecíveis.
Seremos breves — soou a voz de Rhodan nos alto-falantes. — Mandei convocá-los para este salão, a fim de informá-los do nosso vôo. Trata-se desta vez de um teste de longo percurso. O nosso destino é um grande sol vermelho nos confins da parte central da Galáxia, sol este que ainda não tem nome. A distância deste sol ou estrela vermelha, indicada nos catálogos, de quarenta e dois mil cento e oitenta anos-luz, talvez não esteja exata. Com uma espaçonave convencional, necessitaríamos de, pelo menos, dez transições, tendo que executar os terríveis cálculos de distância de cada salto, ainda sob a incerteza de não atingir o alvo com exatidão. Gastaríamos para isto pelo menos uma semana de viagem.
Tenho intenção de transformar em realidade a maior velocidade já obtida teoricamente. Assim sendo, a Fantasy vai rasgar o semi-espaço com uma velocidade de vinte e cinco milhões de vezes superior à velocidade da luz. Este valor deve ser visto de uma maneira sumamente relativa e dependente de certas condições. Não se assustem, pois, com a cifra gigantesca. O decisivo não é o conceito relativo sobre uma escala de velocidade a ser mantida, mas tão-somente o período de tempo real de que carecemos para perfazer uma distância mais ou menos preestabelecida. Todo o resto é de somenos importância.
As espaçonaves de propulsão linear abrem assim novos horizontes para viagens no hiperespaço. É, pois, necessário nos familiarizarmos com conceitos novos, embora assustadores.”
Rhodan apalpou o bolso da jaqueta e dele tirou uns papéis. Seu olhar sereno perscrutou os trezentos membros da tripulação do cruzador de experiência. Eram olhares atentos e fisionomias tensas de homens escolhidos a dedo.
O outro ponto que merece uma explicação, diz respeito à exatidão do nosso destino — continuou Rhodan. — Como nos vôos experimentais anteriores, estaremos em condições de ver a estrela do nosso objetivo à base do sistema paraótico. Voando 25 milhões de vezes mais rápido que a luz, haveremos de atingir a estrela vermelha em apenas quatorze horas e meia. Conforme todas as experiências feitas até hoje, não haverá necessidade de prorrogação destas quatorze horas, excluindo o caso de a proteção total do campo kalupiano apresentar alguma surpresa, o que, aliás, até hoje nunca se deu. Não podemos ter uma certeza absoluta, mas, de qualquer forma, estamos preparados para tudo.
Uma coisa está totalmente fora de dúvida: os druufs, que não são seres humanos e de quem herdamos o novo tipo de propulsão, atingiram sempre seus objetivos com absoluta precisão. Sabemos, além disso, através de nossos agentes cósmicos, que nos vôos de longo percurso dos druufs jamais ocorreram dilatações de prazo devido ao tempo relativo. Tenho a certeza de que manteremos nossa medição de tempo, sem que com isso possam surgir fenômenos desagradáveis.
Se surgirem fatores de distorção, haveremos de enfrentá-los normalmente. Isto seria tudo sobre a parte puramente técnica da Operação Estrela do Destino. Tenente Alkher...!”
Brazo estremeceu de susto ao ouvir seu nome dos lábios do administrador do Império Solar. Perplexo, se deu conta de que todos os olhares se convergiam para ele.
Pronto, sir! — respondeu com voz trêmula.
Você já inspecionou a central de artilharia da Fantasy?
Perfeitamente, sir.
Está claro a respeito de tudo?
Acho que sim, sir. Não é propriamente diferente das centrais das espaçonaves tradicionais.
Ótimo, muito obrigado! Prepare-se para, se for necessário, poder agir com a maior presteza. A Fantasy não é propriamente uma belonave nem um supercouraçado, nem mesmo um cruzador pesado no sentido estrito da palavra. Uma boa parte dos armamentos teve de ser suprimida para dar lugar a outros mecanismos. Somos realmente uma usina energética voando pelo espaço. Os poucos canhões de que dispomos devem pois estar em condições de fazer fogo com extrema rapidez e pontaria perfeita, para não termos surpresas desagradáveis. Tome todas as providências neste sentido e não se preocupe com outras coisas.
Certo, sir.
Rhodan pôs suas anotações no bolso e, olhando para o relógio, disse determinadamente:
Em meia hora atingiremos a órbita de Júpiter. De lá passaremos ao semi-espaço, acelerando rumo ao nosso destino. Vistam o uniforme espacial e deixem ligados os aparelhos de intercomunicação. Afivelem bem firme o cinturão de segurança. Esperamos já haver eliminado as causas das vibrações celulares, observadas até então. Porém não temos plena certeza disso. Não se esqueçam de que estão a bordo de um protótipo. A questão é de tudo ou nada, sendo que temos que arriscar tudo para conseguir nosso objetivo.
Antes de se retirar do salão dos oficiais, Rhodan cumprimentou os presentes com um sorriso afável. Por uns segundos, um pesado silêncio cobriu todo o recinto. Depois, as vozes se entrelaçaram. Formaram-se então grupos e grupinhos, onde o assunto devia ser um só.
Puxa! Mais de quarenta e dois mil anos-luz...! É dose para leão, é espaço que não acaba mais — disse Stana Nolinow perplexo. — Desta vez, o negócio é para valer. Como é que você se sente, meu irmãozinho?
Brazo tinha um sorriso esquisito estampado no rosto. Como que alheio a tudo, olhava absorto para o lugar onde estivera Rhodan, há poucos instantes.

4



Aquilo tudo parecia mesmo um pesadelo, mentalmente um tanto obscuro e materialmente inacessível às mãos humanas.
A manobra fora impecável. Depois que se instalou o campo de compensação kalupiano e se efetuou a conversão estrutural das ondas de impulso, tinha-se a impressão de que nada de anormal acontecera a bordo da nave experimental. As dores alucinantes habituais deixaram de existir — eram coisas do passado.
Nada mudara, nenhum corpo se dissolvera. A visão ótica do objetivo, que estava na linha reta do protótipo Fantasy, era absolutamente perfeita. Somente nas regiões em que a duração dos raios de ressonância paraestáveis se tornava mais curta é que desapareciam os contornos da parte conhecida da Via Láctea.
Na tela central, como se fosse um grãozinho de areia, cintilava a estrela vermelha, o destino daquela incrível expedição.
Voava-se com o objetivo à vista, sem os complicados cálculos das transições e os estudos meticulosos dos ângulos. A tremenda velocidade da Fantasy tornava fácil a correção do pequeno desvio provocado pelo movimento de translação do sol vermelho.
Bem abaixo do posto de comando, estrugia o conjunto de propulsão kalupiano. Apenas alguns minutos após o início da aceleração das zonas de libração, havia-se constatado que o conversor de compensação, apesar da altíssima solicitação a que era forçado, estava ainda muito longe de qualquer sobrecarga. Duzentos e vinte mil megawatts não era o suficiente para “afogar” o monstro devorador de energia.
As máquinas calculadoras trabalhavam ininterruptamente no Departamento de Matemática. A compressão energética do campo kalupiano aumentara apenas 5%, comparada a experiências de vôos anteriores, se bem que a usina adicional montada na Fantasy continuava fornecendo vinte mil megawatts a mais. Depois de um período de aceleração de somente oito minutos no âmbito do semi-espaço instável, produzido artificialmente, o cruzador experimental chegou à maior velocidade possível, atingindo com as ondas de impulso a fantástica velocidade de vinte e cinco milhões de vezes a velocidade da luz. Por outro lado, tinha-se como certo e comprovado que esta alucinante velocidade não poderia ser ultrapassada com nenhum recurso técnico, caso não se conseguisse atingir a necessária proteção total das influências energéticas quadridimensionais.
A visão para o espaço normal era indecisa. Não se via outra coisa a não ser formações luminosas de formas estratificadas, envoltas na penumbra. Claridade mesmo existia apenas no setor dos raios paraóticos refletidos. Com a distância que aumentava, ampliava-se também o campo visual. Os primeiros resultados das medições mostravam que o manto ou campo de proteção, baseado no princípio kalupiano, mantinha sua estabilidade, embora a compressão energética diminuísse com a crescente dilatação. A estrela vermelha, destino daquela fantástica jornada, estrela esta que estava no foco do rastreamento paraótico, surgia também nítida na tela panorâmica.
Em virtude dos muitos afazeres a bordo da Fantasy, ninguém tinha propriamente consciência exata de que a nave protótipo se encontrava num setor irreal do espaço, fato este explicável somente pelos cálculos matemáticos. As constantes da quinta dimensão eram absorvidas plenamente pelo campo kalupiano. Realmente, não havia nenhum indício de desmaterialização. Quando se penetrava no hiperespaço os sintomas eram por demais notórios para se poder constatar que a regularidade hiperfísica, ou simplesmente as leis da hiperfísica, não possuíam nenhuma validade na zona de libração.
Rhodan ligou o segundo posto de controle. Em caso de emergência poderia assumir o comando manual da espaçonave. Jefe Claudrin estava sentado tão calmo e descontraído na sua poltrona especial, que Rhodan aos poucos começou a compartilhar daquela serenidade. O primeiro quarto de hora de imersão no hiperespaço fora um tanto turbulento. Já agora, os comunicados vinham sem afobação e não havia mais aquela tensão nos olhos e nos gestos dos tripulantes.
Rhodan chegou a apalpar com atenção seu corpo. Nada se alterara.
Você pensou que ia poder apalpar seu estômago por dentro? — perguntou Bell, em tom de brincadeira.
Os olhos do gorducho, de um azul-claro, irradiavam aquela cintilação que demonstra avidez por novas aventuras.
Aqui tudo é possível — disse Rhodan, desconfiado. — Como é que você se sente?
Muito bem. Chego mesmo a não acreditar que nos movemos a uma tal velocidade.
Quantas vezes terei de lhe explicar que o fenômeno deve ser visto como coisa de somenos importância, apenas como apoio para o pensamento? Importante é...
...o trecho realmente percorrido. Sim, sei disso.
Rhodan se ergueu da poltrona. Momentos mais tarde deu uma instrução pelo microfone:
Todos devem abrir o capacete do uniforme espacial. Prestem, porém, atenção! Pode ser que, dentro de pouco tempo, tenhamos de nos isolar novamente do mundo externo.
Dizendo isto, se encaminhou para o assento do comandante. Jefe Claudrin não tinha mãos suficientes para executar todas as instruções ditadas pelo professor Kalup, que, calmo, controlava tudo. Eram geralmente alterações mínimas quanto ao funcionamento das turbinas e à correção da rota.
Rhodan ficou parado atrás do homem de Epsal, cujas manobras eram de uma rapidez e de uma precisão notáveis. Infelizmente não se havia ainda inventado um piloto automático para o vôo linear. Desta forma, seu fantástico poder de reação possuía um valor inestimável. Rhodan olhou em volta. Bem à sua frente estava instalada a tela abaulada de paraobservação em terceira dimensão. A parte do vídeo de imagens normais mostrava apenas reflexos indefinidos.
Maravilhoso, sir! — tonitroou o vozeirão de Claudrin. — Kalup quer me forçar a um desperdício de energia. Que acha, sir?
Rhodan refletiu um instante. O pensamento de Kalup era de fácil compreensão. Queria tentar, a todo custo, aumentar a velocidade da Fantasy, embora o compensador tivesse já atingido sua capacidade máxima de carga.
Experimente! — disse Rhodan.
De que maneira? — perguntou Claudrin muito surpreso, mostrando no rosto um misto de medo e de perplexidade.
Experimente, Jefe. Injete mais combustível e force um pouco mais o conversor de impulsos. Eu também estou curioso para ver o que vai acontecer. Afinal de contas, chegará a hora de termos de usar tal velocidade.
A central de cálculos matemáticos ouviu as instruções. Por trás de um rastreador superestrutural, cujas escalas cilíndricas giravam com uma velocidade tremenda, apareceu a figura do corpulento Kalup.
Até que enfim! — esbravejou Kalup, com seus gestos temperamentais.
Suas bochechas estufadas, sulcadas de veias azuladas, estavam agora mais rígidas e tensas.
Traga-me o microfone para dar umas explicações.
Um técnico de seu setor afastou-se, para dar passagem ao grande cientista. Resmungando qualquer coisa, Kalup puxou para perto de si o braço articulado do microfone.
Aqui fala Kalup — disse superfluamente, pois aquele vozeirão era demasiadamente conhecido de todos os tripulantes. — Sir, está me ouvindo?
Claro que sim!
Era a voz de Rhodan pelo intercomunicador.
Bem, melhor assim! — continuou Kalup no seu estilo quase irreverente. — Já que houve por bem acatar os conselhos de um homem experimentado, então vamos resolver isto logo e... com perfeição. Para esta experiência, necessito de trinta e duas toneladas de bismuto por segundo para cada unidade de propulsão. Será que seus miseráveis carregadores vão conseguir isto?
O quê? — tonitroou a voz de Claudrin em todos os alto-falantes. — O senhor diz isto duas vezes, professor?
Perfeitamente — afirmou Amo Kalup, enfezado. — Por cada conjunto de propulsão e por cada segundo. Senhor, está por aí o engenheiro-chefe?
Você está um pouco enganado, Amo — interveio o engenheiro-chefe, amigo íntimo de Kalup. — O conteúdo energético de um plasma que está se aproximando do estado sólido, quase atingindo o estágio de desintegração nuclear, não pode mais ser controlado, em determinadas proporções. Vou precisar de cada quilowatt para o compensador. O fornecimento da estação de emergência não é suficiente para a criação de um campo de proteção na potência requerida.
Nada disso — acudiu Kalup, fora de si de tanta raiva. — O plasma é controlável.
Somente com, pelo menos, três estações geradoras de boa potência.
Com duas estações de emergência, seu engenheiro de meia-tigela! — gritou Kalup gesticulando demais.
Você tem uma idéia a que leis físicas estamos submetidos no momento? Vou lhe provar que...
Solicito um pouco mais de silêncio no recinto — ecoou a voz fria de Rhodan, através do ruído das turbinas e do intenso vozerio. — Senhor Narco, ligue o aquecedor do tanque de bismuto até mil e quinhentos graus e regule as turbinas até o ponto de carga solicitado, dando toda a força ao conversor de impulsos pronto para a injeção das cargas adicionais. Professor Kalup, estou arriscando muito. Não pode ignorar que a potência de empuxo dos conjuntos de propulsão será multiplicada muitas vezes em curto espaço de tempo. Suponho que deva ter em mãos o resultado de todos os cálculos. Quais os coeficientes de segurança que terá com trinta e duas toneladas por segundo?
Kalup olhou com atenção para a tela panorâmica. Estava se controlando, mas a muito custo. Sua calva brilhava com o suor a escorrer em bicas.

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