quinta-feira, 18 de agosto de 2016

P-078 - O Sacrifício de Thora - Kurt Brand [parte 2]

No mesmo instante, ouviu-se o estalo do videofone. Antes que a imagem se estabilizasse na tela, uma voz começou a trovejar:
Freyt, Deringhouse ainda está aí?
Sim senhor.
Peça-lhe que me espere. Não demorarei. Desligo.
Freyt virou-se para o lado e num instante entrou em contato com o setor de vigilância espacial.
Aqui fala Freyt. Os senhores sabem de que planeta veio Mr. Bell?
De Fera Cinzenta, marechal.
Obrigado.
Hum.
Foi este o único comentário de Deringhouse. Depois puseram-se a esperar. Já estavam acostumados. Afinal, eram militares.
Reginald Bell penetrou no gabinete do Marechal Freyt, usando a mesma impetuosidade com que pousara o cruzador ligeiro.
Foi o chefe quem me mandou.
Acomodou-se na poltrona.
O senhor se dirigirá às imediações da área de superposição, Deringhouse. O computador-regente voltou a chamar. Insiste em que Perry Rhodan entre, de lá, em contato com ele. Logo, antes de iniciar o salto em direção a Árcon, chame o regente pelo hiper-rádio. Já conhece o código. Face a isso, o grande cérebro não poderá deixar de admiti-lo como plenipotenciário de Rhodan. Mas não foi por causa destas bagatelas que realizei este salto forçado para a Terra.
Deringhouse, o computador-regente de Árcon nunca inspirou muita confiança. Nem mesmo Rhodan desconfia da “estima toda especial” que nutre por ele; acho que Atlan também não sabe. Nestas últimas vinte e quatro horas, este monstro calculista efetuou várias mudanças repentinas em seu comportamento.
A grande estação de Fera Cinzenta conseguiu interceptar pouco mais de cem mensagens do cérebro positrônico. Graças ao Serviço de Defesa Solar, tornou-se possível decifrá-las. Alguma coisa deve estar quebrada na gigantesca máquina, ou então esta se vê no maior dos apertos. Não existe outra explicação para sua conduta. São ordens, revogações de ordens, a restauração das ordens revogadas, e assim por diante. Quase chego a ter pena dos robôs arcônidas pela tremenda confusão que o cérebro vem criando há várias horas. Evidentemente os druufs notaram que há algo de errado na frente de bloqueio e apareceram com uma gigantesca frota espacial. Por isso, é de recear que, dentro de algumas horas, os druufs consigam romper as linhas e destruir a frente de trás. Bem, senhores, isto é uma coisa; vamos a outro ponto.
Até que a situação na frente se estabilize um pouco, o tráfego entre Fera Cinzenta e o sistema solar deve ficar suspenso. Qualquer mensagem de rádio só poderá ser expedida com autorização escrita do senhor, marechal. Provavelmente, essa suspensão será por uma questão de horas.
Deringhouse, o senhor deve estar preparado. É bem possível que o cérebro positrônico aceite sua oferta, apenas para rejeitá-la no momento seguinte. O senhor é responsável pelo estado de saúde de dona Thora. Não a exponha demais, mas não a deixe perceber que o senhor a protege.
Não o invejo nem um pouco, general. Mas vamos ao motivo que me trouxe à Terra, Deringhouse. Em Fera Cinzenta captamos a mensagem de um agente. Infelizmente saiu mutilada. Veio de Aralon.”
Surpresos, Deringhouse e Freyt exclamaram a uma voz:
De Aralon?
Aralon era o mundo central dos aras, os médicos galácticos. Esse povo de descendência arcônida era, em relação ao número, o mais poderoso do Grande Império e o único que produzia medicamentos.
Todo um povo transformara sua disposição natural, para a descoberta dos enigmas ligados às doenças, num negócio bastante lucrativo; durante milênios vendeu seus medicamentos a todos os mundos conhecidos da Galáxia em troca de moeda sonante. Não se podia condenar seu ponto-de-vista, embora este não se harmonizasse com a ética dos médicos terranos. A fim de não expor seu negócio a qualquer risco, os aras chegaram mesmo a tomar todas as providências para que as epidemias e as infecções generalizadas nunca terminassem.
Por várias vezes Perry Rhodan usara mão de ferro para conter nos devidos limites a esperteza excessiva dos médicos galácticos, que nem em mil anos se esqueceriam das lições que então haviam recebido. Apesar disso, porém, a desconfiança dos homens face aos aras continuou latente e inextinguível.
Aralon! — repetiu Bell em tom zangado, sem procurar dissimular o que sentia por esse mundo. — A mensagem representa um problema, por estar mutilada. É possível que em Fera Cinzenta já estejamos vendo fantasmas, mas Perry Rhodan... bem, vocês conhecem o chefe! Ele está convencido de que essa mensagem expedida pelo agente de Aralon tem alguma relação com nossa visita a Árcon. Vejam a mensagem.
Esta era formada por quatro palavras, mas só uma delas estava completa.

...chiru... coman... encef... Árcon...

Subitamente Deringhouse sentiu calor.
Sir — disse em tom exaltado. — Nestes últimos dias recebi algumas aulas de medicina. E encef... é a “palavra” científica para cérebro.
Fez um movimento súbito com o ombro, como se quisesse sacudir-se.
Não sei dizer por que tenho tanta certeza de que esta mensagem vai ter alguma relação com o vôo da Burma. Tenho a impressão de que a gigantesca máquina positrônica está tramando uma baixeza.
Deve tratar-se de lavagem cerebral ou coisa que o valha. Prossigo no meu raciocínio.
O cérebro positrônico exige que nos dirijamos à frente de bloqueio e de lá nos anunciemos previamente. Ainda não sabe que irei no lugar de Perry Rhodan. Isso elimina o perigo de sermos destruídos, ao sairmos do hiperespaço, mas em nada reduz o perigo de sermos atingidos. Mais tarde não será difícil explicar a destruição de uma nave terrana por meio de uma seqüência de coincidências infelizes. Até lá nossa tripulação estará morta, enquanto as pessoas mais importantes que se acham a bordo se encontrarão sãs e salvas, a caminho de Árcon, onde serão submetidas à lavagem cerebral.
E Thora está a bordo!”
Com esta frase Deringhouse concluiu seu raciocínio.
Fitava alternadamente Reginald Bell e Freyt.
O senhor sabe ler pensamentos, Deringhouse? — perguntou Bell.
Não; por quê? — respondeu o general em tom de surpresa.
Porque Perry Rhodan chegou à mesma conclusão ao ler a mensagem mutilada.
E o vôo para Árcon com Thora a bordo continua de pé?
Rhodan confia no senhor, general.
Obrigado! — respondeu Deringhouse.
Mas o olhar que lançou para Bell dizia muito mais.
Pois é, general — disse Bell, levantando-se e caminhando pela sala. — Hoje de manhã queimei a língua com Perry Rhodan. Sei perfeitamente o que significa esse olhar. Fiz a mesma ponderação a Rhodan. Sabe o que ele me respondeu?
Respondeu o seguinte: “Deringhouse e a Burma não enfrentarão o menor perigo, nem exporão Thora a qualquer risco. Não consigo ser egoísta a ponto de explicar a minha esposa de que sua tarefa foi cancelada porque envolve certos riscos.
‘“Não quero recriminar-me pelo resto da vida por tê-la tirado impiedosamente de uma condição eufórica, deixando-a num estado de profunda letargia. Se não dispusesse de um homem como Deringhouse, não teria outra alternativa. Acontece que tenho este homem, e por isso estou disposto a não retardar a decolagem da Burma.’”
E agora, General Deringhouse? — falou Bell, lançando-lhe um olhar indagador.
O general também se levantou.
Quando estamos informados sobre o perigo que nos espera, isso perde a maior parte de sua periculosidade, Sir. Tomara que este postulado, que já se tornou proverbial, também tenha aplicação no presente caso. Pois bem! A Burma decolará daqui a pouco.
Boa sorte! — desejou Reginald Bell, aparentemente deprimido.
Tudo de bom, Deringhouse! — gritou Freyt.
Os dois homens viram-se a sós. E então aconteceu uma coisa que não ocorrera há anos. Bell e Freyt foram à janela e assistiram à decolagem da Burma, que mergulhou no céu azul com uma aceleração extraordinária.
Faites votres jeux — disse Bell. As palavras seguintes representavam uma mostra do que se passava em seu interior: — Por que não fui à Burma para apertar mais uma vez a mão de Thora? Sou um covarde...
Preferiram não olhar um para o outro. Só agora tiveram plena consciência do que representava Thora para os habitantes do planeta Terra. Justamente agora, que não havia a menor esperança de revê-la.
Antes que compreendesse o que estava dizendo, Freyt perguntou a Reginald Bell:
O rapaz já foi informado, Sir?
Reginald Bell virou-se apressadamente.
Seus olhos chamejavam de cólera. Cerrou o punho.
Quer saber por que não foi, Freyt? Pois eu lhe digo. Porque esse garoto ainda se recusa a ouvir o pai. Em todo o Império Solar só existe um sujeito obstinado que tem a audácia de dizer a Rhodan: “Vá para o inferno, não quero vê-lo nunca mais.” E esta pessoa é justamente seu próprio filho. Mais alguma pergunta, marechal? — indagou em tom áspero.
Não senhor! — disse Freyt e esteve a ponto de fazer continência.
Ora! Deixe isso para lá, Freyt! Meus nervos se descontrolam toda vez que me lembro do que esse Tenente Thomas Cardif se atreveu a dizer-me. E o que não deve ter jogado no rosto do pai? Bem, vamos mudar de assunto. Preciso voltar para Fera Cinzenta. Até a próxima, Freyt.
Até outra vez, Sir — disse o marechal, e logo se viu só.
5



Joe Pasgin, imediato da nave Burma, já começava a preocupar-se com a demora de Deringhouse, quando o general entrou na sala de comando do cruzador ligeiro e parou em atitude pensativa à frente da grande tela de imagem, que estava desligada.
Faça o favor de pilotar a nave, Pasgin — disse sem virar-se. — E é bom que saiba logo da novidade. O primeiro destino da Burma será a frente de bloqueio das naves arcônidas junto à área de superposição.
Joe Pasgin estava prestes a pôr a mão na chave sincronizada. Parou em meio ao movimento e manteve-se imóvel por algum tempo. As outras pessoas que se encontravam na sala de comando também interromperam o que estavam fazendo. Todos lançavam olhares indagadores, perplexos e espantados para o general.
Conrad Deringhouse estava de costas para os homens. Nem mesmo os olhares que acreditava sentir pousados em suas costas, poderiam fazer com que se voltasse.
Pasgin, quem é o oficial de armas?
Big Alden, general. Veio da Titan, onde teve a seu cargo as duas peças de artilharia do pólo.
Já é uma pequena vantagem para todos nós. Aliás, a tripulação está completa?
Está.
Pois vamos embora, Pasgin. Poderei ser encontrado no meu camarote.
Virou-se e cumprimentou cada um dos homens com um gesto. Um sorriso ligeiro brincava em torno de seus lábios. E esse sorriso fez bem aos que ali se encontravam.
Assim que retirou-se, a conversa começou a animar-se no interior da sala de comando.
Vai ser uma viagem e tanta...
Tomara que Big Alden seja o número um da Bruma... com este armamento fraco... e olhem que não gosto de entrar num traje espacial...
Acontece que dona Thora está a bordo — ponderou outra pessoa. — Não é possível que... Céus, estrelas e bólidos, nem me lembrava da frente de bloqueio!
Joe Pasgin fitou todos os homens. Também estava preocupado. A volta que teriam de fazer para passar pela frente de bloqueio antes de chegarem a Árcon não fazia prever nada de bom. O general dera a perceber que, durante essa missão, teriam de contar com todas as eventualidades.
Mas a ordem de decolar que Deringhouse acabara de transmitir removeu todas as preocupações. Teriam de agir.
Decolagem dentro de cinco minutos! — soou o comando de Pasgin.
Hendrik Olavson ocupava a poltrona do co-piloto. Era um elemento recém-saído da Academia Espacial, logo promovido ao posto de co-piloto. Pasgin já realizara três vôos espaciais a seu lado, e sempre mantivera o jovem tenente sob rigorosa observação. Depois da primeira viagem concluiu que a poltrona de co-piloto não era o lugar certo para Olavson...
Seu lugar era a poltrona de comando de uma nave da classe Império. Hendrik Olavson e a nave espacial não eram duas coisas, o homem e a técnica. Olavson e a nave formavam uma unidade.
Hendrik Olavson possuía um talento natural para tudo que se relacionasse com a pilotagem de uma nave. Se essa tarefa exigia uma boa dose de concentração de qualquer outra pessoa, ele a executava como se estivesse brincando.
Encarregue-se da decolagem, Olavson — disse Joe Pasgin em tom indiferente. Com um ligeiro sorriso, acrescentou: — Deixe Terrânia de pé.
Hendrik Olavson aceitou de bom grado a brincadeira do imediato. Compreendeu a alusão de Pasgin. A Burma era uma nave de cem metros de diâmetro e cento e cinqüenta tripulantes. Sua capacidade de aceleração era tremenda. Gastava apenas cinco minutos para atingir a velocidade da luz. Era claro que diante dos conjuntos propulsores superpotentes da nave, que ficavam entre os dos cruzadores pesados e os dos veículos espaciais da classe Solar, todos os outros equipamentos, que já eram considerados corriqueiros, tiveram de ser sacrificados, inclusive na parte do armamento.
As naves da classe Estado não eram unidades ofensivas. Eram naves de reconhecimento de longo curso. Graças ao armamento pouco poderoso, só poderiam realizar ataques fulminantes e destrutivos, desferindo seus golpes de surpresa, já que sua aceleração inacreditável lhes permitia desaparecer com extrema rapidez.
O novo neutralizador de vibrações não permitia que as transições fossem detectadas por meio do novo goniômetro de compensação dos arcônidas. Possuíam uma verdadeira arma secreta, de natureza defensiva, que era o transmissor fictício de matéria. Mas este só podia ser utilizado caso existisse outra estação. Além disso, seu alcance era bastante limitado.
As enormes máquinas da Burma começaram a uivar. Os motores, já aquecidos, foram regulados para a aceleração máxima. Olavson tirou a mão da chave mestra.
Seu trabalho estava concluído. O resto seria feito pelo dispositivo automático, mas as respectivas instruções lhe haviam sido transmitidas pelo piloto. A partir daquele momento, em que a nave se erguia ruidosamente, cada processo era a continuação harmoniosa do anterior.
A potência dos neutralizadores de pressão foi aumentada automaticamente, a fim de compensar o aumento vertiginoso da gravitação. Apesar da aceleração tresloucada, que para essa nave era apenas normal, a gravidade no interior da Burma permaneceu constante. Mas a cortina de som tornou evidente a todos que a Burma não era outra coisa senão um gigantesco parque de máquinas comprimido no interior de uma esfera que, mal e mal, oferecia lugar para que a tripulação de cento e cinqüenta homens pudesse viver e respirar.
No camarote de Deringhouse e nos demais foi dado o aviso:
Transição dentro de três minutos.
O general saiu correndo. Estava preocupado com Thora.
Tinha de apressar-se para não ser surpreendido pelo salto a meio caminho, pois o camarote de dona Thora ficava do lado oposto da nave, e dois conveses abaixo do seu.
Quando se viu à frente de sua porta, faltavam trinta e cinco segundos para o momento do salto.
Anunciou sua presença, mas em vez de Thora, o rosto de Ishy Matsu surgiu na pequena tela.
General? Faça o favor — disse a mutante designada por Rhodan para fazer companhia permanente a sua esposa.
Deringhouse entrou apressadamente. Estacou na porta.
Deringhouse, sente-se logo — exclamou Thora em tom exaltado.
Sob a luz suave reinante no camarote seu lindo cabelo voltara a brilhar como naqueles tempos em que era considerada a bela esposa de Rhodan.
Apontou para a poltrona. Assim que o general tomou lugar, seguiu-se o choque da transição.
A Burma saiu do hiperespaço. Deringhouse contorceu-se ligeiramente sob os efeitos da dor da rematerialização, mas Thora não demonstrou qualquer tipo de reação. Parecia que nem sentira o hipersalto.
A telepata pequena e graciosa mantinha-se nos fundos do camarote. Deringhouse não dissimulou o espanto que lhe causava o ótimo aspecto de Thora. Parecia irradiar saúde. Até dava a impressão de estar passando por um processo regressivo de rejuvenescimento. O general gostaria de acreditar nisso, mas lembrou-se da advertência do Dr. Villnoess:
“— Quanto mais saudável for o aspecto de dona Thora, mais doente estará. Isso não passará de um último esforço do organismo, que reúne todas as reservas de energia, como uma espécie de bruxulear da chama da vida. De qualquer maneira, não podemos dizer como e de que forma surgirá a morte.”
Deringhouse esteve a ponto de iniciar um diálogo, mas o sistema de intercomunicação cortou-lhe a palavra.
No momento em que soaram as primeiras palavras saídas do alto-falante, a imagem da tela assumia contornos estáveis.
O chefe deseja falar com a senhora, dona Thora! — disse o oficial de plantão no setor de rádio.
Deringhouse ficou surpreso.
Rhodan quer falar com a esposa?”, pensou Deringhouse surpreso.
Lembrou-se das inúmeras possibilidades de detectar a presença de uma hipermensagem, que poderia inutilizar, de um instante para outro, todo o dispositivo da camuflagem que envolvia o planeta Fera Cinzenta; ou então, o regente de Árcon já estava sabendo que, quem estava a caminho, era Thora de Zoltral, e não Perry Rhodan.
Subitamente a imagem da tela parou de tremer.
O rosto marcante de Rhodan surgiu nítido.
A teleobjetiva embutida no próprio quadro da tela transmitia-lhe a imagem da esposa.
Antes que o general pudesse vencer a surpresa causada pelo riso descontraído, leve, quase juvenil do chefe, ouviu o administrador do Império Solar dizer à esposa:
É uma pena, Thora, que não possamos fazer a viagem juntos. Até breve, Thora!
Perry! — exclamou Thora, mas Perry Rhodan já não podia ouvi-la.
A transmissão de hiper-rádio vinda das profundezas do espaço chegara ao fim. A tela voltou a adquirir o tom cinzento, e a pequena luz de controle existente sob a objetiva apagou-se.
Apesar de todas as dúvidas e indagações, o General Deringhouse riu e olhou para Thora. Conseguiu dar uma expressão matreira à sua risada. Reprimiu a perplexidade que sentia, e nem deixou que o espanto e as indagações angustiosas de Thora viessem à tona.
Dona Thora, o erro foi meu — disse, fazendo-se voluntariamente de bode expiatório. — Demorei demais em fornecer-lhe as informações mais recentes sobre nosso vôo. Permita que repare a falha, e a senhora logo compreenderá o motivo da surpresa que seu marido acaba de fazer-lhe.
Informou-a na medida que julgava adequada, recorrendo a três quartas partes de verdade e um quarto de mentiras, nascidas da compaixão. Não mencionou a mensagem mutilada do agente que trabalhava no planeta Aralon, e também deixou de mencionar o vôo-relâmpago de Bell à Terra. Encontrou outros detalhes e colocou Perry Rhodan discretamente no primeiro plano, motivo por que, por mais desconfiada que fosse, Thora não haveria de duvidar de seu relato.
Face a isso, o chefe pensou em incumbir outra pessoa da execução dessa tarefa, dona Thora, mas logo viu que sua viagem a Árcon não envolve maiores riscos, salvo a aproximação da frente de bloqueio. Depois combinamos que ele lhe enviaria um ligeiro cumprimento assim que a situação junto à área de superposição estivesse consolidada. Sinto muito, dona Thora, mas sou um péssimo regente...
Ao dizer estas palavras esboçou um sorriso, enquanto fazia votos de que o mesmo não fracassasse e pudesse parecer razoavelmente genuíno.
Subitamente seu olhar resvalou para o lado. Viu a telepata Ishy Matsu de pé, atrás de Thora.
O rosto da jovem japonesa parecia transformado numa máscara. Lera os pensamentos do general e compreendera que a Burma voava em direção a uma aventura extremamente perigosa.
Deringhouse... — Thora segurou a mão do general entre as suas, e seus olhos de arcônida brilharam num assomo de alegria e felicidade. — Sei perfeitamente que estou muito doente, mas há anos não me sinto tão bem disposta como agora... e isso apenas porque houve algo de errado numa regência... Até breve! Estas simples palavras transformaram uma mulher velha como eu numa jovem. Já faz muito tempo que não vejo este riso alegre de menino em Perry. Peço-lhe o favor de me deixar só por algum tempo.
Ishy Matsu e o general saíram. Uma vez no corredor, Deringhouse falou sem papas na língua.
Ishy, a senhora leu? — perguntou, dirigindo-se à telepata.
Li, sim, general; contrariei as ordens...
Deixe para lá. Quer dizer que já sabe o que nos espera. Sabe que não fazia a menor idéia de que o chefe iria enviar este cumprimento. Em hipótese alguma, dona Thora deve desconfiar de que menti. Tome todas as providências para que isso não aconteça, Ishy, e entre em contato com os três médicos de bordo, a fim de que estes usem qualquer pretexto e se apresentem a dona Thora para realizar um exame de rotina.
Sentiu o chão arder sob os pés. Sem aguardar resposta, foi apressadamente em direção ao elevador antigravitacional que o conduziu ao pavimento onde ficava a sala de comando.
No momento em que entrou na sala de rádio da Burma, o oficial de plantão esteve a ponto de fazer continência. Mas Deringhouse não deu muita importância à saudação.
Como foi que a mensagem chegou aqui? — perguntou em tom insistente.
Pelo distorçor dos swoons, general, com quarenta e cinco mil impulsos por segundo. Além disso, foi condensada num — virou-se e leu a cifra num instrumento — num microssegundo.
Deringhouse não se deixou impressionar pelos algarismos.
De onde veio?
De um cruzador ligeiro, general. Se nossa medição goniométrica for correta, este deve ficar a cerca de oitocentos anos-luz de Fera Cinzenta, tomando como referência a situação em que estamos, distância medida pela coordenada phi, que...
Dirigiu-se à sala de comando. Antes de atravessar a pesada escotilha, parou e pensou:
Será que, ao enviar o cumprimento a Thora, Rhodan forçara as coisas, confiando demais no organismo da esposa, que teve de liberar energias para absorver a alegre surpresa?
Apertou o passo, pois teria de mandar suspender os preparativos do terceiro salto.
Joe Pasgin, imediato da Burma, lançou-lhe um olhar indagador.
Não devemos esquecer-nos de que dona Thora está a bordo, senhores! — estas palavras foram dirigidas a todos os oficiais que se encontravam na sala de comando. — Daqui a uma hora os médicos apresentarão o resultado de seu exame e informarão quantas transições dona Thora ainda poderá agüentar.
Pediu ao imediato que se aproximasse do grande mapa astronáutico.
Nossa posição é mais ou menos esta, Pasgin. Ali fica a zona de descarga, e o anel de bloqueio das naves de Árcon atinge esta profundidade. Se os médicos nos impuserem a restrição de, na medida do possível, evitarmos as transições, desligaremos o neutralizador de vibrações e nos dirigiremos à zona de superposição em três saltos. Providencie para que no último não percorramos mais de três anos-luz, pois não tenho o menor interesse em levar a Burma para dentro de uma formação arcônida.
Está bem. Mas as naves de Árcon não foram informadas sobre nossa chegada? — perguntou Pasgin em tom de espanto. Ao que parecia, estava preocupado.
Espero que sim, mas não nos devemos esquecer das ordens contraditórias que o computador-regente transmitiu nestas últimas horas.
A sala de rádio chamou em meio à palestra.
Recebemos uma mensagem da estação retransmissora Omega 17.
De início ouviu-se o ruído típico do condensador e do distorçor. Logo seguiu-se uma voz sonora que disse apressadamente:
O computador positrônico acaba de concluir a interpretação das ordens do regente, esclarecidas pelas observações feitas por nós:
Reagrupamento total das formações das unidades de Árcon. Ampliar a profundidade do front de 0,7 anos-luz para três anos-luz. Neste momento, Árcon está enviando enormes reforços. Naves dos druufs procuram romper nossas linhas nos setores pantera 76 e 73 A. Em hipótese alguma aproximem-se desses setores. Nos demais setores reina a calma. Porém em todos os lugares os ataques dos druufs devem ser aguardados de um momento para outro.”
Ouviu-se um forte estalido. Essa importante notícia fora recebida por meio de hipermensagem expedida por uma nave esférica do Império Solar que se encontrava bem longe de Fera Cinzenta. Com isso, a situação foi esclarecida. Deringhouse compreendeu que o computador-regente de Árcon continuava a agir com a lógica fria de sempre, motivo por que ainda era o aliado mais perigoso que alguém poderia ter.
Aquilo que Reginald Bell e os outros homens do Império Solar, que se mantinham como observadores em Fera Cinzenta, ao lado de Perry Rhodan, acreditavam ser uma série de ordens contraditórias, na realidade constituía um conjunto de lances geniais concebidos pelo cérebro positrônico, cujo pensamento se baseava exclusivamente na lógica.
Finalmente receberam o pronunciamento dos médicos de bordo. Estes não possuíam o enorme saber especializado do Dr. Villnoess, chefe da Divisão de Hematologia da Clínica Terrana de Vênus. No entanto, foram concordes em concluir que a moléstia de dona Thora chegara a um estágio perigoso, e que se deveria contar com o pior.
Foram de opinião que os efeitos da transição seriam de importância secundária.
Realizaremos apenas três saltos até o front! — ordenou Deringhouse.
Apesar do pronunciamento e das recomendações dos médicos, preferiu não assumir qualquer risco.
Tomara que não cheguemos lá com uma defunta a bordo — disse Joe Pasgin, dando a entender que a tarefa, que lhe fora atribuída, não lhe agradava nem um pouco.
Os dados relativos ao salto foram introduzidos no computador da Burma. As mãos delgadas de Hendrik Olavson bateram nas teclas, realizando a programação. Os controles múltiplos impediam qualquer possibilidade de erro humano.
A atividade de Olavson não pôs em funcionamento qualquer mecanismo automático de travamento.
A contagem regressiva do cérebro positrônico começou a funcionar. O sistema de intercomunicação transmitiu a informação de que o próximo salto estava iminente. Na sala de comando, o silêncio era quase completo, interrompido apenas por ligeiras informações.
Deringhouse voltou a certificar-se:
O neutralizador de vibrações foi desligado?
Foi, general.
Sem saber, Deringhouse exibiu um sorriso astucioso.
O neutralizador de vibrações, um aparelho criado pelos swoons ou homens-pepino, representava um obstáculo intransponível aos esforços intensos realizados pelo regente, que pretendia descobrir a posição galáctica da Terra. O goniômetro de compensação — construído às escondidas e à custa de esforços gigantescos da imensa indústria arcônida, e que era capaz de, apesar do compensador estrutural, medir os abalos na estrutura espaço-temporal, provocados pelas transições — seria considerado obsoleto se o Grande Império tivesse conhecimento da última inovação da frota terrana.
Não se desejava que o computador-regente, sempre desconfiado graças à sua programação, soubesse que o goniômetro de compensação não levaria à descoberta da Terra. Por isso, as naves terranas deixavam que as estações goniométricas de Árcon as localizasse ao saírem do hiper-espaço, mas isso apenas quando se encontravam a uma boa distância da Terra.
A Burma realizou dois saltos gigantescos em direção à frente de bloqueio, saltos estes que abalaram a estrutura do Universo. A nave da classe Estado retornou ao espaço normal a menos de três anos-luz da retaguarda das formações arcônidas.
Deringhouse, que acompanhara as manobras apenas na qualidade de espectador, ouviu Joe Pasgin chamar a sala de rádio.
Envie hipermensagem às formações arcônidas do setor espacial Tigre 46. Anuncie nossa chegada para daqui a quinze minutos. Transmita a senha, o código, etc.
Pasgin entrou em contato com o oficial de armas da Burma, uma nave cujo armamento era bastante fraco.
Alden, entre em estado de rigorosa prontidão. A transição será realizada dentro de 14 minutos e 35 segundos. O salto não provocará nenhum choque sensível nos seus homens. Só abra fogo por ordem minha.
Entendido! — respondeu Alden, que se encontrava no posto de combate.
Dez minutos antes do salto, uma ordem atravessou a nave:
Colocar trajes espaciais.
Assim todos ficaram sabendo que a Burma se precipitava para uma perigosa aventura.
Seguiu-se a transição ligeira de pouco menos de três anos-luz.
O setor do espaço retratado na grande tela da nave empalideceu. A Burma desmaterializou-se num tempo zero, durante o qual saltou pelo hiperespaço, para retornar ao estado anterior, provocando nos homens o choque doloroso.
Isto é um verdadeiro inferno — constatou Joe Pasgin apavorado.
Via a Burma transformada numa nuvem de gás.
Mas Hendrik Olavson conseguiu algo que dificilmente se acreditaria possível. Fez o cruzador ligeiro descrever uma curva fechada, levando-o para fora da zona perigosa, onde os raios mortíferos cruzavam-se.
A Burma formava um só conjunto integrado. Era um cruzador ligeiro com uma enorme capacidade de aceleração. Seus neutralizadores de pressão eram tão potentes quanto os conjuntos propulsores.
De repente o uivo das unidades energéticas, dos propulsores e dos neutralizadores rompeu todos os isolamentos acústicos...
Oito raios disparados por naves de guerra passaram a poucos milhares de quilômetros da Burma!
Subitamente os campos defensivos da pequena nave começaram a rugir. Duas imensas cascatas de luz desfizeram-se no negrume do espaço.
Solicitação de oitenta por cento! — exclamou Joe Pasgin em tom exaltado.
Os campos energéticos mal e mal haviam resistido a essa investida de energia estranha. Seguiu-se um impacto no setor verde e outro no frontal.
Sala de rádio! O que houve? Por que estão disparando contra nós? — gritou Pasgin para dentro do microfone.
Enquanto isso Hendrik Olavson realizou uma manobra violenta, atirando o cruzador ligeiro para fora da rota.
A senha está sendo transmitida ininterruptamente — respondeu a voz trovejante vinda do alto-falante.
Deringhouse olhou por cima do ombro do oficial incumbido do rastreamento.
Três gigantescas naves da classe Império aproximaram-se velozmente; tratava-se de naves de 1.500 metros de diâmetro. Seu poder de fogo era tamanho que poderiam transformar planetas inteiros em sóis. E a Burma só tinha cem metros de diâmetro!
Cuidado! — berrou Joe Pasgin.
O grito não foi motivado por qualquer ataque das unidades arcônidas. Fora dirigido ao co-piloto Hendrik Olavson, que não deveria revelar aos arcônidas, por meio das mudanças de rota que efetuava, qual era a capacidade de aceleração da Burma.
Ataque do amarelo 43.78...
O resto da mensagem foi engolido por uma tríplice pancada de fogo. Dali em diante, o cruzador ligeiro devia sua existência exclusivamente ao fato de que o raio de desintegração apenas atingira o campo defensivo de raspão.
O indicador de solicitação subiu para cem por cento.
Normalmente essa percentagem significaria o desmoronamento do campo defensivo energético.
Até mesmo Deringhouse, um general que já atravessara várias centenas de situações catastróficas, sentiu-se nervoso, pois o próprio coração da Burma começou a gritar.
O aparelho indicara uma solicitação de cem por cento. Dali a uma fração de segundo, essa cifra já não era correta. A Burma soltara um bramido em seu interior e dirigira todas as energias disponíveis para fora, a fim de levantar outro campo defensivo.
Sala de rádio! Sala de rádio!
A voz do imediato parecia atropelar-se, enquanto procurava conseguir contato.
Será que o oficial de armas não ouvira o grito? Ou resolvera também gritar naquele instante?
Sua voz potente foi ouvida na sala de comando:
Quando virá a ordem de abrir fogo?
Hendrik Olavson, um homem recém- saído da Academia Espacial, sentia-se no seu elemento. Jogava com a Burma com a mesma facilidade com que o artista toca seu instrumento. Foi só graças a ele que as pessoas a bordo continuaram vivas. Parecia prever a direção da qual viriam os ataques e constantemente realizava as mudanças abruptas. E, dessa maneira, o cruzador saltava de um lugar para o outro, não sendo atingido por nenhum raio silencioso e mortífero.
Subitamente os homens, que se encontravam no cruzador ligeiro, perceberam que haviam saltado para dentro da batalha espacial, travada entre as naves robotizadas dos arcônidas e as unidades dos druufs.
Nas grandes telas da Burma surgiram minúsculos sóis, que se espalhavam vertiginosamente para todos os lados. No negrume do espaço, sua claridade só se mantinha por poucos segundos. Depois de espalhar-se, empalideciam e submergiam. Eram naves de guerra desintegradas pela reação atômica.
Vamos embora! — gritou Joe Pasgin para o hábil co-piloto.
O jovem oficial confirmou.
Tigre 32! — respondeu.
A formulação não poderia ter sido mais lacônica. Pretendia retirar a Burma do setor espacial Tigre 46 e procuraria atingir o setor Tigre 32. Essas designações de setores, criadas pela Frota Solar, abrangiam toda a área da zona de superposição e das linhas de bloqueio.
As unidades energéticas e os conversores da Burma rugiram, e o rugido atravessou todos os isolamentos acústicos que, em virtude da falta de espaço, não possuíam grande capacidade de absorção de som. Os motores de propulsão, instalados na protuberância equatorial, expeliram feixes chamejantes de ondas de impulsos. No momento em que começavam a impelir a nave terrana em direção ao setor Tigre 32, os instrumentos localizaram três gigantes da classe Império, que se aproximavam em vôo frontal.
Fomos identificados! Fomos identificados! — disse a voz rouca saída dos alto-falantes.
O aviso provinha da sala de rádio. E era claro. Hendrik Olavson, que possuía um talento natural para tudo que dissesse respeito à pilotagem de uma nave espacial, agiu imediatamente.
Reduziu a potência dos conversores. Diminuiu a produção das unidades energéticas para um oitavo de seu potencial. No mesmo instante, os neutralizadores começaram a rugir, para eliminar a pressão resultante da súbita cessação do processo de aceleração.
Elmes? — gritou Pasgin em tom indagador para o lado em que ficava o computador positrônico.
Ali um oficial estava de pé, acompanhando os acontecimentos na grande tela.
Este compreendeu o significado da pergunta.
Banco de dados do computador sem dispositivo de segurança — respondeu.
Um sorriso feroz surgiu no rosto de Deringhouse, que, em pensamento, homenageava o computador-regente com todas as pragas de astronauta que conhecia. A ausência do dispositivo de segurança do banco de dados do computador de bordo evitaria que o Grande Império pudesse descobrir a posição galáctica da Terra, mesmo por um infeliz acaso. Sem esse dispositivo, ao menor perigo que ameaçasse o cruzador ligeiro apagar-se-iam todos os dados que poderiam fornecer qualquer indicação sobre o lugar galático da Terra.
A escotilha da sala de comando abriu-se.
Deringhouse e Joe Pasgin viraram a cabeça.
Ficaram surpresos ao verem Thora.
Em meio ao ruído da escotilha que voltava a fechar-se, ouviu-se a mensagem da sala de rádio.
Mensagem da nave robotizada Ig-Dro 34, classe Império. Desvio para... — seguiu-se uma série de coordenadas, que foram transmitidas simultaneamente ao computador de bordo. — Os três supercouraçados nos comboiarão. Qual é a resposta?
Com dois passos, Deringhouse colocou-se à frente do microfone.
Aqui fala Deringhouse! Transfira a ligação para a sala de comando.
A ligação foi estabelecida imediatamente. A imagem na tela estabilizou-se. Nela se viu o “rosto” cadavérico de um robô arcônida. Antes que o general pudesse dizer uma palavra, um lampejo ofuscante surgiu a estibordo.
Um couraçado dos druufs conseguiu romper as linhas arcônidas sem que ninguém o percebesse e pretendia transformar a Burma num sol...
Nenhuma das pessoas que se encontravam na sala de comando conseguiu ver qualquer coisa. Os três supercouraçados de Árcon agiram no momento em que foi desfechado o ataque dos druufs. Sob o tremendo poderio de suas armas, a nave de guerra vinda da outra dimensão temporal dissolveu-se numa nuvem de gases vermelhos.
No entanto, o inimigo conseguira atingir a Burma.
E mais uma vez, graças à ação de Hendrik Olavson, o impacto não foi direto.
O raio absorveu 95 por cento da potência dos campos defensivos. Ficaram faltando apenas cinco por cento para que a tremenda energia concentrada do disparo atingisse o revestimento metálico da Burma.
A nuvem de gases, que brilhava numa luminosidade vermelha, desfez-se rapidamente. O fogo de artifício provocado pelo impacto do raio dos druufs contra a Burma e os disparos maciços dos três couraçados robotizados de Árcon transformaram esse setor do espaço num inferno de luz, calor e violência mortífera.
Enquanto ainda lutava contra o ofuscamento, Deringhouse reconheceu na tela o sistema de lentes do robô-comandante, que o fitava como se fosse uma coisa.
Sou o General Deringhouse, do Império Solar, e represento Perry Rhodan. Por que fomos atacados pelas naves arcônidas, muito embora o regente já lhes deva ter avisado sobre a chegada de uma nave terrana?
A alma de qualquer robô positrônico é formada pelo X, pelo algarismo desconhecido, pela lógica insensível. Com uma voz metálica, o comandante do supercouraçado Ig-Dro 34 forneceu seu número de identificação e respondeu:
A ordem de desmantelar de qualquer maneira o ataque que o inimigo lança em três frentes, dada pelo regente de Árcon, tem precedência sobre outras instruções, terrano. Sigam-nos de perto, para que possamos escoltá-los seguramente para fora da zona de combate.
Ao que parecia, as boas maneiras também não constavam da programação das máquinas positrônicas de guerra. O comandante-robô desligou. Só agora, Deringhouse teve tempo para tomar conhecimento da presença de Thora.
Dona Thora... — principiou em tom violento, enquanto a fitava, mas o espanto fechou-lhe a boca...
Viu à sua frente a orgulhosa arcônida Thora de Zoltral, e ainda viu tudo que a mesma já fora para o Grande Império, antes que o cérebro gigante assumisse o governo de um reino galático decadente. Foi na qualidade de comandante que ela entrou na sala, e seu aspecto desmentia os diagnósticos dos médicos.
General, cavalheiros; acho que está na hora de participar ativamente nas negociações. Por favor, não deixem que minha presença os perturbe.
Com um sorriso no rosto, aproximou-se de Deringhouse. Por mais atentamente que a observasse com os olhos críticos, não viu o menor sinal de tensão ou cansaço.
Às suas costas Joe Pasgin e Hendrik Olavson cuidavam para que a Burma seguisse os três couraçados arcônidas da classe Império, a fim de que a cobertura de fogo dos três gigantes lhes permitissem sair sãos e salvos da zona de batalha, junto à área de superposição.
Deringhouse ofereceu-lhe a única poltrona desocupada da sala de comando.
Thora agradeceu com um sorriso. Em voz baixa, para que só ele entendesse, formulou a pergunta:
Deringhouse, será que realmente estou doente? Quase não consigo acreditar.
Deringhouse lembrou-se de como a encontrara no bangalô situado ao pé da Cordilheira de Valta, e também se lembrou da séria advertência formulada pelo médico-chefe Dr. Villnoess. Mas, agora, vendo Thora à sua frente, meditou:
Não é uma mulher jovem, mas uma dama, que sabe aceitar com uma elegância inigualável os sinais de velhice pouco perceptíveis.”
Deringhouse não precisou esforçar-se para retribuir o sorriso. As palavras ditas saíram-lhe do coração:
Dona Thora, eu a admiro!
A dura realidade destruiu o encanto do momento... A central de rádio chamou:
O computador-regente quer falar com o senhor, general.
Faça o favor de transferir a ligação para cá! — ordenou Deringhouse.
Thora colocou a mão em seu braço.
Não seria conveniente que eu interferisse nas negociações, Deringhouse?
Naquele instante, o general lembrou-se da mensagem mutilada do agente de Aralon, e foi por um medo inexplicável, sentido em relação a Thora, que respondeu:
Sob o ponto de vista tático prefiro que a senhora só apareça em Árcon III, dona Thora. Por favor, afaste-se um pouco para o lado, a fim de que a objetiva não possa atingi-la.
A tela destinada às mensagens de hiper-rádio começou a iluminar-se.
Como acontecia todas as vezes que se estabelecia uma ligação com o regente, surgiram em primeiro lugar os perturbadores modelos coloridos, seguidos pela gigantesca abóbada metálica, que abrigava o elemento principal do conjunto positrônico.
Sem o menor intróito o cérebro perguntou:
Onde está Rhodan?
Nem tomou conhecimento da presença de Deringhouse.
Este já estava preparado para as “excentricidades” do grande computador.
Não pôde vir, regente — respondeu o general com o mesmo laconismo. — Senha Garyloon 010 Árcon!
O fato de o senhor conhecer a senha não exclui a verificação da identidade de sua pessoa. Apresente-se em Árcon III.
O general sabia que sua insistência representava mera perda de tempo, pois que seria dificílimo remover o computador-regente de qualquer decisão já adotada. Apesar disso, resolveu formular uma objeção:
Regente, o senhor já me conhece. Sou o terrano Deringhouse.
O gigantesco mecanismo comunicou em tom uniforme:
Apresente-se em Árcon III. Identificação indispensável. Temos de estabelecer entendimentos sobre a entrega de cem naves espaciais.
Tão subitamente como principiara a falar, o grande cérebro desligou, adotando o objetivismo total que guiava seu procedimento.
Com exceção de Thora, o general era a única pessoa a bordo da Burma que conhecia as qualidades típicas do computador-regente.
Deringhouse lançou um olhar indagador para Thora, que se mantivera em pé, junto à poltrona vazia, seguindo atentamente o diálogo.
Não estou gostando dessas frases, dona Thora! A ordem de comparecer a Árcon para ser identificado constitui um sofismo que não convence ninguém...
Bem, não pretendíamos ir a Árcon, Deringhouse? — perguntou Thora em tom de espanto.
Naturalmente. E não teria nada a objetar contra o tom de comando usado pelo cérebro, se ele não tivesse feito tamanha questão de ressaltar que está disposto a negociar. Já sabemos por várias amargas experiências que o cérebro positrônico sabe mentir com uma frieza estarrecedora. E a informação de que está disposto a considerar a entrega de cem naves espaciais não passa de mais uma mentira.
Thora sacudiu a cabeça.
Minha opinião é outra, Deringhouse. Será que o senhor não se preocupa demais por minha causa?
Deringhouse teve dificuldade de controlar-se. Não poderia revelar-lhe a verdade.
Se a esposa de Perry Rhodan não estivesse a bordo, as preocupações ligadas ao vôo para Árcon III estariam reduzidas para um décimo. E, caso ela não estivesse doente, tudo teria um aspecto diferente, muito menos arriscado. Mas na situação em que se encontrava, via as coisas pretas, quanto ao futuro da tripulação da Burma.
Resolveu bancar o despreocupado:
Espero convencer-me logo de que estava enganado em relação ao cérebro. Afinal, a senhora tem melhores condições de formar um juízo que eu.
Durante três horas, a Burma voou sob a escolta dos supercouraçados, deslocando-se ao longo das linhas de bloqueio. Teve de desviar-se instantaneamente de dois ataques, inesperados e violentíssimos, desfechados por naves dos druufs, que conseguiram romper o bloqueio. Joe Pasgin e Hendrik Olavson tiveram o cuidado de não fornecer o menor sinal sobre a tremenda aceleração que se escondia no cruzador ligeiro.
Finalmente a Ig-Dro 34 transmitiu uma mensagem lacônica... Informou que o escoltamento estava concluído. Os supercouraçados robotizados do Grande Império desapareceram sem despedir-se.
6

O último salto levou a Burma para o centro do grupo estelar M-13.
Essa concentração media noventa e nove anos-luz de diâmetro e compreendia mais de 30 mil estrelas. Constituía a célula-máter do Grande Império, uma entidade estatal que tinha todo motivo para julgar-se grande.
A tela da Burma reproduziu o quadro irreal. Os sóis se enfileiravam um ao lado do outro, e sua densidade produzia uma cintilação, um brilho e um tremeluzir, formando um espetáculo extraordinário. O leve cintilar da Via Láctea desaparecera; parecia não mais existir. Em compensação, uma profusão de cores invadiu a sala de comando, depois de passar pela tela. Era um espetáculo que provocaria admiração até mesmo no mais empedernido dos astronautas.
O grupo M-13, que servia de sede ao Grande Império dos arcônidas, representava uma obra grandiosa da criação. As constelações se sucediam em série ininterrupta, e, em meio às cascatas de luz, era impossível distinguir a olho nu um determinado sol.
Embora tivesse sido construída na Terra, a Burma representava um aperfeiçoamento da construção espacial arcônida. Por isso, a quantidade perturbadora de estrelas não impediu que a tripulação resolvesse com a maior facilidade todos os problemas galatonáuticos. Um verdadeiro conhecedor da astronavegação não teria outra alternativa senão dobrar-se, numa homenagem muda, diante da tecnologia arcônida e de sua hipermatemática.
Enquanto os homens da sala de comando ainda se sentiam atraídos pelo colorido do quadro projetado em três dimensões, o computador positrônico do cruzador leve pôs-se a trabalhar a fim de determinar qual era a distância ao sistema de Árcon.
O astro central era um sol branco e ofuscante, que possuía vinte e sete planetas. A importância principal cabia aos primeiros três planetas, que giravam em torno desse sol, dispostos em forma de triângulo isósceles.
Eram designados pelo mesmo nome do astro central e distinguiam-se pelos algarismos I a III.
Árcon I, ou o mundo de cristal, um planeta cuja gravitação era semelhante à da Terra, era o mundo residencial dos arcônidas, enquanto Árcon II abrigava a administração do Grande Império e ao mesmo tempo servia de entreposto de comércio do grupo M-13.
Já Árcon III não se conhecia igual em toda a Galáxia. Era do mesmo tamanho que os números I e II, mas era um centro de produção de armas. Lá se fabricavam, nas grandes esteiras rolantes dos arcônidas, as gigantescas naves de guerra. Nesse mundo ficava o coração do deus da guerra dos arcônidas — a administração militar, o ministério espacial e da guerra — e o computador-regente! Por estes fatos tornava-se o mais importante dos três mundos.
Deringhouse respirou pesadamente ao lembrar-se do enorme mecanismo. Mais uma vez, deu-se conta do aspecto grotesco da situação. Há alguns decênios da contagem do tempo terrana, uma instalação positrônica — construída há muitos milênios por cientistas de ampla visão, e programada ao longo dos séculos — assumiu, com base nessa programação, o governo do Grande Império. E ninguém se sentiu mais feliz com esse fenômeno, que seria inadmissível para os homens terranos, que os arcônidas “supersaturados”, que, dali em diante, passaram a entregar-se mais desinibidamente às suas orgias, sem dar-se conta de quão profundamente estavam degenerados.
Deringhouse fez uma ligação com Thora. O rosto desta apareceu na tela de controle. Fitou-o com uma expressão de curiosidade.
Dona Thora, será que posso pedir-lhe que venha à sala de comando? Pretendo falar com o cérebro positrônico, daqui a alguns minutos.
Thora limitou-se a acenar com a cabeça. Deringhouse ligou para a sala de rádio:
Chame o computador positrônico de Árcon — ordenou.
O rosto do operador de rádio, que estava sentado à frente do intercomunicador, desapareceu da tela de controle.
Abalos estruturais! — anunciou o setor de rastreamento estrutural. — Cinco naves.
O salto para o centro de M-13 também foi realizado sem o neutralizador de vibrações. Dessa forma, as estações arcônidas de Vigilância espacial registraram o abalo estrutural provocado pela Burma e imediatamente enviaram cinco naves de guerra ao local, a fim de examinar de perto o forasteiro recém-chegado do hiperespaço.
No mesmo instante, a sala de rádio transmitiu o sinal de identificação da nave terrana. O dispositivo automático expelia ininterruptamente os respectivos dados.
Os contornos de três cruzadores pesados arcônidas desenharam-se contra o fundo da cortina de estrelas. Pareciam querer abalroar a pequena Burma, mas subitamente mudaram de lado e colocaram-se ao lado da nave terrana.
A sala de rádio transferiu as ligações para a sala de comando.
A tela iluminou-se.
Nela surgiu um rosto de robô. Falava, mas o som tinha desaparecido...
Em compensação, a sala de rádio transmitiu uma notícia preocupante.
O cérebro positrônico não responde ao chamado, mas está falando com uma das cinco naves.
Finalmente ouviu-se o som da transmissão. A interferência apenas decorrera da regência exercida pela central de rádio. A informação a ser transmitida a Deringhouse não deveria chegar a mãos estranhas.
Dona Thora entrou. Mais uma vez, o general não teve tempo de virar o rosto para ela. Mas no momento em que se colocou a seu lado, pediu-lhe que não se colocasse fora do alcance da objetiva de televisão.
...e vieram a Árcon sob escolta — foram estas as palavras que ainda conseguiu ouvir.
Antes que Deringhouse conseguisse dizer uma palavra, o robô interrompeu a comunicação.
Isso não está muito bom — disse Deringhouse em tom preocupado. — Não conseguimos entrar em contato com o cérebro positrônico, mas ele acaba de manter uma palestra com uma das naves robotizadas. Escolta, ora essa! Tenho sérias dúvidas quanto a isso, dona Thora!
General! — gritou o oficial de rádio em tom exaltado. — KK-0-763 98 exige que lhe entreguemos a direção da Burma.
KK-0-763 98 era o robô comandante de uma das naves arcônidas que haviam dito ao general que iriam escoltar a nave para Árcon.
Transfira a ligação para cá! — ordenou Deringhouse em tom tão frio que até mesmo Joe Pasgin, imediato da Burma, se virou para ele e fez um gesto de satisfação.
A tela iluminou-se. Mais uma vez, o rosto indiferente do robô arcônida surgiu.
Ouça, meu caro — disse Deringhouse. — Diga a seu regente que não somos arcônidas, mas terranos, e um terrano não gosta de entregar sua nave a um robô.
Estava mostrando que também sabia agir com a descortesia típica de um robô, mas ao desligar deu-se conta de que, face à sua programação, esses homens mecânicos nunca se chocavam.
Joe Pasgin e Olavson tiveram de esforçar-se ao máximo para manter a Burma no centro da formação de naves que a escoltaria para Árcon, sem correr o perigo de colidir com qualquer uma delas. Era bem verdade que os potentes campos defensivos evitariam uma colisão direta, mas não queriam passar a vergonha de serem considerados inexperientes no vôo em formação.
Então, dona Thora, o que acha dessa exigência? — perguntou Deringhouse com certo sarcasmo na voz.
São robôs! — com essa palavra Thora pensou que o assunto estivesse encerrado.
É um robô! — retificou o general. — O cérebro-gigante. Se existe alguém no Grande Império que saiba como nós, os terranos, costumamos reagir a qualquer restrição em nossa liberdade, este alguém é seu simpático regente!
Apesar da situação indefinida em que se encontravam, Thora, cujo estado de saúde piorara sensivelmente, deu uma risada.
Deringhouse. Sou da dinastia dos Zoltral e venho de Árcon I, mas considero o computador-regente um monstro. E acho que o senhor também o considera assim. Mas, como arcônida que sou, talvez não encare a situação com a mesma coerência e energia que o senhor, que é um terrano. E olhe que, ultimamente, devo esforçar-me para não me esquecer totalmente de que não sou filha do planeta Terra.
Foi interrompida pelo astronavegador Merck.
General, a rota não confere mais. Em psi há um desvio de 0°57’. Nunca vi tamanhas diferenças nas naves robotizadas.
Cinqüenta e sete minutos do arco — repetiu Deringhouse em tom pensativo. — Isso ainda nos levará para dentro do sistema de Árcon, Merck. A que planeta deveremos chegar com esse desvio?
Thora também teve sua atenção despertada. Como ex-comandante de uma grande nave de exploração, era uma especialista altamente qualificada nessa área.
Merck fez uma careta.
O sistema possui vinte e sete planetas. É difícil formular uma previsão a esta hora. Na melhor hipótese, a mesma poderá ser formulada dentro de meia hora.
Deringhouse preferiu não assumir riscos. Thora estava a bordo, e essa circunstância orientava seus atos.
A próxima ordem foi dirigida à sala de rádio.
Daqui a pouco, lhes serão fornecidos os dados sobre o desvio de rota que nos é imposto e nossa posição atual. Transmitam os mesmos sem comentários à nossa estação retransmissora mais próxima.
As estações retransmissoras eram naves espaciais terranas que permaneciam em determinados pontos da Galáxia, segundo um plano cuidadosamente elaborado, a fim de receber as mensagens dos agentes e transmiti-las à estação seguinte, até que, depois de muitas andanças, chegassem a Terrânia. Esse procedimento complicado, mas seguro, evitava a revelação da posição do planeta Terra.
Já temos o desvio de rota na coordenada chi, general. Um grau e dezoito segundos. Meu Deus, até parece que vamos pousar em Mutral!
O cruzador ligeiro Burma era um gigantesco conjunto mecânico comprimido numa esfera, mas sua tripulação de cento e cinqüenta homens possuía um excelente nível mental. Era formada de elementos altamente qualificados. Mais de duas dezenas de homens, que faziam trabalhos de pouca relevância, se contavam entre os cientistas mais competentes de suas especialidades.
Merck, o senhor conhece seus colegas. Convoque-os. Preciso ter certeza.
Dirigindo-se a Pasgin, perguntou:
Quanto tempo falta? — a pergunta referia-se ao tempo de vôo para Árcon III.
Se mantivermos a velocidade atual de 0,89 luz levaremos de cinco a seis horas.
Deringhouse chamou a sala de rádio.
Ouviu a troca de mensagens?
Sim, senhor general — soou a resposta, proferida em tom militar.
Suspenda a mensagem destinada à estação retransmissora até que tenhamos em mãos a interpretação completa dos dados. Quando isso acontecer, transmita imediatamente.
De repente, Deringhouse olhou para Thora, que se acomodara numa poltrona. A sensação de segurança, que tentava aparentar, desaparecera. As ordens do general deixaram-na preocupada, principalmente as relativas ao desvio de rota em psi e chi.
Ouviu-se o ruído da escotilha que dava do convés para a sala de comando.
Pela primeira vez desde o momento em que a Burma decolara da Terra, a telepata Ishy Matsu entrou na sala de comando. Sem que Thora o percebesse, Conrad Deringhouse transmitiu-lhe suas preocupações. Seus pensamentos ficaram expostos diante dela como um livro aberto.
Ishy fez um sinal com a mão. Deringhouse voltou a dirigir-se a Thora.
Thora, a senhora confiou demais em suas forças. Por favor, descanse um pouco, até que... Bem, até que saibamos onde vamos pousar.
No último instante, o general resolvera dizer a verdade, pois neste ponto não se poderia enganar uma comandante arcônida.
Thora agradeceu a franqueza com um sorriso feminil. Nem se espantou ao ver Ishy Matsu parada a seu lado. Mas não permitiu que a mutante a ajudasse a levantar-se.
Será que sentia o olhar dos homens, enquanto se erguia da poltrona?
Qual era a origem da vermelhidão doentia de seu rosto? Seria a excitação mental ou o esforço físico?
Saiu da sala de comando com a mão pousada de leve no braço da bela japonesa. Assim que a escotilha se fechou atrás dela, Deringhouse começou a praguejar. Tornou-se grosseiro.
Senhores, se mais uma vez quiserem permitir-se olhar Thora dessa maneira em virtude de uma falsa compaixão, os senhores hão de se haver comigo. Dona Thora sofre de uma doença incurável. Ela sabe, mas não faz questão de que constantemente lhe lembrem isso por meio de olhares curiosos. Será que me fiz de entendido?
Sentou à frente da grande tela de visão global da Burma, que mostrava o comboio dos cinco cruzadores pesados arcônidas, representados por pontos nítidos que se distinguiam em meio ao cintilar do grupo estelar.
Localização! — gritou o operador do rastreador estrutural.
Eco de rastreamento. Duas naves, provavelmente do tamanho da Titan, aproximam-se do amarelo, desenvolvendo quase a velocidade da luz.
Distância de 1,43 minutos-luz. A sala de rádio chamou:
Hiperfreqüência do regente voltou à atividade. Troca de mensagens, distorcidas e condensadas. Agora...
No mesmo instante, a voz do oficial de rádio foi substituída pela do computador-regente.
...à força, para pousar em Mutral. Recorram a quaisquer meios para impedir a decolagem.
A transmissão da hiperfreqüência do cérebro positrônico chegou ao fim. Graças aos interceptadores dos swoons, que eram minúsculos aparelhos que num instante constatavam os impulsos de distorção e suas variações, medindo o grau de condensação, tornara-se possível ouvir uma mensagem do computador de Árcon.
Para os homens que se encontravam na sala de comando, o aparecimento das duas naves foi um acontecimento de segunda ordem. Todos os olhares estavam fitos em Deringhouse, mas este mantinha-se tranqüilamente em sua poltrona e observava a grande tela de visão global. Parecia não conseguir fartar-se do espetáculo dos inúmeros sóis reluzentes.
Subitamente estreitou os olhos.
Dois pontos surgiram à sua frente. Dois outros pontos, que se encontravam mais próximos, desviaram-se para a direita e a esquerda. Eram os dois cruzadores pesados que formavam a retaguarda do comboio de escoltamento. Cederam lugar aos dois gigantes, que se aproximavam desenvolvendo quase a velocidade da luz.
Estão-se aproximando. A aproximação continua. A distância é inferior a quatro mil quilômetros. Dois mil. Manobra de adaptação dos supercouraçados. Estão desacelerando lentamente. Seiscentos quilômetros. Trezentos...
De repente ouviu-se a informação, proferida num tom que até parecia de alívio:
Manobra de adaptação concluída. Encontram-se no amarelo, oitenta quilômetros atrás de nós.
É a mesma coisa de sempre — Deringhouse não disse mais nada.
Relativamente jovem, a tripulação da Burma ainda teria de familiarizar-se com a situação. Havia mais de cinco mil estações de vigilância espacial, o que tornava impossível a aproximação de qualquer nave sem ser detectada. Além disso, em virtude do instinto de autoconservação, o regente exigia que qualquer nave, que penetrasse no sistema, se sujeitasse à escolta. Porém o fato de Deringhouse não comentar a mensagem do regente, que acabara de ser interceptada, não representava um ato de leviandade, mas apenas decorria da circunstância de que no momento não poderia tomar qualquer providência.
O alto-falante emitiu um estalo. A sala de rádio anunciou que a mensagem destinada à estação retransmissora Sigma 82 acabara de ser expedida em forma distorcida e condensada.
Deringhouse recostou-se confortavelmente na poltrona e disse:
Pois bem, senhores. Daqui a pouco conheceremos Mutral. Olhem que nunca me senti muito bem em Plutão!
Não seria possível falar mais claro.
Mutral, o vigésimo sétimo planeta do sistema de Árcon, era um mundo de gelo, semelhante a Plutão. Desde os primeiros tempos da astronáutica arcônida, o planeta servira de fortaleza espacial, que nos seus 15 mil anos de existência rechaçara, no limiar do sistema, muitos ataques vindos do espaço galático.
Aquilo que os arcônidas, outrora tão arrojados, haviam construído, parecia destinado a manter-se para toda a eternidade.
Graças ao processo de ensinamento hipnótico a que fora submetido, o General Conrad Deringhouse não teve necessidade de solicitar dados sobre o mundo de Mutral. Não teve a menor dúvida de que era lá que a Burma deveria pousar. Só se preocupava em saber por que motivo o computador-regente se declarara disposto a negociar, e por que escolhera Mutral como local de negociações.
O robô comandante de um dos cinco cruzadores pesados voltou a chamar. E, mais uma vez, não pediu, mas exigiu.
Deringhouse deixou que Joe Pasgin decidisse. A reação do imediato da Burma foi a mesma que o general adotara pouco antes, ao recusar a exigência.
Forneça os dados. Não costumamos entregar nossas naves a robôs. Quantas vezes teremos que repetir isto?
A última pergunta de Pasgin foi formulada em vão. O comandante-robô desalmado respondeu laconicamente:
Dados seguem.
O computador da Burma realizou a conversão instantânea dos dados para os padrões terranos.
Seguindo a ordem recebida, o cruzador ligeiro mudou de rota. De repente, o planeta Mutral surgiu na tela.
Ficava tão distante do sol de Árcon que sua luz não poderia acalentar qualquer forma de vida. Por isso, não passava de um mundo de gelo extremamente acidentado. Até mesmo as cordilheiras, de mais de oito mil metros de altura, ficavam cobertas pela blindagem de gelo. Aquele mundo cinzento, quase negro, que refletia debilmente a luz dos sóis de M-13, parecia uma terrível ameaça que os aguardava no espaço.
Isso está começando bem! — disse Joe Pasgin, que mais uma vez observava, admirado, a bela manobra que Hendrik Olavson fazia para pousar a Burma naquele inferno de gelo.
Os dados eram fornecidos ininterruptamente pelo rádio. Finalmente a nave foi atingida pelo raio de tração de Mutral. Em virtude dele, a manobra de pouso seria uma verdadeira brincadeira.
Os neutralizadores de pressão do cruzador ligeiro começaram a rugir. A nave desacelerou. Nem uma única vez, o grau de desaceleração ultrapassou o máximo admissível nas naves arcônidas. Em virtude de sua desaceleração, aparentemente pouco satisfatória, parecia querer colidir com os campos defensivos dos cruzadores de Árcon.
Com um sorriso no rosto, Deringhouse pediu ao jovem Olavson que não levasse as coisas longe demais.
Seria seu último sorriso durante este vôo ao sistema de Árcon...
A Burma atingiu o corredor de entrada do planeta. Quatro mil metros abaixo deles rodava Mutral, o mundo de gelo transformado numa fortaleza espacial. Os cruzadores pesados afastaram-se, mas a nave terrana foi seguida de perto pelos gigantes espaciais.
Certa vez, Deringhouse ligara a ampliação máxima e examinara com um interesse profissional os anteparos abertos dos canhões de impulsos e desintegradores das naves arcônidas. Os veículos de escolta estavam preparados para o combate.
Sabia perfeitamente que Mutral achava-se em estado de rigorosa prontidão. Os mecanismos de mira automática da fortaleza estacionaria acompanhavam todas as mudanças de rota da Burma.
Mas os pensamentos do general até pareciam estar sendo trabalhados por um distorçor. Voltavam constantemente a ocupar-se da mensagem mutilada expedida pelo agente de Aralon. Por mais que se esforçasse, não conseguia libertar-se desses pensamentos. Os quatro fragmentos de palavras não queriam sair-lhe da cabeça.
Hendrik Olavson deixou que a nave caísse até dez mil metros acima da superfície do planeta. Depois ativou os campos antigravitacionais, que deixaram que o cruzador ligeiro descesse mais oito mil metros, até que seu movimento pendular se compensasse, restabelecendo o equilíbrio de forças.
Um forte rugido atravessou a nave no momento em que as colunas telescópicas de apoio foram escamoteadas. A nave terrana foi descendo lentamente. O pouso continuava a ser dirigido pelo raio de tração. Dessa forma, o lugar em que entrariam em contato com o solo estava exatamente determinado.
As duas naves de “escolta” da classe Império seguiram-nos como se fossem uma sombra dupla.
Subitamente iluminaram-se alguns holofotes de potência incrível. O quadrado de dez quilômetros, mergulhado na ofuscante luz artificial, constituía prova do caráter inóspito do planeta.
A luz também permitiu aos tripulantes da Burma perceberem que os numerosos pontos negros, em meio ao gelo reluzente, não eram impurezas, mas representavam os anteparos abertos de algumas centenas de posições de artilharia.
O cruzador ligeiro da Frota Terrana acabara de pousar no setor central da fortaleza de Mutral.
O lugar escolhido pelo computador-regente não poderia ser mais seguro.
Os campos defensivos permanecerão ativados! — ordenou Deringhouse.
Nas dez horas seguintes, a situação não se modificou. As mensagens dirigidas ao cérebro positrônico ficaram sem resposta. O computador não tinha pressa. Mas a paciência de Deringhouse tinha limites. E com a décima hora de espera esse limite esgotou-se.
Enquanto Thora continuava em seu camarote sob os efeitos de um tranqüilizante, sem desconfiar de nada, o General Conrad Deringhouse entrou na sala de rádio.
Sentou à frente da tela do potente aparelho de hipercomunicação. Virou-se ligeiramente para os lados e ordenou:
Ligue para a hiperfreqüência do cérebro positrônico. Vou chamar o regente e... — não chegou a completar a frase, mas seus gestos diziam mais que um livro.
A ligação com Árcon III foi completada, porém o cérebro não mostrou qualquer reação. As linhas coloridas confusas, que indicariam a existência de um contato pelo rádio, deixaram de aparecer na tela. Mas os agentes de Rhodan haviam descoberto, numa série de missões extremamente perigosas do Serviço de Defesa Solar, que qualquer chamado atingiria automaticamente o computador-regente, desde que realizado em sua faixa de freqüência.
Regente — disse Deringhouse para dentro do microfone. — Fui obrigado a pousar em Mutral. Antes disso tomei a liberdade de informar Perry Rhodan a este respeito. Acho que seria sumamente desvantajoso para o resultado das nossas negociações se...
Aguarde!
Mesmo o general, uma velha raposa do espaço, não pôde deixar de sentir-se perplexo diante da resposta inesperada do cérebro positrônico. Mas nem por isso perdeu a presença de espírito.
Não esperarei outras dez horas — disse com o mesmo laconismo.
Não houve resposta.
A um sinal de Deringhouse, o oficial de rádio desligou o hipercomunicador.
Ao entrar na sala de comando, o general encontrou reunida toda a equipe de comando. Desde o pouso, realizado há dez horas, a Burma se encontrava em estado de prontidão.
Os conjuntos propulsores corriam em ponto morto. Isso consumia energias, mas de outro lado reforçava a consciência de que se poderia decolar a qualquer momento. Bastaria aumentar o desempenho dos imensos mecanismos instalados na protuberância equatorial da nave de cem metros de diâmetro, para que a Burma subisse ao espaço quase como um raio. Era nisso que residia a força oculta da pequena nave.
Os tripulantes sabiam que Árcon não dispunha de qualquer veículo espacial desse tipo. O fato de que algumas centenas de peças de artilharia se mantinham apontadas para a nave terrana não lhes causava maiores dores de cabeça. A bordo, encontravam-se algumas centenas de dispositivos pequenos, mas de grande eficácia, que seriam capazes de perturbar o funcionamento dos sensíveis dispositivos de mira dos canhões térmicos, de impulsos e de desintegração de Árcon.
Uma ligação para o senhor, general — anunciou o oficial de rádio e transmitiu a ligação para a sala de comando.
A imagem na tela estabilizou-se. Deringhouse viu um arcônida, que o fitava numa atitude arrogante.
Sou Taa-rell, comandante-chefe de Mutral, terrano! — disse num arcônida impecável. — Aguardo sua visita. Peço-lhe que venha imediatamente, antes que comece a assistir ao próximo jogo simultâneo.
Conrad Deringhouse foi a calma em pessoa. Conhecia esse tipo de arcônida, que nada tinha em comum com seus arrojados antepassados. Os novos arcônidas padeciam de uma perigosa instabilidade biológica e, face à decadência moral e psicológica, cediam inteiramente à indolência e ao cansaço, fugindo de qualquer tipo de iniciativa ou responsabilidade. Além disso, viam em todas as criaturas de outras raças, seres de categoria inferior.
O rosto balofo do arcônida, em cuja boca brincava um sorriso de escárnio, manteve-se imóvel na tela da Burma. Deringhouse fitou-o demoradamente.
O arcônida não gostou. Abandonando a indiferença característica de sua raça, disse em tom indignado:
Terrano, será que preciso repetir quem eu sou?
O general manteve-se imóvel à frente da objetiva.
Ora, arcônida — respondeu Deringhouse num tom que quase chegava a ser de compaixão. — O que significa ser comandante de uma bola de gelo? Eu sou um general da Frota Terrana, e meu chefe é Perry Rhodan!
Por um instante teve-se a impressão de que o arcônida queria despertar de sua indolência, mas apenas disse em tom de desprezo:
Rhodan... quem é esse Rhodan?
Deringhouse não teve necessidade de responder.
O rosto balofo do arcônida desapareceu da tela, para ceder lugar a um robô.
Sou GD-78-P-456 23, senhor! — disse o homem-máquina, a título de apresentação. — Como comandante das unidades robotizadas estacionadas em Mutral, devo preveni-lo para que não tente decolar. O Grande Coordenador ordenou que os senhores não deverão sair do planeta de Mutral. De nossa parte, está tudo preparado para impedir sua decolagem, se necessário, até pela violência.

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