quinta-feira, 18 de agosto de 2016

P-078 - O Sacrifício de Thora - Kurt Brand [parte 1]

Autor
KURT BRAND



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN


O computador-regente convida Rhodan para um contato pessoal — na verdade, trama mais um golpe.



Apesar dos repetidos esforços, Perry Rhodan não conseguiu que a ducha celular do planeta Peregrino fosse aplicada a Crest e Thora. As experiências neste sentido produziram resultados negativos, pois o fisiotron não reagia às vibrações orgânicas dos dois arcônidas.
É bem verdade que, há algum tempo, John Marshall e Laury Marten conseguiram, numa missão perigosa, trazer de Tolimon uma ampola de soro prolongador da vida... Mas agora, um processo de decadência tem início no organismo da arcônida, fazendo com que a droga não produza o efeito desejado...
Aí, então, começa o sacrifício de Thora!





= = = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

ThoraConhecida como a boa alma do Império Solar.

Dr. VillnoessChefe da Divisão de Hematologia da Clínica Terrana de Vênus.

General Conrad DeringhouseUm homem que tem uma missão a cumprir em Árcon.

Tenente Hendrik OlavsonO talento astronáutico.

Taa-rellComandante de Mutral, um planeta fortificado dos arcônidas.

Ishy MatsuA jovem telepata.

Perry RhodanSerá que este homem saberá resistir ao golpe do destino?
1



O Dr. Villnoess, chefe da Divisão de Hematologia da Clínica Terrana de Port Vênus, examinou mais um resultado de análise. Lançou um olhar aborrecido para a pilha de documentos que tinha à sua direita. O maçante trabalho de rotina obrigava-o todos os dias a abandonar seus laboratórios, e transformar-se num burocrata. O Dr. Villnoess contava apenas trinta anos de idade. Ainda era muito jovem, quando foi investido nas funções de chefe da Divisão de Hematologia da Clínica Terrana de Vênus. Muitos colegas tinham-lhe inveja. Acontece que Villnoess era um dos dez melhores hematólogos do Império Solar. Graças às suas intensivas atividades de pesquisa, granjeara fama em virtude de suas descobertas pioneiras no terreno da hematologia. No momento, essas descobertas estavam sendo submetidas ao teste dos exames clínicos.
Segundo a rotina, extraiu apenas os dados mais importantes do resultado de análise que tinha à sua frente.

Doença hiperplástica do sistema e LC, tipo F Árcon.
Irreversível.
Tentativas 453 LS/ara falhou.
Expectativa de vida: zero.

Era o núcleo do resultado da análise, e Villnoess esteve a ponto de assiná-lo para colocá-lo na pilha dos documentos liquidados, quando alguma coisa o fez estremecer.
Tipo F Árcon”, pensou.
Quem poderia ser o paciente para o qual esse resultado representava uma sentença de morte?
Era Thora, a esposa de Rhodan!
Villnoess leu a meia voz:
LC tipo F Árcon.
Depois de respirar profundamente, prosseguiu:
Tentativa LS/ara falhou.
A sigla LC significava linfocarcinoma, ou seja, um tumor maligno numa glândula linfática. A letra F indicava o grau de periculosidade da moléstia cancerosa. A palavra Árcon não significava apenas ser o paciente um arcônida, mas ainda de se tratar de um tumor que representava um mistério até mesmo para os médicos galácticos, que ainda não haviam descoberto qualquer remédio contra tal doença.
O Dr. Villnoess enxugou a testa molhada de suor.
Ele, que até então sempre confiara nos diagnósticos dos colegas, sentiu-se tomado de uma espécie de pânico que o fez desconfiar de sua capacidade de avaliação.
Num gesto apressado, ligou o interfone.
Peço que os senhores Gonder, Iltar e Vandenbourg compareçam imediatamente à minha presença.
Dali a pouco, os três médicos entraram juntos. O médico-chefe ainda segurava o resultado da análise do sangue de Thora.
Nem sequer convidou os colegas a sentarem-se. Ele mesmo não agüentou ficar na cadeira giratória, que ficava atrás de sua escrivaninha.
Senhor Iltar — começou em tom hesitante — não pretendo lançar dúvidas sobre o resultado de seu diagnóstico, mas... — calou-se, sacudiu a cabeça e largou o resultado da análise. Lançou um olhar indagador para os três colegas.
Acenaram com a cabeça. Compreendiam o chefe, mas não souberam responder à sua muda indagação.
Finalmente, Villnoess, o médico-chefe decidiu-se:
Senhores, não posso transmitir este resultado a Perry Rhodan! Como acham que vou fazer uma coisa destas?
Agora o Dr. Iltar, responsável pelo resultado escrito, não poderia deixar de pronunciar-se sobre a pergunta do chefe.
Chefe, compreendemos perfeitamente. Também não gostamos de acreditar nisso, mas infelizmente a situação é precisamente esta. Dona Thora é uma arcônida, e o tumor da glândula linfática é um carcinoma arcônida maligno do tipo F. Há cerca de duas horas, o laboratório de cancerologia de Terrânia confirmou por via telegráfica que, tal qual acontece em todo aumento numérico dos glóbulos brancos, os granulócitos e monócitos entraram no sangue na proporção de 5:100. Face a esse resultado, a possibilidade de erro de diagnóstico é bastante reduzida. Apesar disso...
O Dr. Villnoess recostou-se à escrivaninha. O “apesar disso” e a pausa que se seguiu a estas palavras não anunciava nada de bom.
Apesar disso o quê? — pergunto Villnoess em tom áspero. — Fale logo.
Chefe, há algum tempo, o soro revitalizante dos aras do planeta de Tolimon foi injetado em dona Thora. O senhor deve estar lembrado de que numa ação arriscada John Marshall e Laury Marten conseguiram apoderar-se de pequena quantidade desse soro.
Sim; e daí? — perguntou Villnoess em tom insistente.
Não queria enxergar a ligação entre esses fatos e a doença de Thora, mas no seu íntimo pensava:
Tomara que não seja isso! Tomara que não seja!
O Dr. Iltar prosseguiu em tom hesitante.
O laboratório de cancerologia de Terrânia manifestou a suspeita de que o tumor F Árcon tenha surgido em virtude da aplicação do soro, já que alguns dos granulócitos alterados se assemelham àquela substância misteriosa e não identificada que entra na composição do elixir.
Iltar! — o médico-chefe teve de esforçar-se para não perder o autocontrole.
Quem manifestou essa suspeita? E a pessoa que emitiu esse pronunciamento já sabe que o paciente é a esposa de Perry Rhodan?
Foi o professor Eric Manoli, chefe.
Não houve necessidade de responder à última pergunta.
O médico-chefe, Dr. Villnoess, repetiu com a voz rouca:
O professor Manoli é um dos mais antigos colaboradores de Perry Rhodan. A ducha celular, que lhe foi aplicada no planeta Peregrino, fez com que se conservasse jovem. O professor é a maior autoridade no terreno da hematologia. Se Manoli manifestou uma suspeita, podemos supor que, depois de uma série de investigações mais de talhadas, essa suspeita venha a transformar-se em realidade.
O médico-chefe respirou pesadamente e passou a mão pela testa.
Será que devo informar Perry Rhodan de que, naquela oportunidade, não foi injetado nenhum soro revitalizante nas veias de sua esposa, mas um veneno que provoca o câncer? Iltar, faça o favor de chamar a central. Preciso falar imediatamente com o professor Manoli. Acho que ele está em Terrânia, ou não?
A ligação audiovisual só foi completada dali a trinta minutos.
O rosto expressivo e intelectualizado surgiu na tela que se encontrava à frente de Villnoess. Manoli falava com a voz calma quase indiferente. Removeu as objeções formuladas pelo médico-chefe da clínica terrana, recorrendo a seu saber fenomenal sobre todas as facetas da doença mortífera.
Não se pode dizer que o soro revitalizante dos aras do planeta Tolimon seja um veneno, Villnoess. Todos os arcônidas têm uma predisposição para a leucemia. Ainda não sei se isso constitui uma manifestação de degenerescência, ou se representa a resistência natural do corpo às tentativas de não permitir que a morte se aproxime. Não gosto de pensar que os dias de Thora estejam contados, pois sei perfeitamente que Perry Rhodan ama apaixonadamente a esposa, muito embora esta tenha envelhecido repentinamente.
No entanto, cada coisa tem duas faces, colega Villnoess. A semelhança entre a substância encontrada no medicamento dos aras e aquela revelada durante a moléstia do tipo F Árcon fez com que passasse a raciocinar que os soros revitalizantes dos arcônidas provavelmente funcionam com base num processo dirigido de proliferação. Não acha que é um aspecto bem interessante, colega?”
Pela primeira vez, depois de se ter tornado médico, Villnoess deu-se conta plenamente do que vem a ser um pesquisador. As palavras do professor constituíam uma representação viva nesse sentido. Enquanto ele ainda lutava com a indagação de como informar Perry Rhodan de que sua mulher morreria em breve, o professor já havia feito uma pesquisa interessante.
Tal atitude não representava nenhuma blasfêmia. Manoli encarava a morte sob o ponto de vista de que morrer é apenas uma outra forma de viver.
Uma vez concluída a palestra entre os dois especialistas, o Dr. Villnoess sentiu-se mais aliviado. Mas, ao refletir sobre a maneira de formular a notícia a ser transmitida a Perry Rhodan, administrador do Império solar, as velhas dúvidas voltaram a surgir.
Fez três tentativas de redigir um relato em que vibrasse um pouco de sentimento humano, mas acabou por elaborar um texto que resumia os fatos. Não mencionou a suspeita manifestada pelo professor Manoli.
Durante sua palestra com Manoli, soubera que Perry Rhodan se encontrava no planeta Fera Cinzenta, de onde dirigia a missão de observação dirigida contra os druufs. A mensagem codificada chegou a Perry Rhodan por meio da gigantesca estação de hiper-rádio de Terrânia, e através de três cruzadores pesados estacionados no espaço, que serviam de estações retransmissoras.
Rhodan fez um esforço sobre-humano para bloquear sua mente. Naquele instante, nenhum telepata conseguiria ler seus pensamentos. Não queria que ninguém tivesse possibilidade de acompanhar sua dor, seu desespero e sua revolta impotente contra o destino.
Apesar da enorme carga psicológica, Perry Rhodan, administrador do Império Solar, que criara a gigantesca organização com a força de sua personalidade, conseguiu levar a bom termo a conferência em que se encontrava.
Dali a três horas, chegou a mensagem vinda do planeta Fera Cinzenta, pela qual Perry Rhodan confirmou ter recebido a triste notícia. Mais uma vez, a transmissão foi realizada através de estações retransmissoras instaladas em naves espaciais, a fim de que Árcon não tivesse possibilidade de valer-se da radiogoniometria para descobrir a posição da Terra.
O Dr. Villnoess não se espantou ao saber que o chefe, nome pelo qual Rhodan geralmente era conhecido, não entrou em contato com ele. Seria preferível realizar esse contato com o professor Manoli.
Menos de vinte e quatro horas, tempo de Vênus, depois desses fatos, o médico-chefe Villnoess teve de interromper a rotina de trabalho e sair do laboratório antes da hora.
Foi avisado de que o General Deringhouse queria falar-lhe.
Largou imediatamente o trabalho. Sabia quem era o general, e quem o mandara a Port Vênus.
Conrad Deringhouse, um homem alto e meio magro, fitou o médico-chefe com uma expressão séria, enquanto este, sentado à frente do general, procurava explicar as características da doença da senhora Thora Rhodan ao homem não entendido em medicina.
O cabelo de Deringhouse apresentava o corte típico de militar. As sardas reforçavam seu aspecto juvenil. O processo natural de envelhecimento foi detido por sessenta e dois anos, por meio da ducha celular aplicada no planeta artificial Peregrino. Os arcônidas Thora e Crest, porém, não tiveram permissão de usar o fisiotron, muito embora Perry Rhodan tivesse feito tudo para que também eles recebessem o presente maravilhoso do prolongamento da vida pelo espaço de seis decênios.
O Dr. Villnoess concluiu seu relatório. O General Deringhouse fitou-o com uma expressão pensativa.
Doutor, se eu o entendi corretamente, supõe-se que a doença incurável de dona Thora foi provocada pelo soro dos aras do planeta de Tolimon. E é nisso que não consigo acreditar. Afinal, os médicos galácticos...
Villnoess interrompeu-o abruptamente.
Já sei o que vai dizer, general. Cabe-me informá-lo de que os médicos galácticos vêem-se tão impotentes diante do carcinoma F Árcon quanto nós. E nós, os terranos, só conhecemos o F Árcon por meio da literatura especializada dos aras. Dentro de nosso arsenal de doenças...
Deringhouse inclinou-se para a frente e perguntou em tom de curiosidade:
Dentro de quê? — essa pergunta representava uma reação bastante visível à expressão “arsenal de doenças”, usada nos círculos clínicos.
Villnoess não deixou que a interrupção o perturbasse.
Arsenal de doenças é uma expressão corriqueira no âmbito da medicina. Mas voltando ao assunto: desde sua permanência no Império Solar, dona Thora está exposta a um risco bem maior que seu patrício Crest. Só constatamos esse fato por ocasião do último exame de sangue realizado em dona Thora. Seria extenuante explicar, general, todos os fatos que levam a esta conclusão arrasadora. Pediria que não insistisse nesse ponto. O resultado final é bastante trágico. E a esperança de que os médicos galácticos possuam um remédio, ou conheçam um capaz de eliminar os efeitos mortíferos do linfocarcinoma F Árcon, seria puramente ilusória.
Faz cerca de vinte dias que a maior autoridade dos médicos galácticos no terreno dos reflexos da meninge, o Dr. Uut-Cin, morreu de carcinoma F Árcon. O senhor pode confiar na exatidão desta notícia, inclusive no que diz respeito à causa mortis de Uut-Cin.”
Os dois homens fitaram-se em silêncio.
Doutor, como poderei transmitir esta notícia ao chefe? Estou a caminho de Fera Cinzenta, e Rhodan me incumbiu de fazer uma parada em Vênus, a fim de falar com o senhor. Villnoess... — o General Conrad Deringhouse levantou-se de um salto e caminhou nervosamente de um lado para o outro.
Este homem, que sabia conservar o sangue-frio, mesmo nas missões mais perigosas, temia o momento em que se veria diante do chefe, para cumprir a triste tarefa de informá-lo de que não havia nenhuma esperança para sua esposa.
Deringhouse acompanhara de perto a lenta aproximação humana entre a arcônida Thora, uma mulher dotada de beleza quase irreal, e Perry Rhodan, o idealizador da Terceira Potência e criador do Império Solar, que acabaram formando um excelente casal.
Acontece que Perry Rhodan obteve no fisiotron do misterioso planeta artificial Peregrino a ducha celular prolongadora da vida, que deteve o processo de envelhecimento. Já em Thora, esse processo iniciou-se de repente, e só podia ser detido por pouco tempo pelos soros e medicamentos dos homens e dos aras.
Rhodan fizera tudo que estava a seu alcance, a fim de evitar que Thora fosse atingida pelo triste destino de transformar-se numa mulher velha, enquanto ele conservava o vigor e a juventude.
Nenhum dos remédios que foram dados a Thora no correr do tempo teve um efeito duradouro. Todos agiam por um tempo muito mais curto do que os médicos esperavam. Tornava-se cada vez mais evidente que o organismo de Thora mobilizava todos os elementos ativos para lutar contra esses preparados.
Sua natureza opunha-se à intervenção.
Subitamente, há três meses, Thora transformou-se numa mulher velha.
Constatou o fato ao amanhecer, antes de encontrar-se com Perry. Na mesa de café, falaram sobre o assunto. Ela sorriu e sua mão passou sobre a mão de Perry, num gesto de ternura.
Havia lágrimas em seus olhos, mas sua boca sorria. E, quando segurou a cabeça de seu homem, fitando-lhe o rosto com seus grandes olhos e infinitamente belos, disse:
Perry, não posso chorar, pois isso seria um absurdo... Afinal, a seu lado, vivi uma vida feliz. Não quero esquecer-me de você...
E despediu-se dele.
No mesmo dia, uma nave a levou a Vênus, onde procurou seu bangalô denominado Árcon, situado a dois mil metros de altura, ao pé da cordilheira de Valta.
Três meses já se haviam passado desde então, e de uma mulher que envelhecia rapidamente, Thora se transformara numa pessoa acometida de uma enfermidade mortal.
Fazia vinte e quatro horas, tempo de Vênus, que o exame de sangue revelara esse resultado arrasador.
E agora, o General Deringhouse corria nervosamente de um lado para outro, no gabinete do médico-chefe Villnoess. Com as mãos cruzadas às costas, aquele general intimorato tinha medo de apresentar-se ao chefe e dizer-lhe: “Perry Rhodan, sua esposa não tem salvação.
Doutor — Deringhouse parou à frente de Villnoess. — Rhodan também é apenas um ser humano. Não é uma estátua ou qualquer outra coisa sem vida. Como direi a ele? Dê-me um conselho.
Ele já sabe — respondeu o Dr. Villnoess. — Ontem falou com o professor Manoli.
Sim, já sabe! — exclamou Deringhouse em tom nervoso. — Mas será que o senhor não pode imaginar que Rhodan não queira acreditar? Afinal, continua sendo o marido dela. E Thora é sua esposa. Ele a ama. É pena que o senhor nunca teve oportunidade de ver como os dois viviam numa bela harmonia. Thora! Sim, Thora, a arcônida, a mulher que já foi orgulhosa, altiva e reservada, a princesa de uma velha estirpe de Árcon, ela se transformou na boa alma do Império Solar.
Quero dizer-lhe uma coisa que pouca gente sabe. Thora guiou nosso chefe, e isso não por meio de exigências, muito menos por meio de acusações ou recriminações. Ela simplesmente o conduziu pelo fato de ter sido sua mulher, de ele ter encontrado a seu lado a felicidade com que sonhava.
E agora o senhor me diz que tudo isso chegou ao fim? Justamente agora, que o destino de nosso minúsculo sistema está por um fio?
Dr. Villnoess, deve haver um meio contra o tal do carcinoma F Árcon!”
O médico-chefe da Divisão de Hematologia interrompeu o general. Ainda impressionado pelas palavras do oficial, disse em tom deprimido:
General, morrer é apenas um outro modo de viver.
É só isso que o senhor tem a me dizer? — perguntou Deringhouse em tom áspero, para logo em seguida prosseguir: — Doutor, não posso acusá-lo de nada, mas...
General, no caso de Thora Rhodan não existe nenhum mas...
Pois então, responda-me: quanto tempo de vida ainda terá a esposa de Perry Rhodan?
General, hoje é o dia 4 de outubro de 2.043.
Respirou profundamente.
A senhora Thora não chegará a ver a primavera de 2.044.
Quer dizer que terá seis meses?
Talvez.
Será que posso visitar dona Thora? Ou existe algum motivo que nos impeça de voarmos para o bangalô Árcon?
O médico-chefe refletiu ligeiramente.
Não quero infundir falsas esperanças no senhor ou no administrador, mas tanto eu como meus colegas somos de opinião de que se deveria confiar uma missão importante a dona Thora, a fim de que ela não passe, num estado de letargia e desespero mudo, os últimos meses de sua vida, antes que tenha início o processo de rápida decadência orgânica.
Deringhouse fumava nervosamente.
Como devo interpretar essa sugestão, doutor? Será que uma tarefa importante faz com que um ser humano da raça dos arcônidas mobilize tantas forças que a morte poderá chegar de repente?
Neste ponto, não existe a menor diferença entre os homens e os arcônidas, general. De qualquer maneira, prefiro dar resposta negativa a seu pedido de visitar dona Thora. O senhor está a caminho de Fera Cinzenta, general. Se na volta passar novamente por Vênus, traga uma missão importante para dona Thora. Posso garantir que, com isso, recuperará a vontade de viver...
Dona Thora ainda não sabe qual é sua doença? — perguntou Deringhouse.
Sabe desde hoje de manhã. Ela telefonou e...
E o senhor... Doutor, não é possível! — mais uma vez era o militar que falava, mas Villnoess não se deixou intimidar.
Não quis assumir a responsabilidade de pregar uma mentira piedosa para privar dona Thora do pouquinho de vontade de viver, que ainda lhe resta. Thora sabe que sofre da doença F Árcon.
Doutor, eu seria capaz de... — Deringhouse, geralmente tão controlado, fez um gesto nervoso com o braço.
Meu Deus”, pensou o médico-chefe. “Como este general deve estimar a esposa de Perry Rhodan, para deixar-se arrastar a um gesto destes!
Não se assustou com o movimento, que parecia ser o prenuncio de um soco, pois compreendia as reações humanas.
General — respondeu Villnoess. — Desde hoje de manhã, dona Thora está convencida de que o soro prolongador da vida, que lhe foi aplicado, só deixou de produzir seus efeitos em virtude do tumor. O senhor compreende o efeito psicológico dessa maneira de ver as coisas?
Refletiu, depois continuou:
Para uma mulher, sempre é mais fácil aceitar o fato de que envelhece em virtude de uma doença do que pela incapacidade de seu organismo reagir aos preparados biológicos. Peço-lhe que apresente esta ponderação ao administrador.
E eu lhe peço que procure entender minha reação e minhas recriminações. Está bem, doutor?
Quando se viu novamente a sós em seu gabinete, o médico-chefe rememorou o diálogo.
Admirava o General Conrad Deringhouse e compreendia a fibra dos homens que Perry Rhodan reunira em torno de si. Eram homens sinceros, homens que possuíam suas virtudes, mas também tinham defeitos. Assumiam a responsabilidade dos seus erros com uma franqueza que impunha respeito a qualquer pessoa.
Villnoess afastou-se da escrivaninha e dirigiu-se à janela.
O ambiente estava mergulhado no “cinzento”. Até mesmo as cores mais vivas empalideciam atrás da cerração.
Até parece uma mortalha — disse Villnoess.
Respirava com dificuldade.
2



O general Deringhouse acabara de livrar-se da triste missão.
Perry Rhodan deu-lhe as costas. No recinto reinava um silêncio acabrunhador, que parecia pesar sobre os ombros de Deringhouse, como uma carga cujo peso aumenta constantemente.
O diálogo mantido com o médico-chefe da Divisão de Hematologia da Clínica Terrana de Vênus fora transmitido quase textualmente ao administrador. Se havia alguém que tinha o direito de saber tudo, este alguém era Perry Rhodan, o marido de Thora.
De repente, Rhodan disse:
Faça o favor de me deixar só, Deringhouse. Daqui a uma hora nos encontraremos para discutir a situação. Fico-lhe muito grato.
Mal a porta se fechou atrás do general, Rhodan entrou em contato com a central de comunicação audiovisual.
Transmita a Mr. Bell todas as ligações destinadas a mim. Não quero ser incomodado.
Fera Cinzenta, o sétimo planeta de Mirta, um sistema que contava um total de quarenta e nove planetas, era uma base do Império Solar, cujo poderio aumentava a cada dia. Bilhões já haviam sido investidos no planeta, a fim de transformar este mundo numa fortaleza armada até os dentes, instalada nas proximidades da frente de superposição entre o Universo einsteiniano e o dos druufs.
Para Rhodan, esse mundo — situado a apenas vinte e dois anos-luz da zona de passagem, onde as duas dimensões temporais se sobrepunham e o funil de compensação energética ia estabilizando-se — representava o principal trampolim para a ação que se esboçava.
No momento não tinha nada a fazer senão esperar. A seu favor trabalhavam as frotas de guerra arcônidas e as naves dos druufs, que travavam batalhas encarniçadas nas proximidades e no interior da frente de superposição.
Ambas as partes que, ao que parecia, se igualavam em forças, registraram pesadas perdas materiais, mas estas eram compensadas instantaneamente pelas reservas. Nem os arcônidas nem os druufs viram nada de alarmante nas suas perdas, pois tinham onde buscar novas unidades.
Mas naquele momento em que Deringhouse lhe confirmou aquilo que o professor Manoli já dera a entender por ocasião da última palestra, Perry Rhodan não pensou nas mortíferas batalhas espaciais, nem na situação do planeta.
Seu pensamento estava no planeta Vênus. Diante dos olhos de sua mente, surgiu a cordilheira de Valta, e o bangalô Árcon.
Thora...
Estendeu as mãos, entrelaçou os dedos e abaixou a cabeça. Sentado nessa posição, o homem poderoso do Império Solar queixava-se do destino.
Chamou pela esposa. Sentiu-se cada vez mais tentado a seguir a voz interior que lhe dizia: “Deixe tudo de lado...”
O homem vinha à tona em Perry Rhodan, o homem desesperado que não se conformava com o fato de viver por decênios sem envelhecer, enquanto sua esposa era tragada pela terrível enfermidade.
Thomas... Thomas!
Viu o rosto de seu filho, o rosto de Thomas Cardif, que tinha vinte e três anos. O rosto do filho de Thora.
Acontece que o filho se voltara contra o pai — o filho que crescera com o nome Cardif e só pouco depois dos exames finais que lhe conferiram o grau de tenente da Frota Espacial Solar soube que Perry e Thora Rhodan eram seus pais. Seu filho ainda não lhe perdoara por ter sido privado do amor dos pais nos primeiros anos de vida.
Thomas, meu filho... — balbuciou. Gostaria de ter o filho perto de si, para que juntos procurassem uma maneira de despedirem-se da mãe e da esposa.
Mas a imagem do filho desvaneceu-se com rapidez da mente de Perry Rhodan. Procurou trazê-la de volta, mas não conseguiu. Naquele momento, o homem que corporificava o poderio do Império Solar sentiu-se ainda mais oprimido, pois não contava com a amizade do filho.
De todos os lados, o sentimento de solidão investia contra ele. A tentação de abandonar tudo e voar para Vênus, a fim de que Thora não ficasse só nos últimos meses de vida, essa tentação não ameaçava abalá-lo, mas parecia fazê-lo desmoronar, a ele, Perry Rhodan, o ídolo de bilhões de seres humanos.
Sir...! — a voz familiar do chefe da estação de hipercomunicação de Fera Cinzenta fê-lo retornar à realidade.
Pois não — disse em tom automático, levantou a cabeça e viu um rosto conhecido.
Sir, há dez minutos a estação vem captando uma mensagem do computador-regente. Avisei Mr. Bell, mas ele me pediu que falasse com o senhor.
Obrigado, Bell”, pensou Rhodan ao ouvir estas palavras.
Mais uma vez percebeu quanto vale ter um amigo.
Bell devia ter imaginado, sabido ou sentido o que se passava com ele. Talvez Deringhouse lhe tivesse contado. E aquele procedimento era típico de Bell.
Sir — disse o chefe da estação de hipercomunicação, enquanto os pensamentos de Rhodan vagavam ao longe. — O texto da mensagem é o seguinte: “Solicito comparecimento pessoal.” Esta mensagem é repetida de dez em dez minutos na faixa do cérebro positrônico e não menciona destinatário nem remetente. Será que é dirigida ao senhor? Bell acredita que seja.
Obrigado — respondeu Rhodan, e ficou perplexo ao perceber que sua voz não perdera o tom familiar. — Já esperava esta mensagem. Não há necessidade de responder. Desligo.
O dia-a-dia voltara a apoderar-se dele. Os problemas pessoais teriam de ser colocados em segundo plano. No Império Solar havia uma pessoa que compreendia seus atos: Thora, sua esposa!
Enquanto fazia a ligação para seu representante Reginald Bell, pensou em sua mulher.
Bell, Deringhouse está aí? — perguntou.
Está. Quer falar com ele?
Quero falar com vocês dois. Venham para discutirmos a situação.
Quando se viu novamente diante do chefe, Deringhouse espantou-se com o autocontrole do mesmo. Só as rugas — um tanto acentuadas — de seu rosto revelavam o esforço que tinha de fazer.
Com um gesto, convidou-os a sentarem-se.
Bell, você já está informado, mas Deringhouse não — fitou o general, que aguçou o ouvido.
Sempre que a voz de Perry Rhodan apresentava esse tom metálico, uma missão perigosa estava iminente.
Deringhouse, em fins de setembro, manifestei perante o computador-regente de Árcon o desejo de adquirir cem naves esféricas arcônidas...
Adquirir...! — exclamou Bell em tom insolente. — Quando o ouço falar assim, lembro-me de como você adquiriu nossa Titan. Naquela oportunidade, Gucky não usou a palavra grosseira roubar?
Perry Rhodan sabia o que estava acontecendo na mente do amigo. A observação galhofeira tinha por fim arrancá-lo do estado de tensão em que se encontrava.
Rhodan aceitou a insinuação de Bell.
Escute, gorducho — respondeu. Esse tratamento familiar não tinha nada de extraordinário, mesmo na presença de um general. — Estou perfeitamente lembrado de que naquela oportunidade foi você quem usou esse tom. E agora você há de se lembrar das condições em que a Titan nos foi “entregue” pelo cérebro positrônico.
Bell ainda não estava disposto a bater em retirada.
Desculpe minha alusão, Perry, mas seu plano de “adquirir” cem naves esféricas de Árcon obrigou-me a pensar na aquisição da Titan. Não pagamos nada por ela. Ou será que pagamos?
A risada de Deringhouse provava que por ocasião da “compra” da Titan surgiram certos trâmites pouco usuais nesse ramo de negócios. O general fez um gesto de assentimento para Bell.
O.K., Bell — disse Perry Rhodan e voltou a dirigir-se a Deringhouse. — Não pretendo comprar cem naves de Árcon. O pagamento não será um argumento válido para o cérebro gigante. Acho que podemos aproveitar a situação surgida junto à área de superposição. Face à sua programação, o cérebro positrônico não pode compreender a existência de um plano einsteiniano e de um plano dos druufs, além do fenômeno representado pela área de superposição. Por isso, minha proposta de celebrarmos um pacto armado contra os druufs será mais atraente. Pelo seu rosto concluo que deve ter alguma objeção.
A resposta do general foi proferida em tom sarcástico:
Na minha opinião, o demônio seria um parceiro mais honesto que o cérebro positrônico de Árcon. O computador já cumpriu um tratado que seja, chefe?
A resposta de Rhodan parecia contornar a questão.
Quero adquirir dez supercouraçados da classe Império, com mil e quinhentos metros de diâmetro, vinte couraçados de quinhentos metros, trinta cruzadores pesados de duzentos metros e quarenta cruzadores leves da classe Estado.
Não precisa arregalar os olhos, Deringhouse. Afinal, uma frota de cem naves desses tipos não representa nada para o Grande Império. Além disso, não nos devemos esquecer de que o cérebro positrônico deve estar convencido de que, se concluir o negócio, praticamente apenas emprestará as naves. Está convencido de que um dia as terá de volta, logo que conquistar o Império Solar.
O cérebro positrônico não pode agir de outra forma, pois foi programado para isso. Muitas vezes cometemos o erro de ver algo de vivo nessa gigantesca máquina, porque ela pensa, extrai conclusões lógicas, não erra nas suas decisões. Isso impõe a nós homens, que somos dotados de certo instinto de honestidade, a impressão de estarmos lidando com um sócio. O que acontece é justamente o contrário!
O pior inimigo que temos na Galáxia é o computador gigante de Árcon, já que ele foi programado para ver todas as coisas exclusivamente pela perspectiva arcônida, e utilizar todos os meios para garantir a existência do Grande Império. Ninguém introduziu qualquer elemento ético no cérebro positrônico.
A oferta do Império Solar, de celebrar um tratado com Árcon, também será examinada sob essa tendência fundamental. Eu nunca seria capaz de assumir um comportamento tão traiçoeiro com uma criatura inteligente, seja qual for seu aspecto. Porém já me desacostumei de sentir escrúpulos para esse cérebro.”
Deringhouse ficou muito satisfeito. O ponto de vista do chefe deixou-o feliz. Exibiu um sorriso matreiro, mas seu rosto logo voltou a tornar-se sério.
Quer dizer que eu...?
O gesto de Perry Rhodan disse tudo.
O.K., chefe, farei o que estiver a meu alcance para comprar as cem naves de Árcon. Mas gostaria de formular mais uma sugestão.
Pois não, Deringhouse — respondeu Rhodan em tom solícito.
Bem, chefe... — disse o general. Via-se que não se sentia muito à vontade. — Chefe, minha sugestão... Bem, ela se refere a... Bem, meu vôo para Árcon III não poderia dar ensejo a uma tarefa para sua esposa, que afinal é uma princesa arcônida?
Nem pense nisso; em hipótese alguma! — respondeu Rhodan em tom áspero e empalideceu assustadoramente.
Foi apenas uma sugestão, Sir — disse Deringhouse a título de desculpas e, no seu íntimo, praguejou contra a idéia.
Mas Reginald Bell não se manteve em silêncio.
Lançou um ataque frontal contra o amigo, o que constituía um procedimento típico dele.
Desde quando você passou a ser egoísta, Perry? — perguntou laconicamente e lançou-lhe um olhar de desafio.
A pergunta tocou-lhe profundamente.
Não! — decidiu Rhodan, cerrou o punho e bateu na escrivaninha com tamanha força que fez as canetas dançarem.
Reginald Bell não se perturbou com isso. Em sua opinião, a idéia de Deringhouse era excelente.
Hum... afinal, isso é um dos meios de livrar-se da esposa — atreveu-se Bell a dizer face a face ao amigo.
Naquele momento, Deringhouse estaria disposto a sacrificar seu posto de general, se lhe permitissem sair o mais depressa possível.
Mister Bell...
Perry Rhodan proferiu esse tratamento formal em voz muito baixa, mas Bell berrou:
Vá para o inferno com seu Mister Bell, Perry!
Este “Perry” foi proferido em tom tão honesto, tão estimulante, tão compreensivo pelo amigo. E os braços erguidos, que se estendiam em direção a Rhodan, pareciam falar ainda mais claramente: “Perry, velho amigo, pense um pouco!”
Mas Perry Rhodan não quis ver nem ouvir nada. A terrível acusação de Bell ainda lhe soava no ouvido:
...um dos meios de livrar-se da esposa... Repita, Bell!
Perry Rhodan esteve a ponto de levantar-se, mas Bell foi mais rápido. Com um salto, colocou-se à frente do amigo.
Falei como amigo, Perry Rhodan. Era meu dever dizê-lo dessa forma. Ninguém mais poderia fazê-lo, mesmo que quisesse. Deringhouse poderá dar uma passada por Vênus e levará sua esposa até Árcon.
Será que você já se esqueceu de que Árcon continua a ser seu mundo?
Bell colocara a mão sobre o ombro de Perry e baixara os olhos sobre ele. Sorria, mas os olhos continuavam sérios. Fitava-o numa atitude de expectativa.
Bell, a acusação que você acaba de formular contra mim...
Bell não deixou que Rhodan concluísse.
Ora, isso é a “terapia do choque”, meu caro. Será que você ainda não me conhece, Perry?
Rhodan levantou-se. Bell ficou parado, à espera do que estava por vir.
Rhodan foi à janela e olhou para fora. Reginald Bell seguiu-o com os olhos. Esquecera-se da presença de Deringhouse.
O general pigarreou e procurou encontrar uma maneira de dar o fora.
Fique aqui, Deringhouse — disse Bell. — Quero pedir-lhe que repita o que o Dr. Villnoess lhe disse a respeito de Thora. Houve uma alusão a uma tarefa de grande responsabilidade...
Naquele instante, Rhodan virou-se para eles. Seu rosto se descontraíra, e a boca nitidamente traçada já não parecia tão rígida.
Você tem razão, Bell — fez um gesto para o amigo e dirigiu-se a Deringhouse: — Passe por Vênus e leve minha esposa. Quando o senhor chegar ao bangalô Árcon, ela já estará informada sobre sua chegada.
Antes disso, visite o Dr. Villnoess e exponha-lhe a natureza da tarefa, que deverá ser confiada a minha esposa. Ele resolverá se Thora chegará a rever Árcon. Deringhouse, minha esposa...
Num gesto impulsivo, Perry Rhodan, administrador do Império Solar, estendeu a mão para seu general. Quando este a segurou, disse:
Não poderia encontrar melhor amigo que o senhor.
Bell, que investira contra Perry com seu método baseado em marretadas, não conseguiu reprimir a emoção. Naquele momento, admirava Rhodan.
Com uma única frase dirigida a Deringhouse, Perry dissera mais do que se consegue exprimir em mil frases.
Sir — começou o general em tom emocionado. — Fico satisfeito porque o senhor me confiou esta missão.
Ainda temos de discutir nosso plano de ação, Deringhouse. Devemos convencer o cérebro positrônico de que nossa proposta de aliança vale mais que cem naves espaciais do último tipo. Atlan e eu pensamos o seguinte...
O videofone acendeu-se e transmitiu a notícia de que todos os dirigentes haviam comparecido para discutir a situação. A seguir, Perry Rhodan dispensou seu general.
Os dois amigos ficaram a sós.
Fitaram-se; não precisaram de palavras para compreender-se. Durante toda a vida, os dois nunca se sentiram tão próximos como naquele instante.
Sua velha amizade acabara de ser submetida à prova mais dura.
Vamos — disse Rhodan depois de algum tempo.
O dia-a-dia com seus compromissos e decisões voltou a dominá-los.
Quando surgiu ao lado de Bell, diante de mais de trinta colaboradores, o administrador não deu a perceber o que acabara de passar-se. Iniciou os debates com uma precisão inimitável, sem recorrer a apontamentos escritos. Em frases lacônicas apresentou os pontos nevrálgicos da situação, surgidos nas últimas vinte e quatro horas.
Nessa mesma hora, Deringhouse iniciava o vôo para Vênus.
3



O planador preparava-se para pousar à frente do bangalô Árcon.
A construção alongada, pintada em cores claras, adaptava-se perfeitamente à paisagem da encosta que se erguia atrás dela, subindo numa altura de quatro mil metros e terminando num pico de rocha.
A Cordilheira de Valta era formada por gigantescas pedras, fileiras de vulcões ativos e as nuvens de fumaça que, nos dias de calmaria como aquele, se erguiam tal qual velas para o excelente ar de Vênus.
O bangalô ficava a dois mil metros de altura. Era uma altitude que na Terra não seria muito agradável, mas que nesse mundo era ideal, tanto que na construção de sanatórios costumava-se escolher, sempre que possível, um lugar situado nessa faixa.
O planador pousou suavemente.
O terraço ficava trinta metros adiante.
Estava vazio, embora o dia fosse lindo.
A selva fora “empurrada” para trás, num raio de quinhentos metros.
As grades energéticas invisíveis protegiam os parques, que se estendiam em torno do bangalô, contra os monstros venusianos, muito abundantes na fauna planetária.
O General Conrad Deringhouse apenas viu um robô junto ao amplo terraço. A máquina dirigiu suas lentes sobre ele e aproximou-se com seus passos típicos.
Aquele homem mecânico não era inteiramente inofensivo, mas só costumava demonstrar suas forças depois de realizados diversos controles, pois sua principal missão consistia em resguardar a vida de Thora contra qualquer perigo.
Tal qual todos os membros da Frota Espacial Terrana, também Deringhouse estava familiarizado com o trato dos robôs.
Indicou seu número de identificação. No mesmo instante, o robô consultou seu banco de dados e obteve a informação de que o visitante poderia passar. Enquanto sua voz quase humana proferia a permissão, os últimos controles, liberados por seu sistema de lentes, foram postos a funcionar. Antes que desse o primeiro passo em direção à casa, Deringhouse foi submetido a dezessete exames diferentes.
As grandes portas de vidro estavam fechadas. Não havia uma única janela aberta. O bangalô parecia uma casa abandonada... abandonada na beleza selvática das montanhas de Vênus.
Assim que Deringhouse se aproximou da primeira porta, esta abriu-se, deixando-o passar.
Conhecia o lugar, pois, nos últimos anos, estivera ali várias vezes como convidado de Thora e Perry Rhodan.
O solário, profusamente iluminado, abriu-se diante dele como um abismo deserto. Mais uma vez, teve a impressão de estar penetrando numa casa desabitada. Deringhouse olhou em torno e não conseguiu evitar um ligeiro calafrio.
Atrás do solário, ficava a sala de visitas, decorada pessoalmente por Thora, conforme seu gosto. Dali resultará uma combinação harmoniosa entre a cultura habitacional dos arcônidas e o estilo terrano.
Deringhouse bateu à porta da biblioteca. Tinha certeza de que Thora se encontrava ali.
A biblioteca era seu lugar predileto no interior do bangalô.
Mas ninguém respondeu.
Deringhouse estacou. Subitamente lembrou-se da advertência do médico-chefe: “General, quando puser os olhos em dona Thora, procure controlar-se.”
Dirigiu-se para a esquerda. Passando por uma escada suspensa, subiu à parte oeste do bangalô, que ficava num nível dois metros mais elevado.
Enquanto subia pelos degraus à prova de som, sentiu-se deprimido.
Ao sair da escada, o visitante penetrava diretamente num recinto cujas paredes laterais eram totalmente de vidro.
Naquele instante, quando o General Conrad Deringhouse menos esperava, ele se viu à frente de Thora!
Mas seria esta a esposa de Perry Rhodan?”, pensou, interrogando-se.
Uma voz vinda de seu interior gritou para Deringhouse: “General, procure controlar-se quando puser os olhos em dona Thora.
O senhor, Deringhouse?!
Ouviu a voz, e reconheceu a pessoa.
Aproximou-se lentamente de uma anciã de rosto murcho e pequeno, entrecortado por milhares de rugas. Os lábios pálidos e ressequidos como o resto do rosto esforçaram-se para sorrir. Uma mão encarquilhada, coberta por uma pele que antes parecia pergaminho, estendeu-se em sua direção.
Meu Deus”, pensou Deringhouse, antes abalado que apavorado, enquanto se abaixava para beijar a mão da esposa do administrador. “Há seis meses esta senhora ainda era uma jovem e bela mulher.”
Que bom que veio visitar-me, Deringhouse. Faça o favor de sentar-se.
Deringhouse teve a impressão de que o ligeiro movimento de braço custava um esforço excessivo àquela mulher.
Nem sequer conseguiu esboçar um sorriso convencional.
Sentiu que a situação o deixava muito inseguro.
Será que, ao contrário do que fora combinado, Perry Rhodan não avisara a esposa de que o general a visitaria?
Ah, sim — disse Thora. — Meu marido me prometeu uma surpresa. Acho que existe alguma ligação com sua visita. O que é mesmo, Deringhouse?
Neste instante, Thora sofreu uma modificação espantosa. A palidez do rosto e das mãos começou a ceder lugar às cores naturais. As pequenas rugas em seu rosto diminuíam a cada segundo que se passava. Parecia rejuvenescer, e os belos olhos de arcônida mostravam-se através de um ligeiro brilho, que entusiasmou Deringhouse, apesar da insegurança que o mesmo sentia.
Num tom de arrojo quase juvenil, provocado pelas alterações favoráveis que vira naquela mulher, disse:
Dona Thora, vim para levá-la para Árcon III. O chefe é de opinião que a senhora é a pessoa mais indicada para fechar a compra de cem naves com o computador-regente...
Deringhouse sabia pilotar um caça com a mesma facilidade que dirigia um couraçado da classe Império. Não se tornara general em virtude das boas relações que mantinha com Rhodan, mas à custa de um trabalho árduo. Era muito versado em todas as áreas do saber, menos na psicologia feminina, onde costumava ser desajeitado.
Mas nessa hora agira, sem que o soubesse, com uma habilidade que teria causado inveja a muitos psicólogos, se pudessem ouvir de que maneira transmitiu o recado. O tom franco e convincente, o sorriso no rosto sardento e os amáveis acenos de cabeça reforçaram as palavras.
Quer que eu vá a Árcon?
Será que Thora se deu conta de que proferira estas palavras em sua língua materna?”, pensou de modo interrogativo.
A excitação, que tomou conta da mente de Thora, voltou a transformá-la na mulher jovem, bela e fascinante, que costumava ficar ao lado de Perry Rhodan, merecendo a admiração de bilhões de seres humanos.
Também para esta hipótese o médico-chefe Villnoess lhe ministrara instruções.
“— General, tenha cuidado para que dona Thora execute sua missão num estado de tranqüilidade interior. Não se esqueça de que está muito esgotada, e que qualquer emoção pode representar um grave perigo.”
Lembrando-se disso, Deringhouse prosseguiu com uma habilidade instintiva.
Dona Thora, a viagem para Árcon e especialmente as negociações com o computador-regente não serão nada fáceis. Permite que lhe relate ligeiramente de que maneira seu esposo...
Thora sacudiu a cabeça e colocou a mão no braço de Deringhouse.
Uma tarefa para mim! Deringhouse, o senhor nem imagina o que isso significa!
Riu como uma moça e logo disse a Deringhouse como se sentia.
Neste minuto já não me sinto cansada. Consigo mover os braços sem o menor esforço. Acho que nem preciso chamar Ishy para levantar-me. Poderia oferecer-me o braço, general?
Este último pedido, proferido em tom de gracejo, tinha um fundo sério. O general tentou ajudá-la...
Não, obrigada, não preciso de auxílio.
Logo se pôs de pé. Levantou-se com suas próprias forças, como qualquer outra pessoa costuma fazer.
Queira dar-me o braço, general!
Já não o chamou de Deringhouse como antes fizera. Enfatizou a palavra general, e seus olhos sorriam.
Deringhouse ofereceu o braço a Thora. E ela caminhou a seu lado, leve, segura... e orgulhosa:
Deringhouse...
Nunca se dirigira a ele de maneira tão íntima. Ele a fitou de lado e mais uma vez sentiu-se dominado pela sensação de insegurança.
Desceram pela escada suspensa. Os degraus não representavam qualquer problema para Thora, que falava enquanto descia.
Acho que só uma vez me senti tão feliz como hoje. Foi quando soube a quem pertencia meu coração. É uma pena que Perry não esteja aqui. Se não tiver mais oportunidade de dizer-lhe, pessoalmente, nesse caso, Deringhouse, transmita-lhe cada palavra, diga-lhe como me senti forte e... feliz. Quem morre feliz tem uma bela morte.
Por que estremeceu? Porque falei em morrer? Muito bem; irei a Árcon com o senhor?”
Deringhouse apressou-se em responder à última pergunta.
Isso mesmo, dona Thora. Pegaremos a Burma, um cruzador ligeiro da classe Estado.
Pararam na biblioteca. A mão de Thora descansava levemente no braço de Deringhouse. Thora fitou-o.
Durante este vôo o senhor não terá necessidade de mentir para mim, Deringhouse. Conhece um certo Dr. Villnoess?
Deringhouse apenas conseguiu acenar com a cabeça.
Pois eu também conheço. E ele me falou num carcinoma F Árcon, que é um tipo especial de câncer, que ataca apenas os arcônidas. Mas vejo pelo seu rosto que já sabe de tudo. Não há necessidade de mentir em relação a meu estado. Oh!
Uma porta abriu-se sem o menor ruído, e subitamente viram a graciosa telepata japonesa Ishy Matsu.
Ishy sorriu.
Dona Thora!
A telepata leu os pensamentos da arcônida e, ao notar a transformação daquela mulher marcada pela morte, quase ficou fora de si. Não reprimiu seus sentimentos. Embora as palavras proferidas em japonês não fossem entendidas, nelas se sentia uma alegria tão forte que ninguém poderia deixar de percebê-la.
Deringhouse, quando decolaremos?
A mutante, que não se atreveu a ler os pensamentos do general, lançou-lhe um olhar de perplexidade. Deringhouse sorriu.
Amanhã, de Terrânia. E você — fez um gesto em direção a Ishy Matsu — você acompanhará dona Thora, Ishy.
Quem se lembrasse dos tempos em que Thora era apenas uma arcônida orgulhosa e arrogante, para a qual os homens não passavam de bárbaros, não poderia deixar de reconhecer que ela se transformara numa mulher adorável, libertando-se da presunção e de outros vícios do caráter.
É claro que Ishy irá comigo, Deringhouse. Permita-lhe que lhe apresente minha amiga...
Quando viu a mutante, jovem e graciosa, enrubescer de alegria e embaraço, enquanto fazia uma mesura à sua frente, Thora conseguiu soltar uma gostosa gargalhada.
O general passou uma hora conversando com a esposa do chefe, enquanto nos outros aposentos se preparava a bagagem de Thora.
4



A nave Burma, um cruzador da classe Estado, com cem metros de diâmetro e tripulação completa de cento e cinqüenta homens, estava pronta para decolar do grande espaçoporto de Terrânia. Uma única comporta continuava aberta, à espera de que o General Deringhouse subisse a bordo. Seria o último. Já havia um atraso de trinta minutos em relação à hora da decolagem anteriormente fixada, atraso este que tornara inútil a programação para o primeiro salto do cruzador ligeiro.
Deringhouse, que já se encontrava a caminho da Burma, teve de voltar em virtude de um chamado. Naquele momento, estava frente a frente com Freyt.
Diante deles, encontrava-se uma mensagem que havia sido concebida em termos bastante lacônicos e assinada por Perry Rhodan.

Não voe diretamente para Árcon. Emergir na frente de bloqueio e entrar em contato com o cérebro positrônico a partir dali. Código Garyloon 010 Árcon.
Rhodan.

Fazia poucos segundos que Deringhouse voltara a colocar a mensagem sobre a mesa. Agora olhava pensativamente para um canto. O Marechal Freyt, representante de Rhodan na Terra, pigarreou.
Deringhouse lançou-lhe um olhar indagador.
O que acha, Deringhouse? — perguntou o marechal.
Aqueles dois homens sabiam o que pensar um do outro. O general poderia falar com toda franqueza. Apesar disso hesitou.
As instruções surpreendentes de Rhodan deixaram-no preocupado; além disso, não entendia a finalidade das mesmas. Se Thora não estivesse a bordo, estas não lhe dariam tanto a pensar. Mas agora todas as circunstâncias pesavam o dobro.
Será Thora? — perguntou Freyt em tom lacônico.
Deringhouse não se mostrou mais loquaz que seu interlocutor.
Entre outras coisas — disse.
É a frente de bloqueio? Ou a ordem em si?
O senhor o compreende, marechal? Pois eu não compreendo...
Naquele instante, um cruzador ligeiro caiu sobre o espaçoporto de Terrânia. As massas de ar chicoteadas trovejaram atrás da nave como se dez furacões desabassem simultaneamente sobre a capital do Império Solar.
O marechal e o general fitaram-se.
Pela maneira de pousar concluíram sobre a identidade do piloto. Entre os milhares de membros da Frota Espacial só havia um que, vez por outra, não podia deixar de pousar dessa forma. Era Reginald Bell, chamado oficiosamente de Belly, fato que em nada afetava sua autoridade.

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