Autor
KURT
BRAND
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
O
computador-regente convida Rhodan para um contato pessoal — na
verdade, trama mais um golpe.
Apesar
dos repetidos esforços, Perry Rhodan não conseguiu que a ducha
celular do planeta Peregrino fosse aplicada a Crest e Thora. As
experiências neste sentido produziram resultados negativos, pois o
fisiotron não reagia às vibrações orgânicas dos dois arcônidas.
É bem
verdade que, há algum tempo, John Marshall e Laury Marten
conseguiram, numa missão perigosa, trazer de Tolimon uma ampola de
soro prolongador da vida... Mas agora, um processo de decadência tem
início no organismo da arcônida, fazendo com que a droga não
produza o efeito desejado...
Aí,
então, começa o sacrifício de Thora!
=
= = = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Thora
— Conhecida
como a boa alma do Império Solar.
Dr.
Villnoess
— Chefe
da Divisão de Hematologia da Clínica Terrana de Vênus.
General
Conrad
Deringhouse
— Um
homem que tem uma missão a cumprir em Árcon.
Tenente
Hendrik
Olavson
— O
talento astronáutico.
Taa-rell
— Comandante
de Mutral, um planeta fortificado dos arcônidas.
Ishy
Matsu
— A
jovem telepata.
Perry
Rhodan
— Será
que este homem saberá resistir ao golpe do destino?
1
O Dr.
Villnoess, chefe da Divisão de Hematologia da Clínica Terrana de
Port Vênus, examinou mais um resultado de análise. Lançou um olhar
aborrecido para a pilha de documentos que tinha à sua direita. O
maçante trabalho de rotina obrigava-o todos os dias a abandonar seus
laboratórios, e transformar-se num burocrata. O Dr. Villnoess
contava apenas trinta anos de idade. Ainda era muito jovem, quando
foi investido nas funções de chefe da Divisão de Hematologia da
Clínica Terrana de Vênus. Muitos colegas tinham-lhe inveja.
Acontece que Villnoess era um dos dez melhores hematólogos do
Império Solar. Graças às suas intensivas atividades de pesquisa,
granjeara fama em virtude de suas descobertas pioneiras no terreno da
hematologia. No momento, essas descobertas estavam sendo submetidas
ao teste dos exames clínicos.
Segundo a
rotina, extraiu apenas os dados mais importantes do resultado de
análise que tinha à sua frente.
Doença
hiperplástica do sistema e LC, tipo F Árcon.
Irreversível.
Tentativas
453 LS/ara falhou.
Expectativa
de vida: zero.
Era o
núcleo do resultado da análise, e Villnoess esteve a ponto de
assiná-lo para colocá-lo na pilha dos documentos liquidados, quando
alguma coisa o fez estremecer.
“Tipo
F Árcon”,
pensou.
Quem
poderia ser o paciente para o qual esse resultado representava uma
sentença de morte?
Era Thora,
a esposa de Rhodan!
Villnoess
leu a meia voz:
— LC
tipo F Árcon.
Depois de
respirar profundamente, prosseguiu:
— Tentativa
LS/ara falhou.
A sigla LC
significava linfocarcinoma, ou seja, um tumor maligno numa glândula
linfática. A letra F indicava o grau de periculosidade da moléstia
cancerosa. A palavra Árcon não significava apenas ser o paciente um
arcônida, mas ainda de se tratar de um tumor que representava um
mistério até mesmo para os médicos galácticos, que ainda não
haviam descoberto qualquer remédio contra tal doença.
O Dr.
Villnoess enxugou a testa molhada de suor.
Ele, que
até então sempre confiara nos diagnósticos dos colegas, sentiu-se
tomado de uma espécie de pânico que o fez desconfiar de sua
capacidade de avaliação.
Num gesto
apressado, ligou o interfone.
— Peço
que os senhores Gonder, Iltar e Vandenbourg compareçam imediatamente
à minha presença.
Dali a
pouco, os três médicos entraram juntos. O médico-chefe ainda
segurava o resultado da análise do sangue de Thora.
Nem sequer
convidou os colegas a sentarem-se. Ele mesmo não agüentou ficar na
cadeira giratória, que ficava atrás de sua escrivaninha.
— Senhor
Iltar — começou em tom hesitante — não pretendo lançar dúvidas
sobre o resultado de seu diagnóstico, mas... — calou-se, sacudiu a
cabeça e largou o resultado da análise. Lançou um olhar indagador
para os três colegas.
Acenaram
com a cabeça. Compreendiam o chefe, mas não souberam responder à
sua muda indagação.
Finalmente,
Villnoess, o médico-chefe decidiu-se:
— Senhores,
não posso transmitir este resultado a Perry Rhodan! Como acham que
vou fazer uma coisa destas?
Agora o
Dr. Iltar, responsável pelo resultado escrito, não poderia deixar
de pronunciar-se sobre a pergunta do chefe.
— Chefe,
compreendemos perfeitamente. Também não gostamos de acreditar
nisso, mas infelizmente a situação é precisamente esta. Dona Thora
é uma arcônida, e o tumor da glândula linfática é um carcinoma
arcônida maligno do tipo F. Há cerca de duas horas, o laboratório
de cancerologia de Terrânia confirmou por via telegráfica que, tal
qual acontece em todo aumento numérico dos glóbulos brancos, os
granulócitos e monócitos entraram no sangue na proporção de
5:100. Face a esse resultado, a possibilidade de erro de diagnóstico
é bastante reduzida. Apesar disso...
O Dr.
Villnoess recostou-se à escrivaninha. O “apesar
disso”
e a pausa que se seguiu a estas palavras não anunciava nada de bom.
— Apesar
disso o quê? — pergunto Villnoess em tom áspero. — Fale logo.
— Chefe,
há algum tempo, o soro revitalizante dos aras do planeta de Tolimon
foi injetado em dona Thora. O senhor deve estar lembrado de que numa
ação arriscada John Marshall e Laury Marten conseguiram apoderar-se
de pequena quantidade desse soro.
— Sim; e
daí? — perguntou Villnoess em tom insistente.
Não
queria enxergar a ligação entre esses fatos e a doença de Thora,
mas no seu íntimo pensava:
“Tomara
que não seja isso! Tomara que não seja!”
O Dr.
Iltar prosseguiu em tom hesitante.
— O
laboratório de cancerologia de Terrânia manifestou a suspeita de
que o tumor F Árcon tenha surgido em virtude da aplicação do soro,
já que alguns dos granulócitos alterados se assemelham àquela
substância misteriosa e não identificada que entra na composição
do elixir.
— Iltar!
— o médico-chefe teve de esforçar-se para não perder o
autocontrole.
— Quem
manifestou essa suspeita? E a pessoa que emitiu esse pronunciamento
já sabe que o paciente é a esposa de Perry Rhodan?
— Foi o
professor Eric Manoli, chefe.
Não houve
necessidade de responder à última pergunta.
O
médico-chefe, Dr. Villnoess, repetiu com a voz rouca:
— O
professor Manoli é um dos mais antigos colaboradores de Perry
Rhodan. A ducha celular, que lhe foi aplicada no planeta Peregrino,
fez com que se conservasse jovem. O professor é a maior autoridade
no terreno da hematologia. Se Manoli manifestou uma suspeita, podemos
supor que, depois de uma série de investigações mais de talhadas,
essa suspeita venha a transformar-se em realidade.
O
médico-chefe respirou pesadamente e passou a mão pela testa.
— Será
que devo informar Perry Rhodan de que, naquela oportunidade, não foi
injetado nenhum soro revitalizante nas veias de sua esposa, mas um
veneno que provoca o câncer? Iltar, faça o favor de chamar a
central. Preciso falar imediatamente com o professor Manoli. Acho que
ele está em Terrânia, ou não?
A ligação
audiovisual só foi completada dali a trinta minutos.
O rosto
expressivo e intelectualizado surgiu na tela que se encontrava à
frente de Villnoess. Manoli falava com a voz calma quase indiferente.
Removeu as objeções formuladas pelo médico-chefe da clínica
terrana, recorrendo a seu saber fenomenal sobre todas as facetas da
doença mortífera.
— Não
se pode dizer que o soro revitalizante dos aras do planeta Tolimon
seja um veneno, Villnoess. Todos os arcônidas têm uma predisposição
para a leucemia. Ainda não sei se isso constitui uma manifestação
de degenerescência, ou se representa a resistência natural do corpo
às tentativas de não permitir que a morte se aproxime. Não gosto
de pensar que os dias de Thora estejam contados, pois sei
perfeitamente que Perry Rhodan ama apaixonadamente a esposa, muito
embora esta tenha envelhecido repentinamente.
“No
entanto, cada coisa tem duas faces, colega Villnoess. A semelhança
entre a substância encontrada no medicamento dos aras e aquela
revelada durante a moléstia do tipo F Árcon fez com que passasse a
raciocinar que os soros revitalizantes dos arcônidas provavelmente
funcionam com base num processo dirigido de proliferação. Não acha
que é um aspecto bem interessante, colega?”
Pela
primeira vez, depois de se ter tornado médico, Villnoess deu-se
conta plenamente do que vem a ser um pesquisador. As palavras do
professor constituíam uma representação viva nesse sentido.
Enquanto ele ainda lutava com a indagação de como informar Perry
Rhodan de que sua mulher morreria em breve, o professor já havia
feito uma pesquisa interessante.
Tal
atitude não representava nenhuma blasfêmia. Manoli encarava a morte
sob o ponto de vista de que morrer é apenas uma outra forma de
viver.
Uma vez
concluída a palestra entre os dois especialistas, o Dr. Villnoess
sentiu-se mais aliviado. Mas, ao refletir sobre a maneira de formular
a notícia a ser transmitida a Perry Rhodan, administrador do Império
solar, as velhas dúvidas voltaram a surgir.
Fez três
tentativas de redigir um relato em que vibrasse um pouco de
sentimento humano, mas acabou por elaborar um texto que resumia os
fatos. Não mencionou a suspeita manifestada pelo professor Manoli.
Durante
sua palestra com Manoli, soubera que Perry Rhodan se encontrava no
planeta Fera Cinzenta, de onde dirigia a missão de observação
dirigida contra os druufs. A mensagem codificada chegou a Perry
Rhodan por meio da gigantesca estação de hiper-rádio de Terrânia,
e através de três cruzadores pesados estacionados no espaço, que
serviam de estações retransmissoras.
Rhodan fez
um esforço sobre-humano para bloquear sua mente. Naquele instante,
nenhum telepata conseguiria ler seus pensamentos. Não queria que
ninguém tivesse possibilidade de acompanhar sua dor, seu desespero e
sua revolta impotente contra o destino.
Apesar da
enorme carga psicológica, Perry Rhodan, administrador do Império
Solar, que criara a gigantesca organização com a força de sua
personalidade, conseguiu levar a bom termo a conferência em que se
encontrava.
Dali a
três horas, chegou a mensagem vinda do planeta Fera Cinzenta, pela
qual Perry Rhodan confirmou ter recebido a triste notícia. Mais uma
vez, a transmissão foi realizada através de estações
retransmissoras instaladas em naves espaciais, a fim de que Árcon
não tivesse possibilidade de valer-se da radiogoniometria para
descobrir a posição da Terra.
O Dr.
Villnoess não se espantou ao saber que o chefe, nome pelo qual
Rhodan geralmente era conhecido, não entrou em contato com ele.
Seria preferível realizar esse contato com o professor Manoli.
Menos de
vinte e quatro horas, tempo de Vênus, depois desses fatos, o
médico-chefe Villnoess teve de interromper a rotina de trabalho e
sair do laboratório antes da hora.
Foi
avisado de que o General Deringhouse queria falar-lhe.
Largou
imediatamente o trabalho. Sabia quem era o general, e quem o mandara
a Port Vênus.
Conrad
Deringhouse, um homem alto e meio magro, fitou o médico-chefe com
uma expressão séria, enquanto este, sentado à frente do general,
procurava explicar as características da doença da senhora Thora
Rhodan ao homem não entendido em medicina.
O cabelo
de Deringhouse apresentava o corte típico de militar. As sardas
reforçavam seu aspecto juvenil. O processo natural de envelhecimento
foi detido por sessenta e dois anos, por meio da ducha celular
aplicada no planeta artificial Peregrino. Os arcônidas Thora e
Crest, porém, não tiveram permissão de usar o fisiotron, muito
embora Perry Rhodan tivesse feito tudo para que também eles
recebessem o presente maravilhoso do prolongamento da vida pelo
espaço de seis decênios.
O Dr.
Villnoess concluiu seu relatório. O General Deringhouse fitou-o com
uma expressão pensativa.
— Doutor,
se eu o entendi corretamente, supõe-se que a doença incurável de
dona Thora foi provocada pelo soro dos aras do planeta de Tolimon. E
é nisso que não consigo acreditar. Afinal, os médicos
galácticos...
Villnoess
interrompeu-o abruptamente.
— Já
sei o que vai dizer, general. Cabe-me informá-lo de que os médicos
galácticos vêem-se tão impotentes diante do carcinoma F Árcon
quanto nós. E nós, os terranos, só conhecemos o F Árcon por meio
da literatura especializada dos aras. Dentro de nosso arsenal de
doenças...
Deringhouse
inclinou-se para a frente e perguntou em tom de curiosidade:
— Dentro
de quê? — essa pergunta representava uma reação bastante visível
à expressão “arsenal
de doenças”,
usada nos círculos clínicos.
Villnoess
não deixou que a interrupção o perturbasse.
— Arsenal
de doenças é uma expressão corriqueira no âmbito da medicina. Mas
voltando ao assunto: desde sua permanência no Império Solar, dona
Thora está exposta a um risco bem maior que seu patrício Crest. Só
constatamos esse fato por ocasião do último exame de sangue
realizado em dona Thora. Seria extenuante explicar, general, todos os
fatos que levam a esta conclusão arrasadora. Pediria que não
insistisse nesse ponto. O resultado final é bastante trágico. E a
esperança de que os médicos galácticos possuam um remédio, ou
conheçam um capaz de eliminar os efeitos mortíferos do
linfocarcinoma F Árcon, seria puramente ilusória.
“Faz
cerca de vinte dias que a maior autoridade dos médicos galácticos
no terreno dos reflexos da meninge, o Dr. Uut-Cin, morreu de
carcinoma F Árcon. O senhor pode confiar na exatidão desta notícia,
inclusive no que diz respeito à causa
mortis
de Uut-Cin.”
Os dois
homens fitaram-se em silêncio.
— Doutor,
como poderei transmitir esta notícia ao chefe? Estou a caminho de
Fera Cinzenta, e Rhodan me incumbiu de fazer uma parada em Vênus, a
fim de falar com o senhor. Villnoess... — o General Conrad
Deringhouse levantou-se de um salto e caminhou nervosamente de um
lado para o outro.
Este
homem, que sabia conservar o sangue-frio, mesmo nas missões mais
perigosas, temia o momento em que se veria diante do chefe, para
cumprir a triste tarefa de informá-lo de que não havia nenhuma
esperança para sua esposa.
Deringhouse
acompanhara de perto a lenta aproximação humana entre a arcônida
Thora, uma mulher dotada de beleza quase irreal, e Perry Rhodan, o
idealizador da Terceira Potência e criador do Império Solar, que
acabaram formando um excelente casal.
Acontece
que Perry Rhodan obteve no fisiotron do misterioso planeta artificial
Peregrino a ducha celular prolongadora da vida, que deteve o processo
de envelhecimento. Já em Thora, esse processo iniciou-se de repente,
e só podia ser detido por pouco tempo pelos soros e medicamentos dos
homens e dos aras.
Rhodan
fizera tudo que estava a seu alcance, a fim de evitar que Thora fosse
atingida pelo triste destino de transformar-se numa mulher velha,
enquanto ele conservava o vigor e a juventude.
Nenhum dos
remédios que foram dados a Thora no correr do tempo teve um efeito
duradouro. Todos agiam por um tempo muito mais curto do que os
médicos esperavam. Tornava-se cada vez mais evidente que o organismo
de Thora mobilizava todos os elementos ativos para lutar contra esses
preparados.
Sua
natureza opunha-se à intervenção.
Subitamente,
há três meses, Thora transformou-se numa mulher velha.
Constatou
o fato ao amanhecer, antes de encontrar-se com Perry. Na mesa de
café, falaram sobre o assunto. Ela sorriu e sua mão passou sobre a
mão de Perry, num gesto de ternura.
Havia
lágrimas em seus olhos, mas sua boca sorria. E, quando segurou a
cabeça de seu homem, fitando-lhe o rosto com seus grandes olhos e
infinitamente belos, disse:
— Perry,
não posso chorar, pois isso seria um absurdo... Afinal, a seu lado,
vivi uma vida feliz. Não quero esquecer-me de você...
E
despediu-se dele.
No mesmo
dia, uma nave a levou a Vênus, onde procurou seu bangalô denominado
Árcon, situado a dois mil metros de altura, ao pé da cordilheira de
Valta.
Três
meses já se haviam passado desde então, e de uma mulher que
envelhecia rapidamente, Thora se transformara numa pessoa acometida
de uma enfermidade mortal.
Fazia
vinte e quatro horas, tempo de Vênus, que o exame de sangue revelara
esse resultado arrasador.
E agora, o
General Deringhouse corria nervosamente de um lado para outro, no
gabinete do médico-chefe Villnoess. Com as mãos cruzadas às
costas, aquele general intimorato tinha medo de apresentar-se ao
chefe e dizer-lhe: “Perry
Rhodan, sua esposa não tem salvação.”
— Doutor
— Deringhouse parou à frente de Villnoess. — Rhodan também é
apenas um ser humano. Não é uma estátua ou qualquer outra coisa
sem vida. Como direi a ele? Dê-me um conselho.
— Ele já
sabe — respondeu o Dr. Villnoess. — Ontem falou com o professor
Manoli.
— Sim,
já sabe! — exclamou Deringhouse em tom nervoso. — Mas será que
o senhor não pode imaginar que Rhodan não queira acreditar? Afinal,
continua sendo o marido dela. E Thora é sua esposa. Ele a ama. É
pena que o senhor nunca teve oportunidade de ver como os dois viviam
numa bela harmonia. Thora! Sim, Thora, a arcônida, a mulher que já
foi orgulhosa, altiva e reservada, a princesa de uma velha estirpe de
Árcon, ela se transformou na boa alma do Império Solar.
“Quero
dizer-lhe uma coisa que pouca gente sabe. Thora guiou nosso chefe, e
isso não por meio de exigências, muito menos por meio de acusações
ou recriminações. Ela simplesmente o conduziu pelo fato de ter sido
sua mulher, de ele ter encontrado a seu lado a felicidade com que
sonhava.
“E agora
o senhor me diz que tudo isso chegou ao fim? Justamente agora, que o
destino de nosso minúsculo sistema está por um fio?
“Dr.
Villnoess, deve haver um meio contra o tal do carcinoma F Árcon!”
O
médico-chefe da Divisão de Hematologia interrompeu o general. Ainda
impressionado pelas palavras do oficial, disse em tom deprimido:
— General,
morrer é apenas um outro modo de viver.
— É só
isso que o senhor tem a me dizer? — perguntou Deringhouse em tom
áspero, para logo em seguida prosseguir: — Doutor, não posso
acusá-lo de nada, mas...
— General,
no caso de Thora Rhodan não existe nenhum mas...
— Pois
então, responda-me: quanto tempo de vida ainda terá a esposa de
Perry Rhodan?
— General,
hoje é o dia 4 de outubro de 2.043.
Respirou
profundamente.
— A
senhora Thora não chegará a ver a primavera de 2.044.
— Quer
dizer que terá seis meses?
— Talvez.
— Será
que posso visitar dona Thora? Ou existe algum motivo que nos impeça
de voarmos para o bangalô Árcon?
O
médico-chefe refletiu ligeiramente.
— Não
quero infundir falsas esperanças no senhor ou no administrador, mas
tanto eu como meus colegas somos de opinião de que se deveria
confiar uma missão importante a dona Thora, a fim de que ela não
passe, num estado de letargia e desespero mudo, os últimos meses de
sua vida, antes que tenha início o processo de rápida decadência
orgânica.
Deringhouse
fumava nervosamente.
— Como
devo interpretar essa sugestão, doutor? Será que uma tarefa
importante faz com que um ser humano da raça dos arcônidas mobilize
tantas forças que a morte poderá chegar de repente?
— Neste
ponto, não existe a menor diferença entre os homens e os arcônidas,
general. De qualquer maneira, prefiro dar resposta negativa a seu
pedido de visitar dona Thora. O senhor está a caminho de Fera
Cinzenta, general. Se na volta passar novamente por Vênus, traga uma
missão importante para dona Thora. Posso garantir que, com isso,
recuperará a vontade de viver...
— Dona
Thora ainda não sabe qual é sua doença? — perguntou Deringhouse.
— Sabe
desde hoje de manhã. Ela telefonou e...
— E o
senhor... Doutor, não é possível! — mais uma vez era o militar
que falava, mas Villnoess não se deixou intimidar.
— Não
quis assumir a responsabilidade de pregar uma mentira piedosa para
privar dona Thora do pouquinho de vontade de viver, que ainda lhe
resta. Thora sabe que sofre da doença F Árcon.
— Doutor,
eu seria capaz de... — Deringhouse, geralmente tão controlado, fez
um gesto nervoso com o braço.
“Meu
Deus”,
pensou o médico-chefe. “Como
este general deve estimar a esposa de Perry Rhodan, para deixar-se
arrastar a um gesto destes!”
Não se
assustou com o movimento, que parecia ser o prenuncio de um soco,
pois compreendia as reações humanas.
— General
— respondeu Villnoess. — Desde hoje de manhã, dona Thora está
convencida de que o soro prolongador da vida, que lhe foi aplicado,
só deixou de produzir seus efeitos em virtude do tumor. O senhor
compreende o efeito psicológico dessa maneira de ver as coisas?
Refletiu,
depois continuou:
— Para
uma mulher, sempre é mais fácil aceitar o fato de que envelhece em
virtude de uma doença do que pela incapacidade de seu organismo
reagir aos preparados biológicos. Peço-lhe que apresente esta
ponderação ao administrador.
— E eu
lhe peço que procure entender minha reação e minhas recriminações.
Está bem, doutor?
Quando se
viu novamente a sós em seu gabinete, o médico-chefe rememorou o
diálogo.
Admirava o
General Conrad Deringhouse e compreendia a fibra dos homens que Perry
Rhodan reunira em torno de si. Eram homens sinceros, homens que
possuíam suas virtudes, mas também tinham defeitos. Assumiam a
responsabilidade dos seus erros com uma franqueza que impunha
respeito a qualquer pessoa.
Villnoess
afastou-se da escrivaninha e dirigiu-se à janela.
O ambiente
estava mergulhado no “cinzento”.
Até mesmo as cores mais vivas empalideciam atrás da cerração.
— Até
parece uma mortalha — disse Villnoess.
Respirava
com dificuldade.
2
O general
Deringhouse acabara de livrar-se da triste missão.
Perry
Rhodan deu-lhe as costas. No recinto reinava um silêncio
acabrunhador, que parecia pesar sobre os ombros de Deringhouse, como
uma carga cujo peso aumenta constantemente.
O diálogo
mantido com o médico-chefe da Divisão de Hematologia da Clínica
Terrana de Vênus fora transmitido quase textualmente ao
administrador. Se havia alguém que tinha o direito de saber tudo,
este alguém era Perry Rhodan, o marido de Thora.
De
repente, Rhodan disse:
— Faça
o favor de me deixar só, Deringhouse. Daqui a uma hora nos
encontraremos para discutir a situação. Fico-lhe muito grato.
Mal a
porta se fechou atrás do general, Rhodan entrou em contato com a
central de comunicação audiovisual.
— Transmita
a Mr. Bell todas as ligações destinadas a mim. Não quero ser
incomodado.
Fera
Cinzenta, o sétimo planeta de Mirta, um sistema que contava um total
de quarenta e nove planetas, era uma base do Império Solar, cujo
poderio aumentava a cada dia. Bilhões já haviam sido investidos no
planeta, a fim de transformar este mundo numa fortaleza armada até
os dentes, instalada nas proximidades da frente de superposição
entre o Universo einsteiniano e o dos druufs.
Para
Rhodan, esse mundo — situado a apenas vinte e dois anos-luz da zona
de passagem, onde as duas dimensões temporais se sobrepunham e o
funil de compensação energética ia estabilizando-se —
representava o principal trampolim para a ação que se esboçava.
No momento
não tinha nada a fazer senão esperar. A seu favor trabalhavam as
frotas de guerra arcônidas e as naves dos druufs, que travavam
batalhas encarniçadas nas proximidades e no interior da frente de
superposição.
Ambas as
partes que, ao que parecia, se igualavam em forças, registraram
pesadas perdas materiais, mas estas eram compensadas instantaneamente
pelas reservas. Nem os arcônidas nem os druufs viram nada de
alarmante nas suas perdas, pois tinham onde buscar novas unidades.
Mas
naquele momento em que Deringhouse lhe confirmou aquilo que o
professor Manoli já dera a entender por ocasião da última
palestra, Perry Rhodan não pensou nas mortíferas batalhas
espaciais, nem na situação do planeta.
Seu
pensamento estava no planeta Vênus. Diante dos olhos de sua mente,
surgiu a cordilheira de Valta, e o bangalô Árcon.
— Thora...
Estendeu
as mãos, entrelaçou os dedos e abaixou a cabeça. Sentado nessa
posição, o homem poderoso do Império Solar queixava-se do destino.
Chamou
pela esposa. Sentiu-se cada vez mais tentado a seguir a voz interior
que lhe dizia: “Deixe
tudo de lado...”
O homem
vinha à tona em Perry Rhodan, o homem desesperado que não se
conformava com o fato de viver por decênios sem envelhecer, enquanto
sua esposa era tragada pela terrível enfermidade.
— Thomas...
Thomas!
Viu o
rosto de seu filho, o rosto de Thomas Cardif, que tinha vinte e três
anos. O rosto do filho de Thora.
Acontece
que o filho se voltara contra o pai — o filho que crescera com o
nome Cardif e só pouco depois dos exames finais que lhe conferiram o
grau de tenente da Frota Espacial Solar soube que Perry e Thora
Rhodan eram seus pais. Seu filho ainda não lhe perdoara por ter sido
privado do amor dos pais nos primeiros anos de vida.
— Thomas,
meu filho... — balbuciou. Gostaria de ter o filho perto de si, para
que juntos procurassem uma maneira de despedirem-se da mãe e da
esposa.
Mas a
imagem do filho desvaneceu-se com rapidez da mente de Perry Rhodan.
Procurou trazê-la de volta, mas não conseguiu. Naquele momento, o
homem que corporificava o poderio do Império Solar sentiu-se ainda
mais oprimido, pois não contava com a amizade do filho.
De todos
os lados, o sentimento de solidão investia contra ele. A tentação
de abandonar tudo e voar para Vênus, a fim de que Thora não ficasse
só nos últimos meses de vida, essa tentação não ameaçava
abalá-lo, mas parecia fazê-lo desmoronar, a ele, Perry Rhodan, o
ídolo de bilhões de seres humanos.
— Sir...!
— a voz familiar do chefe da estação de hipercomunicação de
Fera Cinzenta fê-lo retornar à realidade.
— Pois
não — disse em tom automático, levantou a cabeça e viu um rosto
conhecido.
— Sir,
há dez minutos a estação vem captando uma mensagem do
computador-regente. Avisei Mr. Bell, mas ele me pediu que falasse com
o senhor.
“Obrigado,
Bell”,
pensou Rhodan ao ouvir estas palavras.
Mais uma
vez percebeu quanto vale ter um amigo.
Bell devia
ter imaginado, sabido ou sentido o que se passava com ele. Talvez
Deringhouse lhe tivesse contado. E aquele procedimento era típico de
Bell.
— Sir —
disse o chefe da estação de hipercomunicação, enquanto os
pensamentos de Rhodan vagavam ao longe. — O texto da mensagem é o
seguinte: “Solicito
comparecimento pessoal.”
Esta mensagem é repetida de dez em dez minutos na faixa do cérebro
positrônico e não menciona destinatário nem remetente. Será que é
dirigida ao senhor? Bell acredita que seja.
— Obrigado
— respondeu Rhodan, e ficou perplexo ao perceber que sua voz não
perdera o tom familiar. — Já esperava esta mensagem. Não há
necessidade de responder. Desligo.
O
dia-a-dia voltara a apoderar-se dele. Os problemas pessoais teriam de
ser colocados em segundo plano. No Império Solar havia uma pessoa
que compreendia seus atos: Thora, sua esposa!
Enquanto
fazia a ligação para seu representante Reginald Bell, pensou em sua
mulher.
— Bell,
Deringhouse está aí? — perguntou.
— Está.
Quer falar com ele?
— Quero
falar com vocês dois. Venham para discutirmos a situação.
Quando se
viu novamente diante do chefe, Deringhouse espantou-se com o
autocontrole do mesmo. Só as rugas — um tanto acentuadas — de
seu rosto revelavam o esforço que tinha de fazer.
Com um
gesto, convidou-os a sentarem-se.
— Bell,
você já está informado, mas Deringhouse não — fitou o general,
que aguçou o ouvido.
Sempre que
a voz de Perry Rhodan apresentava esse tom metálico, uma missão
perigosa estava iminente.
— Deringhouse,
em fins de setembro, manifestei perante o computador-regente de Árcon
o desejo de adquirir cem naves esféricas arcônidas...
— Adquirir...!
— exclamou Bell em tom insolente. — Quando o ouço falar assim,
lembro-me de como você adquiriu nossa Titan. Naquela oportunidade,
Gucky não usou a palavra grosseira roubar?
Perry
Rhodan sabia o que estava acontecendo na mente do amigo. A observação
galhofeira tinha por fim arrancá-lo do estado de tensão em que se
encontrava.
Rhodan
aceitou a insinuação de Bell.
— Escute,
gorducho — respondeu. Esse tratamento familiar não tinha nada de
extraordinário, mesmo na presença de um general. — Estou
perfeitamente lembrado de que naquela oportunidade foi você quem
usou esse tom. E agora você há de se lembrar das condições em que
a Titan nos foi “entregue”
pelo cérebro positrônico.
Bell ainda
não estava disposto a bater em retirada.
— Desculpe
minha alusão, Perry, mas seu plano de “adquirir”
cem naves esféricas de Árcon obrigou-me a pensar na aquisição da
Titan. Não pagamos nada por ela. Ou será que pagamos?
A risada
de Deringhouse provava que por ocasião da “compra”
da Titan surgiram certos trâmites pouco usuais nesse ramo de
negócios. O general fez um gesto de assentimento para Bell.
— O.K.,
Bell — disse Perry Rhodan e voltou a dirigir-se a Deringhouse. —
Não pretendo comprar cem naves de Árcon. O pagamento não será um
argumento válido para o cérebro gigante. Acho que podemos
aproveitar a situação surgida junto à área de superposição.
Face à sua programação, o cérebro positrônico não pode
compreender a existência de um plano einsteiniano e de um plano dos
druufs, além do fenômeno representado pela área de superposição.
Por isso, minha proposta de celebrarmos um pacto armado contra os
druufs será mais atraente. Pelo seu rosto concluo que deve ter
alguma objeção.
A resposta
do general foi proferida em tom sarcástico:
— Na
minha opinião, o demônio seria um parceiro mais honesto que o
cérebro positrônico de Árcon. O computador já cumpriu um tratado
que seja, chefe?
A resposta
de Rhodan parecia contornar a questão.
— Quero
adquirir dez supercouraçados da classe Império, com mil e
quinhentos metros de diâmetro, vinte couraçados de quinhentos
metros, trinta cruzadores pesados de duzentos metros e quarenta
cruzadores leves da classe Estado.
“Não
precisa arregalar os olhos, Deringhouse. Afinal, uma frota de cem
naves desses tipos não representa nada para o Grande Império. Além
disso, não nos devemos esquecer de que o cérebro positrônico deve
estar convencido de que, se concluir o negócio, praticamente apenas
emprestará as naves. Está convencido de que um dia as terá de
volta, logo que conquistar o Império Solar.
“O
cérebro positrônico não pode agir de outra forma, pois foi
programado para isso. Muitas vezes cometemos o erro de ver algo de
vivo nessa gigantesca máquina, porque ela pensa, extrai conclusões
lógicas, não erra nas suas decisões. Isso impõe a nós homens,
que somos dotados de certo instinto de honestidade, a impressão de
estarmos lidando com um sócio. O que acontece é justamente o
contrário!
“O pior
inimigo que temos na Galáxia é o computador gigante de Árcon, já
que ele foi programado para ver todas as coisas exclusivamente pela
perspectiva arcônida, e utilizar todos os meios para garantir a
existência do Grande Império. Ninguém introduziu qualquer elemento
ético no cérebro positrônico.
“A
oferta do Império Solar, de celebrar um tratado com Árcon, também
será examinada sob essa tendência fundamental. Eu nunca seria capaz
de assumir um comportamento tão traiçoeiro com uma criatura
inteligente, seja qual for seu aspecto. Porém já me desacostumei de
sentir escrúpulos para esse cérebro.”
Deringhouse
ficou muito satisfeito. O ponto de vista do chefe deixou-o feliz.
Exibiu um sorriso matreiro, mas seu rosto logo voltou a tornar-se
sério.
— Quer
dizer que eu...?
O gesto de
Perry Rhodan disse tudo.
— O.K.,
chefe, farei o que estiver a meu alcance para comprar as cem naves de
Árcon. Mas gostaria de formular mais uma sugestão.
— Pois
não, Deringhouse — respondeu Rhodan em tom solícito.
— Bem,
chefe... — disse o general. Via-se que não se sentia muito à
vontade. — Chefe, minha sugestão... Bem, ela se refere a... Bem,
meu vôo para Árcon III não poderia dar ensejo a uma tarefa para
sua esposa, que afinal é uma princesa arcônida?
— Nem
pense nisso; em hipótese alguma! — respondeu Rhodan em tom áspero
e empalideceu assustadoramente.
— Foi
apenas uma sugestão, Sir — disse Deringhouse a título de
desculpas e, no seu íntimo, praguejou contra a idéia.
Mas
Reginald Bell não se manteve em silêncio.
Lançou um
ataque frontal contra o amigo, o que constituía um procedimento
típico dele.
— Desde
quando você passou a ser egoísta, Perry? — perguntou
laconicamente e lançou-lhe um olhar de desafio.
A pergunta
tocou-lhe profundamente.
— Não!
— decidiu Rhodan, cerrou o punho e bateu na escrivaninha com
tamanha força que fez as canetas dançarem.
Reginald
Bell não se perturbou com isso. Em sua opinião, a idéia de
Deringhouse era excelente.
— Hum...
afinal, isso é um dos meios de livrar-se da esposa — atreveu-se
Bell a dizer face a face ao amigo.
Naquele
momento, Deringhouse estaria disposto a sacrificar seu posto de
general, se lhe permitissem sair o mais depressa possível.
— Mister
Bell...
Perry
Rhodan proferiu esse tratamento formal em voz muito baixa, mas Bell
berrou:
— Vá
para o inferno com seu Mister Bell, Perry!
Este
“Perry”
foi proferido em tom tão honesto, tão estimulante, tão
compreensivo pelo amigo. E os braços erguidos, que se estendiam em
direção a Rhodan, pareciam falar ainda mais claramente: “Perry,
velho amigo, pense um pouco!”
Mas Perry
Rhodan não quis ver nem ouvir nada. A terrível acusação de Bell
ainda lhe soava no ouvido:
— ...um
dos meios de livrar-se da esposa... Repita, Bell!
Perry
Rhodan esteve a ponto de levantar-se, mas Bell foi mais rápido. Com
um salto, colocou-se à frente do amigo.
— Falei
como amigo, Perry Rhodan. Era meu dever dizê-lo dessa forma. Ninguém
mais poderia fazê-lo, mesmo que quisesse. Deringhouse poderá dar
uma passada por Vênus e levará sua esposa até Árcon.
Será que
você já se esqueceu de que Árcon continua a ser seu mundo?
Bell
colocara a mão sobre o ombro de Perry e baixara os olhos sobre ele.
Sorria, mas os olhos continuavam sérios. Fitava-o numa atitude de
expectativa.
— Bell,
a acusação que você acaba de formular contra mim...
Bell não
deixou que Rhodan concluísse.
— Ora,
isso é a “terapia
do choque”,
meu caro. Será que você ainda não me conhece, Perry?
Rhodan
levantou-se. Bell ficou parado, à espera do que estava por vir.
Rhodan foi
à janela e olhou para fora. Reginald Bell seguiu-o com os olhos.
Esquecera-se da presença de Deringhouse.
O general
pigarreou e procurou encontrar uma maneira de dar o fora.
— Fique
aqui, Deringhouse — disse Bell. — Quero pedir-lhe que repita o
que o Dr. Villnoess lhe disse a respeito de Thora. Houve uma alusão
a uma tarefa de grande responsabilidade...
Naquele
instante, Rhodan virou-se para eles. Seu rosto se descontraíra, e a
boca nitidamente traçada já não parecia tão rígida.
— Você
tem razão, Bell — fez um gesto para o amigo e dirigiu-se a
Deringhouse: — Passe por Vênus e leve minha esposa. Quando o
senhor chegar ao bangalô Árcon, ela já estará informada sobre sua
chegada.
Antes
disso, visite o Dr. Villnoess e exponha-lhe a natureza da tarefa, que
deverá ser confiada a minha esposa. Ele resolverá se Thora chegará
a rever Árcon. Deringhouse, minha esposa...
Num gesto
impulsivo, Perry Rhodan, administrador do Império Solar, estendeu a
mão para seu general. Quando este a segurou, disse:
— Não
poderia encontrar melhor amigo que o senhor.
Bell, que
investira contra Perry com seu método baseado em marretadas, não
conseguiu reprimir a emoção. Naquele momento, admirava Rhodan.
Com uma
única frase dirigida a Deringhouse, Perry dissera mais do que se
consegue exprimir em mil frases.
— Sir —
começou o general em tom emocionado. — Fico satisfeito porque o
senhor me confiou esta missão.
— Ainda
temos de discutir nosso plano de ação, Deringhouse. Devemos
convencer o cérebro positrônico de que nossa proposta de aliança
vale mais que cem naves espaciais do último tipo. Atlan e eu
pensamos o seguinte...
O
videofone acendeu-se e transmitiu a notícia de que todos os
dirigentes haviam comparecido para discutir a situação. A seguir,
Perry Rhodan dispensou seu general.
Os dois
amigos ficaram a sós.
Fitaram-se;
não precisaram de palavras para compreender-se. Durante toda a vida,
os dois nunca se sentiram tão próximos como naquele instante.
Sua velha
amizade acabara de ser submetida à prova mais dura.
— Vamos
— disse Rhodan depois de algum tempo.
O
dia-a-dia com seus compromissos e decisões voltou a dominá-los.
Quando
surgiu ao lado de Bell, diante de mais de trinta colaboradores, o
administrador não deu a perceber o que acabara de passar-se. Iniciou
os debates com uma precisão inimitável, sem recorrer a apontamentos
escritos. Em frases lacônicas apresentou os pontos nevrálgicos da
situação, surgidos nas últimas vinte e quatro horas.
Nessa
mesma hora, Deringhouse iniciava o vôo para Vênus.
3
O planador
preparava-se para pousar à frente do bangalô Árcon.
A
construção alongada, pintada em cores claras, adaptava-se
perfeitamente à paisagem da encosta que se erguia atrás dela,
subindo numa altura de quatro mil metros e terminando num pico de
rocha.
A
Cordilheira de Valta era formada por gigantescas pedras, fileiras de
vulcões ativos e as nuvens de fumaça que, nos dias de calmaria como
aquele, se erguiam tal qual velas para o excelente ar de Vênus.
O bangalô
ficava a dois mil metros de altura. Era uma altitude que na Terra não
seria muito agradável, mas que nesse mundo era ideal, tanto que na
construção de sanatórios costumava-se escolher, sempre que
possível, um lugar situado nessa faixa.
O planador
pousou suavemente.
O terraço
ficava trinta metros adiante.
Estava
vazio, embora o dia fosse lindo.
A selva
fora “empurrada”
para trás, num raio de quinhentos metros.
As grades
energéticas invisíveis protegiam os parques, que se estendiam em
torno do bangalô, contra os monstros venusianos, muito abundantes na
fauna planetária.
O General
Conrad Deringhouse apenas viu um robô junto ao amplo terraço. A
máquina dirigiu suas lentes sobre ele e aproximou-se com seus passos
típicos.
Aquele
homem mecânico não era inteiramente inofensivo, mas só costumava
demonstrar suas forças depois de realizados diversos controles, pois
sua principal missão consistia em resguardar a vida de Thora contra
qualquer perigo.
Tal qual
todos os membros da Frota Espacial Terrana, também Deringhouse
estava familiarizado com o trato dos robôs.
Indicou
seu número de identificação. No mesmo instante, o robô consultou
seu banco de dados e obteve a informação de que o visitante poderia
passar. Enquanto sua voz quase humana proferia a permissão, os
últimos controles, liberados por seu sistema de lentes, foram postos
a funcionar. Antes que desse o primeiro passo em direção à casa,
Deringhouse foi submetido a dezessete exames diferentes.
As grandes
portas de vidro estavam fechadas. Não havia uma única janela
aberta. O bangalô parecia uma casa abandonada... abandonada na
beleza selvática das montanhas de Vênus.
Assim que
Deringhouse se aproximou da primeira porta, esta abriu-se, deixando-o
passar.
Conhecia o
lugar, pois, nos últimos anos, estivera ali várias vezes como
convidado de Thora e Perry Rhodan.
O solário,
profusamente iluminado, abriu-se diante dele como um abismo deserto.
Mais uma vez, teve a impressão de estar penetrando numa casa
desabitada. Deringhouse olhou em torno e não conseguiu evitar um
ligeiro calafrio.
Atrás do
solário, ficava a sala de visitas, decorada pessoalmente por Thora,
conforme seu gosto. Dali resultará uma combinação harmoniosa entre
a cultura habitacional dos arcônidas e o estilo terrano.
Deringhouse
bateu à porta da biblioteca. Tinha certeza de que Thora se
encontrava ali.
A
biblioteca era seu lugar predileto no interior do bangalô.
Mas
ninguém respondeu.
Deringhouse
estacou. Subitamente lembrou-se da advertência do médico-chefe:
“General,
quando puser os olhos em dona Thora, procure controlar-se.”
Dirigiu-se
para a esquerda. Passando por uma escada suspensa, subiu à parte
oeste do bangalô, que ficava num nível dois metros mais elevado.
Enquanto
subia pelos degraus à prova de som, sentiu-se deprimido.
Ao sair da
escada, o visitante penetrava diretamente num recinto cujas paredes
laterais eram totalmente de vidro.
Naquele
instante, quando o General Conrad Deringhouse menos esperava, ele se
viu à frente de Thora!
“Mas
seria esta a esposa de Perry Rhodan?”,
pensou, interrogando-se.
Uma voz
vinda de seu interior gritou para Deringhouse: “General,
procure controlar-se quando puser os olhos em dona Thora.”
— O
senhor, Deringhouse?!
Ouviu a
voz, e reconheceu a pessoa.
Aproximou-se
lentamente de uma anciã de rosto murcho e pequeno, entrecortado por
milhares de rugas. Os lábios pálidos e ressequidos como o resto do
rosto esforçaram-se para sorrir. Uma mão encarquilhada, coberta por
uma pele que antes parecia pergaminho, estendeu-se em sua direção.
“Meu
Deus”,
pensou Deringhouse, antes abalado que apavorado, enquanto se abaixava
para beijar a mão da esposa do administrador. “Há
seis meses esta senhora ainda era uma jovem e bela mulher.”
— Que
bom que veio visitar-me, Deringhouse. Faça o favor de sentar-se.
Deringhouse
teve a impressão de que o ligeiro movimento de braço custava um
esforço excessivo àquela mulher.
Nem sequer
conseguiu esboçar um sorriso convencional.
Sentiu que
a situação o deixava muito inseguro.
Será que,
ao contrário do que fora combinado, Perry Rhodan não avisara a
esposa de que o general a visitaria?
— Ah,
sim — disse Thora. — Meu marido me prometeu uma surpresa. Acho
que existe alguma ligação com sua visita. O que é mesmo,
Deringhouse?
Neste
instante, Thora sofreu uma modificação espantosa. A palidez do
rosto e das mãos começou a ceder lugar às cores naturais. As
pequenas rugas em seu rosto diminuíam a cada segundo que se passava.
Parecia rejuvenescer, e os belos olhos de arcônida mostravam-se
através de um ligeiro brilho, que entusiasmou Deringhouse, apesar da
insegurança que o mesmo sentia.
Num tom de
arrojo quase juvenil, provocado pelas alterações favoráveis que
vira naquela mulher, disse:
— Dona
Thora, vim para levá-la para Árcon III. O chefe é de opinião que
a senhora é a pessoa mais indicada para fechar a compra de cem naves
com o computador-regente...
Deringhouse
sabia pilotar um caça com a mesma facilidade que dirigia um
couraçado da classe Império. Não se tornara general em virtude das
boas relações que mantinha com Rhodan, mas à custa de um trabalho
árduo. Era muito versado em todas as áreas do saber, menos na
psicologia feminina, onde costumava ser desajeitado.
Mas nessa
hora agira, sem que o soubesse, com uma habilidade que teria causado
inveja a muitos psicólogos, se pudessem ouvir de que maneira
transmitiu o recado. O tom franco e convincente, o sorriso no rosto
sardento e os amáveis acenos de cabeça reforçaram as palavras.
— Quer
que eu vá a Árcon?
“Será
que Thora se deu conta de que proferira estas palavras em sua língua
materna?”,
pensou de modo interrogativo.
A
excitação, que tomou conta da mente de Thora, voltou a
transformá-la na mulher jovem, bela e fascinante, que costumava
ficar ao lado de Perry Rhodan, merecendo a admiração de bilhões de
seres humanos.
Também
para esta hipótese o médico-chefe Villnoess lhe ministrara
instruções.
“— General,
tenha cuidado para que dona Thora execute sua missão num estado de
tranqüilidade interior. Não se esqueça de que está muito
esgotada, e que qualquer emoção pode representar um grave perigo.”
Lembrando-se
disso, Deringhouse prosseguiu com uma habilidade instintiva.
— Dona
Thora, a viagem para Árcon e especialmente as negociações com o
computador-regente não serão nada fáceis. Permite que lhe relate
ligeiramente de que maneira seu esposo...
Thora
sacudiu a cabeça e colocou a mão no braço de Deringhouse.
— Uma
tarefa para mim! Deringhouse, o senhor nem imagina o que isso
significa!
Riu como
uma moça e logo disse a Deringhouse como se sentia.
— Neste
minuto já não me sinto cansada. Consigo mover os braços sem o
menor esforço. Acho que nem preciso chamar Ishy para levantar-me.
Poderia oferecer-me o braço, general?
Este
último pedido, proferido em tom de gracejo, tinha um fundo sério. O
general tentou ajudá-la...
— Não,
obrigada, não preciso de auxílio.
Logo se
pôs de pé. Levantou-se com suas próprias forças, como qualquer
outra pessoa costuma fazer.
— Queira
dar-me o braço, general!
Já não o
chamou de Deringhouse como antes fizera. Enfatizou a palavra general,
e seus olhos sorriam.
Deringhouse
ofereceu o braço a Thora. E ela caminhou a seu lado, leve, segura...
e orgulhosa:
— Deringhouse...
Nunca se
dirigira a ele de maneira tão íntima. Ele a fitou de lado e mais
uma vez sentiu-se dominado pela sensação de insegurança.
Desceram
pela escada suspensa. Os degraus não representavam qualquer problema
para Thora, que falava enquanto descia.
— Acho
que só uma vez me senti tão feliz como hoje. Foi quando soube a
quem pertencia meu coração. É uma pena que Perry não esteja aqui.
Se não tiver mais oportunidade de dizer-lhe, pessoalmente, nesse
caso, Deringhouse, transmita-lhe cada palavra, diga-lhe como me senti
forte e... feliz. Quem morre feliz tem uma bela morte.
“Por que
estremeceu? Porque falei em morrer? Muito bem; irei a Árcon com o
senhor?”
Deringhouse
apressou-se em responder à última pergunta.
— Isso
mesmo, dona Thora. Pegaremos a Burma, um cruzador ligeiro da classe
Estado.
Pararam na
biblioteca. A mão de Thora descansava levemente no braço de
Deringhouse. Thora fitou-o.
— Durante
este vôo o senhor não terá necessidade de mentir para mim,
Deringhouse. Conhece um certo Dr. Villnoess?
Deringhouse
apenas conseguiu acenar com a cabeça.
— Pois
eu também conheço. E ele me falou num carcinoma F Árcon, que é um
tipo especial de câncer, que ataca apenas os arcônidas. Mas vejo
pelo seu rosto que já sabe de tudo. Não há necessidade de mentir
em relação a meu estado. Oh!
Uma porta
abriu-se sem o menor ruído, e subitamente viram a graciosa telepata
japonesa Ishy Matsu.
Ishy
sorriu.
— Dona
Thora!
A telepata
leu os pensamentos da arcônida e, ao notar a transformação daquela
mulher marcada pela morte, quase ficou fora de si. Não reprimiu seus
sentimentos. Embora as palavras proferidas em japonês não fossem
entendidas, nelas se sentia uma alegria tão forte que ninguém
poderia deixar de percebê-la.
— Deringhouse,
quando decolaremos?
A mutante,
que não se atreveu a ler os pensamentos do general, lançou-lhe um
olhar de perplexidade. Deringhouse sorriu.
— Amanhã,
de Terrânia. E você — fez um gesto em direção a Ishy Matsu —
você acompanhará dona Thora, Ishy.
Quem se
lembrasse dos tempos em que Thora era apenas uma arcônida orgulhosa
e arrogante, para a qual os homens não passavam de bárbaros, não
poderia deixar de reconhecer que ela se transformara numa mulher
adorável, libertando-se da presunção e de outros vícios do
caráter.
— É
claro que Ishy irá comigo, Deringhouse. Permita-lhe que lhe
apresente minha amiga...
Quando viu
a mutante, jovem e graciosa, enrubescer de alegria e embaraço,
enquanto fazia uma mesura à sua frente, Thora conseguiu soltar uma
gostosa gargalhada.
O general
passou uma hora conversando com a esposa do chefe, enquanto nos
outros aposentos se preparava a bagagem de Thora.
4
A nave
Burma, um cruzador da classe Estado, com cem metros de diâmetro e
tripulação completa de cento e cinqüenta homens, estava pronta
para decolar do grande espaçoporto de Terrânia. Uma única comporta
continuava aberta, à espera de que o General Deringhouse subisse a
bordo. Seria o último. Já havia um atraso de trinta minutos em
relação à hora da decolagem anteriormente fixada, atraso este que
tornara inútil a programação para o primeiro salto do cruzador
ligeiro.
Deringhouse,
que já se encontrava a caminho da Burma, teve de voltar em virtude
de um chamado. Naquele momento, estava frente a frente com Freyt.
Diante
deles, encontrava-se uma mensagem que havia sido concebida em termos
bastante lacônicos e assinada por Perry Rhodan.
Não
voe diretamente para Árcon. Emergir na frente de bloqueio e entrar
em contato com o cérebro positrônico a partir dali. Código
Garyloon 010 Árcon.
Rhodan.
Fazia
poucos segundos que Deringhouse voltara a colocar a mensagem sobre a
mesa. Agora olhava pensativamente para um canto. O Marechal Freyt,
representante de Rhodan na Terra, pigarreou.
Deringhouse
lançou-lhe um olhar indagador.
— O que
acha, Deringhouse? — perguntou o marechal.
Aqueles
dois homens sabiam o que pensar um do outro. O general poderia falar
com toda franqueza. Apesar disso hesitou.
As
instruções surpreendentes de Rhodan deixaram-no preocupado; além
disso, não entendia a finalidade das mesmas. Se Thora não estivesse
a bordo, estas não lhe dariam tanto a pensar. Mas agora todas as
circunstâncias pesavam o dobro.
— Será
Thora? — perguntou Freyt em tom lacônico.
Deringhouse
não se mostrou mais loquaz que seu interlocutor.
— Entre
outras coisas — disse.
— É a
frente de bloqueio? Ou a ordem em si?
— O
senhor o compreende, marechal? Pois eu não compreendo...
Naquele
instante, um cruzador ligeiro caiu sobre o espaçoporto de Terrânia.
As massas de ar chicoteadas trovejaram atrás da nave como se dez
furacões desabassem simultaneamente sobre a capital do Império
Solar.
O marechal
e o general fitaram-se.
Pela
maneira de pousar concluíram sobre a identidade do piloto. Entre os
milhares de membros da Frota Espacial só havia um que, vez por
outra, não podia deixar de pousar dessa forma. Era Reginald Bell,
chamado oficiosamente de Belly, fato que em nada afetava sua
autoridade.

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