quinta-feira, 18 de agosto de 2016

P-078 - O Sacrifício de Thora - Kurt Brand [Parte 3]

A comunicação foi interrompida. A tela voltou a apagar-se. Deringhouse voltou-se para os homens que se encontravam na sala de comando.
Acho que, com isso, já estamos suficientemente informados sobre nossa situação. Por enquanto não vejo nenhum perigo. Só nos resta esperar até que o Grande Coordenador queira conversar conosco.
A escotilha abriu-se. Deringhouse tinha certeza de que era Thora. Quando viu que, quem acabara de entrar, era a delicada telepata japonesa, logo se sentiu preocupado.
A jovem lançou-lhe um olhar penetrante, quase autoritário.
General, há uma hora venho captando impulsos perigosos, cada vez mais intensos. Será que neste mundo de gelo existem aras?
Deringhouse sentiu-se alarmado com a pergunta.
A mensagem mutilada de nosso agente no planeta Aralon”, pensou apavorado. Falando em voz alta, disse:
Venha comigo, Ishy!
Dali a pouco, estavam sentados frente a frente, no camarote de Deringhouse.
De que tipo são os impulsos perigosos, Ishy? Acho que não se esqueceu de quem você deve proteger!
Estas frases deram início a uma série de perguntas. Ishy Matsu não se abalou.
Os impulsos estão cheios de perigo. Não consegui ler claramente os pensamentos nem fui capaz de reencontrá-los. Até parece que o planeta Mutral se interpôs com sua massa entre mim e os outros seres. Não consigo encontrar outra explicação, general.
O sistema de intercomunicação interrompeu a palestra com um chamado da sala de rádio.
O cérebro está falando com alguém em Mutral. Infelizmente nosso interceptador falhou. Árcon III limitou-se a transmitir três impulsos condensados.
Deringhouse lembrou-se da suspeita que a mutante acabara de manifestar.
O senhor seria capaz de determinar a posição da estação deste planeta de gelo?
O homem que se encontrava na sala de rádio respondeu prontamente:
Fica nas antípodas, general. Quer os dados precisos?
Não, obrigado.
O alto-falante ficou em silêncio. Deringhouse e a mutante fizeram um gesto de compreensão.
Em hipótese alguma solicitarei a interferência de dona Thora — decidiu o general.
A telepata objetou em tom exaltado.
Se fizer isso, prepare-se para levar um cadáver à Terra. Dona Thora não seria capaz de superar uma decepção dessas. O senhor sabe que é culpado porque de repente dona Thora voltou a ter o aspecto doentio, general?
Eu? — indagou Deringhouse em tom de repulsa, mas não conseguiu libertar-se de um vago sentimento de culpa.
Sim, o senhor. Tudo aconteceu porque pediu a dona Thora que permanecesse fora do ângulo de visão da objetiva e fez questão de conversar sozinho com o computador-regente.
Naquele momento, o sistema de intercomunicação voltou a chamar:
General, o cérebro quer falar com o senhor. Dona Thora o espera na sala de comando.
Deringhouse viu neste último fato uma providência do destino.
Venha comigo, Ishy, e cuide bem de Thora. Pedirei a ela que conduza as negociações. Peço-lhe que me dê um aviso assim que a conversa em torno das cem naves se torne demais para ela. Se isso acontecer, entrarei na linha e... O que houve?
Enquanto caminhavam em direção à sala de comando, Ishy Matsu empalideceu de repente. No momento em que formulava a pergunta, Deringhouse compreendeu que a telepata estava captando novos impulsos.
O contato com os cérebros estranhos durou apenas alguns segundos, e, durante esses segundos, o rosto de Ishy Matsu transformou-se numa máscara. Quando fitou Deringhouse, não havia o menor sinal de percepção extra-sensorial nesse rosto.
Um grupo de aras chegou a Mutral, general. E sua chegada se relaciona com nossa presença no planeta. Infelizmente não consegui descobrir...
Positivo ou negativo? — perguntou Deringhouse laconicamente, embora conhecesse a resposta de antemão.
Negativo. Raramente vi tamanho ódio concentrado em pensamentos como neste contato. Os aras? Não são os médicos galácticos, verdadeiros gênios em sua área?
Deringhouse disse em tom enfático:
Acontece que os aras se esquecem constantemente dos deveres éticos que um médico deve cumprir. Descendem dos arcônidas e são tão degenerados quanto estes. Infelizmente, essa degenerescência teve reflexos criminosos.
Chegaram à escotilha da sala de comando e não mais puderam prosseguir na palestra.
Deringhouse sentiu que não poderia iniciar um debate no estado psicológico em que se achava.
Mais uma vez, lembrou-se da mensagem expedida pelo agente do planeta de Aralon, que chegou mutilada à grande estação de hiper-rádio de Fera Cinzenta. No entanto, quando cumprimentou Thora com um ligeiro aceno de cabeça e sentou-se ao lado da esposa de Rhodan, o rosto do general expressava alegria.
Como sempre, a mutante Ishy Matsu manteve-se discretamente a distância. Virou a cabeça para o lado, a fim de que ninguém pudesse ver seu rosto e, forçando ao máximo suas faculdades telepáticas, procurou captar os contatos extremamente débeis, a fim de conseguir ler pensamentos claros, que lhe transmitissem alguma informação.
Conseguiu... porém, imediatamente, o contato foi interrompido. A telepata viu nisso uma prova de que o planeta era um obstáculo que se interpunha entre ela e a pessoa com quem acabara de entrar em contato.
Deringhouse fitava ansiosamente a tela, que continuava apagada. Subitamente estremeceu e voltou a fitar Thora.
Seus olhos passaram pelo rosto ligeiramente avermelhado, que revelava a tensão íntima, e pousaram no elegante uniforme de comandante de couraçado arcônida que Thora envergava.
Com esse uniforme vistoso, Thora — membro da dinastia arcônida de Zoltral — pretendia infundir respeito ao regente.
Será que um mecanismo positrônico que ocupava cerca de 10 mil quilômetros quadrados poderia impressionar-se?
As insígnias da dinastia de Zoltral brilhavam suavemente em seus ombros. Quando ela se erguesse, voltaria a ser uma arcônida cônscia de sua personalidade. Agora, sentada na poltrona articulada, aguardava o início das negociações com o cérebro positrônico. Por isso, não notou o olhar de admiração de Deringhouse.
De repente o general duvidou dos diagnósticos dos médicos em relação ao caso Thora Rhodan. Em sua opinião, a regeneração das energias físicas e psíquicas e o excelente estado de saúde que apresentava naquele momento não poderiam representar a última cintilância de um impulso vital em extinção.
Será que, na verdade, não padecia de qualquer moléstia da classe das leucemias ou dos efeitos de um carcinoma do tipo F Árcon? Ou a tarefa, que voltara a dar uma finalidade à sua vida, produzira uma verdadeira maravilha médica?
Deringhouse ouviu alguém cochichar.
Olhou para trás. Pasgin, Olavson e Merck estavam de pé e conversavam, ao que tudo indicava a respeito de Thora. Os rostos dos três também exprimiam espanto. Sentiam-se felizes por verem dona Thora tão concentrada, sadia e vigorosa, à espera do início das negociações.
De repente o perturbador modelo colorido surgiu na tela, logo seguido pela conhecida abóbada metálica, onde achava-se o elemento mais importante do gigantesco cérebro positrônico.
Mais uma vez, o autômato pronunciou-se sem o menor intróito sobre a proposta de Rhodan.
O pedido da Terra já está fora de cogitações, mas o Grande Império está disposto a fornecer quarenta cruzadores leves e trinta pesados do último tipo, além de vinte naves esféricas de quinhentos metros de diâmetro e dez supercouraçados. Entrega imediata.
A título de contraprestação, deverão ficar subordinados ao Grande Império: mil comandantes espaciais terranos, mil oficiais, dois mil especialistas industriais, dois mil especialistas em mecanismos de propulsão, armas de impulsos e de desintegração, e mais cinco mil oficiais da frota terrana pertencentes a setores a serem especificados.”
Thora, a princesa da estirpe dos Zoltral e esposa de Perry Rhodan, perguntou em tom frio e indiferente:
O que quer dizer com a expressão “ficar subordinados”, regente?
Face à situação existente nas linhas de bloqueio, o Grande Império vê-se na contingência de fazer guarnecer os postos mais importantes em nossas naves por tripulações terranas.
Qual será a posição que um comandante terrano ocupará num cruzador pesado de Árcon, regente? — perguntou Thora sem a menor comoção.
Ao vê-la reclinada na poltrona articulada, Deringhouse não pôde deixar de manifestar a admiração que tributava a essa mulher e a sua postura real. Colocou a mão sobre a de Thora e apertou-a ligeiramente.
Thora agradeceu com um aceno de cabeça quase imperceptível. Sentiu que esse gesto demonstrava aprovação da maneira pela qual ela estava conduzindo as negociações.
Os comandantes terranos exercerão as funções de imediato nas naves arcônidas, Thora de Zoltral! — respondeu o autômato.
Não podemos aceitar estas condições, regente, pois face à sua própria natureza um terrano não concorda em submeter-se ao comando de um robô.
Talvez a voz do gigantesco cérebro positrônico tenha assumido uma tonalidade irônica, quando ele respondeu:
Essa afirmativa não encontra apoio em qualquer elemento de prova. O Grande Império realizou investigações minuciosas sobre a mentalidade dos terranos.
Com estas palavras, o computador gigante confessou pela primeira vez ter realizado experiências em homens terranos, experiências estas que inevitavelmente levariam à morte das vítimas.
Não tenho a intenção de distrair-me com bagatelas, regente — disse Thora, descartando como que por acaso a terrível informação que o regente acabara de fornecer. — Poderemos discutir a proposta ora em exame, desde que os mil comandantes terranos também exerçam as funções de comandante nas naves arcônidas.
Fez-se uma rápida pausa.
Thora e Deringhouse não se atreveram a olhar um para o outro. A esposa de Rhodan, muito inteligentemente, voltou a falar para que o autômato não recorresse aos bilhões de contatos positrônicos de seu mecanismo, a fim de elaborar uma resposta à proposta formulada por último.
Mas, antes de prosseguirmos nas negociações, na qualidade de representante do sistema solar, comunico-lhe que se torna necessário revogar a proibição de decolagem que nos foi imposta, regente!
A proibição permanece em vigor, Thora de Zoltral...
Thora interrompeu o autômato:
Meu nome é Thora Rhodan, regente...
No mesmo instante, o cérebro de Árcon III interrompeu a ligação.
Isto não foi muito hábil de minha parte — confessou Thora em tom ligeiramente deprimido.
De início Deringhouse sacudiu a cabeça, a título de contradita, mas logo disse:
É indiferente que as negociações fossem interrompidas agora ou daqui a dez minutos. Mas para convencer o cérebro de que somos uns ingênuos tentaremos decolar. Não me arriscarei a apostar que a decolagem não será bem sucedida. Vamos, Pasgin, Olavson. Não é todos os dias que os tripulantes de uma nave terrana se colocam voluntariamente numa situação ridícula. Vamos mostrar a esse autômato e a seus súditos indolentes como a Burma é “fraca”.
Joe Pasgin e Hendrik Olavson acomodaram-se nas poltronas dos pilotos. A ordem de decolar foi transmitida pelo sistema de intercomunicação da nave. O cérebro positrônico da Burma trabalhou com uma rapidez espantosa e forneceu aos mecanismos os dados necessários à decolagem. Seguiram-se as ligações efetuadas por Olavson, que também foram processadas pelo computador de bordo.
Luzes de controle acenderam-se. Dois aparelhos de alerta começaram a chiar. O ruído dos mecanismos da nave, cuja potência foi aumentada, modificou-se. O zumbido tornou-se um uivo agudo e misturou-se ao ruído borbulhante dos propulsores da protuberância equatorial, que se transformou num forte chiado.
Decolar com o empuxo normal! — disse Pasgin ao co-piloto.
Um ligeiro tremor percorreu a nave, mas esta não se desprendeu do solo. Energias tremendas seguravam-na. Era um gigantesco campo de sucção, gerado evidentemente por projetores ocultos sob o gelo, e que colocara correntes invisíveis em torno do cruzador ligeiro.
Deringhouse lançou um olhar indagador para o oficial incumbido do controle de decolagem. O oficial disse:
Com o empuxo normal o campo de sucção desenvolveu o dobro da potência da nave, mas sua reação não foi muito rápida.
Ah! Suspender a tentativa, esperar dois minutos e ligar instantaneamente para o empuxo normal. Precisamos tentar, senão ainda teremos de pedir socorro ao chefe... Caramba, acho que o cérebro só espera por isso! Caro autômato, sinto muito, mas não lhe faremos esse favor.
Olavson puxou a chave mestra para a posição zero, mas logo impulsionou-a para o lugar marcado “à frente”.
A segunda tentativa estava sendo iniciada.
A Burma saltou para o alto como uma bola de borracha, mas antes que atingisse a altura de cem metros, o campo de sucção foi regulado para sua força de empuxo. Depois, desenvolvendo o dobro da energia da nave, que aparentemente funcionava com o desempenho máximo, não só obrigou esta a parar, mas a forçou a realizar outro pouso, que mal e mal pôde ser controlado por meio dos apoios telescópicos.
Com exceção de Thora e Deringhouse, que se sentiram entusiasmados com o resultado da tentativa, os ocupantes da nave pareciam perturbados.
Ao que parecia, o comandante arcônida de Mutral parecia incomodado com a segunda tentativa de decolagem. Chamou pelo telecomunicador e anunciou que um comando de robôs estava a caminho, a fim de investigar as ocorrências verificadas a bordo da Burma.
Thora colocou-se instantaneamente à frente da tela.
Taa-rell, acho que já nos conhecemos.
Taa-rell, o arcônida de rosto balofo, fitou a orgulhosa mulher, que envergava o uniforme de comandante.
Senhora... — gaguejou e ensaiou uma mesura.
Taa-rell, ordene imediatamente o regresso do comando de robôs! — impôs em tom enérgico com a voz fria.
O arcônida que se encontrava num subterrâneo da fortaleza de Mutral contorcia-se.
Senhora, o envio do comando de robôs foi ordenado pelo Grande Coordenador. Não posso revogar a ordem, pois, em virtude de suas programações, os robôs estão submetidos diretamente ao regente. Peço encarecidamente...
Com um gesto furioso, Thora desligou. Soltou uma risada amarga.
Pobre Grande Império! — disse e sacudiu a cabeça.
Big Alden, o oficial de armas da Burma, mostrou que não estava dormindo.
Localização! — disse pelo sistema de intercomunicação. — Cinqüenta máquinas de guerra pesadas estão saindo do gelo. O que vamos fazer com elas, general?
Joe Pasgin ampliou a imagem ao máximo.
Uma coluna de robôs de guerra arcônidas caminhava pesadamente sobre a superfície acidentada de gelo. As fendas de vários metros de largura não representavam qualquer obstáculo. Quem os visse saltar por cima das mesmas acreditaria que eram artefatos levíssimos, não máquinas que pesavam várias toneladas.
O revestimento de aço de Árcon brilhou sob a luz ofuscante dos refletores. Esse material era capaz de resistir a temperaturas até 30 mil graus, e praticamente não era afetado pelo frio, por mais intenso que fosse.
O computador-regente nos está enviando uma representação — gritou Pasgin para o oficial de armas da nave.
Big Alden respondeu com uma praga de astronauta.
Subitamente Deringhouse sentiu que alguém olhava para ele. Virou a cabeça. Esquecera-se da presença de Ishy Matsu. Esta lhe fez um sinal nervoso para que a seguisse.
Mas, naquele momento, não poderia retirar-se.
Deu imediatamente o alarma.
Ativar todos os robôs. Colocar vinte à frente da comporta número três. Atrás deles outros trinta se manterão em reserva. Os outros aguardarão ordens. Só três dos robôs arcônidas, que pretendem visitar-nos, terão permissão de subir a bordo.
O indicador de distância da tela de visão global mostrava que as cinqüenta máquinas de guerra se encontravam perto dos campos defensivos energéticos.
Ali também só deixaremos passar três! — disse Deringhouse. — Pasgin, tenha cuidado para que esses autômatos armados não aproveitem a suspensão da nossa barreira energética, a fim de realizar um avanço. Para mim, um robô arcônida é capaz de qualquer baixeza, e até hoje sempre me dei muito bem com minha desconfiança.
Teve oportunidade de voltar-se discretamente para a telepata.
Esta lhe fez um sinal que exprimia máxima urgência.
Venha imediatamente!”, parecia dizer. Deringhouse tomou sua decisão.
Pasgin, assuma o comando. Irei até a comporta. Obrigado; não preciso de companhia. Dona Thora, em hipótese alguma a senhora poderá sair daqui. As explicações serão dadas mais tarde.
Seguiu-se uma verdadeira torrente de comandos. Depreendia-se que o general considerava a visita dos robôs extremamente perigosa.
Uma vez desencadeado o alarma, a ligação direta entre a sala de comando e todos os compartimentos da nave iniciou-se.
Deringhouse saiu da sala de comando. Ao passar perto de Ishy Matsu, disse como que ao acaso:
Ah, poderá ir comigo, Ishy. Tenho um trabalho para você.
Mal a escotilha da sala de comando fechou-se atrás deles, disparou a pergunta:
O que houve?
Apesar da pigmentação mongolóide, o rosto encantador de Ishy Matsu parecia pálido.
O comando de robôs recebeu ordem para retirar o senhor e dona Thora da nave. Se necessário, deverá recorrer à violência.
Deringhouse achou essa afirmativa tão chocante que perguntou num tom apavorado e desconfiado:
Como soube disso, Ishy?
A telepata não se abalou.
No momento em que dona Thora conversava com o comandante da base, consegui pela primeira vez captar alguns impulsos nítidos. Perto de Taa-rell, encontram-se alguns aras, que receberam ordem do computador-regente para interrogar o senhor ou dona Thora sobre a posição galáctica da Terra. Receberam instruções para usar o método da lavagem cerebral.
Big Alden, oficial de armas da Burma, forneceu uma prova em apoio da afirmação de Ishy Matsu.
Chamando o general! — soou sua voz potente nos alto-falantes do corredor. — Localização energética. O planeta Mutral mobilizou todo o armamento contra nossa nave.
No mesmo instante, um furacão de fogo vindo de todos os lados desabou sobre a Burma. Ao primeiro impacto dos feixes energéticos, alguns dos quais mediam cinqüenta metros de diâmetro, os campos defensivos da nave romperam-se.
Graças à brevidade do furacão de fogo, a Burma não foi destruída sob o impacto das energias liberadas. O ataque dirigia-se não contra a nave, mas contra os campos defensivos. Porém o cruzador ligeiro já não era a mesma nave que fora poucos segundos antes...
Deringhouse, que correu de volta à sala de comando, ouviu o oficial de armas berrar pelos alto-falantes:
Todas as armas inutilizadas. Bocas dos canhões destruídas.
Deringhouse não vira o inferno. Por isso, não compreendia por que de repente a Burma passou a pender para o lado.
No interior da nave, as unidades energéticas começaram a rugir, os conjuntos de conversores uivaram, e os propulsores começaram a rumorejar.
A escotilha, controlada por impulsos luminosos, abriu-se abruptamente. Com um salto, o general colocou-se ao lado de Hendrik Olavson e arrancou-lhe a chave de comando da mão.
Não precipitem nada, senhores — disse numa calma tamanha que até parecia dispor de uma semana para tomar a próxima decisão.
Pegou o microfone do sistema de intercomunicação e gritou:
Aqui fala o general. Não abram a comporta três. Controle instantâneo. Contatos com os oficiais. Ativar robôs de trabalho. Desligo.
Tinha uma tarefa especial para Alden, o oficial de armas que já não dispunha de qualquer arma!
Alden, compareça à sala de comando. Olavson, por que a Burma está inclinada?
Devem ter destruído alguns dos apoios telescópicos — respondeu o jovem tenente numa raiva impotente.
Quer dizer que o ataque não foi dirigido contra a nave?
Não. Só estavam interessados em destruir nossos campos defensivos, para que os robôs pudessem passar.
Caramba, Olavson, será que esta pancadinha nos colocou fora de ação? Por que não aumenta a potência dos campos antigravitacionais para que a Burma volte a ficar na posição normal?
Deringhouse estava furioso.
Os conjuntos propulsores quatro, sete e onze também estão fora de ação, general.
Também? Mais alguma coisa? Os geradores de campos antigravitacionais também?
O telecomunicador chamou.
Mais uma vez, o rosto balofo do comandante arcônida surgiu na tela. Thora, que não saíra da poltrona articulada, encontrava-se frente a frente com o comandante.
Senhora — disse o arcônida em tom submisso — peço-lhe que não impeça a entrada dos robôs em sua nave. Ainda lhe peço encarecidamente que a senhora e seu general coloquem os trajes espaciais e, acompanhados dos robôs, compareçam à minha presença, para termos uma palestra. Tudo esta sendo feito por ordem do Grande Coordenador, senhora.
As últimas palavras, a explicação final, pareciam um grito angustiado.
O que é que o cérebro quer de nós? — perguntou Thora em tom áspero.
Teve um pressentimento ditado pelo instinto e, com o rosto rubro de cólera e os olhos chamejantes, disse a Taa-rell:
Arcônida, você está mentindo para mim. O que pretendem fazer com o general e comigo? Arcônida, diga a verdade a mim, Thora, da dinastia de Zoltral.
Meu Deus”, pensou Deringhouse, totalmente perplexo e dominado por uma insegurança nascida da esperança. “Thora está bem de saúde, tão bem como qualquer pessoa a bordo. Está rejuvenescendo a cada minuto que passa. Até parece que só agora o elixir rejuvenescedor está fazendo efeito.”
Taa-rell quase caiu sob as acusações de Thora. Seu rosto balofo revelava os problemas de consciência com que se defrontava. Mas antes que pudesse abrir a boca e responder qualquer coisa, outra pessoa que se encontrava em sua companhia desligou o telecomunicador.
Thora olhou para Deringhouse.
Como estão nossas chances? — perguntou com o maior sangue-frio.
Sua voz soou forte como outrora. Apesar da situação ameaçadora, conseguiu sorrir e, num gesto inimitável, afastar uma mecha de cabelo que lhe caía na testa.
Já enfrentei situações piores — respondeu Deringhouse, esquivando-se desesperadamente da pergunta.
Quer dizer que são más e...
Foi interrompida por um anúncio do telecomunicador.
Os geradores de campo antigravitacional voltaram a funcionar.
Thora levantou-se de um salto. Irradiava energia e decisão. Seu rosto tornou-se corado, sadio. Suas mãos, que em Vênus apresentavam uma aparência carcomida, estavam fortemente irrigadas pelo sangue.
Hendrik Olavson voltou a colocar a Burma na posição horizontal; a manobra exigia uma boa dose de perícia, face à falta de um terço dos apoios telescópicos.
Propulsores quatro e onze reparados! — soou uma informação vinda da protuberância equatorial da nave. — Avarias do propulsor sete são totais.
Deringhouse — Thora colocou a mão no braço do general. — Se existe um ser orgânico que o computador-regente respeite, esse ser é meu marido.
Nesse momento, Thora teria de saber da verdade.
Todos cometemos o erro de pensar assim, dona Thora! O cérebro positrônico foi construído por cientistas arcônidas, para resguardar os interesses do Império de Árcon. E foi programado exclusivamente com esta finalidade. A concepção ética da amizade sempre lhe será estranha, pois do contrário estaria agindo em desconformidade com sua programação. E isso, dona Thora, é uma coisa de que um cérebro positrônico jamais será capaz.
Querem que a senhora e eu compareçamos à presença de Taa-rell, a fim de sermos submetidos à lavagem cerebral. O autômato de Árcon III considera tão importante a descoberta da posição da Terra, que, apesar da situação desesperadora que vem enfrentando junto à área de superposição, está disposto a arriscar um ataque maciço do Império Solar para obter essa informação.”
Já desconfiei de algo semelhante, quando chamei Taa-rell de mentiroso, Deringhouse. Pelo que o senhor acaba de dizer, só nos resta uma saída, a fuga precipitada. A que altitude conseguiremos chegar?
Os oficiais da sala de comando fitaram-se. Sentiram-se impressionados pela calma e coragem de dona Thora. Acabara de perguntar no tom mais natural deste mundo em que altura a Burma se transformaria numa nuvem de gases, depois de realizada a decolagem desesperada.
No momento, nosso problema são os cinqüenta robôs. Pode parecer ridículo, mas o fato é que só podemos pensar na decolagem depois que os robôs se tiverem retirado, e eles só se retirarão se a senhora e eu formos com eles, ou...
Deringhouse estacou. Refletiu intensamente.
Sim, devemos tentar isso. Sala de rádio, entre em contato com o computador-regente. Transmita a mensagem com o sinal de urgência.
Sinal de urgência — repetiu o oficial de rádio pelo sistema de intercomunicação.
Sim senhor.
7



A ligação com Árcon III não foi completada.
Taa-rell voltara a chamar para apresentar o ultimato.
O prazo terminaria dentro de dez minutos.
Lá fora, junto à comporta número 3, cinqüenta máquinas de guerra arcônidas aguardavam o momento de ingressar na nave.
Os geradores de campo antigravitacional da Burma emitiram um ruído mais forte que antes, a fim de manter a nave na posição vertical.
Era precisamente nisso que Deringhouse estava pensando.
Onde e como estão postados os robôs diante da nave? — perguntou numa calma fingida.
A lente da teleobjetiva da comporta 3 resistira bem ao furacão de fogo. E foi dali que veio a informação desejada.
Ah, sim — acabou sendo esta a única reação de Deringhouse, que deixou todos decepcionados.
Big Alden, o oficial de armas que perdera o emprego, concluiu sua tarefa especial. Voltou banhado em suor, mas isso não o incomodava. Anunciou em tom de satisfação:
Os canais energéticos do setor de armamentos foram transferidos para as fases dos propulsores. Os especialistas em mecanismos de propulsão de impulsos garantem que a protuberância equatorial não se desprenderá, general.
Deringhouse fez como se não notasse os olhares indagadores que lhe eram lançados de todos os lados.
Faltam sete minutos. Acho que já está na hora de fazermos alguma coisa, senhores. Pasgin!
Pois não, general! — respondeu o imediato da Burma, olhando para Deringhouse.
Os canais de comando das colunas telescópicas de apoio estão todos interrompidos?
Naturalmente.
Muito bem. Preste atenção às instruções que vou transmitir. Aqui fala o General Deringhouse! — gritou para dentro do microfone do sistema de intercomunicação. — Nos próximos minutos todos terão de encontrar um lugar firme, que seja suficientemente seguro, para que nada aconteça no caso de uma súbita modificação da posição da Burma. Cuidado com os objetos que possam cair. Deverão ser retirados. Desligo.
Pasgin e Olavson pareciam ser os únicos que compreenderam as intenções do general. Sorriram satisfeitos.
Deringhouse chamou a comporta número 3.
Encher a comporta com nossos robôs. Assim que a Burma volte a erguer-se faça sair nossos robôs em direção à entrada do abrigo da qual vieram seus colegas arcônidas.
Agora já compreendo — disse Thora e acomodou-se na poltrona articulada. Todos a imitaram, procurando um apoio seguro.
Quando faltavam cinco minutos para escoar-se o ultimato, a Burma, controlada pelas chaves que Pasgin manipulava no seu painel, encolheu instantaneamente dois terços das colunas de apoio telescópicas.
No mesmo momento todos os geradores de campo antigravitacional da nave foram desligados. A escotilha número 3, que continuava fechada, entrou em contato com o solo. O cruzador tombou para a frente e penetrou profundamente no gelo do mundo de Mutral.
A esfera de cem metros de diâmetro retumbou fortemente. Um barulho infernal saiu das rochas primitivas desse mundo plutônico. Sob o calor provocado pela pressão de milhões de toneladas, o gelo derreteu-se e deixou que a Burma afundasse, até bater ruidosamente contra a rocha.
O fato de que, com isso, cinqüenta robôs arcônidas foram destruídos ou danificados a ponto de serem transformados em sucata foi apenas um lamentável efeito “colateral” do fenômeno.
Mas o plano de Deringhouse não deu certo...
Afundada até a metade no gelo, a Burma já não estava em condições de libertar-se com as próprias forças.
Deringhouse logo reconheceu o erro.
Pelo sistema de intercomunicação ordenou à comporta 1 que fizesse voar trinta robôs ao mesmo tempo em direção ao objetivo.
A tela de visão global ainda estava ligada para a ampliação máxima. Os tripulantes fecharam apostas sobre o número dos robôs que conseguiriam chegar à entrada das fortificações subterrâneas.
Todos sabiam perfeitamente que as instalações arcônidas poderiam lançar menos de um milésimo de seu potencial contra a Burma, já que tudo fora montado para a defesa de ataques vindos do espaço. Apenas uns poucos canhões poderiam atirar contra alvos situados na superfície.
Mas, ao destruírem os campos defensivos ativados à potência máxima, os arcônidas e seus robôs haviam dado uma prova do que eram capazes mesmo neste terreno.
Trinta máquinas de guerra terranas pairavam sobre seus próprios campos antigravitacionais. Dirigiam-se e pensavam por eles mesmos. Vindas de três direções diferentes, embora tivessem partido do mesmo ponto, deslocavam-se vertiginosamente em direção ao objetivo.
Um feixe energético bem espalhado saiu silenciosamente de uma das numerosas aberturas escuras que se viam no gelo do mundo de Mutral.
Dois robôs desmancharam-se em nuvens de gases. Um terceiro foi dividido em dois pela força do raio e caiu.
Surgiram mais dois raios, acompanhados de um forte trovejar. A rocha e o gelo propagavam o ruído típico dos canhões de impulsos, que expeliam raios escaldantes para o espaço.
Quatro robôs foram atingidos ao mesmo tempo. Obedecendo à lei física da inércia, transformaram-se em ofuscantes trajetórias luminosas.
São raios de desintegração — constatou Hendrik Olavson em tom de surpresa, quando dois homens mecânicos se gaseificaram subitamente, tornando visíveis os feixes de ondas mortíferas.
Dois robôs chegaram ao destino! — exclamou Merck em tom exultante, mas logo se calou apavorado. No entanto, não tardou em descobrir que as máquinas de guerra eram muito mais inteligentes do que acreditara.
Não havia mais nenhum robô no ar. Num instante, as máquinas ainda intactas desapareceram no meio das massas de gelo entrecortadas e passaram a rastejar em direção ao objetivo à maneira de soldados de infantaria.
Ataque da direita! — disse Merck em tom muito nervoso.
Oito robôs arcônidas saíram repentinamente de uma entrada do abrigo que até então permanecera invisível.
Os três primeiros não chegaram a avançar cinco metros. Desmancharam-se sob a ação dos raios térmicos. Mas depois disso a situação começou a tornar-se crítica...
Mais duas aberturas existentes no gelo cinzento passaram a expelir reforços arcônidas!
Mais de quarenta robôs defrontavam-se com vinte colegas vindos do planeta Terra. Nenhum deles sabia o que era coragem ou covardia. Agiam em conformidade com as instruções incluídas na programação.
Soltar o segundo grupo! — gritou Deringhouse para dentro do microfone.
Dali a pouco, a comporta 1 anunciou a execução da ordem.
Ordem cumprida, general. Sondas-cápsulas colocadas fora da nave!
Nenhum dos membros da equipe de comando percebera qualquer disparo. E ninguém se atreveu a formular uma pergunta a Deringhouse. Apesar do pavor inimaginável, o espetáculo das formações de robôs, que se combatiam até a destruição, tinha algo de fascinante.
E era esse espetáculo que decidiria se a Burma voltaria ou não a ver a Terra.
Thora inclinou-se para Deringhouse e perguntou:
Que sondas-cápsulas são estas? Deringhouse respondeu num tom que quase chegava a ser de ameaça:
Daqui a pouco, os arcônidas ficarão admirados, e seus computadores enlouquecerão. Numa área de cerca de cinqüenta mil quilômetros quadrados deste maldito mundo de gelo, nenhum aparelho de mira fornecerá dados aproveitáveis aos canhões.
Thora se mantivera afastada por tanto tempo do dia-a-dia do Império Solar que não sabia o que fazer com essas palavras. Por isso resolveu pedir explicações.
Mas teve de esperá-las.
Comportas dois e quatro, soltar robôs.
Deringhouse sentia-se tomado pela febre do caçador, porém, nem por isso, perdeu o controle da situação. Lembrou-se da pergunta que teria de responder.
As sondas-cápsulas são transmissores de interferência construídos pelos swoons. Mas são bem melhores que aqueles que Muzel, o grande amigo de Gucky, soltou em série no interior da Drusus. Olhe, Thora! Os transmissores já estão funcionando. Viu este raio de impulso que subiu quase verticalmente? Tomara que a Burma não seja atingida por um infeliz acaso...
As fúrias do inferno estavam às soltas no mundo gelado de Mutral!
Aquilo que, no início, parecia não passar de uma missão de reconhecimento dos robôs terranos, transformou-se numa luta arrasadora entre os robôs de guerra da Terra e de Árcon que, graças à sua direção positrônica, agiam com uma rapidez, precisão e coerência de que nenhum ser humano seria capaz.
De repente, Deringhouse teve a impressão de que a intensidade da iluminação artificial do lado de fora estava diminuindo. Thora observara melhor o fenômeno.
Três robôs avançaram na escuridão. Será que estão destruindo os refletores?
Dali a pouco, sua suposição se confirmou.
Mas, mesmo na escuridão, os homens-máquina saberiam distinguir o amigo e o inimigo.
Chamas subiram para o céu, explosões gigantescas sacudiram a rocha e o gelo, e uma pequena parte das fortificações subterrâneas foi destruída numa nuvem avermelhada.
Santo Deus! — exclamou Merck em tom de surpresa. — Para onde é que eles estão atirando?
É um ataque vindo do espaço! — afirmou o oficial que se encontrava junto ao rastreador espacial. Mas logo viu que o aparelho, que lhe poderia dar uma informação mais precisa a este respeito, se encontrava bem à sua frente.
O rastreador mantinha-se em silêncio.
Meu Deus, o que houve com a mira ótica dos arcônidas? — perguntou em tom de perplexidade. — Contra quem estão atirando?
Merck acabara de formular a mesma pergunta, e ele mesmo já a havia respondido. Mas de tão espantado que estava, nem se deu conta disso.
Outros canhões abriram fogo. Porém seus raios mortíferos apenas rasgavam o céu e se mantinham nessa posição absurda. Na frente, atrás e ao lado da Burma, que continuava mergulhada no gelo, em posição inclinada, a superfície do mundo gelado de Mutral abriu-se e cuspiu massas de aço de Árcon, fogo e incandescência atômica. Ao que parecia, a reação em cadeia progredia em sete pontos distintos.
Qual será o efeito das ondas de compressão no interior das fortificações subterrâneas?”, indagou-se Deringhouse.
Não tinha a menor esperança de que o comandante-chefe de Mutral e os médicos galácticos vindos ao planeta por ordem do regente sobrevivessem ao inferno.
Enquanto lá fora tudo rugia e estalava, e enquanto valores imensos eram destruídos numa questão de segundos, com a Burma por vezes retumbando como um sino, Olavson fez mais uma tentativa para, por meio do campo antigravitacional, libertar a nave de sua posição anormal.
Entusiasmado com o êxito, Hendrik Olavson começou a berrar como um menino muito feliz:
Estamos saindo! O campo de sucção já não existe. Mais um pouco de força nos geradores... mais um pouco... agora! Conseguimos...
A esfera metálica de cem metros de diâmetro deu um salto, balançou fortemente e foi parar sobre as colunas telescópicas de apoio...
Decolar!”, ia ordenar Deringhouse, que não se importava de deixar para trás uma ou duas dezenas de robôs.
A ordem de conseguir cem naves de guerra de Árcon era inexeqüível. A tarefa que tinha pela frente consistia exclusivamente em levar a tripulação da Burma para o espaço, sã e salva. Apesar disso, porém, Deringhouse não chegou a dar a ordem de decolar.
Três robôs terranos corriam em direção à nave.
Cada um deles segurava nos braços metálicos um arcônida num traje espacial.
Não decole, Deringhouse!
Deringhouse lançou um olhar de perplexidade para Thora, que tinha a mão pousada em seu braço. A pressão de seus dedos era bastante intensa. Sua voz fora autoritária, mas não tivera a intenção de dar-lhe uma ordem; apenas pretendia chamar sua atenção para os homens-máquina que se aproximavam vertiginosamente.
Naquele instante, Deringhouse duvidou seriamente da integridade de suas faculdades mentais.
A mulher a seu lado estaria mesmo doente? Mais do que isso, padeceria de uma doença da classe das leucemias e do carcinoma tipo F Árcon?
Mas não teve tempo para prosseguir nestas reflexões.
Os robôs e suas presas mergulharam na sombra da Burma.
Naquele instante, Mutral parecia explodir!
Um vulcão, que lançou ao espaço repuxos de energia, irrompeu em meio ao gelo e à rocha, arrancou gritos da terra e fez a Burma balançar, até que os campos antigravitacionais absorvessem os solavancos do solo.
Numa altura de vários quilômetros, o céu noturno ficou coberto de chamas convulsas. As labaredas feitas de pura energia subiam constantemente, lançavam ramos laterais que muitas vezes se aproximavam perigosamente da nave terrana, privada de seus campos defensivos, para esfacelar-se nas explosões mais fortes que se seguiam.
A gigantesca usina energética subterrânea, que devia fornecer a energia para milhares de canhões, fora pelos ares. O forte planetário de Mutral não poderia ter sofrido um golpe mais duro. Mas a inutilização da gigantesca usina de força fatalmente haveria de ocasionar a intervenção do computador-regente.
O vigésimo sétimo planeta do sistema de Árcon, que era o último, formava um mundo armado até os dentes e, tal qual todo o enorme sistema defensivo do Império, consagrado numa experiência de vários milênios, mantinha contato ininterrupto com Árcon III.
Era impossível que o gigantesco cérebro deixasse de registrar a falha dessa estação energética. E os homens do Império Solar conheciam perfeitamente seu modo de agir.
Decolagem de emergência! — gritou Deringhouse.
Seu apelo superou o rugido das rochas que voavam para todos os lados.
A comporta número dois transmitiu uma informação, mas esta submergiu em meio à barulheira infernal.
O imediato da Burma teve de ceder lugar ao general. Hendrik Olavson manipulou os controles com uma rapidez tremenda. Os projetores de campos defensivos emitiram um chiado curto e penetrante, superando todos os outros ruídos.
Depois disso, os potentes campos energéticos voltaram a envolver o cruzador, que disparava espaço a fora com o desempenho máximo dos mecanismos propulsores.
Localização pelo rastreador, general. Oito unidades vindas do amarelo.
Era a resposta do computador-regente à destruição de uma das numerosas e potentes usinas energéticas de Mutral. O gigantesco cérebro positrônico pusera em ação oito naves de guerra tripuladas por robôs.
Aproximação do verde e do amarelo. Quatorze unidades.
Agora a Burma passou a dar prova de sua tremenda capacidade de aceleração. E isto provava que todo o equipamento da nave estava subordinado a essa finalidade primordial. O computador preparava os dados para o salto.
Um minuto já se passara desde a decolagem. A Burma desenvolvia quase um terço da velocidade da luz. Mutral caíra no espaço que nem uma pedra, mas agora o planeta voltava a golpear.
Um raio térmico de diâmetro inacreditável passou a 123°45’ de bordo, a um quilômetro da nave. Os homens da sala de comando nem tiveram tempo para respirar.
A sala de rádio avisou:
Chamado do cérebro. Exige nosso regresso para Mutral.
Quero que o cérebro vá para o inferno — disse uma voz enraivecida e enérgica de mulher.
Os olhos de Thora Rhodan chamejavam, e estavam fitos na escala que registrava a aceleração da veloz Burma.
Vire para phi, Olavson — gritou Deringhouse em tom nervoso.
Sabia perfeitamente que, se conseguissem escapar desse inferno, teriam de agradecer exclusivamente à sensibilidade genial de Olavson. Se...
Os neutralizadores de pressão chiaram. Uma luz de advertência vermelha acendeu- se junto ao grande painel de controle. Três sereias de alarma soaram. Olavson bateu com a mão esquerda contra a chave do conjunto principal.
Na Burma, energias infernais começaram a rugir.
A escala da aceleração subia vertiginosamente. Com toda essa velocidade, o cruzador ligeiro descreveu uma curva inacreditável.
Subitamente, uma parede incandescente de energia aproximou-se mais depressa do que o olho humano poderia acompanhá-la. Quatro naves da classe Império haviam disparado suas salvas de costado contra a pequena Burma... Apenas, deixaram de considerar a repentina mudança de rota do cruzador terrano!
Os últimos feixes energéticos rasparam o campo defensivo como se fossem um hálito infernal. Mesmo esse ligeiro contato foi suficiente para levar o desempenho dos respectivos geradores acima da marca dos cem por cento.
A sala de comando transformou-se num inferno de luzes vermelhas e de sereias de alarma.
Tomara que a Burma não exploda, e que a protuberância equatorial da nave não se desprenda...”, pensou Olavson.
Mutral voltou a disparar...
Teriam sido atingidos?
O corpo da nave retiniu como um sino, mas não se desfez numa reação nuclear.
Localização no azul...
A potência dos campos energéticos voltara a reduzir-se para cem por cento, mas a dos propulsores chegava a 107.
Deringhouse estava coberto de suor. Seus olhos ardiam. O olhar ligeiro que lançou para Olavson, que mantinha uma estranha calma no assento de co-piloto, não conseguiu tranqüilizá-lo.
Nesse instante, o mecanismo de contagem regressiva do computador de bordo iniciou sua atividade.
Faltavam trinta segundos para a transição. Ao que parecia, Árcon sabia disso.
Mutral, que já desaparecera na semi-escuridão, ainda disparava com todas as armas contra a nave fugitiva do planeta Terra. E mais de trinta unidades arcônidas aproximavam-se em vôo concêntrico, vindas de todos os lados.
As mãos de Hendrik Olavson desfilavam ligeiras sobre o grande painel de comando. O toque de seus dedos faziam executar manobras tresloucadas, que dificilmente outra nave jamais fizera. Sempre havia alguma coisa sobrecarregada no cruzador ligeiro: eram os propulsores, ou o campo antigravitacional, os projetores de campo defensivo, os neutralizadores de pressão. Era mesmo de admirar que a protuberância equatorial ainda não se tivesse desprendido.
Faltavam dez segundos para o salto!
Nessa altura foram “recepcionados” por um forte espacial.
Era um dos cinco mil que formavam um cinturão de segurança em torno do sistema, situado atrás do último planeta, a vinte horas-luz de Árcon.
Cinco raios de impulso passaram perto da nave. Ao que parecia, a Burma se precipitava para a destruição.
Finalmente chegou o momento da transição.
E no instante em que efetuavam o salto para o hiperespaço, a nave foi atingida; atingida em cheio...
O impacto se verificou, quando a Burma desmaterializava.
Todo o volume energético de um raio desintegrador, disparado por uma das peças do supercouraçado arcônida, realizou uma união natural com a energia empregada no salto da Burma. O efeito destrutivo foi eliminado, mas a energia do salto do cruzador ligeiro foi multiplicada.
A tripulação sentiu-se dominada pelo martirizante choque da transição. Apenas Thora parecia não ter sido afetada pelo mesmo.
E foi ela quem exclamou em tom apavorado, enquanto os homens da sala de comando ainda lutavam contra o mal-estar físico:
Estamos correndo para dentro de um sol!
De todos os lados, a grande tela de visão global despejava torrentes de luz para o interior da sala de comando da Burma. Mais uma vez, foi Hendrik Olavson quem reagiu imediatamente.
Realizou uma transição de emergência, sem dados para o salto e sem formular maiores indagações. Só depois de voltar pela segunda vez ao espaço normal, passou a mão pelos olhos e perguntou:
Será que deveria ter aguardado instruções suas, general?
Antes de responder, Deringhouse observou a grande tela de visão global. O sol para o qual corriam há poucos segundos estava reduzido a um minúsculo disco luminoso.
Voar com o senhor é um verdadeiro “martírio”, Olavson — disse Deringhouse, colocando as mãos no ombro do co-piloto, num gesto de reconhecimento. — Como foi que recebemos dados incorretos para o salto e, por pouco, não saímos do hiperespaço para o interior de um sol?
No curso dos decênios e durante suas inúmeras missões, os homens de Perry Rhodan tiveram oportunidade de familiarizar-se com os fenômenos mais estranhos.
Mas o retorno do hiperespaço, com a simultânea rematerialização no interior de um sol, era um fato inteiramente novo.
Formulou-se uma indagação ao computador de bordo. O oficial junto ao rastreador estrutural lançou um olhar desconfiado para seu instrumento.
Não há mais nenhuma localização, general. E olhe que penetramos no hiperespaço sem ligar o neutralizador de vibrações, não é mesmo?
O tom em que foram proferidas estas palavras parecia de perplexidade, e Deringhouse lançou um olhar pensativo para o homem que se encontrava junto ao aparelho de localização.
Em meio ao silêncio provocado pela curiosidade sobre o que diria o computador, soou a informação vinda da comporta 2.
Nossos robôs trouxeram o comandante-chefe Taa-rell e dois aras.
O chefe vai ficar feliz! — exclamou Merck.
Deringhouse mordeu o lábio.
E como Rhodan vai ficar feliz! — disse. — Temos de voltar logo com um arcônida e dois aras. Preferia levar-lhe cem naves novinhas em folha. Caramba! O que vamos fazer com eles? Não podemos levá-los de volta.
Cuidarei deles.
A decisão foi de Thora, que logo saiu e fechou a escotilha atrás de si. Os homens da sala de comando seguiram-na com os olhos, sem dizer uma palavra. Alguns deles sacudiram a cabeça, num gesto de perplexidade.
Deringhouse resmungou:
Gostaria de saber o que os médicos constataram em dona Thora. Se ela está doente, nós estamos prestes a morrer. Haja alguém que compreenda uma coisa destas. Desisto!
O computador da Burma também desistiu. Limitou-se a pedir novos dados. Segundo informou, não conseguia chegar a resultado algum com os dados de que dispunha.
Foi então que Deringhouse — um homem que se mantinha jovem graças à ducha celular que lhe fora aplicada no planeta Peregrino, mas que em experiência envelhecera mais de seis decênios — enganou toda a tripulação...
Formulou uma tarefa para o computador de bordo.
Havia uma distinção acentuada entre seu problema e o anterior. Não desconfiava de que, durante a primeira desmaterialização, quando se adaptara quase completamente à configuração energética do hiperespaço, a Burma sofrerá o impacto direto de um disparo de canhão de um dos supercouraçados arcônidas.
O computador de bordo teve grande dificuldade em responder à pergunta, pois não conseguia absorver tão depressa o fato de que, ao desmaterializar-se, a Burma levara ao hiperespaço todo o volume energético do disparo, convertido num acréscimo indesejável de 100% na energia do salto.
Quem dera que alguém dissesse onde estamos! — exclamou o astronavegador com um gemido.
Lançou um olhar desconfiado para Hendrik Olavson.
Mas o jovem tenente não se abalava por tão pouco.
O fato é que todos estamos vivos, e não se vê nenhuma nave arcônida. Acho que é isto que vale.
Face a isso, o comandante-chefe Taa-rell e os dois médicos galácticos transformaram-se em personagens de segunda ordem. Quase toda a equipe estava reunida na sala de comando, cercando o computador e esperando que este fornecesse o resultado.
Finalmente a fita de plástico apareceu na fenda de saída. Deringhouse pegou-a apressadamente. Um pressentimento vago fê-lo acomodar-se na poltrona antes de passar à leitura. Os sinais codificados lhe eram tão familiares como sua letra.
Subitamente empalideceu. Teve de realizar um esforço tremendo para compreender o que o computador de bordo acabara de afirmar. Com a voz pesada e deprimida disse:
Senhores, vamos deixar este problema para nossos físicos. Por favor, não me perguntem por que ainda existimos.
Merck foi o último a estudar a fita de plástico.
Isto... até parece que... parece que alguém saltou para fora de um quarto e, durante o salto, levou um pontapé, para saltar mais depressa.
Gastaram meia hora para determinar a nova posição da nave. Aqueles homens não se sentiam muito orgulhosos com o novo recorde. Num único salto haviam percorrido 15 mil anos-luz.
A distância entre a Terra e o sistema de Árcon era de 34 mil anos-luz. E agora encontravam-se a 49 mil anos-luz do Império Solar, e o grupo estelar M-13 ficava entre eles e a Terra.
Por ocasião do primeiro salto, a Burma certamente sofrerá num dos planos um desvio de rota de cento e oitenta graus, motivo por que cruzou o hiperespaço em sentido oposto. Sem dúvida as estações de vigilância espacial de Árcon não deixaram de registrar o abalo estrutural provocado pelo cruzador leve do planeta Terra, mas por certo não estabeleceram qualquer ligação entre o fenômeno e a nave Burma. As naves arcônidas tripuladas por robôs poderiam estar procurando o cruzador ligeiro em qualquer lugar, menos num ponto situado 15 mil anos-luz atrás de seu sistema.
Podemos preparar a próxima transição com toda calma — ordenou Deringhouse. — Mas, desta vez, ligaremos o neutralizador de vibrações. Quero chegar à Terra sem incidentes, e de lá pretendo ir a Vênus. Preciso conversar com o Dr. Villnoess! Ele nem desconfia do que o espera...
Suas palavras não prenunciavam nada de bom, embora Deringhouse tivesse motivos de sobra para alegrar-se com o milagre que acabara de acontecer com Thora Rhodan. Mas também recordou-se de suas preocupações e angústias, pois não se esqueceu da advertência de Villnoess:
“— Quanto mais sadia dona Thora parecer, mais doente estará...”
Levantou-se.
Pasgin, assuma. Vou dar uma olhada nos “visitantes”.
A caminho do camarote de Thora encontrou-se com os médicos de bordo, cujos rostos exprimiam espanto e confusão. Vinham da direção em que ficava o camarote da arcônida.
Então? — limitou-se Deringhouse a perguntar.
O Dr. Brain fez um gesto de perplexidade.
General, nós... bem, o que quero dizer é que ou eu e meus colegas somos uns ignorantes, ou então houve um milagre com dona Thora...
Tolice — interveio o Dr. Elslow em tom exaltado. — Não existe milagre. Mantenho a opinião de que os sinais de leucemia e o chamado carcinoma F Árcon não foram outra coisa senão reações retardatárias contra o soro prolongador da vida, que há bastante tempo John Marshall e a mutante Marten foram buscar em Tolimon, um mundo dos aras. Será que as coisas podem ser diferentes, senhores? Qual foi o resultado do hemograma geral? E da radioscopia? Pois então...
O Dr. Elslow defendia energicamente sua opinião, e seus colegas pareciam impressionados. Deringhouse, que era leigo em medicina, preferiu não participar da discussão.
Senhores, gostaria de saber uma coisa: dona Thora está doente ou não? Como militar não estou interessado no porquê nem no como.
General, de acordo com os resultados de nosso último exame realizado com dona Thora, aliás acabamos de estar com ela, não só está bem de saúde, mas vai rejuvenescendo. Realizamos testes do tecido celular com os aparelhos de análise dos aras. Não compreendo! Só vi esse tipo de reação nos tecidos celulares de moças jovens, de menos de vinte anos.
O Dr. Brain custou um pouco a compreender por que Deringhouse lhe bateu no ombro e, assobiando alegremente, caminhou em direção ao camarote de Thora.
General — gritou o Dr. Elslow. — O senhor quer falar com dona Thora? Ela já voltou ao convés H, a fim de prosseguir no interrogatório dos dois aras e do arcônida Taa-rell.
Deringhouse fez meia-volta, deixou que o elevador antigravitacional o levasse ao convés H e dirigiu-se ao recinto destinado à guarda dos prisioneiros.
Ficou contrariado ao perceber que o robô de vigilância se encontrava à frente da porta da cela, o que contrariava todas as regras de segurança.
O homem-mecânico deixou livre a passagem sem que Deringhouse o pedisse. Deringhouse abriu a porta e ouviu um grito estridente:
Sua traidora!
No mesmo instante, viu o raio de uma arma de impulsos!
Tirou, num gesto instintivo, sua arma de radiações e disparou contra o homem de pernas compridas que se encontrava de costas para ele.
O grito de Thora fê-lo passar de um salto ao lado do ara que caía ao solo e esbarrar na mutante Ishy Matsu.
Os dois viram que Thora Rhodan caía ao chão, mortalmente atingida...
Meu Deus! Os médicos! Rápido! — gritou Deringhouse em tom de pânico.
Acontece que na cela não havia nenhum botão de alarma.
Ajoelhou-se ao lado de Thora, enquanto Ishy Matsu saía correndo.
Levantou cautelosamente a cabeça da esposa de Rhodan.
Como seu rosto voltara a ser jovem! Mas agora estava terrivelmente pálido. Uma palidez apavorante.
Abriu os olhos. Seus olhares encontraram-se. Thora procurou sorrir.
Sorriu.
Perry — disse num cochicho. — Já irei para junto de você, Perry. Aperte-me nos seus braços, Perry...
Deringhouse pensou que devia gritar “não”, mas sua boca permaneceu muda. Thora mantinha a cabeça pousada em seu colo, e a luz de seus olhos empalidecia cada vez mais.
Perry... — disse num sopro.
Onde estão os médicos? — perguntou Deringhouse em tom de desespero.
Perry, você é um grande homem! Como sua terra é linda! Thomas... Perry! Perry!
O Dr. Brain entrou correndo, seguido de perto pelo Dr. Elslow. Viram o movimento mole com que Thora virou a cabeça para a parede e viram a ferida mortal.
Só depois viram o assassino de Thora, um médico galático gravemente ferido.
Não puderam fazer mais nada por Thora Rhodan. Mas os médicos do planeta Terra agiram em conformidade com seu juramento e fizeram tudo para salvar a vida do criminoso.
Dominado pela dor e pelo desespero, o General Conrad Deringhouse ajoelhou ao lado da morta, que ele tanto venerara.
Não compreendia.
Não compreendia como aquela arma fora parar nas mãos do ara; não compreendia por que, só há poucos minutos, os médicos de bordo lhe haviam dito que Thora passava por um processo de rejuvenescimento...
Muito perturbado, olhou para o rosto pálido, em cujos lábios se via um sorriso de saudade.
Ela chamara por ele... por Rhodan...”, foi o que conseguiu pensar.
Deringhouse engoliu em seco. Sentiu-se incontrolavelmente desesperado.
8



Voaram para Fera Cinzenta.
Dali dirigiram-se à Terra, inclusive Ishy Matsu, a mutante débil e graciosa, que se vivia acusando ininterruptamente. Acreditava ser a assassina de Thora, pois foi com sua arma que o ara matou a esposa de Perry Rhodan. O médico galático lhe tirara a pistola do cinto enquanto passava por ele e, antes que suas faculdades telepáticas lhe permitissem detectar o pensamento assassino, o raio mortífero atingiu Thora.
Perry Rhodan encarregou-se do velório.
Ficou a sós com a morta. Tivera força suficiente para consolar Ishy Matsu. Dissera que tudo não passara de uma trágica coincidência. Mas não conseguiu consolar a si mesmo.
Ficou sentado ao lado do corpo embalsamado e fitou seu rosto jovem, que, naquele momento, era de uma beleza irreal.
Ficou assim durante horas.
Durante dias!
E durante esses dias, um mausoléu surgiu no ponto da lua terrana em que Thora de Zoltral, a comandante de uma nave exploradora arcônida, tivera de realizar um pouso de emergência. Não se tratava de um monumento suntuoso. Seu efeito provinha da simplicidade e da singeleza das linhas.
Era a expressão, concretizada em pedra, aço e plástico, de quem fora Thora Rhodan!
Thora Rhodan, a boa alma do Império Solar!
Será que Perry Rhodan já deixara de pensar na área de superposição, nos perigos que ameaçavam a Galáxia?
Será que o golpe do destino o derrubara — a ele, o administrador de um império em expansão?
Bell, seu melhor amigo, não conseguiu libertá-lo da dor.
Crest, que com Thora fora o único sobrevivente da expedição arcônida, já não sabia o que fazer da vida. Depois que a Burma pousou em Fera Cinzenta, alguém dissera que, ao ser assassinada, Thora fora uma mulher jovem e sadia.
Rhodan nunca deveria saber disso.
Mas Rhodan descobriu; e descobriu toda a verdade. O boato tinha um fundo de verdade, e aquilo que antes fora apenas um boato tornava ainda mais trágica a morte de Thora.
A Drusus levou o cadáver de Thora à Lua.
Pai e filho encontraram-se junto ao túmulo da mãe e esposa. Perry Rhodan estendeu a mão ao filho, e os olhos do homem mais poderoso do Império pediram perdão a Thomas Cardif, um tenente da frota espacial com vinte e quatro anos de idade.
Thomas Cardif fez como se não visse o olhar, nem a mão que lhe era estendida.
Ao lado de um homem dilacerado pela dor encontrava-se um jovem bastardo, frio, orgulhoso e presunçoso. Era dominado pelo sangue da mãe. Ela, que crescera para além de si mesma, transformando-se na boa alma do Império Solar, não mais via a hora de amargura do marido.
Muito lentamente, Perry Rhodan foi retirando a mão.
Mais uma vez, viu o jovem que se encontrava a seu lado, e que era seu filho de carne e osso, da cabeça aos pés. Depois voltou a enxergar através do material transparente o rosto rígido e amoroso de Thora.
Não viu que Reginald Bell, um bom homem, mas muito impulsivo, apertou o pulso de Thomas Cardif e o obrigou por meio da pressão inexorável de seus dedos a colocar-se atrás do pai, cuja mão se recusara a apertar.
Thomas Cardif veio para perto de Crest, o arcônida. E então teve de ouvir duas palavras que Crest pronunciou como se fossem uma maldição:
Seu arcônida!
Ninguém desconfiava de que Perry Rhodan também pensava em Árcon.
Pensava no grande computador, naquele monstro positrônico que cobria uma área superior a 10 mil quilômetros quadrados, e que, com sua fria lógica, governava um gigantesco império cósmico.
Meio inconsciente, ainda sob os efeitos do tremendo abalo, Rhodan sentiu cristalizar-se em sua mente um pensamento de ódio, cujo alcance ainda não percebia. Mas logo tudo se tornou confuso e irreconhecível; só restava a certeza de estar só.
Naquele instante olhou para o lado.
E viu, em vez do filho, o amigo Reginald Bell!
E bilhões de seres humanos que fitavam as telas viram que o rosto enrijecido de Perry Rhodan se descontraiu, parecendo suspirar aliviado.
Bilhões de seres humanos perceberam, na hora mais amarga de Perry Rhodan, que o administrador do Império Solar era um homem como qualquer outro...




* * *
* *
*




Thora, que já fora inimiga implacável dos terranos, para depois transformar-se na boa alma do Império Solar... morreu!
E sua morte representa o início de uma série de rudes golpes para o administrador do Império Solar!
Em O Inferno Atômico, título do próximo volume da série, sérios problemas têm de ser resolvidos.

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