A
comunicação foi interrompida. A tela voltou a apagar-se.
Deringhouse voltou-se para os homens que se encontravam na sala de
comando.
— Acho
que, com isso, já estamos suficientemente informados sobre nossa
situação. Por enquanto não vejo nenhum perigo. Só nos resta
esperar até que o Grande Coordenador queira conversar conosco.
A
escotilha abriu-se. Deringhouse tinha certeza de que era Thora.
Quando viu que, quem acabara de entrar, era a delicada telepata
japonesa, logo se sentiu preocupado.
A jovem
lançou-lhe um olhar penetrante, quase autoritário.
— General,
há uma hora venho captando impulsos perigosos, cada vez mais
intensos. Será que neste mundo de gelo existem aras?
Deringhouse
sentiu-se alarmado com a pergunta.
“A
mensagem mutilada de nosso agente no planeta Aralon”,
pensou apavorado. Falando em voz alta, disse:
— Venha
comigo, Ishy!
Dali a
pouco, estavam sentados frente a frente, no camarote de Deringhouse.
— De que
tipo são os impulsos perigosos, Ishy? Acho que não se esqueceu de
quem você deve proteger!
Estas
frases deram início a uma série de perguntas. Ishy Matsu não se
abalou.
— Os
impulsos estão cheios de perigo. Não consegui ler claramente os
pensamentos nem fui capaz de reencontrá-los. Até parece que o
planeta Mutral se interpôs com sua massa entre mim e os outros
seres. Não consigo encontrar outra explicação, general.
O sistema
de intercomunicação interrompeu a palestra com um chamado da sala
de rádio.
— O
cérebro está falando com alguém em Mutral. Infelizmente nosso
interceptador falhou. Árcon III limitou-se a transmitir três
impulsos condensados.
Deringhouse
lembrou-se da suspeita que a mutante acabara de manifestar.
— O
senhor seria capaz de determinar a posição da estação deste
planeta de gelo?
O homem
que se encontrava na sala de rádio respondeu prontamente:
— Fica
nas antípodas, general. Quer os dados precisos?
— Não,
obrigado.
O
alto-falante ficou em silêncio. Deringhouse e a mutante fizeram um
gesto de compreensão.
— Em
hipótese alguma solicitarei a interferência de dona Thora —
decidiu o general.
A telepata
objetou em tom exaltado.
— Se
fizer isso, prepare-se para levar um cadáver à Terra. Dona Thora
não seria capaz de superar uma decepção dessas. O senhor sabe que
é culpado porque de repente dona Thora voltou a ter o aspecto
doentio, general?
— Eu? —
indagou Deringhouse em tom de repulsa, mas não conseguiu libertar-se
de um vago sentimento de culpa.
— Sim, o
senhor. Tudo aconteceu porque pediu a dona Thora que permanecesse
fora do ângulo de visão da objetiva e fez questão de conversar
sozinho com o computador-regente.
Naquele
momento, o sistema de intercomunicação voltou a chamar:
— General,
o cérebro quer falar com o senhor. Dona Thora o espera na sala de
comando.
Deringhouse
viu neste último fato uma providência do destino.
— Venha
comigo, Ishy, e cuide bem de Thora. Pedirei a ela que conduza as
negociações. Peço-lhe que me dê um aviso assim que a conversa em
torno das cem naves se torne demais para ela. Se isso acontecer,
entrarei na linha e... O que houve?
Enquanto
caminhavam em direção à sala de comando, Ishy Matsu empalideceu de
repente. No momento em que formulava a pergunta, Deringhouse
compreendeu que a telepata estava captando novos impulsos.
O contato
com os cérebros estranhos durou apenas alguns segundos, e, durante
esses segundos, o rosto de Ishy Matsu transformou-se numa máscara.
Quando fitou Deringhouse, não havia o menor sinal de percepção
extra-sensorial nesse rosto.
— Um
grupo de aras chegou a Mutral, general. E sua chegada se relaciona
com nossa presença no planeta. Infelizmente não consegui
descobrir...
— Positivo
ou negativo? — perguntou Deringhouse laconicamente, embora
conhecesse a resposta de antemão.
— Negativo.
Raramente vi tamanho ódio concentrado em pensamentos como neste
contato. Os aras? Não são os médicos galácticos, verdadeiros
gênios em sua área?
Deringhouse
disse em tom enfático:
— Acontece
que os aras se esquecem constantemente dos deveres éticos que um
médico deve cumprir. Descendem dos arcônidas e são tão
degenerados quanto estes. Infelizmente, essa degenerescência teve
reflexos criminosos.
Chegaram à
escotilha da sala de comando e não mais puderam prosseguir na
palestra.
Deringhouse
sentiu que não poderia iniciar um debate no estado psicológico em
que se achava.
Mais uma
vez, lembrou-se da mensagem expedida pelo agente do planeta de
Aralon, que chegou mutilada à grande estação de hiper-rádio de
Fera Cinzenta. No entanto, quando cumprimentou Thora com um ligeiro
aceno de cabeça e sentou-se ao lado da esposa de Rhodan, o rosto do
general expressava alegria.
Como
sempre, a mutante Ishy Matsu manteve-se discretamente a distância.
Virou a cabeça para o lado, a fim de que ninguém pudesse ver seu
rosto e, forçando ao máximo suas faculdades telepáticas, procurou
captar os contatos extremamente débeis, a fim de conseguir ler
pensamentos claros, que lhe transmitissem alguma informação.
Conseguiu...
porém, imediatamente, o contato foi interrompido. A telepata viu
nisso uma prova de que o planeta era um obstáculo que se interpunha
entre ela e a pessoa com quem acabara de entrar em contato.
Deringhouse
fitava ansiosamente a tela, que continuava apagada. Subitamente
estremeceu e voltou a fitar Thora.
Seus olhos
passaram pelo rosto ligeiramente avermelhado, que revelava a tensão
íntima, e pousaram no elegante uniforme de comandante de couraçado
arcônida que Thora envergava.
Com esse
uniforme vistoso, Thora — membro da dinastia arcônida de Zoltral —
pretendia infundir respeito ao regente.
Será que
um mecanismo positrônico que ocupava cerca de 10 mil quilômetros
quadrados poderia impressionar-se?
As
insígnias da dinastia de Zoltral brilhavam suavemente em seus
ombros. Quando ela se erguesse, voltaria a ser uma arcônida cônscia
de sua personalidade. Agora, sentada na poltrona articulada,
aguardava o início das negociações com o cérebro positrônico.
Por isso, não notou o olhar de admiração de Deringhouse.
De repente
o general duvidou dos diagnósticos dos médicos em relação ao caso
Thora Rhodan. Em sua opinião, a regeneração das energias físicas
e psíquicas e o excelente estado de saúde que apresentava naquele
momento não poderiam representar a última cintilância de um
impulso vital em extinção.
Será que,
na verdade, não padecia de qualquer moléstia da classe das
leucemias ou dos efeitos de um carcinoma do tipo F Árcon? Ou a
tarefa, que voltara a dar uma finalidade à sua vida, produzira uma
verdadeira maravilha médica?
Deringhouse
ouviu alguém cochichar.
Olhou para
trás. Pasgin, Olavson e Merck estavam de pé e conversavam, ao que
tudo indicava a respeito de Thora. Os rostos dos três também
exprimiam espanto. Sentiam-se felizes por verem dona Thora tão
concentrada, sadia e vigorosa, à espera do início das negociações.
De repente
o perturbador modelo colorido surgiu na tela, logo seguido pela
conhecida abóbada metálica, onde achava-se o elemento mais
importante do gigantesco cérebro positrônico.
Mais uma
vez, o autômato pronunciou-se sem o menor intróito sobre a proposta
de Rhodan.
— O
pedido da Terra já está fora de cogitações, mas o Grande Império
está disposto a fornecer quarenta cruzadores leves e trinta pesados
do último tipo, além de vinte naves esféricas de quinhentos metros
de diâmetro e dez supercouraçados. Entrega imediata.
“A
título de contraprestação, deverão ficar subordinados ao Grande
Império: mil comandantes espaciais terranos, mil oficiais, dois mil
especialistas industriais, dois mil especialistas em mecanismos de
propulsão, armas de impulsos e de desintegração, e mais cinco mil
oficiais da frota terrana pertencentes a setores a serem
especificados.”
Thora, a
princesa da estirpe dos Zoltral e esposa de Perry Rhodan, perguntou
em tom frio e indiferente:
— O que
quer dizer com a expressão “ficar
subordinados”,
regente?
— Face à
situação existente nas linhas de bloqueio, o Grande Império vê-se
na contingência de fazer guarnecer os postos mais importantes em
nossas naves por tripulações terranas.
— Qual
será a posição que um comandante terrano ocupará num cruzador
pesado de Árcon, regente? — perguntou Thora sem a menor comoção.
Ao vê-la
reclinada na poltrona articulada, Deringhouse não pôde deixar de
manifestar a admiração que tributava a essa mulher e a sua postura
real. Colocou a mão sobre a de Thora e apertou-a ligeiramente.
Thora
agradeceu com um aceno de cabeça quase imperceptível. Sentiu que
esse gesto demonstrava aprovação da maneira pela qual ela estava
conduzindo as negociações.
— Os
comandantes terranos exercerão as funções de imediato nas naves
arcônidas, Thora de Zoltral! — respondeu o autômato.
— Não
podemos aceitar estas condições, regente, pois face à sua própria
natureza um terrano não concorda em submeter-se ao comando de um
robô.
Talvez a
voz do gigantesco cérebro positrônico tenha assumido uma tonalidade
irônica, quando ele respondeu:
— Essa
afirmativa não encontra apoio em qualquer elemento de prova. O
Grande Império realizou investigações minuciosas sobre a
mentalidade dos terranos.
Com estas
palavras, o computador gigante confessou pela primeira vez ter
realizado experiências em homens terranos, experiências estas que
inevitavelmente levariam à morte das vítimas.
— Não
tenho a intenção de distrair-me com bagatelas, regente — disse
Thora, descartando como que por acaso a terrível informação que o
regente acabara de fornecer. — Poderemos discutir a proposta ora em
exame, desde que os mil comandantes terranos também exerçam as
funções de comandante nas naves arcônidas.
Fez-se uma
rápida pausa.
Thora e
Deringhouse não se atreveram a olhar um para o outro. A esposa de
Rhodan, muito inteligentemente, voltou a falar para que o autômato
não recorresse aos bilhões de contatos positrônicos de seu
mecanismo, a fim de elaborar uma resposta à proposta formulada por
último.
— Mas,
antes de prosseguirmos nas negociações, na qualidade de
representante do sistema solar, comunico-lhe que se torna necessário
revogar a proibição de decolagem que nos foi imposta, regente!
— A
proibição permanece em vigor, Thora de Zoltral...
Thora
interrompeu o autômato:
— Meu
nome é Thora Rhodan, regente...
No mesmo
instante, o cérebro de Árcon III interrompeu a ligação.
— Isto
não foi muito hábil de minha parte — confessou Thora em tom
ligeiramente deprimido.
De início
Deringhouse sacudiu a cabeça, a título de contradita, mas logo
disse:
— É
indiferente que as negociações fossem interrompidas agora ou daqui
a dez minutos. Mas para convencer o cérebro de que somos uns
ingênuos tentaremos decolar. Não me arriscarei a apostar que a
decolagem não será bem sucedida. Vamos, Pasgin, Olavson. Não é
todos os dias que os tripulantes de uma nave terrana se colocam
voluntariamente numa situação ridícula. Vamos mostrar a esse
autômato e a seus súditos indolentes como a Burma é “fraca”.
Joe Pasgin
e Hendrik Olavson acomodaram-se nas poltronas dos pilotos. A ordem de
decolar foi transmitida pelo sistema de intercomunicação da nave. O
cérebro positrônico da Burma trabalhou com uma rapidez espantosa e
forneceu aos mecanismos os dados necessários à decolagem.
Seguiram-se as ligações efetuadas por Olavson, que também foram
processadas pelo computador de bordo.
Luzes de
controle acenderam-se. Dois aparelhos de alerta começaram a chiar. O
ruído dos mecanismos da nave, cuja potência foi aumentada,
modificou-se. O zumbido tornou-se um uivo agudo e misturou-se ao
ruído borbulhante dos propulsores da protuberância equatorial, que
se transformou num forte chiado.
— Decolar
com o empuxo normal! — disse Pasgin ao co-piloto.
Um ligeiro
tremor percorreu a nave, mas esta não se desprendeu do solo.
Energias tremendas seguravam-na. Era um gigantesco campo de sucção,
gerado evidentemente por projetores ocultos sob o gelo, e que
colocara correntes invisíveis em torno do cruzador ligeiro.
Deringhouse
lançou um olhar indagador para o oficial incumbido do controle de
decolagem. O oficial disse:
— Com o
empuxo normal o campo de sucção desenvolveu o dobro da potência da
nave, mas sua reação não foi muito rápida.
— Ah!
Suspender a tentativa, esperar dois minutos e ligar instantaneamente
para o empuxo normal. Precisamos tentar, senão ainda teremos de
pedir socorro ao chefe... Caramba, acho que o cérebro só espera por
isso! Caro autômato, sinto muito, mas não lhe faremos esse favor.
Olavson
puxou a chave mestra para a posição zero, mas logo impulsionou-a
para o lugar marcado “à
frente”.
A segunda
tentativa estava sendo iniciada.
A Burma
saltou para o alto como uma bola de borracha, mas antes que atingisse
a altura de cem metros, o campo de sucção foi regulado para sua
força de empuxo. Depois, desenvolvendo o dobro da energia da nave,
que aparentemente funcionava com o desempenho máximo, não só
obrigou esta a parar, mas a forçou a realizar outro pouso, que mal e
mal pôde ser controlado por meio dos apoios telescópicos.
Com
exceção de Thora e Deringhouse, que se sentiram entusiasmados com o
resultado da tentativa, os ocupantes da nave pareciam perturbados.
Ao que
parecia, o comandante arcônida de Mutral parecia incomodado com a
segunda tentativa de decolagem. Chamou pelo telecomunicador e
anunciou que um comando de robôs estava a caminho, a fim de
investigar as ocorrências verificadas a bordo da Burma.
Thora
colocou-se instantaneamente à frente da tela.
— Taa-rell,
acho que já nos conhecemos.
Taa-rell,
o arcônida de rosto balofo, fitou a orgulhosa mulher, que envergava
o uniforme de comandante.
— Senhora...
— gaguejou e ensaiou uma mesura.
— Taa-rell,
ordene imediatamente o regresso do comando de robôs! — impôs em
tom enérgico com a voz fria.
O arcônida
que se encontrava num subterrâneo da fortaleza de Mutral
contorcia-se.
— Senhora,
o envio do comando de robôs foi ordenado pelo Grande Coordenador.
Não posso revogar a ordem, pois, em virtude de suas programações,
os robôs estão submetidos diretamente ao regente. Peço
encarecidamente...
Com um
gesto furioso, Thora desligou. Soltou uma risada amarga.
— Pobre
Grande Império! — disse e sacudiu a cabeça.
Big Alden,
o oficial de armas da Burma, mostrou que não estava dormindo.
— Localização!
— disse pelo sistema de intercomunicação. — Cinqüenta máquinas
de guerra pesadas estão saindo do gelo. O que vamos fazer com elas,
general?
Joe Pasgin
ampliou a imagem ao máximo.
Uma coluna
de robôs de guerra arcônidas caminhava pesadamente sobre a
superfície acidentada de gelo. As fendas de vários metros de
largura não representavam qualquer obstáculo. Quem os visse saltar
por cima das mesmas acreditaria que eram artefatos levíssimos, não
máquinas que pesavam várias toneladas.
O
revestimento de aço de Árcon brilhou sob a luz ofuscante dos
refletores. Esse material era capaz de resistir a temperaturas até
30 mil graus, e praticamente não era afetado pelo frio, por mais
intenso que fosse.
— O
computador-regente nos está enviando uma representação — gritou
Pasgin para o oficial de armas da nave.
Big Alden
respondeu com uma praga de astronauta.
Subitamente
Deringhouse sentiu que alguém olhava para ele. Virou a cabeça.
Esquecera-se da presença de Ishy Matsu. Esta lhe fez um sinal
nervoso para que a seguisse.
Mas,
naquele momento, não poderia retirar-se.
Deu
imediatamente o alarma.
— Ativar
todos os robôs. Colocar vinte à frente da comporta número três.
Atrás deles outros trinta se manterão em reserva. Os outros
aguardarão ordens. Só três dos robôs arcônidas, que pretendem
visitar-nos, terão permissão de subir a bordo.
O
indicador de distância da tela de visão global mostrava que as
cinqüenta máquinas de guerra se encontravam perto dos campos
defensivos energéticos.
— Ali
também só deixaremos passar três! — disse Deringhouse. —
Pasgin, tenha cuidado para que esses autômatos armados não
aproveitem a suspensão da nossa barreira energética, a fim de
realizar um avanço. Para mim, um robô arcônida é capaz de
qualquer baixeza, e até hoje sempre me dei muito bem com minha
desconfiança.
Teve
oportunidade de voltar-se discretamente para a telepata.
Esta lhe
fez um sinal que exprimia máxima urgência.
“Venha
imediatamente!”,
parecia dizer. Deringhouse tomou sua decisão.
— Pasgin,
assuma o comando. Irei até a comporta. Obrigado; não preciso de
companhia. Dona Thora, em hipótese alguma a senhora poderá sair
daqui. As explicações serão dadas mais tarde.
Seguiu-se
uma verdadeira torrente de comandos. Depreendia-se que o general
considerava a visita dos robôs extremamente perigosa.
Uma vez
desencadeado o alarma, a ligação direta entre a sala de comando e
todos os compartimentos da nave iniciou-se.
Deringhouse
saiu da sala de comando. Ao passar perto de Ishy Matsu, disse como
que ao acaso:
— Ah,
poderá ir comigo, Ishy. Tenho um trabalho para você.
Mal a
escotilha da sala de comando fechou-se atrás deles, disparou a
pergunta:
— O que
houve?
Apesar da
pigmentação mongolóide, o rosto encantador de Ishy Matsu parecia
pálido.
— O
comando de robôs recebeu ordem para retirar o senhor e dona Thora da
nave. Se necessário, deverá recorrer à violência.
Deringhouse
achou essa afirmativa tão chocante que perguntou num tom apavorado e
desconfiado:
— Como
soube disso, Ishy?
A telepata
não se abalou.
— No
momento em que dona Thora conversava com o comandante da base,
consegui pela primeira vez captar alguns impulsos nítidos. Perto de
Taa-rell, encontram-se alguns aras, que receberam ordem do
computador-regente para interrogar o senhor ou dona Thora sobre a
posição galáctica da Terra. Receberam instruções para usar o
método da lavagem cerebral.
Big Alden,
oficial de armas da Burma, forneceu uma prova em apoio da afirmação
de Ishy Matsu.
— Chamando
o general! — soou sua voz potente nos alto-falantes do corredor. —
Localização energética. O planeta Mutral mobilizou todo o
armamento contra nossa nave.
No mesmo
instante, um furacão de fogo vindo de todos os lados desabou sobre a
Burma. Ao primeiro impacto dos feixes energéticos, alguns dos quais
mediam cinqüenta metros de diâmetro, os campos defensivos da nave
romperam-se.
Graças à
brevidade do furacão de fogo, a Burma não foi destruída sob o
impacto das energias liberadas. O ataque dirigia-se não contra a
nave, mas contra os campos defensivos. Porém o cruzador ligeiro já
não era a mesma nave que fora poucos segundos antes...
Deringhouse,
que correu de volta à sala de comando, ouviu o oficial de armas
berrar pelos alto-falantes:
— Todas
as armas inutilizadas. Bocas dos canhões destruídas.
Deringhouse
não vira o inferno. Por isso, não compreendia por que de repente a
Burma passou a pender para o lado.
No
interior da nave, as unidades energéticas começaram a rugir, os
conjuntos de conversores uivaram, e os propulsores começaram a
rumorejar.
A
escotilha, controlada por impulsos luminosos, abriu-se abruptamente.
Com um salto, o general colocou-se ao lado de Hendrik Olavson e
arrancou-lhe a chave de comando da mão.
— Não
precipitem nada, senhores — disse numa calma tamanha que até
parecia dispor de uma semana para tomar a próxima decisão.
Pegou o
microfone do sistema de intercomunicação e gritou:
— Aqui
fala o general. Não abram a comporta três. Controle instantâneo.
Contatos com os oficiais. Ativar robôs de trabalho. Desligo.
Tinha uma
tarefa especial para Alden, o oficial de armas que já não dispunha
de qualquer arma!
— Alden,
compareça à sala de comando. Olavson, por que a Burma está
inclinada?
— Devem
ter destruído alguns dos apoios telescópicos — respondeu o jovem
tenente numa raiva impotente.
— Quer
dizer que o ataque não foi dirigido contra a nave?
— Não.
Só estavam interessados em destruir nossos campos defensivos, para
que os robôs pudessem passar.
— Caramba,
Olavson, será que esta pancadinha nos colocou fora de ação? Por
que não aumenta a potência dos campos antigravitacionais para que a
Burma volte a ficar na posição normal?
Deringhouse
estava furioso.
— Os
conjuntos propulsores quatro, sete e onze também estão fora de
ação, general.
— Também?
Mais alguma coisa? Os geradores de campos antigravitacionais também?
O
telecomunicador chamou.
Mais uma
vez, o rosto balofo do comandante arcônida surgiu na tela. Thora,
que não saíra da poltrona articulada, encontrava-se frente a frente
com o comandante.
— Senhora
— disse o arcônida em tom submisso — peço-lhe que não impeça
a entrada dos robôs em sua nave. Ainda lhe peço encarecidamente que
a senhora e seu general coloquem os trajes espaciais e, acompanhados
dos robôs, compareçam à minha presença, para termos uma palestra.
Tudo esta sendo feito por ordem do Grande Coordenador, senhora.
As últimas
palavras, a explicação final, pareciam um grito angustiado.
— O que
é que o cérebro quer de nós? — perguntou Thora em tom áspero.
Teve um
pressentimento ditado pelo instinto e, com o rosto rubro de cólera e
os olhos chamejantes, disse a Taa-rell:
— Arcônida,
você está mentindo para mim. O que pretendem fazer com o general e
comigo? Arcônida, diga a verdade a mim, Thora, da dinastia de
Zoltral.
“Meu
Deus”,
pensou Deringhouse, totalmente perplexo e dominado por uma
insegurança nascida da esperança. “Thora
está bem de saúde, tão bem como qualquer pessoa a bordo. Está
rejuvenescendo a cada minuto que passa. Até parece que só agora o
elixir rejuvenescedor está fazendo efeito.”
Taa-rell
quase caiu sob as acusações de Thora. Seu rosto balofo revelava os
problemas de consciência com que se defrontava. Mas antes que
pudesse abrir a boca e responder qualquer coisa, outra pessoa que se
encontrava em sua companhia desligou o telecomunicador.
Thora
olhou para Deringhouse.
— Como
estão nossas chances? — perguntou com o maior sangue-frio.
Sua voz
soou forte como outrora. Apesar da situação ameaçadora, conseguiu
sorrir e, num gesto inimitável, afastar uma mecha de cabelo que lhe
caía na testa.
— Já
enfrentei situações piores — respondeu Deringhouse, esquivando-se
desesperadamente da pergunta.
— Quer
dizer que são más e...
Foi
interrompida por um anúncio do telecomunicador.
Os
geradores de campo antigravitacional voltaram a funcionar.
Thora
levantou-se de um salto. Irradiava energia e decisão. Seu rosto
tornou-se corado, sadio. Suas mãos, que em Vênus apresentavam uma
aparência carcomida, estavam fortemente irrigadas pelo sangue.
Hendrik
Olavson voltou a colocar a Burma na posição horizontal; a manobra
exigia uma boa dose de perícia, face à falta de um terço dos
apoios telescópicos.
— Propulsores
quatro e onze reparados! — soou uma informação vinda da
protuberância equatorial da nave. — Avarias do propulsor sete são
totais.
— Deringhouse
— Thora colocou a mão no braço do general. — Se existe um ser
orgânico que o computador-regente respeite, esse ser é meu marido.
Nesse
momento, Thora teria de saber da verdade.
— Todos
cometemos o erro de pensar assim, dona Thora! O cérebro positrônico
foi construído por cientistas arcônidas, para resguardar os
interesses do Império de Árcon. E foi programado exclusivamente com
esta finalidade. A concepção ética da amizade sempre lhe será
estranha, pois do contrário estaria agindo em desconformidade com
sua programação. E isso, dona Thora, é uma coisa de que um cérebro
positrônico jamais será capaz.
“Querem
que a senhora e eu compareçamos à presença de Taa-rell, a fim de
sermos submetidos à lavagem cerebral. O autômato de Árcon III
considera tão importante a descoberta da posição da Terra, que,
apesar da situação desesperadora que vem enfrentando junto à área
de superposição, está disposto a arriscar um ataque maciço do
Império Solar para obter essa informação.”
— Já
desconfiei de algo semelhante, quando chamei Taa-rell de mentiroso,
Deringhouse. Pelo que o senhor acaba de dizer, só nos resta uma
saída, a fuga precipitada. A que altitude conseguiremos chegar?
Os
oficiais da sala de comando fitaram-se. Sentiram-se impressionados
pela calma e coragem de dona Thora. Acabara de perguntar no tom mais
natural deste mundo em que altura a Burma se transformaria numa nuvem
de gases, depois de realizada a decolagem desesperada.
— No
momento, nosso problema são os cinqüenta robôs. Pode parecer
ridículo, mas o fato é que só podemos pensar na decolagem depois
que os robôs se tiverem retirado, e eles só se retirarão se a
senhora e eu formos com eles, ou...
Deringhouse
estacou. Refletiu intensamente.
— Sim,
devemos tentar isso. Sala de rádio, entre em contato com o
computador-regente. Transmita a mensagem com o sinal de urgência.
— Sinal
de urgência — repetiu o oficial de rádio pelo sistema de
intercomunicação.
— Sim
senhor.
7
A ligação
com Árcon III não foi completada.
Taa-rell
voltara a chamar para apresentar o ultimato.
O prazo
terminaria dentro de dez minutos.
Lá fora,
junto à comporta número 3, cinqüenta máquinas de guerra arcônidas
aguardavam o momento de ingressar na nave.
Os
geradores de campo antigravitacional da Burma emitiram um ruído mais
forte que antes, a fim de manter a nave na posição vertical.
Era
precisamente nisso que Deringhouse estava pensando.
— Onde e
como estão postados os robôs diante da nave? — perguntou numa
calma fingida.
A lente da
teleobjetiva da comporta 3 resistira bem ao furacão de fogo. E foi
dali que veio a informação desejada.
— Ah,
sim — acabou sendo esta a única reação de Deringhouse, que
deixou todos decepcionados.
Big Alden,
o oficial de armas que perdera o emprego, concluiu sua tarefa
especial. Voltou banhado em suor, mas isso não o incomodava.
Anunciou em tom de satisfação:
— Os
canais energéticos do setor de armamentos foram transferidos para as
fases dos propulsores. Os especialistas em mecanismos de propulsão
de impulsos garantem que a protuberância equatorial não se
desprenderá, general.
Deringhouse
fez como se não notasse os olhares indagadores que lhe eram lançados
de todos os lados.
— Faltam
sete minutos. Acho que já está na hora de fazermos alguma coisa,
senhores. Pasgin!
— Pois
não, general! — respondeu o imediato da Burma, olhando para
Deringhouse.
— Os
canais de comando das colunas telescópicas de apoio estão todos
interrompidos?
— Naturalmente.
— Muito
bem. Preste atenção às instruções que vou transmitir. Aqui fala
o General Deringhouse! — gritou para dentro do microfone do sistema
de intercomunicação. — Nos próximos minutos todos terão de
encontrar um lugar firme, que seja suficientemente seguro, para que
nada aconteça no caso de uma súbita modificação da posição da
Burma. Cuidado com os objetos que possam cair. Deverão ser
retirados. Desligo.
Pasgin e
Olavson pareciam ser os únicos que compreenderam as intenções do
general. Sorriram satisfeitos.
Deringhouse
chamou a comporta número 3.
— Encher
a comporta com nossos robôs. Assim que a Burma volte a erguer-se
faça sair nossos robôs em direção à entrada do abrigo da qual
vieram seus colegas arcônidas.
— Agora
já compreendo — disse Thora e acomodou-se na poltrona articulada.
Todos a imitaram, procurando um apoio seguro.
Quando
faltavam cinco minutos para escoar-se o ultimato, a Burma, controlada
pelas chaves que Pasgin manipulava no seu painel, encolheu
instantaneamente dois terços das colunas de apoio telescópicas.
No mesmo
momento todos os geradores de campo antigravitacional da nave foram
desligados. A escotilha número 3, que continuava fechada, entrou em
contato com o solo. O cruzador tombou para a frente e penetrou
profundamente no gelo do mundo de Mutral.
A esfera
de cem metros de diâmetro retumbou fortemente. Um barulho infernal
saiu das rochas primitivas desse mundo plutônico. Sob o calor
provocado pela pressão de milhões de toneladas, o gelo derreteu-se
e deixou que a Burma afundasse, até bater ruidosamente contra a
rocha.
O fato de
que, com isso, cinqüenta robôs arcônidas foram destruídos ou
danificados a ponto de serem transformados em sucata foi apenas um
lamentável efeito “colateral”
do fenômeno.
Mas o
plano de Deringhouse não deu certo...
Afundada
até a metade no gelo, a Burma já não estava em condições de
libertar-se com as próprias forças.
Deringhouse
logo reconheceu o erro.
Pelo
sistema de intercomunicação ordenou à comporta 1 que fizesse voar
trinta robôs ao mesmo tempo em direção ao objetivo.
A tela de
visão global ainda estava ligada para a ampliação máxima. Os
tripulantes fecharam apostas sobre o número dos robôs que
conseguiriam chegar à entrada das fortificações subterrâneas.
Todos
sabiam perfeitamente que as instalações arcônidas poderiam lançar
menos de um milésimo de seu potencial contra a Burma, já que tudo
fora montado para a defesa de ataques vindos do espaço. Apenas uns
poucos canhões poderiam atirar contra alvos situados na superfície.
Mas, ao
destruírem os campos defensivos ativados à potência máxima, os
arcônidas e seus robôs haviam dado uma prova do que eram capazes
mesmo neste terreno.
Trinta
máquinas de guerra terranas pairavam sobre seus próprios campos
antigravitacionais. Dirigiam-se e pensavam por eles mesmos. Vindas de
três direções diferentes, embora tivessem partido do mesmo ponto,
deslocavam-se vertiginosamente em direção ao objetivo.
Um feixe
energético bem espalhado saiu silenciosamente de uma das numerosas
aberturas escuras que se viam no gelo do mundo de Mutral.
Dois robôs
desmancharam-se em nuvens de gases. Um terceiro foi dividido em dois
pela força do raio e caiu.
Surgiram
mais dois raios, acompanhados de um forte trovejar. A rocha e o gelo
propagavam o ruído típico dos canhões de impulsos, que expeliam
raios escaldantes para o espaço.
Quatro
robôs foram atingidos ao mesmo tempo. Obedecendo à lei física da
inércia, transformaram-se em ofuscantes trajetórias luminosas.
— São
raios de desintegração — constatou Hendrik Olavson em tom de
surpresa, quando dois homens mecânicos se gaseificaram subitamente,
tornando visíveis os feixes de ondas mortíferas.
— Dois
robôs chegaram ao destino! — exclamou Merck em tom exultante, mas
logo se calou apavorado. No entanto, não tardou em descobrir que as
máquinas de guerra eram muito mais inteligentes do que acreditara.
Não havia
mais nenhum robô no ar. Num instante, as máquinas ainda intactas
desapareceram no meio das massas de gelo entrecortadas e passaram a
rastejar em direção ao objetivo à maneira de soldados de
infantaria.
— Ataque
da direita! — disse Merck em tom muito nervoso.
Oito robôs
arcônidas saíram repentinamente de uma entrada do abrigo que até
então permanecera invisível.
Os três
primeiros não chegaram a avançar cinco metros. Desmancharam-se sob
a ação dos raios térmicos. Mas depois disso a situação começou
a tornar-se crítica...
Mais duas
aberturas existentes no gelo cinzento passaram a expelir reforços
arcônidas!
Mais de
quarenta robôs defrontavam-se com vinte colegas vindos do planeta
Terra. Nenhum deles sabia o que era coragem ou covardia. Agiam em
conformidade com as instruções incluídas na programação.
— Soltar
o segundo grupo! — gritou Deringhouse para dentro do microfone.
Dali a
pouco, a comporta 1 anunciou a execução da ordem.
— Ordem
cumprida, general. Sondas-cápsulas colocadas fora da nave!
Nenhum dos
membros da equipe de comando percebera qualquer disparo. E ninguém
se atreveu a formular uma pergunta a Deringhouse. Apesar do pavor
inimaginável, o espetáculo das formações de robôs, que se
combatiam até a destruição, tinha algo de fascinante.
E era esse
espetáculo que decidiria se a Burma voltaria ou não a ver a Terra.
Thora
inclinou-se para Deringhouse e perguntou:
— Que
sondas-cápsulas são estas? Deringhouse respondeu num tom que quase
chegava a ser de ameaça:
— Daqui
a pouco, os arcônidas ficarão admirados, e seus computadores
enlouquecerão. Numa área de cerca de cinqüenta mil quilômetros
quadrados deste maldito mundo de gelo, nenhum aparelho de mira
fornecerá dados aproveitáveis aos canhões.
Thora se
mantivera afastada por tanto tempo do dia-a-dia do Império Solar que
não sabia o que fazer com essas palavras. Por isso resolveu pedir
explicações.
Mas teve
de esperá-las.
— Comportas
dois e quatro, soltar robôs.
Deringhouse
sentia-se tomado pela febre do caçador, porém, nem por isso, perdeu
o controle da situação. Lembrou-se da pergunta que teria de
responder.
— As
sondas-cápsulas são transmissores de interferência construídos
pelos swoons. Mas são bem melhores que aqueles que Muzel, o grande
amigo de Gucky, soltou em série no interior da Drusus. Olhe, Thora!
Os transmissores já estão funcionando. Viu este raio de impulso que
subiu quase verticalmente? Tomara que a Burma não seja atingida por
um infeliz acaso...
As fúrias
do inferno estavam às soltas no mundo gelado de Mutral!
Aquilo
que, no início, parecia não passar de uma missão de reconhecimento
dos robôs terranos, transformou-se numa luta arrasadora entre os
robôs de guerra da Terra e de Árcon que, graças à sua direção
positrônica, agiam com uma rapidez, precisão e coerência de que
nenhum ser humano seria capaz.
De
repente, Deringhouse teve a impressão de que a intensidade da
iluminação artificial do lado de fora estava diminuindo. Thora
observara melhor o fenômeno.
— Três
robôs avançaram na escuridão. Será que estão destruindo os
refletores?
Dali a
pouco, sua suposição se confirmou.
Mas, mesmo
na escuridão, os homens-máquina saberiam distinguir o amigo e o
inimigo.
Chamas
subiram para o céu, explosões gigantescas sacudiram a rocha e o
gelo, e uma pequena parte das fortificações subterrâneas foi
destruída numa nuvem avermelhada.
— Santo
Deus! — exclamou Merck em tom de surpresa. — Para onde é que
eles estão atirando?
— É um
ataque vindo do espaço! — afirmou o oficial que se encontrava
junto ao rastreador espacial. Mas logo viu que o aparelho, que lhe
poderia dar uma informação mais precisa a este respeito, se
encontrava bem à sua frente.
O
rastreador mantinha-se em silêncio.
— Meu
Deus, o que houve com a mira ótica dos arcônidas? — perguntou em
tom de perplexidade. — Contra quem estão atirando?
Merck
acabara de formular a mesma pergunta, e ele mesmo já a havia
respondido. Mas de tão espantado que estava, nem se deu conta disso.
Outros
canhões abriram fogo. Porém seus raios mortíferos apenas rasgavam
o céu e se mantinham nessa posição absurda. Na frente, atrás e ao
lado da Burma, que continuava mergulhada no gelo, em posição
inclinada, a superfície do mundo gelado de Mutral abriu-se e cuspiu
massas de aço de Árcon, fogo e incandescência atômica. Ao que
parecia, a reação em cadeia progredia em sete pontos distintos.
“Qual
será o efeito das ondas de compressão no interior das fortificações
subterrâneas?”,
indagou-se Deringhouse.
Não tinha
a menor esperança de que o comandante-chefe de Mutral e os médicos
galácticos vindos ao planeta por ordem do regente sobrevivessem ao
inferno.
Enquanto
lá fora tudo rugia e estalava, e enquanto valores imensos eram
destruídos numa questão de segundos, com a Burma por vezes
retumbando como um sino, Olavson fez mais uma tentativa para, por
meio do campo antigravitacional, libertar a nave de sua posição
anormal.
Entusiasmado
com o êxito, Hendrik Olavson começou a berrar como um menino muito
feliz:
— Estamos
saindo! O campo de sucção já não existe. Mais um pouco de força
nos geradores... mais um pouco... agora! Conseguimos...
A esfera
metálica de cem metros de diâmetro deu um salto, balançou
fortemente e foi parar sobre as colunas telescópicas de apoio...
“Decolar!”,
ia ordenar Deringhouse, que não se importava de deixar para trás
uma ou duas dezenas de robôs.
A ordem de
conseguir cem naves de guerra de Árcon era inexeqüível. A tarefa
que tinha pela frente consistia exclusivamente em levar a tripulação
da Burma para o espaço, sã e salva. Apesar disso, porém,
Deringhouse não chegou a dar a ordem de decolar.
Três
robôs terranos corriam em direção à nave.
Cada um
deles segurava nos braços metálicos um arcônida num traje
espacial.
— Não
decole, Deringhouse!
Deringhouse
lançou um olhar de perplexidade para Thora, que tinha a mão pousada
em seu braço. A pressão de seus dedos era bastante intensa. Sua voz
fora autoritária, mas não tivera a intenção de dar-lhe uma ordem;
apenas pretendia chamar sua atenção para os homens-máquina que se
aproximavam vertiginosamente.
Naquele
instante, Deringhouse duvidou seriamente da integridade de suas
faculdades mentais.
A mulher a
seu lado estaria mesmo doente? Mais do que isso, padeceria de uma
doença da classe das leucemias e do carcinoma tipo F Árcon?
Mas não
teve tempo para prosseguir nestas reflexões.
Os robôs
e suas presas mergulharam na sombra da Burma.
Naquele
instante, Mutral parecia explodir!
Um vulcão,
que lançou ao espaço repuxos de energia, irrompeu em meio ao gelo e
à rocha, arrancou gritos da terra e fez a Burma balançar, até que
os campos antigravitacionais absorvessem os solavancos do solo.
Numa
altura de vários quilômetros, o céu noturno ficou coberto de
chamas convulsas. As labaredas feitas de pura energia subiam
constantemente, lançavam ramos laterais que muitas vezes se
aproximavam perigosamente da nave terrana, privada de seus campos
defensivos, para esfacelar-se nas explosões mais fortes que se
seguiam.
A
gigantesca usina energética subterrânea, que devia fornecer a
energia para milhares de canhões, fora pelos ares. O forte
planetário de Mutral não poderia ter sofrido um golpe mais duro.
Mas a inutilização da gigantesca usina de força fatalmente haveria
de ocasionar a intervenção do computador-regente.
O vigésimo
sétimo planeta do sistema de Árcon, que era o último, formava um
mundo armado até os dentes e, tal qual todo o enorme sistema
defensivo do Império, consagrado numa experiência de vários
milênios, mantinha contato ininterrupto com Árcon III.
Era
impossível que o gigantesco cérebro deixasse de registrar a falha
dessa estação energética. E os homens do Império Solar conheciam
perfeitamente seu modo de agir.
— Decolagem
de emergência! — gritou Deringhouse.
Seu apelo
superou o rugido das rochas que voavam para todos os lados.
A comporta
número dois transmitiu uma informação, mas esta submergiu em meio
à barulheira infernal.
O imediato
da Burma teve de ceder lugar ao general. Hendrik Olavson manipulou os
controles com uma rapidez tremenda. Os projetores de campos
defensivos emitiram um chiado curto e penetrante, superando todos os
outros ruídos.
Depois
disso, os potentes campos energéticos voltaram a envolver o
cruzador, que disparava espaço a fora com o desempenho máximo dos
mecanismos propulsores.
— Localização
pelo rastreador, general. Oito unidades vindas do amarelo.
Era a
resposta do computador-regente à destruição de uma das numerosas e
potentes usinas energéticas de Mutral. O gigantesco cérebro
positrônico pusera em ação oito naves de guerra tripuladas por
robôs.
— Aproximação
do verde e do amarelo. Quatorze unidades.
Agora a
Burma passou a dar prova de sua tremenda capacidade de aceleração.
E isto provava que todo o equipamento da nave estava subordinado a
essa finalidade primordial. O computador preparava os dados para o
salto.
Um minuto
já se passara desde a decolagem. A Burma desenvolvia quase um terço
da velocidade da luz. Mutral caíra no espaço que nem uma pedra, mas
agora o planeta voltava a golpear.
Um raio
térmico de diâmetro inacreditável passou a 123°45’ de bordo, a
um quilômetro da nave. Os homens da sala de comando nem tiveram
tempo para respirar.
A sala de
rádio avisou:
— Chamado
do cérebro. Exige nosso regresso para Mutral.
— Quero
que o cérebro vá para o inferno — disse uma voz enraivecida e
enérgica de mulher.
Os olhos
de Thora Rhodan chamejavam, e estavam fitos na escala que registrava
a aceleração da veloz Burma.
— Vire
para phi,
Olavson — gritou Deringhouse em tom nervoso.
Sabia
perfeitamente que, se conseguissem escapar desse inferno, teriam de
agradecer exclusivamente à sensibilidade genial de Olavson. Se...
Os
neutralizadores de pressão chiaram. Uma luz de advertência vermelha
acendeu- se junto ao grande painel de controle. Três sereias de
alarma soaram. Olavson bateu com a mão esquerda contra a chave do
conjunto principal.
Na Burma,
energias infernais começaram a rugir.
A escala
da aceleração subia vertiginosamente. Com toda essa velocidade, o
cruzador ligeiro descreveu uma curva inacreditável.
Subitamente,
uma parede incandescente de energia aproximou-se mais depressa do que
o olho humano poderia acompanhá-la. Quatro naves da classe Império
haviam disparado suas salvas de costado contra a pequena Burma...
Apenas, deixaram de considerar a repentina mudança de rota do
cruzador terrano!
Os últimos
feixes energéticos rasparam o campo defensivo como se fossem um
hálito infernal. Mesmo esse ligeiro contato foi suficiente para
levar o desempenho dos respectivos geradores acima da marca dos cem
por cento.
A sala de
comando transformou-se num inferno de luzes vermelhas e de sereias de
alarma.
“Tomara
que a Burma não exploda, e que a protuberância equatorial da nave
não se desprenda...”,
pensou Olavson.
Mutral
voltou a disparar...
Teriam
sido atingidos?
O corpo da
nave retiniu como um sino, mas não se desfez numa reação nuclear.
— Localização
no azul...
A potência
dos campos energéticos voltara a reduzir-se para cem por cento, mas
a dos propulsores chegava a 107.
Deringhouse
estava coberto de suor. Seus olhos ardiam. O olhar ligeiro que lançou
para Olavson, que mantinha uma estranha calma no assento de
co-piloto, não conseguiu tranqüilizá-lo.
Nesse
instante, o mecanismo de contagem regressiva do computador de bordo
iniciou sua atividade.
Faltavam
trinta segundos para a transição. Ao que parecia, Árcon sabia
disso.
Mutral,
que já desaparecera na semi-escuridão, ainda disparava com todas as
armas contra a nave fugitiva do planeta Terra. E mais de trinta
unidades arcônidas aproximavam-se em vôo concêntrico, vindas de
todos os lados.
As mãos
de Hendrik Olavson desfilavam ligeiras sobre o grande painel de
comando. O toque de seus dedos faziam executar manobras tresloucadas,
que dificilmente outra nave jamais fizera. Sempre havia alguma coisa
sobrecarregada no cruzador ligeiro: eram os propulsores, ou o campo
antigravitacional, os projetores de campo defensivo, os
neutralizadores de pressão. Era mesmo de admirar que a protuberância
equatorial ainda não se tivesse desprendido.
Faltavam
dez segundos para o salto!
Nessa
altura foram “recepcionados”
por um forte espacial.
Era um dos
cinco mil que formavam um cinturão de segurança em torno do
sistema, situado atrás do último planeta, a vinte horas-luz de
Árcon.
Cinco
raios de impulso passaram perto da nave. Ao que parecia, a Burma se
precipitava para a destruição.
Finalmente
chegou o momento da transição.
E no
instante em que efetuavam o salto para o hiperespaço, a nave foi
atingida; atingida em cheio...
O impacto
se verificou, quando a Burma desmaterializava.
Todo o
volume energético de um raio desintegrador, disparado por uma das
peças do supercouraçado arcônida, realizou uma união natural com
a energia empregada no salto da Burma. O efeito destrutivo foi
eliminado, mas a energia do salto do cruzador ligeiro foi
multiplicada.
A
tripulação sentiu-se dominada pelo martirizante choque da
transição. Apenas Thora parecia não ter sido afetada pelo mesmo.
E foi ela
quem exclamou em tom apavorado, enquanto os homens da sala de comando
ainda lutavam contra o mal-estar físico:
— Estamos
correndo para dentro de um sol!
De todos
os lados, a grande tela de visão global despejava torrentes de luz
para o interior da sala de comando da Burma. Mais uma vez, foi
Hendrik Olavson quem reagiu imediatamente.
Realizou
uma transição de emergência, sem dados para o salto e sem formular
maiores indagações. Só depois de voltar pela segunda vez ao espaço
normal, passou a mão pelos olhos e perguntou:
— Será
que deveria ter aguardado instruções suas, general?
Antes de
responder, Deringhouse observou a grande tela de visão global. O sol
para o qual corriam há poucos segundos estava reduzido a um
minúsculo disco luminoso.
— Voar
com o senhor é um verdadeiro “martírio”,
Olavson — disse Deringhouse, colocando as mãos no ombro do
co-piloto, num gesto de reconhecimento. — Como foi que recebemos
dados incorretos para o salto e, por pouco, não saímos do
hiperespaço para o interior de um sol?
No curso
dos decênios e durante suas inúmeras missões, os homens de Perry
Rhodan tiveram oportunidade de familiarizar-se com os fenômenos mais
estranhos.
Mas o
retorno do hiperespaço, com a simultânea rematerialização no
interior de um sol, era um fato inteiramente novo.
Formulou-se
uma indagação ao computador de bordo. O oficial junto ao rastreador
estrutural lançou um olhar desconfiado para seu instrumento.
— Não
há mais nenhuma localização, general. E olhe que penetramos no
hiperespaço sem ligar o neutralizador de vibrações, não é mesmo?
O tom em
que foram proferidas estas palavras parecia de perplexidade, e
Deringhouse lançou um olhar pensativo para o homem que se encontrava
junto ao aparelho de localização.
Em meio ao
silêncio provocado pela curiosidade sobre o que diria o computador,
soou a informação vinda da comporta 2.
— Nossos
robôs trouxeram o comandante-chefe Taa-rell e dois aras.
— O
chefe vai ficar feliz! — exclamou Merck.
Deringhouse
mordeu o lábio.
— E como
Rhodan vai ficar feliz! — disse. — Temos de voltar logo com um
arcônida e dois aras. Preferia levar-lhe cem naves novinhas em
folha. Caramba! O que vamos fazer com eles? Não podemos levá-los de
volta.
— Cuidarei
deles.
A decisão
foi de Thora, que logo saiu e fechou a escotilha atrás de si. Os
homens da sala de comando seguiram-na com os olhos, sem dizer uma
palavra. Alguns deles sacudiram a cabeça, num gesto de perplexidade.
Deringhouse
resmungou:
— Gostaria
de saber o que os médicos constataram em dona Thora. Se ela está
doente, nós estamos prestes a morrer. Haja alguém que compreenda
uma coisa destas. Desisto!
O
computador da Burma também desistiu. Limitou-se a pedir novos dados.
Segundo informou, não conseguia chegar a resultado algum com os
dados de que dispunha.
Foi então
que Deringhouse — um homem que se mantinha jovem graças à ducha
celular que lhe fora aplicada no planeta Peregrino, mas que em
experiência envelhecera mais de seis decênios — enganou toda a
tripulação...
Formulou
uma tarefa para o computador de bordo.
Havia uma
distinção acentuada entre seu problema e o anterior. Não
desconfiava de que, durante a primeira desmaterialização, quando se
adaptara quase completamente à configuração energética do
hiperespaço, a Burma sofrerá o impacto direto de um disparo de
canhão de um dos supercouraçados arcônidas.
O
computador de bordo teve grande dificuldade em responder à pergunta,
pois não conseguia absorver tão depressa o fato de que, ao
desmaterializar-se, a Burma levara ao hiperespaço todo o volume
energético do disparo, convertido num acréscimo indesejável de
100% na energia do salto.
— Quem
dera que alguém dissesse onde estamos! — exclamou o astronavegador
com um gemido.
Lançou um
olhar desconfiado para Hendrik Olavson.
Mas o
jovem tenente não se abalava por tão pouco.
— O fato
é que todos estamos vivos, e não se vê nenhuma nave arcônida.
Acho que é isto que vale.
Face a
isso, o comandante-chefe Taa-rell e os dois médicos galácticos
transformaram-se em personagens de segunda ordem. Quase toda a equipe
estava reunida na sala de comando, cercando o computador e esperando
que este fornecesse o resultado.
Finalmente
a fita de plástico apareceu na fenda de saída. Deringhouse pegou-a
apressadamente. Um pressentimento vago fê-lo acomodar-se na poltrona
antes de passar à leitura. Os sinais codificados lhe eram tão
familiares como sua letra.
Subitamente
empalideceu. Teve de realizar um esforço tremendo para compreender o
que o computador de bordo acabara de afirmar. Com a voz pesada e
deprimida disse:
— Senhores,
vamos deixar este problema para nossos físicos. Por favor, não me
perguntem por que ainda existimos.
Merck foi
o último a estudar a fita de plástico.
— Isto...
até parece que... parece que alguém saltou para fora de um quarto
e, durante o salto, levou um pontapé, para saltar mais depressa.
Gastaram
meia hora para determinar a nova posição da nave. Aqueles homens
não se sentiam muito orgulhosos com o novo recorde. Num único salto
haviam percorrido 15 mil anos-luz.
A
distância entre a Terra e o sistema de Árcon era de 34 mil
anos-luz. E agora encontravam-se a 49 mil anos-luz do Império Solar,
e o grupo estelar M-13 ficava entre eles e a Terra.
Por
ocasião do primeiro salto, a Burma certamente sofrerá num dos
planos um desvio de rota de cento e oitenta graus, motivo por que
cruzou o hiperespaço em sentido oposto. Sem dúvida as estações de
vigilância espacial de Árcon não deixaram de registrar o abalo
estrutural provocado pelo cruzador leve do planeta Terra, mas por
certo não estabeleceram qualquer ligação entre o fenômeno e a
nave Burma. As naves arcônidas tripuladas por robôs poderiam estar
procurando o cruzador ligeiro em qualquer lugar, menos num ponto
situado 15 mil anos-luz atrás de seu sistema.
— Podemos
preparar a próxima transição com toda calma — ordenou
Deringhouse. — Mas, desta vez, ligaremos o neutralizador de
vibrações. Quero chegar à Terra sem incidentes, e de lá pretendo
ir a Vênus. Preciso conversar com o Dr. Villnoess! Ele nem desconfia
do que o espera...
Suas
palavras não prenunciavam nada de bom, embora Deringhouse tivesse
motivos de sobra para alegrar-se com o milagre que acabara de
acontecer com Thora Rhodan. Mas também recordou-se de suas
preocupações e angústias, pois não se esqueceu da advertência de
Villnoess:
“— Quanto
mais sadia dona Thora parecer, mais doente estará...”
Levantou-se.
— Pasgin,
assuma. Vou dar uma olhada nos “visitantes”.
A caminho
do camarote de Thora encontrou-se com os médicos de bordo, cujos
rostos exprimiam espanto e confusão. Vinham da direção em que
ficava o camarote da arcônida.
— Então?
— limitou-se Deringhouse a perguntar.
O Dr.
Brain fez um gesto de perplexidade.
— General,
nós... bem, o que quero dizer é que ou eu e meus colegas somos uns
ignorantes, ou então houve um milagre com dona Thora...
— Tolice
— interveio o Dr. Elslow em tom exaltado. — Não existe milagre.
Mantenho a opinião de que os sinais de leucemia e o chamado
carcinoma F Árcon não foram outra coisa senão reações
retardatárias contra o soro prolongador da vida, que há bastante
tempo John Marshall e a mutante Marten foram buscar em Tolimon, um
mundo dos aras. Será que as coisas podem ser diferentes, senhores?
Qual foi o resultado do hemograma geral? E da radioscopia? Pois
então...
O Dr.
Elslow defendia energicamente sua opinião, e seus colegas pareciam
impressionados. Deringhouse, que era leigo em medicina, preferiu não
participar da discussão.
— Senhores,
gostaria de saber uma coisa: dona Thora está doente ou não? Como
militar não estou interessado no porquê nem no como.
— General,
de acordo com os resultados de nosso último exame realizado com dona
Thora, aliás acabamos de estar com ela, não só está bem de saúde,
mas vai rejuvenescendo. Realizamos testes do tecido celular com os
aparelhos de análise dos aras. Não compreendo! Só vi esse tipo de
reação nos tecidos celulares de moças jovens, de menos de vinte
anos.
O Dr.
Brain custou um pouco a compreender por que Deringhouse lhe bateu no
ombro e, assobiando alegremente, caminhou em direção ao camarote de
Thora.
— General
— gritou o Dr. Elslow. — O senhor quer falar com dona Thora? Ela
já voltou ao convés H, a fim de prosseguir no interrogatório dos
dois aras e do arcônida Taa-rell.
Deringhouse
fez meia-volta, deixou que o elevador antigravitacional o levasse ao
convés H e dirigiu-se ao recinto destinado à guarda dos
prisioneiros.
Ficou
contrariado ao perceber que o robô de vigilância se encontrava à
frente da porta da cela, o que contrariava todas as regras de
segurança.
O
homem-mecânico deixou livre a passagem sem que Deringhouse o
pedisse. Deringhouse abriu a porta e ouviu um grito estridente:
— Sua
traidora!
No mesmo
instante, viu o raio de uma arma de impulsos!
Tirou, num
gesto instintivo, sua arma de radiações e disparou contra o homem
de pernas compridas que se encontrava de costas para ele.
O grito de
Thora fê-lo passar de um salto ao lado do ara que caía ao solo e
esbarrar na mutante Ishy Matsu.
Os dois
viram que Thora Rhodan caía ao chão, mortalmente atingida...
— Meu
Deus! Os médicos! Rápido! — gritou Deringhouse em tom de pânico.
Acontece
que na cela não havia nenhum botão de alarma.
Ajoelhou-se
ao lado de Thora, enquanto Ishy Matsu saía correndo.
Levantou
cautelosamente a cabeça da esposa de Rhodan.
Como seu
rosto voltara a ser jovem! Mas agora estava terrivelmente pálido.
Uma palidez apavorante.
Abriu os
olhos. Seus olhares encontraram-se. Thora procurou sorrir.
Sorriu.
— Perry
— disse num cochicho. — Já irei para junto de você, Perry.
Aperte-me nos seus braços, Perry...
Deringhouse
pensou que devia gritar “não”,
mas sua boca permaneceu muda. Thora mantinha a cabeça pousada em seu
colo, e a luz de seus olhos empalidecia cada vez mais.
— Perry...
— disse num sopro.
— Onde
estão os médicos? — perguntou Deringhouse em tom de desespero.
— Perry,
você é um grande homem! Como sua terra é linda! Thomas... Perry!
Perry!
O Dr.
Brain entrou correndo, seguido de perto pelo Dr. Elslow. Viram o
movimento mole com que Thora virou a cabeça para a parede e viram a
ferida mortal.
Só depois
viram o assassino de Thora, um médico galático gravemente ferido.
Não
puderam fazer mais nada por Thora Rhodan. Mas os médicos do planeta
Terra agiram em conformidade com seu juramento e fizeram tudo para
salvar a vida do criminoso.
Dominado
pela dor e pelo desespero, o General Conrad Deringhouse ajoelhou ao
lado da morta, que ele tanto venerara.
Não
compreendia.
Não
compreendia como aquela arma fora parar nas mãos do ara; não
compreendia por que, só há poucos minutos, os médicos de bordo lhe
haviam dito que Thora passava por um processo de rejuvenescimento...
Muito
perturbado, olhou para o rosto pálido, em cujos lábios se via um
sorriso de saudade.
“Ela
chamara por ele... por Rhodan...”,
foi o que conseguiu pensar.
Deringhouse
engoliu em seco. Sentiu-se incontrolavelmente desesperado.
8
Voaram
para Fera Cinzenta.
Dali
dirigiram-se à Terra, inclusive Ishy Matsu, a mutante débil e
graciosa, que se vivia acusando ininterruptamente. Acreditava ser a
assassina de Thora, pois foi com sua arma que o ara matou a esposa de
Perry Rhodan. O médico galático lhe tirara a pistola do cinto
enquanto passava por ele e, antes que suas faculdades telepáticas
lhe permitissem detectar o pensamento assassino, o raio mortífero
atingiu Thora.
Perry
Rhodan encarregou-se do velório.
Ficou a
sós com a morta. Tivera força suficiente para consolar Ishy Matsu.
Dissera que tudo não passara de uma trágica coincidência. Mas não
conseguiu consolar a si mesmo.
Ficou
sentado ao lado do corpo embalsamado e fitou seu rosto jovem, que,
naquele momento, era de uma beleza irreal.
Ficou
assim durante horas.
Durante
dias!
E durante
esses dias, um mausoléu surgiu no ponto da lua terrana em que Thora
de Zoltral, a comandante de uma nave exploradora arcônida, tivera de
realizar um pouso de emergência. Não se tratava de um monumento
suntuoso. Seu efeito provinha da simplicidade e da singeleza das
linhas.
Era a
expressão, concretizada em pedra, aço e plástico, de quem fora
Thora Rhodan!
Thora
Rhodan, a boa alma do Império Solar!
Será que
Perry Rhodan já deixara de pensar na área de superposição, nos
perigos que ameaçavam a Galáxia?
Será que
o golpe do destino o derrubara — a ele, o administrador de um
império em expansão?
Bell, seu
melhor amigo, não conseguiu libertá-lo da dor.
Crest, que
com Thora fora o único sobrevivente da expedição arcônida, já
não sabia o que fazer da vida. Depois que a Burma pousou em Fera
Cinzenta, alguém dissera que, ao ser assassinada, Thora fora uma
mulher jovem e sadia.
Rhodan
nunca deveria saber disso.
Mas Rhodan
descobriu; e descobriu toda a verdade. O boato tinha um fundo de
verdade, e aquilo que antes fora apenas um boato tornava ainda mais
trágica a morte de Thora.
A Drusus
levou o cadáver de Thora à Lua.
Pai e
filho encontraram-se junto ao túmulo da mãe e esposa. Perry Rhodan
estendeu a mão ao filho, e os olhos do homem mais poderoso do
Império pediram perdão a Thomas Cardif, um tenente da frota
espacial com vinte e quatro anos de idade.
Thomas
Cardif fez como se não visse o olhar, nem a mão que lhe era
estendida.
Ao lado de
um homem dilacerado pela dor encontrava-se um jovem bastardo, frio,
orgulhoso e presunçoso. Era dominado pelo sangue da mãe. Ela, que
crescera para além de si mesma, transformando-se na boa alma do
Império Solar, não mais via a hora de amargura do marido.
Muito
lentamente, Perry Rhodan foi retirando a mão.
Mais uma
vez, viu o jovem que se encontrava a seu lado, e que era seu filho de
carne e osso, da cabeça aos pés. Depois voltou a enxergar através
do material transparente o rosto rígido e amoroso de Thora.
Não viu
que Reginald Bell, um bom homem, mas muito impulsivo, apertou o pulso
de Thomas Cardif e o obrigou por meio da pressão inexorável de seus
dedos a colocar-se atrás do pai, cuja mão se recusara a apertar.
Thomas
Cardif veio para perto de Crest, o arcônida. E então teve de ouvir
duas palavras que Crest pronunciou como se fossem uma maldição:
— Seu
arcônida!
Ninguém
desconfiava de que Perry Rhodan também pensava em Árcon.
Pensava no
grande computador, naquele monstro positrônico que cobria uma área
superior a 10 mil quilômetros quadrados, e que, com sua fria lógica,
governava um gigantesco império cósmico.
Meio
inconsciente, ainda sob os efeitos do tremendo abalo, Rhodan sentiu
cristalizar-se em sua mente um pensamento de ódio, cujo alcance
ainda não percebia. Mas logo tudo se tornou confuso e
irreconhecível; só restava a certeza de estar só.
Naquele
instante olhou para o lado.
E viu, em
vez do filho, o amigo Reginald Bell!
E bilhões
de seres humanos que fitavam as telas viram que o rosto enrijecido de
Perry Rhodan se descontraiu, parecendo suspirar aliviado.
Bilhões
de seres humanos perceberam, na hora mais amarga de Perry Rhodan, que
o administrador do Império Solar era um homem como qualquer outro...
* * *
* *
*
Thora,
que já fora inimiga implacável dos terranos, para depois
transformar-se na boa alma do Império Solar... morreu!
E sua
morte representa o início de uma série de rudes golpes para o
administrador do Império Solar!
Em O
Inferno Atômico, título do próximo volume da série, sérios
problemas têm de ser resolvidos.

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