No mesmo
instante, ouviu-se o estalo do videofone. Antes que a imagem se
estabilizasse na tela, uma voz começou a trovejar:
— Freyt,
Deringhouse ainda está aí?
— Sim
senhor.
— Peça-lhe
que me espere. Não demorarei. Desligo.
Freyt
virou-se para o lado e num instante entrou em contato com o setor de
vigilância espacial.
— Aqui
fala Freyt. Os senhores sabem de que planeta veio Mr. Bell?
— De
Fera Cinzenta, marechal.
— Obrigado.
— Hum.
Foi este o
único comentário de Deringhouse. Depois puseram-se a esperar. Já
estavam acostumados. Afinal, eram militares.
Reginald
Bell penetrou no gabinete do Marechal Freyt, usando a mesma
impetuosidade com que pousara o cruzador ligeiro.
— Foi o
chefe quem me mandou.
Acomodou-se
na poltrona.
— O
senhor se dirigirá às imediações da área de superposição,
Deringhouse. O computador-regente voltou a chamar. Insiste em que
Perry Rhodan entre, de lá, em contato com ele. Logo, antes de
iniciar o salto em direção a Árcon, chame o regente pelo
hiper-rádio. Já conhece o código. Face a isso, o grande cérebro
não poderá deixar de admiti-lo como plenipotenciário de Rhodan.
Mas não foi por causa destas bagatelas que realizei este salto
forçado para a Terra.
“Deringhouse,
o computador-regente de Árcon nunca inspirou muita confiança. Nem
mesmo Rhodan desconfia da “estima
toda especial”
que nutre por ele; acho que Atlan também não sabe. Nestas últimas
vinte e quatro horas, este monstro calculista efetuou várias
mudanças repentinas em seu comportamento.
“A
grande estação de Fera Cinzenta conseguiu interceptar pouco mais de
cem mensagens do cérebro positrônico. Graças ao Serviço de Defesa
Solar, tornou-se possível decifrá-las. Alguma coisa deve estar
quebrada na gigantesca máquina, ou então esta se vê no maior dos
apertos. Não existe outra explicação para sua conduta. São
ordens, revogações de ordens, a restauração das ordens revogadas,
e assim por diante. Quase chego a ter pena dos robôs arcônidas pela
tremenda confusão que o cérebro vem criando há várias horas.
Evidentemente os druufs notaram que há algo de errado na frente de
bloqueio e apareceram com uma gigantesca frota espacial. Por isso, é
de recear que, dentro de algumas horas, os druufs consigam romper as
linhas e destruir a frente de trás. Bem, senhores, isto é uma
coisa; vamos a outro ponto.
“Até
que a situação na frente se estabilize um pouco, o tráfego entre
Fera Cinzenta e o sistema solar deve ficar suspenso. Qualquer
mensagem de rádio só poderá ser expedida com autorização escrita
do senhor, marechal. Provavelmente, essa suspensão será por uma
questão de horas.
“Deringhouse,
o senhor deve estar preparado. É bem possível que o cérebro
positrônico aceite sua oferta, apenas para rejeitá-la no momento
seguinte. O senhor é responsável pelo estado de saúde de dona
Thora. Não a exponha demais, mas não a deixe perceber que o senhor
a protege.
“Não o
invejo nem um pouco, general. Mas vamos ao motivo que me trouxe à
Terra, Deringhouse. Em Fera Cinzenta captamos a mensagem de um
agente. Infelizmente saiu mutilada. Veio de Aralon.”
Surpresos,
Deringhouse e Freyt exclamaram a uma voz:
— De
Aralon?
Aralon era
o mundo central dos aras, os médicos galácticos. Esse povo de
descendência arcônida era, em relação ao número, o mais poderoso
do Grande Império e o único que produzia medicamentos.
Todo um
povo transformara sua disposição natural, para a descoberta dos
enigmas ligados às doenças, num negócio bastante lucrativo;
durante milênios vendeu seus medicamentos a todos os mundos
conhecidos da Galáxia em troca de moeda sonante. Não se podia
condenar seu ponto-de-vista, embora este não se harmonizasse com a
ética dos médicos terranos. A fim de não expor seu negócio a
qualquer risco, os aras chegaram mesmo a tomar todas as providências
para que as epidemias e as infecções generalizadas nunca
terminassem.
Por várias
vezes Perry Rhodan usara mão de ferro para conter nos devidos
limites a esperteza excessiva dos médicos galácticos, que nem em
mil anos se esqueceriam das lições que então haviam recebido.
Apesar disso, porém, a desconfiança dos homens face aos aras
continuou latente e inextinguível.
— Aralon!
— repetiu Bell em tom zangado, sem procurar dissimular o que sentia
por esse mundo. — A mensagem representa um problema, por estar
mutilada. É possível que em Fera Cinzenta já estejamos vendo
fantasmas, mas Perry Rhodan... bem, vocês conhecem o chefe! Ele está
convencido de que essa mensagem expedida pelo agente de Aralon tem
alguma relação com nossa visita a Árcon. Vejam a mensagem.
Esta era
formada por quatro palavras, mas só uma delas estava completa.
...chiru...
coman... encef... Árcon...
Subitamente
Deringhouse sentiu calor.
— Sir —
disse em tom exaltado. — Nestes últimos dias recebi algumas aulas
de medicina. E encef... é a “palavra”
científica para cérebro.
Fez um
movimento súbito com o ombro, como se quisesse sacudir-se.
— Não
sei dizer por que tenho tanta certeza de que esta mensagem vai ter
alguma relação com o vôo da Burma. Tenho a impressão de que a
gigantesca máquina positrônica está tramando uma baixeza.
Deve
tratar-se de lavagem cerebral ou coisa que o valha. Prossigo no meu
raciocínio.
“O
cérebro positrônico exige que nos dirijamos à frente de bloqueio e
de lá nos anunciemos previamente. Ainda não sabe que irei no lugar
de Perry Rhodan. Isso elimina o perigo de sermos destruídos, ao
sairmos do hiperespaço, mas em nada reduz o perigo de sermos
atingidos. Mais tarde não será difícil explicar a destruição de
uma nave terrana por meio de uma seqüência de coincidências
infelizes. Até lá nossa tripulação estará morta, enquanto as
pessoas mais importantes que se acham a bordo se encontrarão sãs e
salvas, a caminho de Árcon, onde serão submetidas à lavagem
cerebral.
“E Thora
está a bordo!”
Com esta
frase Deringhouse concluiu seu raciocínio.
Fitava
alternadamente Reginald Bell e Freyt.
— O
senhor sabe ler pensamentos, Deringhouse? — perguntou Bell.
— Não;
por quê? — respondeu o general em tom de surpresa.
— Porque
Perry Rhodan chegou à mesma conclusão ao ler a mensagem mutilada.
— E o
vôo para Árcon com Thora a bordo continua de pé?
— Rhodan
confia no senhor, general.
— Obrigado!
— respondeu Deringhouse.
Mas o
olhar que lançou para Bell dizia muito mais.
— Pois
é, general — disse Bell, levantando-se e caminhando pela sala. —
Hoje de manhã queimei a língua com Perry Rhodan. Sei perfeitamente
o que significa esse olhar. Fiz a mesma ponderação a Rhodan. Sabe o
que ele me respondeu?
— Respondeu
o seguinte: “Deringhouse
e a Burma não enfrentarão o menor perigo, nem exporão Thora a
qualquer risco. Não consigo ser egoísta a ponto de explicar a minha
esposa de que sua tarefa foi cancelada porque envolve certos riscos.
‘“Não
quero recriminar-me pelo resto da vida por tê-la tirado
impiedosamente de uma condição eufórica, deixando-a num estado de
profunda letargia. Se não dispusesse de um homem como Deringhouse,
não teria outra alternativa. Acontece que tenho este homem, e por
isso estou disposto a não retardar a decolagem da Burma.’”
— E
agora, General Deringhouse? — falou Bell, lançando-lhe um olhar
indagador.
O general
também se levantou.
— Quando
estamos informados sobre o perigo que nos espera, isso perde a maior
parte de sua periculosidade, Sir. Tomara que este postulado, que já
se tornou proverbial, também tenha aplicação no presente caso.
Pois bem! A Burma decolará daqui a pouco.
— Boa
sorte! — desejou Reginald Bell, aparentemente deprimido.
— Tudo
de bom, Deringhouse! — gritou Freyt.
Os dois
homens viram-se a sós. E então aconteceu uma coisa que não
ocorrera há anos. Bell e Freyt foram à janela e assistiram à
decolagem da Burma, que mergulhou no céu azul com uma aceleração
extraordinária.
— Faites
votres jeux
— disse Bell. As palavras seguintes representavam uma mostra do que
se passava em seu interior: — Por que não fui à Burma para
apertar mais uma vez a mão de Thora? Sou um covarde...
Preferiram
não olhar um para o outro. Só agora tiveram plena consciência do
que representava Thora para os habitantes do planeta Terra.
Justamente agora, que não havia a menor esperança de revê-la.
Antes que
compreendesse o que estava dizendo, Freyt perguntou a Reginald Bell:
— O
rapaz já foi informado, Sir?
Reginald
Bell virou-se apressadamente.
Seus olhos
chamejavam de cólera. Cerrou o punho.
— Quer
saber por que não foi, Freyt? Pois eu lhe digo. Porque esse garoto
ainda se recusa a ouvir o pai. Em todo o Império Solar só existe um
sujeito obstinado que tem a audácia de dizer a Rhodan: “Vá
para o inferno, não quero vê-lo nunca mais.”
E esta pessoa é justamente seu próprio filho. Mais alguma pergunta,
marechal? — indagou em tom áspero.
— Não
senhor! — disse Freyt e esteve a ponto de fazer continência.
— Ora!
Deixe isso para lá, Freyt! Meus nervos se descontrolam toda vez que
me lembro do que esse Tenente Thomas Cardif se atreveu a dizer-me. E
o que não deve ter jogado no rosto do pai? Bem, vamos mudar de
assunto. Preciso voltar para Fera Cinzenta. Até a próxima, Freyt.
— Até
outra vez, Sir — disse o marechal, e logo se viu só.
5
Joe
Pasgin, imediato da nave Burma, já começava a preocupar-se com a
demora de Deringhouse, quando o general entrou na sala de comando do
cruzador ligeiro e parou em atitude pensativa à frente da grande
tela de imagem, que estava desligada.
— Faça
o favor de pilotar a nave, Pasgin — disse sem virar-se. — E é
bom que saiba logo da novidade. O primeiro destino da Burma será a
frente de bloqueio das naves arcônidas junto à área de
superposição.
Joe Pasgin
estava prestes a pôr a mão na chave sincronizada. Parou em meio ao
movimento e manteve-se imóvel por algum tempo. As outras pessoas que
se encontravam na sala de comando também interromperam o que estavam
fazendo. Todos lançavam olhares indagadores, perplexos e espantados
para o general.
Conrad
Deringhouse estava de costas para os homens. Nem mesmo os olhares que
acreditava sentir pousados em suas costas, poderiam fazer com que se
voltasse.
— Pasgin,
quem é o oficial de armas?
— Big
Alden, general. Veio da Titan, onde teve a seu cargo as duas peças
de artilharia do pólo.
— Já é
uma pequena vantagem para todos nós. Aliás, a tripulação está
completa?
— Está.
— Pois
vamos embora, Pasgin. Poderei ser encontrado no meu camarote.
Virou-se e
cumprimentou cada um dos homens com um gesto. Um sorriso ligeiro
brincava em torno de seus lábios. E esse sorriso fez bem aos que ali
se encontravam.
Assim que
retirou-se, a conversa começou a animar-se no interior da sala de
comando.
— Vai
ser uma viagem e tanta...
— Tomara
que Big Alden seja o número um da Bruma... com este armamento
fraco... e olhem que não gosto de entrar num traje espacial...
— Acontece
que dona Thora está a bordo — ponderou outra pessoa. — Não é
possível que... Céus, estrelas e bólidos, nem me lembrava da
frente de bloqueio!
Joe Pasgin
fitou todos os homens. Também estava preocupado. A volta que teriam
de fazer para passar pela frente de bloqueio antes de chegarem a
Árcon não fazia prever nada de bom. O general dera a perceber que,
durante essa missão, teriam de contar com todas as eventualidades.
Mas a
ordem de decolar que Deringhouse acabara de transmitir removeu todas
as preocupações. Teriam de agir.
— Decolagem
dentro de cinco minutos! — soou o comando de Pasgin.
Hendrik
Olavson ocupava a poltrona do co-piloto. Era um elemento recém-saído
da Academia Espacial, logo promovido ao posto de co-piloto. Pasgin já
realizara três vôos espaciais a seu lado, e sempre mantivera o
jovem tenente sob rigorosa observação. Depois da primeira viagem
concluiu que a poltrona de co-piloto não era o lugar certo para
Olavson...
Seu lugar
era a poltrona de comando de uma nave da classe Império. Hendrik
Olavson e a nave espacial não eram duas coisas, o homem e a técnica.
Olavson e a nave formavam uma unidade.
Hendrik
Olavson possuía um talento natural para tudo que se relacionasse com
a pilotagem de uma nave. Se essa tarefa exigia uma boa dose de
concentração de qualquer outra pessoa, ele a executava como se
estivesse brincando.
— Encarregue-se
da decolagem, Olavson — disse Joe Pasgin em tom indiferente. Com um
ligeiro sorriso, acrescentou: — Deixe Terrânia de pé.
Hendrik
Olavson aceitou de bom grado a brincadeira do imediato. Compreendeu a
alusão de Pasgin. A Burma era uma nave de cem metros de diâmetro e
cento e cinqüenta tripulantes. Sua capacidade de aceleração era
tremenda. Gastava apenas cinco minutos para atingir a velocidade da
luz. Era claro que diante dos conjuntos propulsores superpotentes da
nave, que ficavam entre os dos cruzadores pesados e os dos veículos
espaciais da classe Solar, todos os outros equipamentos, que já eram
considerados corriqueiros, tiveram de ser sacrificados, inclusive na
parte do armamento.
As naves
da classe Estado não eram unidades ofensivas. Eram naves de
reconhecimento de longo curso. Graças ao armamento pouco poderoso,
só poderiam realizar ataques fulminantes e destrutivos, desferindo
seus golpes de surpresa, já que sua aceleração inacreditável lhes
permitia desaparecer com extrema rapidez.
O novo
neutralizador de vibrações não permitia que as transições fossem
detectadas por meio do novo goniômetro de compensação dos
arcônidas. Possuíam uma verdadeira arma secreta, de natureza
defensiva, que era o transmissor fictício de matéria. Mas este só
podia ser utilizado caso existisse outra estação. Além disso, seu
alcance era bastante limitado.
As enormes
máquinas da Burma começaram a uivar. Os motores, já aquecidos,
foram regulados para a aceleração máxima. Olavson tirou a mão da
chave mestra.
Seu
trabalho estava concluído. O resto seria feito pelo dispositivo
automático, mas as respectivas instruções lhe haviam sido
transmitidas pelo piloto. A partir daquele momento, em que a nave se
erguia ruidosamente, cada processo era a continuação harmoniosa do
anterior.
A potência
dos neutralizadores de pressão foi aumentada automaticamente, a fim
de compensar o aumento vertiginoso da gravitação. Apesar da
aceleração tresloucada, que para essa nave era apenas normal, a
gravidade no interior da Burma permaneceu constante. Mas a cortina de
som tornou evidente a todos que a Burma não era outra coisa senão
um gigantesco parque de máquinas comprimido no interior de uma
esfera que, mal e mal, oferecia lugar para que a tripulação de
cento e cinqüenta homens pudesse viver e respirar.
No
camarote de Deringhouse e nos demais foi dado o aviso:
— Transição
dentro de três minutos.
O general
saiu correndo. Estava preocupado com Thora.
Tinha de
apressar-se para não ser surpreendido pelo salto a meio caminho,
pois o camarote de dona Thora ficava do lado oposto da nave, e dois
conveses abaixo do seu.
Quando se
viu à frente de sua porta, faltavam trinta e cinco segundos para o
momento do salto.
Anunciou
sua presença, mas em vez de Thora, o rosto de Ishy Matsu surgiu na
pequena tela.
— General?
Faça o favor — disse a mutante designada por Rhodan para fazer
companhia permanente a sua esposa.
Deringhouse
entrou apressadamente. Estacou na porta.
— Deringhouse,
sente-se logo — exclamou Thora em tom exaltado.
Sob a luz
suave reinante no camarote seu lindo cabelo voltara a brilhar como
naqueles tempos em que era considerada a bela esposa de Rhodan.
Apontou
para a poltrona. Assim que o general tomou lugar, seguiu-se o choque
da transição.
A Burma
saiu do hiperespaço. Deringhouse contorceu-se ligeiramente sob os
efeitos da dor da rematerialização, mas Thora não demonstrou
qualquer tipo de reação. Parecia que nem sentira o hipersalto.
A telepata
pequena e graciosa mantinha-se nos fundos do camarote. Deringhouse
não dissimulou o espanto que lhe causava o ótimo aspecto de Thora.
Parecia irradiar saúde. Até dava a impressão de estar passando por
um processo regressivo de rejuvenescimento. O general gostaria de
acreditar nisso, mas lembrou-se da advertência do Dr. Villnoess:
“— Quanto
mais saudável for o aspecto de dona Thora, mais doente estará. Isso
não passará de um último esforço do organismo, que reúne todas
as reservas de energia, como uma espécie de bruxulear da chama da
vida. De qualquer maneira, não podemos dizer como e de que forma
surgirá a morte.”
Deringhouse
esteve a ponto de iniciar um diálogo, mas o sistema de
intercomunicação cortou-lhe a palavra.
No momento
em que soaram as primeiras palavras saídas do alto-falante, a imagem
da tela assumia contornos estáveis.
— O
chefe deseja falar com a senhora, dona Thora! — disse o oficial de
plantão no setor de rádio.
Deringhouse
ficou surpreso.
“Rhodan
quer falar com a esposa?”,
pensou Deringhouse surpreso.
Lembrou-se
das inúmeras possibilidades de detectar a presença de uma
hipermensagem, que poderia inutilizar, de um instante para outro,
todo o dispositivo da camuflagem que envolvia o planeta Fera
Cinzenta; ou então, o regente de Árcon já estava sabendo que, quem
estava a caminho, era Thora de Zoltral, e não Perry Rhodan.
Subitamente
a imagem da tela parou de tremer.
O rosto
marcante de Rhodan surgiu nítido.
A
teleobjetiva embutida no próprio quadro da tela transmitia-lhe a
imagem da esposa.
Antes que
o general pudesse vencer a surpresa causada pelo riso descontraído,
leve, quase juvenil do chefe, ouviu o administrador do Império Solar
dizer à esposa:
— É uma
pena, Thora, que não possamos fazer a viagem juntos. Até breve,
Thora!
— Perry!
— exclamou Thora, mas Perry Rhodan já não podia ouvi-la.
A
transmissão de hiper-rádio vinda das profundezas do espaço chegara
ao fim. A tela voltou a adquirir o tom cinzento, e a pequena luz de
controle existente sob a objetiva apagou-se.
Apesar de
todas as dúvidas e indagações, o General Deringhouse riu e olhou
para Thora. Conseguiu dar uma expressão matreira à sua risada.
Reprimiu a perplexidade que sentia, e nem deixou que o espanto e as
indagações angustiosas de Thora viessem à tona.
— Dona
Thora, o erro foi meu — disse, fazendo-se voluntariamente de bode
expiatório. — Demorei demais em fornecer-lhe as informações mais
recentes sobre nosso vôo. Permita que repare a falha, e a senhora
logo compreenderá o motivo da surpresa que seu marido acaba de
fazer-lhe.
Informou-a
na medida que julgava adequada, recorrendo a três quartas partes de
verdade e um quarto de mentiras, nascidas da compaixão. Não
mencionou a mensagem mutilada do agente que trabalhava no planeta
Aralon, e também deixou de mencionar o vôo-relâmpago de Bell à
Terra. Encontrou outros detalhes e colocou Perry Rhodan discretamente
no primeiro plano, motivo por que, por mais desconfiada que fosse,
Thora não haveria de duvidar de seu relato.
— Face a
isso, o chefe pensou em incumbir outra pessoa da execução dessa
tarefa, dona Thora, mas logo viu que sua viagem a Árcon não envolve
maiores riscos, salvo a aproximação da frente de bloqueio. Depois
combinamos que ele lhe enviaria um ligeiro cumprimento assim que a
situação junto à área de superposição estivesse consolidada.
Sinto muito, dona Thora, mas sou um péssimo regente...
Ao dizer
estas palavras esboçou um sorriso, enquanto fazia votos de que o
mesmo não fracassasse e pudesse parecer razoavelmente genuíno.
Subitamente
seu olhar resvalou para o lado. Viu a telepata Ishy Matsu de pé,
atrás de Thora.
O rosto da
jovem japonesa parecia transformado numa máscara. Lera os
pensamentos do general e compreendera que a Burma voava em direção
a uma aventura extremamente perigosa.
— Deringhouse...
— Thora segurou a mão do general entre as suas, e seus olhos de
arcônida brilharam num assomo de alegria e felicidade. — Sei
perfeitamente que estou muito doente, mas há anos não me sinto tão
bem disposta como agora... e isso apenas porque houve algo de errado
numa regência... Até breve! Estas simples palavras transformaram
uma mulher velha como eu numa jovem. Já faz muito tempo que não
vejo este riso alegre de menino em Perry. Peço-lhe o favor de me
deixar só por algum tempo.
Ishy Matsu
e o general saíram. Uma vez no corredor, Deringhouse falou sem papas
na língua.
— Ishy,
a senhora leu? — perguntou, dirigindo-se à telepata.
— Li,
sim, general; contrariei as ordens...
— Deixe
para lá. Quer dizer que já sabe o que nos espera. Sabe que não
fazia a menor idéia de que o chefe iria enviar este cumprimento. Em
hipótese alguma, dona Thora deve desconfiar de que menti. Tome todas
as providências para que isso não aconteça, Ishy, e entre em
contato com os três médicos de bordo, a fim de que estes usem
qualquer pretexto e se apresentem a dona Thora para realizar um exame
de rotina.
Sentiu o
chão arder sob os pés. Sem aguardar resposta, foi apressadamente em
direção ao elevador antigravitacional que o conduziu ao pavimento
onde ficava a sala de comando.
No momento
em que entrou na sala de rádio da Burma, o oficial de plantão
esteve a ponto de fazer continência. Mas Deringhouse não deu muita
importância à saudação.
— Como
foi que a mensagem chegou aqui? — perguntou em tom insistente.
— Pelo
distorçor dos swoons, general, com quarenta e cinco mil impulsos por
segundo. Além disso, foi condensada num — virou-se e leu a cifra
num instrumento — num microssegundo.
Deringhouse
não se deixou impressionar pelos algarismos.
— De
onde veio?
— De um
cruzador ligeiro, general. Se nossa medição goniométrica for
correta, este deve ficar a cerca de oitocentos anos-luz de Fera
Cinzenta, tomando como referência a situação em que estamos,
distância medida pela coordenada phi,
que...
Dirigiu-se
à sala de comando. Antes de atravessar a pesada escotilha, parou e
pensou:
“Será
que, ao enviar o cumprimento a Thora, Rhodan forçara as coisas,
confiando demais no organismo da esposa, que teve de liberar energias
para absorver a alegre surpresa?”
Apertou o
passo, pois teria de mandar suspender os preparativos do terceiro
salto.
Joe
Pasgin, imediato da Burma, lançou-lhe um olhar indagador.
— Não
devemos esquecer-nos de que dona Thora está a bordo, senhores! —
estas palavras foram dirigidas a todos os oficiais que se encontravam
na sala de comando. — Daqui a uma hora os médicos apresentarão o
resultado de seu exame e informarão quantas transições dona Thora
ainda poderá agüentar.
Pediu ao
imediato que se aproximasse do grande mapa astronáutico.
— Nossa
posição é mais ou menos esta, Pasgin. Ali fica a zona de descarga,
e o anel de bloqueio das naves de Árcon atinge esta profundidade. Se
os médicos nos impuserem a restrição de, na medida do possível,
evitarmos as transições, desligaremos o neutralizador de vibrações
e nos dirigiremos à zona de superposição em três saltos.
Providencie para que no último não percorramos mais de três
anos-luz, pois não tenho o menor interesse em levar a Burma para
dentro de uma formação arcônida.
— Está
bem. Mas as naves de Árcon não foram informadas sobre nossa
chegada? — perguntou Pasgin em tom de espanto. Ao que parecia,
estava preocupado.
— Espero
que sim, mas não nos devemos esquecer das ordens contraditórias que
o computador-regente transmitiu nestas últimas horas.
A sala de
rádio chamou em meio à palestra.
— Recebemos
uma mensagem da estação retransmissora Omega 17.
De início
ouviu-se o ruído típico do condensador e do distorçor. Logo
seguiu-se uma voz sonora que disse apressadamente:
— O
computador positrônico acaba de concluir a interpretação das
ordens do regente, esclarecidas pelas observações feitas por nós:
“Reagrupamento
total das formações das unidades de Árcon. Ampliar a profundidade
do front de 0,7 anos-luz para três anos-luz. Neste momento, Árcon
está enviando enormes reforços. Naves dos druufs procuram romper
nossas linhas nos setores pantera 76 e 73 A. Em hipótese alguma
aproximem-se desses setores. Nos demais setores reina a calma. Porém
em todos os lugares os ataques dos druufs devem ser aguardados de um
momento para outro.”
Ouviu-se
um forte estalido. Essa importante notícia fora recebida por meio de
hipermensagem expedida por uma nave esférica do Império Solar que
se encontrava bem longe de Fera Cinzenta. Com isso, a situação foi
esclarecida. Deringhouse compreendeu que o computador-regente de
Árcon continuava a agir com a lógica fria de sempre, motivo por que
ainda era o aliado mais perigoso que alguém poderia ter.
Aquilo que
Reginald Bell e os outros homens do Império Solar, que se mantinham
como observadores em Fera Cinzenta, ao lado de Perry Rhodan,
acreditavam ser uma série de ordens contraditórias, na realidade
constituía um conjunto de lances geniais concebidos pelo cérebro
positrônico, cujo pensamento se baseava exclusivamente na lógica.
Finalmente
receberam o pronunciamento dos médicos de bordo. Estes não possuíam
o enorme saber especializado do Dr. Villnoess, chefe da Divisão de
Hematologia da Clínica Terrana de Vênus. No entanto, foram
concordes em concluir que a moléstia de dona Thora chegara a um
estágio perigoso, e que se deveria contar com o pior.
Foram de
opinião que os efeitos da transição seriam de importância
secundária.
— Realizaremos
apenas três saltos até o front! — ordenou Deringhouse.
Apesar do
pronunciamento e das recomendações dos médicos, preferiu não
assumir qualquer risco.
— Tomara
que não cheguemos lá com uma defunta a bordo — disse Joe Pasgin,
dando a entender que a tarefa, que lhe fora atribuída, não lhe
agradava nem um pouco.
Os dados
relativos ao salto foram introduzidos no computador da Burma. As mãos
delgadas de Hendrik Olavson bateram nas teclas, realizando a
programação. Os controles múltiplos impediam qualquer
possibilidade de erro humano.
A
atividade de Olavson não pôs em funcionamento qualquer mecanismo
automático de travamento.
A contagem
regressiva do cérebro positrônico começou a funcionar. O sistema
de intercomunicação transmitiu a informação de que o próximo
salto estava iminente. Na sala de comando, o silêncio era quase
completo, interrompido apenas por ligeiras informações.
Deringhouse
voltou a certificar-se:
— O
neutralizador de vibrações foi desligado?
— Foi,
general.
Sem saber,
Deringhouse exibiu um sorriso astucioso.
O
neutralizador de vibrações, um aparelho criado pelos swoons ou
homens-pepino, representava um obstáculo intransponível aos
esforços intensos realizados pelo regente, que pretendia descobrir a
posição galáctica da Terra. O goniômetro de compensação —
construído às escondidas e à custa de esforços gigantescos da
imensa indústria arcônida, e que era capaz de, apesar do
compensador estrutural, medir os abalos na estrutura espaço-temporal,
provocados pelas transições — seria considerado obsoleto se o
Grande Império tivesse conhecimento da última inovação da frota
terrana.
Não se
desejava que o computador-regente, sempre desconfiado graças à sua
programação, soubesse que o goniômetro de compensação não
levaria à descoberta da Terra. Por isso, as naves terranas deixavam
que as estações goniométricas de Árcon as localizasse ao saírem
do hiper-espaço, mas isso apenas quando se encontravam a uma boa
distância da Terra.
A Burma
realizou dois saltos gigantescos em direção à frente de bloqueio,
saltos estes que abalaram a estrutura do Universo. A nave da classe
Estado retornou ao espaço normal a menos de três anos-luz da
retaguarda das formações arcônidas.
Deringhouse,
que acompanhara as manobras apenas na qualidade de espectador, ouviu
Joe Pasgin chamar a sala de rádio.
— Envie
hipermensagem às formações arcônidas do setor espacial Tigre 46.
Anuncie nossa chegada para daqui a quinze minutos. Transmita a senha,
o código, etc.
Pasgin
entrou em contato com o oficial de armas da Burma, uma nave cujo
armamento era bastante fraco.
— Alden,
entre em estado de rigorosa prontidão. A transição será realizada
dentro de 14 minutos e 35 segundos. O salto não provocará nenhum
choque sensível nos seus homens. Só abra fogo por ordem minha.
— Entendido!
— respondeu Alden, que se encontrava no posto de combate.
Dez
minutos antes do salto, uma ordem atravessou a nave:
— Colocar
trajes espaciais.
Assim
todos ficaram sabendo que a Burma se precipitava para uma perigosa
aventura.
Seguiu-se
a transição ligeira de pouco menos de três anos-luz.
O setor do
espaço retratado na grande tela da nave empalideceu. A Burma
desmaterializou-se num tempo zero, durante o qual saltou pelo
hiperespaço, para retornar ao estado anterior, provocando nos homens
o choque doloroso.
— Isto é
um verdadeiro inferno — constatou Joe Pasgin apavorado.
Via a
Burma transformada numa nuvem de gás.
Mas
Hendrik Olavson conseguiu algo que dificilmente se acreditaria
possível. Fez o cruzador ligeiro descrever uma curva fechada,
levando-o para fora da zona perigosa, onde os raios mortíferos
cruzavam-se.
A Burma
formava um só conjunto integrado. Era um cruzador ligeiro com uma
enorme capacidade de aceleração. Seus neutralizadores de pressão
eram tão potentes quanto os conjuntos propulsores.
De repente
o uivo das unidades energéticas, dos propulsores e dos
neutralizadores rompeu todos os isolamentos acústicos...
Oito raios
disparados por naves de guerra passaram a poucos milhares de
quilômetros da Burma!
Subitamente
os campos defensivos da pequena nave começaram a rugir. Duas imensas
cascatas de luz desfizeram-se no negrume do espaço.
— Solicitação
de oitenta por cento! — exclamou Joe Pasgin em tom exaltado.
Os campos
energéticos mal e mal haviam resistido a essa investida de energia
estranha. Seguiu-se um impacto no setor verde e outro no frontal.
— Sala
de rádio! O que houve? Por que estão disparando contra nós? —
gritou Pasgin para dentro do microfone.
Enquanto
isso Hendrik Olavson realizou uma manobra violenta, atirando o
cruzador ligeiro para fora da rota.
— A
senha está sendo transmitida ininterruptamente — respondeu a voz
trovejante vinda do alto-falante.
Deringhouse
olhou por cima do ombro do oficial incumbido do rastreamento.
Três
gigantescas naves da classe Império aproximaram-se velozmente;
tratava-se de naves de 1.500 metros de diâmetro. Seu poder de fogo
era tamanho que poderiam transformar planetas inteiros em sóis. E a
Burma só tinha cem metros de diâmetro!
— Cuidado!
— berrou Joe Pasgin.
O grito
não foi motivado por qualquer ataque das unidades arcônidas. Fora
dirigido ao co-piloto Hendrik Olavson, que não deveria revelar aos
arcônidas, por meio das mudanças de rota que efetuava, qual era a
capacidade de aceleração da Burma.
— Ataque
do amarelo 43.78...
O resto da
mensagem foi engolido por uma tríplice pancada de fogo. Dali em
diante, o cruzador ligeiro devia sua existência exclusivamente ao
fato de que o raio de desintegração apenas atingira o campo
defensivo de raspão.
O
indicador de solicitação subiu para cem por cento.
Normalmente
essa percentagem significaria o desmoronamento do campo defensivo
energético.
Até mesmo
Deringhouse, um general que já atravessara várias centenas de
situações catastróficas, sentiu-se nervoso, pois o próprio
coração da Burma começou a gritar.
O aparelho
indicara uma solicitação de cem por cento. Dali a uma fração de
segundo, essa cifra já não era correta. A Burma soltara um bramido
em seu interior e dirigira todas as energias disponíveis para fora,
a fim de levantar outro campo defensivo.
— Sala
de rádio! Sala de rádio!
A voz do
imediato parecia atropelar-se, enquanto procurava conseguir contato.
Será que
o oficial de armas não ouvira o grito? Ou resolvera também gritar
naquele instante?
Sua voz
potente foi ouvida na sala de comando:
— Quando
virá a ordem de abrir fogo?
Hendrik
Olavson, um homem recém- saído da Academia Espacial, sentia-se no
seu elemento. Jogava com a Burma com a mesma facilidade com que o
artista toca seu instrumento. Foi só graças a ele que as pessoas a
bordo continuaram vivas. Parecia prever a direção da qual viriam os
ataques e constantemente realizava as mudanças abruptas. E, dessa
maneira, o cruzador saltava de um lugar para o outro, não sendo
atingido por nenhum raio silencioso e mortífero.
Subitamente
os homens, que se encontravam no cruzador ligeiro, perceberam que
haviam saltado para dentro da batalha espacial, travada entre as
naves robotizadas dos arcônidas e as unidades dos druufs.
Nas
grandes telas da Burma surgiram minúsculos sóis, que se espalhavam
vertiginosamente para todos os lados. No negrume do espaço, sua
claridade só se mantinha por poucos segundos. Depois de espalhar-se,
empalideciam e submergiam. Eram naves de guerra desintegradas pela
reação atômica.
— Vamos
embora! — gritou Joe Pasgin para o hábil co-piloto.
O jovem
oficial confirmou.
— Tigre
32! — respondeu.
A
formulação não poderia ter sido mais lacônica. Pretendia retirar
a Burma do setor espacial Tigre 46 e procuraria atingir o setor Tigre
32. Essas designações de setores, criadas pela Frota Solar,
abrangiam toda a área da zona de superposição e das linhas de
bloqueio.
As
unidades energéticas e os conversores da Burma rugiram, e o rugido
atravessou todos os isolamentos acústicos que, em virtude da falta
de espaço, não possuíam grande capacidade de absorção de som. Os
motores de propulsão, instalados na protuberância equatorial,
expeliram feixes chamejantes de ondas de impulsos. No momento em que
começavam a impelir a nave terrana em direção ao setor Tigre 32,
os instrumentos localizaram três gigantes da classe Império, que se
aproximavam em vôo frontal.
— Fomos
identificados! Fomos identificados! — disse a voz rouca saída dos
alto-falantes.
O aviso
provinha da sala de rádio. E era claro. Hendrik Olavson, que possuía
um talento natural para tudo que dissesse respeito à pilotagem de
uma nave espacial, agiu imediatamente.
Reduziu a
potência dos conversores. Diminuiu a produção das unidades
energéticas para um oitavo de seu potencial. No mesmo instante, os
neutralizadores começaram a rugir, para eliminar a pressão
resultante da súbita cessação do processo de aceleração.
— Elmes?
— gritou Pasgin em tom indagador para o lado em que ficava o
computador positrônico.
Ali um
oficial estava de pé, acompanhando os acontecimentos na grande tela.
Este
compreendeu o significado da pergunta.
— Banco
de dados do computador sem dispositivo de segurança — respondeu.
Um sorriso
feroz surgiu no rosto de Deringhouse, que, em pensamento, homenageava
o computador-regente com todas as pragas de astronauta que conhecia.
A ausência do dispositivo de segurança do banco de dados do
computador de bordo evitaria que o Grande Império pudesse descobrir
a posição galáctica da Terra, mesmo por um infeliz acaso. Sem esse
dispositivo, ao menor perigo que ameaçasse o cruzador ligeiro
apagar-se-iam todos os dados que poderiam fornecer qualquer indicação
sobre o lugar galático da Terra.
A
escotilha da sala de comando abriu-se.
Deringhouse
e Joe Pasgin viraram a cabeça.
Ficaram
surpresos ao verem Thora.
Em meio ao
ruído da escotilha que voltava a fechar-se, ouviu-se a mensagem da
sala de rádio.
— Mensagem
da nave robotizada Ig-Dro 34, classe Império. Desvio para... —
seguiu-se uma série de coordenadas, que foram transmitidas
simultaneamente ao computador de bordo. — Os três supercouraçados
nos comboiarão. Qual é a resposta?
Com dois
passos, Deringhouse colocou-se à frente do microfone.
— Aqui
fala Deringhouse! Transfira a ligação para a sala de comando.
A ligação
foi estabelecida imediatamente. A imagem na tela estabilizou-se. Nela
se viu o “rosto”
cadavérico de um robô arcônida. Antes que o general pudesse dizer
uma palavra, um lampejo ofuscante surgiu a estibordo.
Um
couraçado dos druufs conseguiu romper as linhas arcônidas sem que
ninguém o percebesse e pretendia transformar a Burma num sol...
Nenhuma
das pessoas que se encontravam na sala de comando conseguiu ver
qualquer coisa. Os três supercouraçados de Árcon agiram no momento
em que foi desfechado o ataque dos druufs. Sob o tremendo poderio de
suas armas, a nave de guerra vinda da outra dimensão temporal
dissolveu-se numa nuvem de gases vermelhos.
No
entanto, o inimigo conseguira atingir a Burma.
E mais uma
vez, graças à ação de Hendrik Olavson, o impacto não foi direto.
O raio
absorveu 95 por cento da potência dos campos defensivos. Ficaram
faltando apenas cinco por cento para que a tremenda energia
concentrada do disparo atingisse o revestimento metálico da Burma.
A nuvem de
gases, que brilhava numa luminosidade vermelha, desfez-se
rapidamente. O fogo de artifício provocado pelo impacto do raio dos
druufs contra a Burma e os disparos maciços dos três couraçados
robotizados de Árcon transformaram esse setor do espaço num inferno
de luz, calor e violência mortífera.
Enquanto
ainda lutava contra o ofuscamento, Deringhouse reconheceu na tela o
sistema de lentes do robô-comandante, que o fitava como se fosse uma
coisa.
— Sou o
General Deringhouse, do Império Solar, e represento Perry Rhodan.
Por que fomos atacados pelas naves arcônidas, muito embora o regente
já lhes deva ter avisado sobre a chegada de uma nave terrana?
A alma de
qualquer robô positrônico é formada pelo X, pelo algarismo
desconhecido, pela lógica insensível. Com uma voz metálica, o
comandante do supercouraçado Ig-Dro 34 forneceu seu número de
identificação e respondeu:
— A
ordem de desmantelar de qualquer maneira o ataque que o inimigo lança
em três frentes, dada pelo regente de Árcon, tem precedência sobre
outras instruções, terrano. Sigam-nos de perto, para que possamos
escoltá-los seguramente para fora da zona de combate.
Ao que
parecia, as boas maneiras também não constavam da programação das
máquinas positrônicas de guerra. O comandante-robô desligou. Só
agora, Deringhouse teve tempo para tomar conhecimento da presença de
Thora.
— Dona
Thora... — principiou em tom violento, enquanto a fitava, mas o
espanto fechou-lhe a boca...
Viu à sua
frente a orgulhosa arcônida Thora de Zoltral, e ainda viu tudo que a
mesma já fora para o Grande Império, antes que o cérebro gigante
assumisse o governo de um reino galático decadente. Foi na qualidade
de comandante que ela entrou na sala, e seu aspecto desmentia os
diagnósticos dos médicos.
— General,
cavalheiros; acho que está na hora de participar ativamente nas
negociações. Por favor, não deixem que minha presença os
perturbe.
Com um
sorriso no rosto, aproximou-se de Deringhouse. Por mais atentamente
que a observasse com os olhos críticos, não viu o menor sinal de
tensão ou cansaço.
Às suas
costas Joe Pasgin e Hendrik Olavson cuidavam para que a Burma
seguisse os três couraçados arcônidas da classe Império, a fim de
que a cobertura de fogo dos três gigantes lhes permitissem sair sãos
e salvos da zona de batalha, junto à área de superposição.
Deringhouse
ofereceu-lhe a única poltrona desocupada da sala de comando.
Thora
agradeceu com um sorriso. Em voz baixa, para que só ele entendesse,
formulou a pergunta:
— Deringhouse,
será que realmente estou doente? Quase não consigo acreditar.
Deringhouse
lembrou-se de como a encontrara no bangalô situado ao pé da
Cordilheira de Valta, e também se lembrou da séria advertência
formulada pelo médico-chefe Dr. Villnoess. Mas, agora, vendo Thora à
sua frente, meditou:
“Não
é uma mulher jovem, mas uma dama, que sabe aceitar com uma elegância
inigualável os sinais de velhice pouco perceptíveis.”
Deringhouse
não precisou esforçar-se para retribuir o sorriso. As palavras
ditas saíram-lhe do coração:
— Dona
Thora, eu a admiro!
A dura
realidade destruiu o encanto do momento... A central de rádio
chamou:
— O
computador-regente quer falar com o senhor, general.
— Faça
o favor de transferir a ligação para cá! — ordenou Deringhouse.
Thora
colocou a mão em seu braço.
— Não
seria conveniente que eu interferisse nas negociações, Deringhouse?
Naquele
instante, o general lembrou-se da mensagem mutilada do agente de
Aralon, e foi por um medo inexplicável, sentido em relação a
Thora, que respondeu:
— Sob o
ponto de vista tático prefiro que a senhora só apareça em Árcon
III, dona Thora. Por favor, afaste-se um pouco para o lado, a fim de
que a objetiva não possa atingi-la.
A tela
destinada às mensagens de hiper-rádio começou a iluminar-se.
Como
acontecia todas as vezes que se estabelecia uma ligação com o
regente, surgiram em primeiro lugar os perturbadores modelos
coloridos, seguidos pela gigantesca abóbada metálica, que abrigava
o elemento principal do conjunto positrônico.
Sem o
menor intróito o cérebro perguntou:
— Onde
está Rhodan?
Nem tomou
conhecimento da presença de Deringhouse.
Este já
estava preparado para as “excentricidades”
do grande computador.
— Não
pôde vir, regente — respondeu o general com o mesmo laconismo. —
Senha Garyloon 010 Árcon!
— O fato
de o senhor conhecer a senha não exclui a verificação da
identidade de sua pessoa. Apresente-se em Árcon III.
O general
sabia que sua insistência representava mera perda de tempo, pois que
seria dificílimo remover o computador-regente de qualquer decisão
já adotada. Apesar disso, resolveu formular uma objeção:
— Regente,
o senhor já me conhece. Sou o terrano Deringhouse.
O
gigantesco mecanismo comunicou em tom uniforme:
— Apresente-se
em Árcon III. Identificação indispensável. Temos de estabelecer
entendimentos sobre a entrega de cem naves espaciais.
Tão
subitamente como principiara a falar, o grande cérebro desligou,
adotando o objetivismo total que guiava seu procedimento.
Com
exceção de Thora, o general era a única pessoa a bordo da Burma
que conhecia as qualidades típicas do computador-regente.
Deringhouse
lançou um olhar indagador para Thora, que se mantivera em pé, junto
à poltrona vazia, seguindo atentamente o diálogo.
— Não
estou gostando dessas frases, dona Thora! A ordem de comparecer a
Árcon para ser identificado constitui um sofismo que não convence
ninguém...
— Bem,
não pretendíamos ir a Árcon, Deringhouse? — perguntou Thora em
tom de espanto.
— Naturalmente.
E não teria nada a objetar contra o tom de comando usado pelo
cérebro, se ele não tivesse feito tamanha questão de ressaltar que
está disposto a negociar. Já sabemos por várias amargas
experiências que o cérebro positrônico sabe mentir com uma frieza
estarrecedora. E a informação de que está disposto a considerar a
entrega de cem naves espaciais não passa de mais uma mentira.
Thora
sacudiu a cabeça.
— Minha
opinião é outra, Deringhouse. Será que o senhor não se preocupa
demais por minha causa?
Deringhouse
teve dificuldade de controlar-se. Não poderia revelar-lhe a verdade.
Se a
esposa de Perry Rhodan não estivesse a bordo, as preocupações
ligadas ao vôo para Árcon III estariam reduzidas para um décimo.
E, caso ela não estivesse doente, tudo teria um aspecto diferente,
muito menos arriscado. Mas na situação em que se encontrava, via as
coisas pretas, quanto ao futuro da tripulação da Burma.
Resolveu
bancar o despreocupado:
— Espero
convencer-me logo de que estava enganado em relação ao cérebro.
Afinal, a senhora tem melhores condições de formar um juízo que
eu.
Durante
três horas, a Burma voou sob a escolta dos supercouraçados,
deslocando-se ao longo das linhas de bloqueio. Teve de desviar-se
instantaneamente de dois ataques, inesperados e violentíssimos,
desfechados por naves dos druufs, que conseguiram romper o bloqueio.
Joe Pasgin e Hendrik Olavson tiveram o cuidado de não fornecer o
menor sinal sobre a tremenda aceleração que se escondia no cruzador
ligeiro.
Finalmente
a Ig-Dro 34 transmitiu uma mensagem lacônica... Informou que o
escoltamento estava concluído. Os supercouraçados robotizados do
Grande Império desapareceram sem despedir-se.
6
O último
salto levou a Burma para o centro do grupo estelar M-13.
Essa
concentração media noventa e nove anos-luz de diâmetro e
compreendia mais de 30 mil estrelas. Constituía a célula-máter do
Grande Império, uma entidade estatal que tinha todo motivo para
julgar-se grande.
A tela da
Burma reproduziu o quadro irreal. Os sóis se enfileiravam um ao lado
do outro, e sua densidade produzia uma cintilação, um brilho e um
tremeluzir, formando um espetáculo extraordinário. O leve cintilar
da Via Láctea desaparecera; parecia não mais existir. Em
compensação, uma profusão de cores invadiu a sala de comando,
depois de passar pela tela. Era um espetáculo que provocaria
admiração até mesmo no mais empedernido dos astronautas.
O grupo
M-13, que servia de sede ao Grande Império dos arcônidas,
representava uma obra grandiosa da criação. As constelações se
sucediam em série ininterrupta, e, em meio às cascatas de luz, era
impossível distinguir a olho nu um determinado sol.
Embora
tivesse sido construída na Terra, a Burma representava um
aperfeiçoamento da construção espacial arcônida. Por isso, a
quantidade perturbadora de estrelas não impediu que a tripulação
resolvesse com a maior facilidade todos os problemas galatonáuticos.
Um verdadeiro conhecedor da astronavegação não teria outra
alternativa senão dobrar-se, numa homenagem muda, diante da
tecnologia arcônida e de sua hipermatemática.
Enquanto
os homens da sala de comando ainda se sentiam atraídos pelo colorido
do quadro projetado em três dimensões, o computador positrônico do
cruzador leve pôs-se a trabalhar a fim de determinar qual era a
distância ao sistema de Árcon.
O astro
central era um sol branco e ofuscante, que possuía vinte e sete
planetas. A importância principal cabia aos primeiros três
planetas, que giravam em torno desse sol, dispostos em forma de
triângulo isósceles.
Eram
designados pelo mesmo nome do astro central e distinguiam-se pelos
algarismos I a III.
Árcon I,
ou o mundo de cristal, um planeta cuja gravitação era semelhante à
da Terra, era o mundo residencial dos arcônidas, enquanto Árcon II
abrigava a administração do Grande Império e ao mesmo tempo servia
de entreposto de comércio do grupo M-13.
Já Árcon
III não se conhecia igual em toda a Galáxia. Era do mesmo tamanho
que os números I e II, mas era um centro de produção de armas. Lá
se fabricavam, nas grandes esteiras rolantes dos arcônidas, as
gigantescas naves de guerra. Nesse mundo ficava o coração do deus
da guerra dos arcônidas — a administração militar, o ministério
espacial e da guerra — e o computador-regente! Por estes fatos
tornava-se o mais importante dos três mundos.
Deringhouse
respirou pesadamente ao lembrar-se do enorme mecanismo. Mais uma vez,
deu-se conta do aspecto grotesco da situação. Há alguns decênios
da contagem do tempo terrana, uma instalação positrônica —
construída há muitos milênios por cientistas de ampla visão, e
programada ao longo dos séculos — assumiu, com base nessa
programação, o governo do Grande Império. E ninguém se sentiu
mais feliz com esse fenômeno, que seria inadmissível para os homens
terranos, que os arcônidas “supersaturados”,
que, dali em diante, passaram a entregar-se mais desinibidamente às
suas orgias, sem dar-se conta de quão profundamente estavam
degenerados.
Deringhouse
fez uma ligação com Thora. O rosto desta apareceu na tela de
controle. Fitou-o com uma expressão de curiosidade.
— Dona
Thora, será que posso pedir-lhe que venha à sala de comando?
Pretendo falar com o cérebro positrônico, daqui a alguns minutos.
Thora
limitou-se a acenar com a cabeça. Deringhouse ligou para a sala de
rádio:
— Chame
o computador positrônico de Árcon — ordenou.
O rosto do
operador de rádio, que estava sentado à frente do intercomunicador,
desapareceu da tela de controle.
— Abalos
estruturais! — anunciou o setor de rastreamento estrutural. —
Cinco naves.
O salto
para o centro de M-13 também foi realizado sem o neutralizador de
vibrações. Dessa forma, as estações arcônidas de Vigilância
espacial registraram o abalo estrutural provocado pela Burma e
imediatamente enviaram cinco naves de guerra ao local, a fim de
examinar de perto o forasteiro recém-chegado do hiperespaço.
No mesmo
instante, a sala de rádio transmitiu o sinal de identificação da
nave terrana. O dispositivo automático expelia ininterruptamente os
respectivos dados.
Os
contornos de três cruzadores pesados arcônidas desenharam-se contra
o fundo da cortina de estrelas. Pareciam querer abalroar a pequena
Burma, mas subitamente mudaram de lado e colocaram-se ao lado da nave
terrana.
A sala de
rádio transferiu as ligações para a sala de comando.
A tela
iluminou-se.
Nela
surgiu um rosto de robô. Falava, mas o som tinha desaparecido...
Em
compensação, a sala de rádio transmitiu uma notícia preocupante.
— O
cérebro positrônico não responde ao chamado, mas está falando com
uma das cinco naves.
Finalmente
ouviu-se o som da transmissão. A interferência apenas decorrera da
regência exercida pela central de rádio. A informação a ser
transmitida a Deringhouse não deveria chegar a mãos estranhas.
Dona Thora
entrou. Mais uma vez, o general não teve tempo de virar o rosto para
ela. Mas no momento em que se colocou a seu lado, pediu-lhe que não
se colocasse fora do alcance da objetiva de televisão.
— ...e
vieram a Árcon sob escolta — foram estas as palavras que ainda
conseguiu ouvir.
Antes que
Deringhouse conseguisse dizer uma palavra, o robô interrompeu a
comunicação.
— Isso
não está muito bom — disse Deringhouse em tom preocupado. — Não
conseguimos entrar em contato com o cérebro positrônico, mas ele
acaba de manter uma palestra com uma das naves robotizadas. Escolta,
ora essa! Tenho sérias dúvidas quanto a isso, dona Thora!
— General!
— gritou o oficial de rádio em tom exaltado. — KK-0-763 98 exige
que lhe entreguemos a direção da Burma.
KK-0-763
98 era o robô comandante de uma das naves arcônidas que haviam dito
ao general que iriam escoltar a nave para Árcon.
— Transfira
a ligação para cá! — ordenou Deringhouse em tom tão frio que
até mesmo Joe Pasgin, imediato da Burma, se virou para ele e fez um
gesto de satisfação.
A tela
iluminou-se. Mais uma vez, o rosto indiferente do robô arcônida
surgiu.
— Ouça,
meu caro — disse Deringhouse. — Diga a seu regente que não somos
arcônidas, mas terranos, e um terrano não gosta de entregar sua
nave a um robô.
Estava
mostrando que também sabia agir com a descortesia típica de um
robô, mas ao desligar deu-se conta de que, face à sua programação,
esses homens mecânicos nunca se chocavam.
Joe Pasgin
e Olavson tiveram de esforçar-se ao máximo para manter a Burma no
centro da formação de naves que a escoltaria para Árcon, sem
correr o perigo de colidir com qualquer uma delas. Era bem verdade
que os potentes campos defensivos evitariam uma colisão direta, mas
não queriam passar a vergonha de serem considerados inexperientes no
vôo em formação.
— Então,
dona Thora, o que acha dessa exigência? — perguntou Deringhouse
com certo sarcasmo na voz.
— São
robôs! — com essa palavra Thora pensou que o assunto estivesse
encerrado.
— É um
robô! — retificou o general. — O cérebro-gigante. Se existe
alguém no Grande Império que saiba como nós, os terranos,
costumamos reagir a qualquer restrição em nossa liberdade, este
alguém é seu simpático regente!
Apesar da
situação indefinida em que se encontravam, Thora, cujo estado de
saúde piorara sensivelmente, deu uma risada.
— Deringhouse.
Sou da dinastia dos Zoltral e venho de Árcon I, mas considero o
computador-regente um monstro. E acho que o senhor também o
considera assim. Mas, como arcônida que sou, talvez não encare a
situação com a mesma coerência e energia que o senhor, que é um
terrano. E olhe que, ultimamente, devo esforçar-me para não me
esquecer totalmente de que não sou filha do planeta Terra.
Foi
interrompida pelo astronavegador Merck.
— General,
a rota não confere mais. Em psi
há um desvio de 0°57’. Nunca vi tamanhas diferenças nas naves
robotizadas.
— Cinqüenta
e sete minutos do arco — repetiu Deringhouse em tom pensativo. —
Isso ainda nos levará para dentro do sistema de Árcon, Merck. A que
planeta deveremos chegar com esse desvio?
Thora
também teve sua atenção despertada. Como ex-comandante de uma
grande nave de exploração, era uma especialista altamente
qualificada nessa área.
Merck fez
uma careta.
— O
sistema possui vinte e sete planetas. É difícil formular uma
previsão a esta hora. Na melhor hipótese, a mesma poderá ser
formulada dentro de meia hora.
Deringhouse
preferiu não assumir riscos. Thora estava a bordo, e essa
circunstância orientava seus atos.
A próxima
ordem foi dirigida à sala de rádio.
— Daqui
a pouco, lhes serão fornecidos os dados sobre o desvio de rota que
nos é imposto e nossa posição atual. Transmitam os mesmos sem
comentários à nossa estação retransmissora mais próxima.
As
estações retransmissoras eram naves espaciais terranas que
permaneciam em determinados pontos da Galáxia, segundo um plano
cuidadosamente elaborado, a fim de receber as mensagens dos agentes e
transmiti-las à estação seguinte, até que, depois de muitas
andanças, chegassem a Terrânia. Esse procedimento complicado, mas
seguro, evitava a revelação da posição do planeta Terra.
— Já
temos o desvio de rota na coordenada chi,
general. Um grau e dezoito segundos. Meu Deus, até parece que vamos
pousar em Mutral!
O cruzador
ligeiro Burma era um gigantesco conjunto mecânico comprimido numa
esfera, mas sua tripulação de cento e cinqüenta homens possuía um
excelente nível mental. Era formada de elementos altamente
qualificados. Mais de duas dezenas de homens, que faziam trabalhos de
pouca relevância, se contavam entre os cientistas mais competentes
de suas especialidades.
— Merck,
o senhor conhece seus colegas. Convoque-os. Preciso ter certeza.
Dirigindo-se
a Pasgin, perguntou:
— Quanto
tempo falta? — a pergunta referia-se ao tempo de vôo para Árcon
III.
— Se
mantivermos a velocidade atual de 0,89 luz levaremos de cinco a seis
horas.
Deringhouse
chamou a sala de rádio.
— Ouviu
a troca de mensagens?
— Sim,
senhor general — soou a resposta, proferida em tom militar.
— Suspenda
a mensagem destinada à estação retransmissora até que tenhamos em
mãos a interpretação completa dos dados. Quando isso acontecer,
transmita imediatamente.
De
repente, Deringhouse olhou para Thora, que se acomodara numa
poltrona. A sensação de segurança, que tentava aparentar,
desaparecera. As ordens do general deixaram-na preocupada,
principalmente as relativas ao desvio de rota em psi
e chi.
Ouviu-se o
ruído da escotilha que dava do convés para a sala de comando.
Pela
primeira vez desde o momento em que a Burma decolara da Terra, a
telepata Ishy Matsu entrou na sala de comando. Sem que Thora o
percebesse, Conrad Deringhouse transmitiu-lhe suas preocupações.
Seus pensamentos ficaram expostos diante dela como um livro aberto.
Ishy fez
um sinal com a mão. Deringhouse voltou a dirigir-se a Thora.
— Thora,
a senhora confiou demais em suas forças. Por favor, descanse um
pouco, até que... Bem, até que saibamos onde vamos pousar.
No último
instante, o general resolvera dizer a verdade, pois neste ponto não
se poderia enganar uma comandante arcônida.
Thora
agradeceu a franqueza com um sorriso feminil. Nem se espantou ao ver
Ishy Matsu parada a seu lado. Mas não permitiu que a mutante a
ajudasse a levantar-se.
Será que
sentia o olhar dos homens, enquanto se erguia da poltrona?
Qual era a
origem da vermelhidão doentia de seu rosto? Seria a excitação
mental ou o esforço físico?
Saiu da
sala de comando com a mão pousada de leve no braço da bela
japonesa. Assim que a escotilha se fechou atrás dela, Deringhouse
começou a praguejar. Tornou-se grosseiro.
— Senhores,
se mais uma vez quiserem permitir-se olhar Thora dessa maneira em
virtude de uma falsa compaixão, os senhores hão de se haver comigo.
Dona Thora sofre de uma doença incurável. Ela sabe, mas não faz
questão de que constantemente lhe lembrem isso por meio de olhares
curiosos. Será que me fiz de entendido?
Sentou à
frente da grande tela de visão global da Burma, que mostrava o
comboio dos cinco cruzadores pesados arcônidas, representados por
pontos nítidos que se distinguiam em meio ao cintilar do grupo
estelar.
— Localização!
— gritou o operador do rastreador estrutural.
— Eco de
rastreamento. Duas naves, provavelmente do tamanho da Titan,
aproximam-se do amarelo, desenvolvendo quase a velocidade da luz.
— Distância
de 1,43 minutos-luz. A sala de rádio chamou:
— Hiperfreqüência
do regente voltou à atividade. Troca de mensagens, distorcidas e
condensadas. Agora...
No mesmo
instante, a voz do oficial de rádio foi substituída pela do
computador-regente.
— ...à
força, para pousar em Mutral. Recorram a quaisquer meios para
impedir a decolagem.
A
transmissão da hiperfreqüência do cérebro positrônico chegou ao
fim. Graças aos interceptadores dos swoons, que eram minúsculos
aparelhos que num instante constatavam os impulsos de distorção e
suas variações, medindo o grau de condensação, tornara-se
possível ouvir uma mensagem do computador de Árcon.
Para os
homens que se encontravam na sala de comando, o aparecimento das duas
naves foi um acontecimento de segunda ordem. Todos os olhares estavam
fitos em Deringhouse, mas este mantinha-se tranqüilamente em sua
poltrona e observava a grande tela de visão global. Parecia não
conseguir fartar-se do espetáculo dos inúmeros sóis reluzentes.
Subitamente
estreitou os olhos.
Dois
pontos surgiram à sua frente. Dois outros pontos, que se encontravam
mais próximos, desviaram-se para a direita e a esquerda. Eram os
dois cruzadores pesados que formavam a retaguarda do comboio de
escoltamento. Cederam lugar aos dois gigantes, que se aproximavam
desenvolvendo quase a velocidade da luz.
— Estão-se
aproximando. A aproximação continua. A distância é inferior a
quatro mil quilômetros. Dois mil. Manobra de adaptação dos
supercouraçados. Estão desacelerando lentamente. Seiscentos
quilômetros. Trezentos...
De repente
ouviu-se a informação, proferida num tom que até parecia de
alívio:
— Manobra
de adaptação concluída. Encontram-se no amarelo, oitenta
quilômetros atrás de nós.
— É a
mesma coisa de sempre — Deringhouse não disse mais nada.
Relativamente
jovem, a tripulação da Burma ainda teria de familiarizar-se com a
situação. Havia mais de cinco mil estações de vigilância
espacial, o que tornava impossível a aproximação de qualquer nave
sem ser detectada. Além disso, em virtude do instinto de
autoconservação, o regente exigia que qualquer nave, que penetrasse
no sistema, se sujeitasse à escolta. Porém o fato de Deringhouse
não comentar a mensagem do regente, que acabara de ser interceptada,
não representava um ato de leviandade, mas apenas decorria da
circunstância de que no momento não poderia tomar qualquer
providência.
O
alto-falante emitiu um estalo. A sala de rádio anunciou que a
mensagem destinada à estação retransmissora Sigma 82 acabara de
ser expedida em forma distorcida e condensada.
Deringhouse
recostou-se confortavelmente na poltrona e disse:
— Pois
bem, senhores. Daqui a pouco conheceremos Mutral. Olhem que nunca me
senti muito bem em Plutão!
Não seria
possível falar mais claro.
Mutral, o
vigésimo sétimo planeta do sistema de Árcon, era um mundo de gelo,
semelhante a Plutão. Desde os primeiros tempos da astronáutica
arcônida, o planeta servira de fortaleza espacial, que nos seus 15
mil anos de existência rechaçara, no limiar do sistema, muitos
ataques vindos do espaço galático.
Aquilo que
os arcônidas, outrora tão arrojados, haviam construído, parecia
destinado a manter-se para toda a eternidade.
Graças ao
processo de ensinamento hipnótico a que fora submetido, o General
Conrad Deringhouse não teve necessidade de solicitar dados sobre o
mundo de Mutral. Não teve a menor dúvida de que era lá que a Burma
deveria pousar. Só se preocupava em saber por que motivo o
computador-regente se declarara disposto a negociar, e por que
escolhera Mutral como local de negociações.
O robô
comandante de um dos cinco cruzadores pesados voltou a chamar. E,
mais uma vez, não pediu, mas exigiu.
Deringhouse
deixou que Joe Pasgin decidisse. A reação do imediato da Burma foi
a mesma que o general adotara pouco antes, ao recusar a exigência.
— Forneça
os dados. Não costumamos entregar nossas naves a robôs. Quantas
vezes teremos que repetir isto?
A última
pergunta de Pasgin foi formulada em vão. O comandante-robô
desalmado respondeu laconicamente:
— Dados
seguem.
O
computador da Burma realizou a conversão instantânea dos dados para
os padrões terranos.
Seguindo a
ordem recebida, o cruzador ligeiro mudou de rota. De repente, o
planeta Mutral surgiu na tela.
Ficava tão
distante do sol de Árcon que sua luz não poderia acalentar qualquer
forma de vida. Por isso, não passava de um mundo de gelo
extremamente acidentado. Até mesmo as cordilheiras, de mais de oito
mil metros de altura, ficavam cobertas pela blindagem de gelo. Aquele
mundo cinzento, quase negro, que refletia debilmente a luz dos sóis
de M-13, parecia uma terrível ameaça que os aguardava no espaço.
— Isso
está começando bem! — disse Joe Pasgin, que mais uma vez
observava, admirado, a bela manobra que Hendrik Olavson fazia para
pousar a Burma naquele inferno de gelo.
Os dados
eram fornecidos ininterruptamente pelo rádio. Finalmente a nave foi
atingida pelo raio de tração de Mutral. Em virtude dele, a manobra
de pouso seria uma verdadeira brincadeira.
Os
neutralizadores de pressão do cruzador ligeiro começaram a rugir. A
nave desacelerou. Nem uma única vez, o grau de desaceleração
ultrapassou o máximo admissível nas naves arcônidas. Em virtude de
sua desaceleração, aparentemente pouco satisfatória, parecia
querer colidir com os campos defensivos dos cruzadores de Árcon.
Com um
sorriso no rosto, Deringhouse pediu ao jovem Olavson que não levasse
as coisas longe demais.
Seria seu
último sorriso durante este vôo ao sistema de Árcon...
A Burma
atingiu o corredor de entrada do planeta. Quatro mil metros abaixo
deles rodava Mutral, o mundo de gelo transformado numa fortaleza
espacial. Os cruzadores pesados afastaram-se, mas a nave terrana foi
seguida de perto pelos gigantes espaciais.
Certa vez,
Deringhouse ligara a ampliação máxima e examinara com um interesse
profissional os anteparos abertos dos canhões de impulsos e
desintegradores das naves arcônidas. Os veículos de escolta estavam
preparados para o combate.
Sabia
perfeitamente que Mutral achava-se em estado de rigorosa prontidão.
Os mecanismos de mira automática da fortaleza estacionaria
acompanhavam todas as mudanças de rota da Burma.
Mas os
pensamentos do general até pareciam estar sendo trabalhados por um
distorçor. Voltavam constantemente a ocupar-se da mensagem mutilada
expedida pelo agente de Aralon. Por mais que se esforçasse, não
conseguia libertar-se desses pensamentos. Os quatro fragmentos de
palavras não queriam sair-lhe da cabeça.
Hendrik
Olavson deixou que a nave caísse até dez mil metros acima da
superfície do planeta. Depois ativou os campos antigravitacionais,
que deixaram que o cruzador ligeiro descesse mais oito mil metros,
até que seu movimento pendular se compensasse, restabelecendo o
equilíbrio de forças.
Um forte
rugido atravessou a nave no momento em que as colunas telescópicas
de apoio foram escamoteadas. A nave terrana foi descendo lentamente.
O pouso continuava a ser dirigido pelo raio de tração. Dessa forma,
o lugar em que entrariam em contato com o solo estava exatamente
determinado.
As duas
naves de “escolta”
da classe Império seguiram-nos como se fossem uma sombra dupla.
Subitamente
iluminaram-se alguns holofotes de potência incrível. O quadrado de
dez quilômetros, mergulhado na ofuscante luz artificial, constituía
prova do caráter inóspito do planeta.
A luz
também permitiu aos tripulantes da Burma perceberem que os numerosos
pontos negros, em meio ao gelo reluzente, não eram impurezas, mas
representavam os anteparos abertos de algumas centenas de posições
de artilharia.
O cruzador
ligeiro da Frota Terrana acabara de pousar no setor central da
fortaleza de Mutral.
O lugar
escolhido pelo computador-regente não poderia ser mais seguro.
— Os
campos defensivos permanecerão ativados! — ordenou Deringhouse.
Nas dez
horas seguintes, a situação não se modificou. As mensagens
dirigidas ao cérebro positrônico ficaram sem resposta. O computador
não tinha pressa. Mas a paciência de Deringhouse tinha limites. E
com a décima hora de espera esse limite esgotou-se.
Enquanto
Thora continuava em seu camarote sob os efeitos de um tranqüilizante,
sem desconfiar de nada, o General Conrad Deringhouse entrou na sala
de rádio.
Sentou à
frente da tela do potente aparelho de hipercomunicação. Virou-se
ligeiramente para os lados e ordenou:
— Ligue
para a hiperfreqüência do cérebro positrônico. Vou chamar o
regente e... — não chegou a completar a frase, mas seus gestos
diziam mais que um livro.
A ligação
com Árcon III foi completada, porém o cérebro não mostrou
qualquer reação. As linhas coloridas confusas, que indicariam a
existência de um contato pelo rádio, deixaram de aparecer na tela.
Mas os agentes de Rhodan haviam descoberto, numa série de missões
extremamente perigosas do Serviço de Defesa Solar, que qualquer
chamado atingiria automaticamente o computador-regente, desde que
realizado em sua faixa de freqüência.
— Regente
— disse Deringhouse para dentro do microfone. — Fui obrigado a
pousar em Mutral. Antes disso tomei a liberdade de informar Perry
Rhodan a este respeito. Acho que seria sumamente desvantajoso para o
resultado das nossas negociações se...
— Aguarde!
Mesmo o
general, uma velha raposa do espaço, não pôde deixar de sentir-se
perplexo diante da resposta inesperada do cérebro positrônico. Mas
nem por isso perdeu a presença de espírito.
— Não
esperarei outras dez horas — disse com o mesmo laconismo.
Não houve
resposta.
A um sinal
de Deringhouse, o oficial de rádio desligou o hipercomunicador.
Ao entrar
na sala de comando, o general encontrou reunida toda a equipe de
comando. Desde o pouso, realizado há dez horas, a Burma se
encontrava em estado de prontidão.
Os
conjuntos propulsores corriam em ponto morto. Isso consumia energias,
mas de outro lado reforçava a consciência de que se poderia decolar
a qualquer momento. Bastaria aumentar o desempenho dos imensos
mecanismos instalados na protuberância equatorial da nave de cem
metros de diâmetro, para que a Burma subisse ao espaço quase como
um raio. Era nisso que residia a força oculta da pequena nave.
Os
tripulantes sabiam que Árcon não dispunha de qualquer veículo
espacial desse tipo. O fato de que algumas centenas de peças de
artilharia se mantinham apontadas para a nave terrana não lhes
causava maiores dores de cabeça. A bordo, encontravam-se algumas
centenas de dispositivos pequenos, mas de grande eficácia, que
seriam capazes de perturbar o funcionamento dos sensíveis
dispositivos de mira dos canhões térmicos, de impulsos e de
desintegração de Árcon.
— Uma
ligação para o senhor, general — anunciou o oficial de rádio e
transmitiu a ligação para a sala de comando.
A imagem
na tela estabilizou-se. Deringhouse viu um arcônida, que o fitava
numa atitude arrogante.
— Sou
Taa-rell, comandante-chefe de Mutral, terrano! — disse num arcônida
impecável. — Aguardo sua visita. Peço-lhe que venha
imediatamente, antes que comece a assistir ao próximo jogo
simultâneo.
Conrad
Deringhouse foi a calma em pessoa. Conhecia esse tipo de arcônida,
que nada tinha em comum com seus arrojados antepassados. Os novos
arcônidas padeciam de uma perigosa instabilidade biológica e, face
à decadência moral e psicológica, cediam inteiramente à
indolência e ao cansaço, fugindo de qualquer tipo de iniciativa ou
responsabilidade. Além disso, viam em todas as criaturas de outras
raças, seres de categoria inferior.
O rosto
balofo do arcônida, em cuja boca brincava um sorriso de escárnio,
manteve-se imóvel na tela da Burma. Deringhouse fitou-o
demoradamente.
O arcônida
não gostou. Abandonando a indiferença característica de sua raça,
disse em tom indignado:
— Terrano,
será que preciso repetir quem eu sou?
O general
manteve-se imóvel à frente da objetiva.
— Ora,
arcônida — respondeu Deringhouse num tom que quase chegava a ser
de compaixão. — O que significa ser comandante de uma bola de
gelo? Eu sou um general da Frota Terrana, e meu chefe é Perry
Rhodan!
Por um
instante teve-se a impressão de que o arcônida queria despertar de
sua indolência, mas apenas disse em tom de desprezo:
— Rhodan...
quem é esse Rhodan?
Deringhouse
não teve necessidade de responder.
O rosto
balofo do arcônida desapareceu da tela, para ceder lugar a um robô.
— Sou
GD-78-P-456 23, senhor! — disse o homem-máquina, a título de
apresentação. — Como comandante das unidades robotizadas
estacionadas em Mutral, devo preveni-lo para que não tente decolar.
O Grande Coordenador ordenou que os senhores não deverão sair do
planeta de Mutral. De nossa parte, está tudo preparado para impedir
sua decolagem, se necessário, até pela violência.

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