Autor
KURT
MAHR
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
500 mil
homens aguardam —
Será que
o chefe está morto?
Poucos
dias após a morte de sua esposa, Perry Rhodan, administrador do
Império Solar, apresenta um plano por meio do qual pretende desferir
um ataque relâmpago, afim de pôr fora de ação o computador
positrônico.
São
500 mil homens decididos a destruir o principal inimigo da Terra!
Porém
a ordem de ataque foi suspensa, pois Fera Cinzenta, onde se encontram
quatro pessoas proeminentes do Império Solar, transformou-se numa
bola de fogo...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Major
Paul
Brackett
— A
catástrofe é causada por um pequeno defeito técnico nas
instalações amortecedoras de sua nave.
General
Conrad
Deringhouse
— 500
mil homens aguardam sua ordem de ataque.
Perry
Rhodan,
Reginald
Bell,
Atlan
e Fellmer
Lloyd
— Os
homens desaparecidos em Fera Cinzenta.
Mike
Judson
— Comandante
da base de Fera Cinzenta.
Lathon
— Um
arcônida
que sabe demais.
1
No momento
em que a transição terminou, Paul Brackett viu a fileira de linhas
angulosas verdes que corria rapidamente sobre a tela do oscilógrafo.
Paul Brackett ainda sentia a dor provocada pelo hipersalto, mas
compreendeu imediatamente o que significavam essas linhas.
O pânico
tomou conta dele!
A Rigel,
um cruzador pesado da frota terrana, estava regressando à base
espacial de Fera Cinzenta. Estivera nas proximidades da área de
superposição, onde se verificava o encontro entre o plano temporal
dos druufs e o do Universo einsteiniano, e descarregara material
destinado à base secreta de Hades, levando-o ao destino por meio do
transmissor fictício. A operação consumira algumas horas, durante
as quais a metade dos oitocentos tripulantes ficava de olho no
espaço, a fim de verificar a eventual aproximação das naves da
frota arcônida de bloqueio. Tal grupamento mantinha vigilância
contínua sobre a área de superposição e rechaçava os druufs toda
vez que estes tentavam transferir-se para o Universo einsteiniano. Os
arcônidas não conheciam a base terrana de Fera Cinzenta, e, por
enquanto, uma das coisas que mais preocupava os homens da Terra era
que ela continuasse em segredo.
Em virtude
disso, as naves terranas que trafegassem entre Fera Cinzenta e a área
de superposição, situada a apenas alguns anos-luz de distância, e
que constituía a área de operações da frota de bloqueio arcônida,
viam-se obrigadas a tomar todas as precauções possíveis, para que
as naves de Árcon não lhes seguissem a pista e fossem ter com a
base espacial.
Durante as
últimas semanas, haviam conseguido esse intento, o que representava
uma obra-prima da técnica de camuflagem, fato que ninguém se
atreveria a contestar. No entanto, Paul Brackett tinha certeza de
que, naquele momento, estava começando a catástrofe.
As linhas
angulosas deslizaram pela tela, da esquerda para a direita, e logo
desapareceram. Tudo não demorara mais que dois segundos ou dois
segundos e meio. Mas os espiões de rádio do regente de Árcon
estavam em toda parte, e a atenção que dispensavam a qualquer sinal
permitiria que não lhes escapasse um reflexo ainda mais breve.
O
oscilógrafo da nave de Paul Brackett estava acoplado ao
neutralizador de vibrações. Esse aparelho evitava que a energia
desprendida pelo mecanismo hiperpropulsor, no início e no fim de
cada transição, se espalhasse pelo espaço, pois era absorvida pela
própria nave.
Se o
neutralizador funcionasse perfeitamente, Paul Brackett não teria
visto os ângulos verdes. Acontece que ele os vira; logo, o
neutralizador não funcionara como devia. A energia remanescente da
transição fora descarregada para o espaço, e, em algum ponto,
situado no máximo a cinco anos-luz, um arcônida, especialista em
localização, estaria empenhado em interpretar os estranhos sinais.
Face à sua estrutura situada na quinta dimensão, o campo de
ondulações gerado pela descarga energética se espalharia com uma
velocidade infinita.
Não havia
a menor dúvida de que os arcônidas não levariam mais que alguns
minutos para descobrir o significado desses sinais. E, dali a pouco
mais de dois minutos, saberiam de que ponto do espaço estes
partiram.
E esse
ponto ficava a apenas vinte unidades astronômicas de Mirta, o astro
central do sistema de Fera Cinzenta. Assim que descobrissem o ponto
de origem das ondulações, os arcônidas saberiam onde deveriam
prosseguir com suas buscas.
Paul
Brackett deu o alarma. O uivo das sereias encheu todos os recantos da
enorme nave. As palestras foram interrompidas e os homens moveram-se
rapidamente, a fim de dirigir-se aos seus postos.
Paul
Brackett pegou o microfone do sistema de intercomunicação e
explicou o que havia acontecido. Enquanto isso, o oficial de rádio
transmitiu um relato resumido para Fera Cinzenta.
— Podemos
esperar qualquer coisa — concluiu Brackett. — Inclusive a
presença de uma frota arcônida composta de dez mil unidades que
venha para destruir a base de Fera Cinzenta.
*
* *
A
decolagem em massa estava em pleno andamento. Uma após outra, as
naves desprendiam-se do solo e subiam ao céu azul, com os
propulsores cantantes. Os gigantescos couraçados também subiam com
igual leveza e elegância.
A frota
terrana pôs-se a caminho. Viajaria de Fera Cinzenta para Árcon, a
fim de oferecer ao computador-regente uma demonstração concreta do
que os terranos pensavam de um falso aliado.
Foi o
grande dia de Perry Rhodan: 23 de outubro de 2.043. O poder da Terra
concentrava-se para o grande golpe contra Árcon. A Terra estava
prestes a oferecer às potências galácticas uma demonstração do
papel que, dali em diante, pretendia desempenhar.
As
unidades da frota, comandadas pelo General Deringhouse, reuniram-se
num ponto afastado de todas as rotas de navegação espacial, isto é,
a quinhentos anos-luz de Fera Cinzenta. Nesse planeta só ficaram
vinte e três naves e o pessoal estritamente necessário ao
funcionamento da base. Isto se devia ao fato de que algumas unidades
ainda se dirigiam à área de superposição — local onde se fazia
o aprovisionamento da base de Hades, situada no plano temporal dos
druufs — ou de lá regressavam.
A Rigel,
por exemplo, ainda estava fora.
Todavia,
em Fera Cinzenta permaneciam quatro pessoas que teriam de liquidar
alguns assuntos importantes. Só se uniriam à frota, pouco antes do
ataque a Árcon.
Estes
quatro indivíduos eram Perry Rhodan, Atlan, o arcônida, Reginald
Bell e o mutante Fellmer Lloyd.
Encontravam-se
num abrigo subterrâneo situado fora da área da base propriamente
dita. Dali extraíam do setor de processamento as últimas normas
relativas à ação que seria desencadeada contra o
computador-regente.
O trabalho
foi iniciado pouco depois das onze horas, tempo de Terrânia.
Às onze
horas e trinta e quatro minutos, um cruzador pesado chamado Rigel,
comandado pelo Major Paul Brackett, concluiu seus trabalhos na área
de superposição e, adotando todas as precauções, iniciou a viagem
de volta para Fera Cinzenta.
As tarefas
foram distribuídas entre os homens, que trabalharam com a
concentração peculiar aos indivíduos que querem fazer um serviço
rápido e esmerado.
Quem
forneceu o primeiro relato intermediário foi Reginald Bell. Este
tinha à sua frente uma folha saída da máquina, repleta de cifras.
Leu-a atentamente e depois de algum tempo disse:
— O
momento decisivo deve ser adiado pelo menos por quatro horas.
Não olhou
para trás; continuou a fitar atentamente a folha. Apesar disso,
tinha certeza de que todos interromperam seu trabalho e olhavam para
ele.
— São
muitas ramificações, não é? — perguntou Rhodan.
— Exatamente
— respondeu Bell. — A máquina apurou duas mil quatrocentas e
trinta e quatro alternativas. E cada alternativa encerra, em média,
cinco subalternativas, parte das quais poderá ser recombinada no
estágio final.
Levantou
os olhos.
— Estas
informações ainda deverão ser programadas e introduzidas nos
autômatos das naves — prosseguiu. — É verdade que a programação
pode ser concluída em trinta minutos, mas sua distribuição levará
mais tempo.
Perry
Rhodan virou-se na poltrona, ficando de costas para a mesa de
programação. Atlan, o arcônida, estava sentado à sua direita.
Tinha o cotovelo esquerdo apoiado na mesa. Lançou um olhar pensativo
para Reginald Bell.
— Sugiro
cancelarmos todas as alternativas e subalternativas que apresentem um
nível de probabilidade inferior a zero vírgula quatro — disse.
Perry
Rhodan sorriu.
— Vejo
que o almirante dispensa a prudência costumeira e se declara
disposto a concordar com procedimentos simplificados — disse em tom
irônico.
— Você
sabe perfeitamente que o momento X não pode ser adiado indefinida
mente — respondeu Atlan. — As naves do regente estão em toda
parte. Assim que descobrir a concentração de unidades terranas,
saberá o que está em jogo, e, depois disso, será tarde.
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— Eu
sei. Acontece que, se eliminarmos todas as alternativas, de
probabilidade inferior a zero vírgula quatro, estaremos assumindo um
risco muito grande. A probabilidade de zero vírgula quatro não é
pequena, se considerarmos que a cifra um representa a certeza
absoluta.
Atlan
manteve-se calado.
— Vamos
falar em termos mais concretos — sugeriu Bell. — O computador
descobriu um total aproximado de cinco mil alternativas básicas, ou
seja, cinco mil maneiras diferentes pelas quais o regente poderá
reagir ao nosso ataque. Essas cinco mil alternativas, em conjunto,
têm uma probabilidade de zero vírgula noventa e oito. A fração de
zero vírgula zero dois, que falta para atingir a unidade,
distribui-se por outras dez mil alternativas básicas, que a máquina
deixou de indicar uma por uma, porque seu grau de probabilidade é
muito reduzido. Abandonamos todas as alternativas básicas, cuja
probabilidade seja inferior a zero vírgula zero seis. Com isso, o
número de alternativas básicas baixou para dezessete.
“Consideremos
uma das alternativas básicas. A reação do regente poderia
consistir na retirada da frota de bloqueio. Nesse caso teríamos,
dentro de alguns minutos, mais de dez mil naves pelas costas. O grau
de probabilidade desta alternativa básica é de zero vírgula treze.
Logo, inclui-se entre aquelas que devem ser consideradas.
“Passemos
às subalternativas. Segundo uma delas, o regente, em vez de nos
atacar com a frota de bloqueio retirada da frente de combate, manda
que ela proteja Árcon III, ordenando que forme um anel de naves em
torno deste mundo. A probabilidade desta subalternativa é de zero
vírgula quarenta e quatro, ficando acima do limite sugerido por
Atlan. E é igualmente provável que o regente dê ordem para que
essa frota nos ataque.
“Resta,
portanto, uma probabilidade de zero vírgula doze por outra ou outras
subalternativas. Entre elas se conta, por exemplo, a de que a frota
de bloqueio pouse em Árcon II, leve certos materiais importantes,
entre esses, talvez, algumas peças do próprio regente, e desapareça
com os mesmos, fazendo pouco de nós. Se seguíssemos a sugestão de
Atlan, deveríamos abandonar esta subalternativa.”
Suspirou e
passou a mão pelos cabelos curtos.
— Sou de
opinião que não nos podemos permitir o luxo de proceder assim.
— Também
tenho opinião idêntica — disse Rhodan em tom sério. — A idéia
é boa, mas a proposta é muito radical. Vamos eliminar todas as
alternativas cuja probabilidade seja inferior a zero vírgula um.
Qual seria o número de alternativas que restaria depois disso?
Reginald
Bell fez alguns cálculos.
— Trinta
e cinco — respondeu.
— Isso
basta. E procederemos da mesma forma com as subalternativas. Com
quantas ficaremos?
— Quarenta
e uma subalternativas e... — desta vez, os cálculos foram mais
demorados — ...zero vírgula 937 de probabilidade de...
Perry
Rhodan bateu com a mão espalmada na mesa.
— Isso
basta! — decidiu. — E basta, mesmo que consideremos que o regente
fará o possível para escolher uma reação pouco provável.
— Está
bem — concordou Bell. — Neste caso, só resta confeccionar as
matrizes de programação. Vamos fazer uma para cada unidade?
— Duas —
ordenou Rhodan.
Atlan, o
arcônida, continuava imerso em profundas meditações.
— Não
está de acordo, almirante? — perguntou Rhodan, virando o rosto em
sua direção.
Atlan
sacudiu a cabeça. Isso poderia significar um não, ou então, que a
formulação da pergunta não fora correta.
— É
muito arriscado — disse. — Quem dera que eu estivesse em
condições de provar isto, Perry. Mas por enquanto não sei onde
está o problema — levantou a cabeça.
— Na
minha opinião deveríamos esperar mais alguns meses. Você tem
certeza absoluta de que não foi o ressentimento causado pela morte
de Thora que lhe incutiu este plano?
Perry
Rhodan tinha uma resposta na ponta da língua. Mas resolveu refletir
um pouco. Levou algum tempo para responder.
— Não
tenho certeza absoluta, arcônida — confessou em tom inseguro. —
É possível que a causa disto seja a morte de Thora. Mas para que
havemos de preocupar-nos com isso? Já refletimos centenas ou mesmo
milhares de vezes sobre cada lance do jogo que pretendemos lançar. E
nossos planos não foram elaborados com o maior cuidado? O computador
positrônico não apurou, com absoluta segurança, que nas
circunstâncias atuais a probabilidade de que a missão seja bem
sucedida é superior a noventa por cento? Será que, com tudo isso,
ainda faz alguma diferença que a verdadeira causa da ação seja
analisada?
Atlan
refletiu.
— Acho
que faz diferença. Geralmente um plano concebido em estado de
excitação tem algum erro. É claro que a existência do erro
independe do fato de que nós o conheçamos ou não.
— Se
houvesse um erro, o computador positrônico o teria descoberto —
respondeu Rhodan.
O fato de
Atlan não concordar inteiramente com seus planos deprimia-o de uma
forma estranha. Desde o momento em que começaram a trabalhar lado a
lado, praticamente não houvera nenhuma divergência entre eles. Esta
era a primeira vez que não concordavam sobre um assunto de grande
importância.
Numa
questão de segundos, Perry Rhodan rememorou os motivos que o haviam
levado a acreditar que este seria o momento mais favorável para
lançar o ataque contra Árcon. E ainda desta vez não encontrou
qualquer erro.
Como os
computadores também não houvessem constatado qualquer ponto falho,
concluiu que Atlan era um pessimista. Talvez isso tivesse sua origem
no fato de que, embora estivesse sendo governado por um gigantesco
computador, Árcon era sua pátria. E, quando a pátria está em
jogo, os sentimentos sempre desempenham papel relevante.
Perry
Rhodan olhou para o relógio.
Eram onze
horas e trinta e quatro minutos.
*
* *
As naves
não apareciam nas telas de visão global. Mas as telas foscas
verde-escuras dos instrumentos de localização as mostravam como
pontos de interseção de uma rede uniforme de malha fina.
Pensativo,
o General Deringhouse lançou um olhar para o quadro. Estavam todas
reunidas: eram vários milhares de naves, prontas para incutir ao
computador-regente de Árcon algum respeito por seu “aliado”
terrano.
Pelos
padrões terranos, era uma frota gigantesca. À medida que
contemplava o quadro, Deringhouse teve a impressão de ter uma
sensação física de força incorporada nestas naves. Sabia até
onde chegava o poder das mesmas. Estava perfeitamente ciente de que o
potencial energético da frota, manipulado por um indivíduo
irresponsável, seria capaz de desagregar e destruir vários sistemas
solares...
Bem, o
sistema de Árcon também era um sistema solar. Não havia dúvida de
que era rodeado por um gigantesco anel de fortificações, mas
continuava a ser apenas um sistema solar.
“A
dificuldade consiste em avançar rápida e profundamente”,
pensou. “Se
conseguíssemos isso, o regente perderia a guerra antes que a mesma
tivesse começado.”
Desviou os
olhos do quadro.
“O
golpe será bem sucedido”,
voltou a refletir Deringhouse. “Quando
estivermos sobre Árcon, o computador-regente ainda estará ocupado
com o problema dos druufs. Depois disso, as coisas serão diferentes
na Galáxia. Teremos liberdade de movimentos. Já não precisaremos
realizar acrobacias mentais para manter em segredo a posição
galáctica da Terra e das nossas principais bases.
“Já
deveríamos tê-lo feito há muito tempo”,
continuou a pensar, prosseguindo no seu raciocínio. “Sabemos
perfeitamente que, nos últimos dezessete anos, o regente não
realizou nenhum progresso técnico. Já o excedemos em qualidade, e
faremos tudo para que a quantidade não venha a ser o fator
decisivo.”
Deringhouse
tinha certeza de que os oficiais superiores pensavam da mesma forma.
O golpe contra Árcon estava no ar há dois anos. Nos últimos meses
tiveram, por assim dizer, que prender o ar para não pôr tudo por
água abaixo.
Deringhouse
voltou a examinar a tela. Quinhentos mil homens aguardavam
ansiosamente o momento em que pudessem dar provas de seu valor.
— Cuide-se,
Árcon! — balbuciou.
Às onze e
trinta e seis, hora de Terrânia, o posto de observação da nave
capitania captou um ligeiro impulso, causado pela transição de uma
espaçonave desconhecida. Essa transição foi realizada a quinhentos
anos-luz de distância.
Mesmo
depois de cientificado, o General Deringhouse não atribuiu maior
importância ao impulso. A quinhentos anos-luz do lugar em que se
encontravam, a frota de bloqueio arcônida aguardava outra investida
dos druufs. Provavelmente uma de suas unidades realizara uma
transição a curta distância, dando origem ao impulso.
Não valia
a pena quebrar a cabeça sobre isso.
*
* *
Paul
Brackett recebeu ordens para afastar-se do sistema de Fera Cinzenta o
mais rápido possível. O comandante da base tomou essa decisão sem
consultar Perry Rhodan. Era evidente que a decisão deste não seria
outra. Devia-se impedir que os arcônidas descobrissem Fera Cinzenta.
E, para isso, a Rigel não deveria prosseguir diretamente em direção
à base, mas afastar-se do sistema.
O Major
Brackett prontamente iniciou outra transição. Já sabia que seu
neutralizador de vibrações entrara em pane, motivo por que os
arcônidas seriam capazes de medir também esse novo salto. Esperava
que assim pudesse confundi-los, muito embora no fundo essa esperança
fosse um tanto suicida. Se os confundisse, faria com que a Rigel
fosse perseguida, e só mesmo o deus de pele escamada e cabeça de
dragão dos tópsidas seria capaz de dizer o que os arcônidas fariam
com uma nave terrana isolada, se conseguissem encontrá-la.
A
transição afastou a Rigel cerca de trinta anos-luz de Fera
Cinzenta, e isso numa direção diversa da Terra e da concentração
das naves de guerra comandadas pelo General Deringhouse.
Os
tripulantes continuaram a guarnecer as posições de artilharia. Paul
Brackett anunciava que, se atacada, a Rigel se defenderia, por maior
que fosse a superioridade do inimigo.
Mas o
ataque não se verificou.
O que se
seguiu foi uma série de impulsos, produzida por centenas de
transições realizadas em seqüência rápida num trecho de alguns
poucos anos-luz.
Não podia
haver a menor dúvida sobre o significado desse fato.
Paul
Brackett sentiu a boca seca.
*
* *
O
intercomunicador chamou.
Perry
Rhodan olhou para o relógio.
Eram onze
e trinta e quatro.
O rosto do
Tenente Judson dizia mais que um discurso de cem palavras. Os olhos
de Judson estavam arregalados de medo e os pingos de suor brilhavam
em sua testa.
— Alarma,
Sir! — gritou. — Uma frota arcônida está atacando a base. Ainda
temos...
Perry
Rhodan interrompeu-o. Sua reação foi a de uma máquina. Não se via
o menor sinal de surpresa, susto ou medo. Numa fração de segundo,
avaliou a situação.
— Por
que aconteceu isso? — perguntou.
— Foi a
Rigel — respondeu Judson com a voz triste. — O neutralizador
falhou; localizaram-na imediatamente.
Perry
Rhodan não levou mais de um segundo para avaliar todas as chances
que lhe restavam. Não eram muitas.
— Procure
rechaçar os arcônidas! — ordenou. — Mande guarnecer todas as
posições de defesa. As naves deverão ficar no solo. A partir deste
momento, as decolagens estão suspensas. Ainda existe uma chance
pequenina de os arcônidas passarem por Fera Cinzenta e descarregarem
sua raiva contra Peep. Quanto tempo ainda nos resta?
— Dez
minutos, Sir — respondeu Judson em tom apressado. — Se até lá
não mudarem de rota, poderão reconhecer a base a olho nu.
Rhodan
confirmou com um gesto.
— O que
está fazendo a Rigel?
— Seguiu
as instruções que lhe foram ministradas, afastando-se do planeta.
Achei preferível afastar a nave quanto antes de nosso sistema.
Perry
Rhodan rememorou rapidamente...
A Rigel
era comandada pelo Major Brackett. E Brackett não seria capaz de
levar uma nave, cujo neutralizador estivesse avariado, para a Terra
ou qualquer outro lugar onde houvesse segredos importantes. Quanto a
isso, não precisaria preocupar-se.
— Está
bem — disse Perry Rhodan, encerrando a palestra. — Mantenha-nos
informados.
Antes que
Judson desligasse, virou-se. Atlan, Bell e o mutante Fellmer Lloyd
fitaram-no.
— As
coisas estão ruins — disse Rhodan em tom tranqüilo.
O arcônida
suspirou.
— Sabia
que haveria um problema.
Perry
Rhodan esboçou um sorriso amargo.
— Não
havia nenhum problema que razoavelmente pudesse ser previsto —
retrucou. — De qualquer maneira, você tem razão. Mas isso não
altera nada.
Mantiveram-se
calados por algum tempo. Finalmente Rhodan levantou-se e foi a uma
das portas que davam para os corredores situados entre a sala de
computação e os outros recintos do abrigo subterrâneo. Ao se
aproximar da porta, virou-se.
— Acabo
de me lembrar de uma coisa — sua voz não revelava a menor comoção.
— É
possível que os arcônidas acreditem que Fera Cinzenta seja a Terra.
Isso não acontecerá, se ficarem com os olhos bem abertos. Mas acho
que estão muito nervosos... Nesse caso será altamente provável que
lancem algumas bombas muito perigosas, como por exemplo, bombas de
Árcon, que desencadeiam incêndios atômicos inextinguíveis. Eu
lhes recomendaria que colocassem os trajes protetores.
Saiu. Aos
poucos, seus passos firmes foram se afastando pelo corredor.
Já
durante a palestra com Judson, havia avaliado corretamente a
situação. Agora podia concentrar sua atenção inteiramente sobre
aquilo que tinha pela frente, era claro que os arcônidas
encontrariam Fera Cinzenta. Seria inútil convocar Deringhouse e sua
frota. Não havia dúvida de que a mesma seria capaz de rechaçar os
atacantes. Porém, nesse caso, sofreria pesadas perdas. E a Terra não
podia dispensar uma única das suas naves. E, o que era o principal,
havia uma coisa que Deringhouse não conseguiria fazer: impedir que
os arcônidas lançassem bombas. Chegaria tarde. Portanto, era
preferível que continuasse onde se encontrava.
Afinal, o
que estava em jogo aqui era apenas o destino de uma base. E essa base
não era muito importante. Além das vinte e três naves ali
estacionadas — tratava-se de veículos pequenos, destinados apenas
ao transporte — não havia muita coisa a perder em Fera Cinzenta. O
grosso da frota encontrava-se, sem que os arcônidas o soubessem, a
quinhentos anos-luz de distância. Não havia nenhum perigo para a
Terra e a Humanidade...
A não ser
que, provavelmente, dali a cinco horas, Perry Rhodan estaria morto...
*
* *
A calma
inabalável de Perry Rhodan transmitiu-se ao Tenente Judson. Com
alguns movimentos rápidos, ligou o sistema de intercomunicação
geral. Todos os homens que se encontrassem em algum recinto fechado
poderiam ouvi-lo.
As ordens
eram rápidas e precisas.
— Todos
se dirigirão aos seus postos. Até segunda ordem fica proibido sair
do planeta. Temos pela frente algumas horas difíceis, mas
conseguiremos atravessá-las.
Quando
proferiu estas palavras eram onze horas e cinqüenta e um. Às onze
horas e cinqüenta e três minutos, Judson e o posto de observação
espacial tiveram certeza absoluta de que Fera Cinzenta constituía o
objetivo dos arcônidas. Sua rota dirigia-se diretamente ao planeta.
Mike
Judson ordenou aos postos de foguetes que disparassem, assim que as
naves arcônidas se aproximassem a menos de dois mil quilômetros da
superfície do planeta.
Isso
aconteceu às onze horas e cinqüenta e oito minutos. Às doze horas
em ponto os primeiros foguetes disparados pelo sistema defensivo da
base atingiram o alvo. Alguns sóis ofuscantes surgiram nos céus de
Fera Cinzenta, mergulharam a paisagem numa luz colorida e voltaram a
desaparecer. Mike Judson pegou o microfone do intercomunicador,
apertou alguns botões e esperou que o rosto de Reginald Bell
surgisse na tela.
— O
ataque começou, Sir — anunciou laconicamente. — Na primeira
investida destruímos dez naves arcônidas.
Reginald
Bell sorriu.
— Bendito
seja seu otimismo, Judson - respondeu. — Pelo que sei, são ao todo
mil naves.
Era um
fato que Judson não podia contestar. Os postos de observação
espacial já haviam apurado o número exato de naves. A frota
atacante era formada por mil e duzentas unidades pesadas e ultra
pesadas.
— Faremos
o que estiver ao nosso alcance, Sir — asseverou Judson.
— Não
tenho a menor dúvida — respondeu Reginald Bell. — Estamos
subindo para dar apoio ao senhor.
Mike
Judson parecia surpreso. Esteve a ponto de responder alguma coisa,
mas nesse instante sentiu-se ofuscado por um relâmpago que emitia
uma luminosidade insuportável!
O rosto de
Reginald Bell desapareceu em meio a uma confusão de anéis coloridos
chamejantes...
Subitamente,
a lâmina de plástico transparente, pela qual Judson olhara para a
ampla superfície do espaçoporto, partiu-se. Sentiu-se agarrado por
um punho de gigante que o arrancou da cadeira e o atirou contra a
parede. Judson soltou um grito de dor. Por alguns segundos ficou
deitado no chão, quase inconsciente. Mas para sua surpresa,
conseguiu levantar sem qualquer dificuldade.
Era bem
verdade que a sala na qual se encontrara ainda há pouco não existia
mais. Uma cadeira quebrada estava a seu lado. A pressão desencadeada
pela explosão atirara as paredes e o teto a algumas centenas de
metros de distância, reduzindo tudo a um montão confuso de
destroços.
No centro
do campo de pouso, o raio incandescente de uma pequena bomba nuclear
subia. Judson sentiu o calor irradiado pela mesma. Ainda bem que no
momento crítico, ficara protegido pela lâmina de plástico
transparente. Se não fosse ela, a essa hora estaria reduzido a
cinzas.
A lâmina
já não existia!
A próxima
bomba o encontraria ao ar livre, sem a menor proteção, e
completaria o que a primeira deixara de fazer. Olhou em torno. Mais
adiante havia algumas construções baixas que escaparam aos efeitos
da explosão. Estavam ligeiramente inclinadas, mas continuavam de pé.
Correu para lá. Por estranho que pudesse parecer, não estava com
medo. Apenas desejava um intercomunicador que lhe permitisse manter
contato com os subordinados.
Enquanto
corria, um foguete defensivo subiu à sua direita. Mike Judson parou
e seus olhos acompanharam o artefato com uma expressão de enlevo.
Subitamente, viu acender-se, muito acima do azul, a bola ofuscante da
explosão. Não ouvira nada, nem o disparo, nem o trovejar do
mecanismo propulsor. Levantou a mão direita e estalou os dedos perto
do ouvido. Nada!
Tudo
continuava em silêncio.
Perdera a
audição... Não sabia se a perda era temporária ou definitiva. De
qualquer maneira, era a pior coisa que lhe poderia ter acontecido na
hora do perigo.
Como
poderia dar ordens e receber informações? Desorientado e inseguro,
continuou a caminhar.
A bomba
nuclear levantara toneladas de pó, que se espalhavam numa nuvem, e
esta obscurecia o sol. Começou a escurecer. Os raios fulgurantes dos
mecanismos propulsores cortavam a penumbra como os relâmpagos de uma
gigantesca trovoada.
Continuando
aos tropeços, Judson chegou às primeiras construções. A porta da
frente estava “empenada”,
mas Judson, animado pela cólera e pelo desespero, conseguiu abri-la
com um pontapé.
No
interior da construção estava escuro. Ao que parecia, a bomba
inutilizara parcialmente o sistema de suprimento de energia da base.
Judson tateou à procura do intercomunicador e ligou-o. O sistema de
intercomunicação dispunha de suprimento energético independente. A
tela e as luzes de controle acenderam-se imediatamente.
Mike
Judson refletiu sobre o que deveria fazer. O recinto estava
mergulhado num silêncio perigoso e deprimente. Tinha a impressão de
estar só no planeta. A luminosidade dos foguetes, a poeira que era
tangida pelo vento, os homens que corriam abaixados em meio à
escuridão, tudo isso se passava num outro universo com o qual Mike
Judson não tinha nada em comum.
Judson fez
um esforço para controlar-se. Devia fazer alguma coisa, pois os
homens aguardavam instruções. Procurou avaliar quantas dentre as
vinte e três naves ainda estavam intactas. As outras oito haviam
sido esfaceladas, derrubadas, esmagadas ou fundidas pela bomba
nuclear.
Judson
resolveu entrar em contato com o posto de observação espacial. A
tela mostrou um rosto vermelho, banhado em suor.
— Preste
atenção! — gritou Judson. — Não posso ouvi-lo; estou surdo.
Responda às minhas perguntas dando um sinal ou escrevendo alguma
coisa num pedaço de papel. Entendido?
O homem
acenou com a cabeça e disse alguma coisa que ele não ouviu.
— Onde
está o inimigo? — perguntou Judson.
O homem do
posto de observação olhou para o lado. Por alguns segundos fitou um
lugar à sua frente. Depois levantou um pedaço de papel e Mike
Judson leu as palavras escritas às pressas:
— Está
espalhado por cima do planeta. A altitude média é de mil e
quinhentos quilômetros.
“É
muito alto para os desintegradores”,
pensou Judson bastante desanimado. “E
principalmente, está muito espalhado para um bombardeio maciço.”
— Quais
são nossas perdas?
Seguiu-se
outra ligeira pausa, depois da qual foi apresentado outro papel.
— Oito
naves, oitenta e quatro mortos ou feridos. Há perigo de novas
perdas, em virtude da radiatividade.
“Os
trajes protetores”,
pensou Judson, que se sentia perplexo. “Por
que não colocaram os trajes protetores?”
Lembrou-se
de que ele mesmo ainda não o envergara. Nestes poucos minutos havia
acontecido tanto atropelo que ninguém tivera tempo de pensar em
outra coisa senão naqueles terríveis acontecimentos.
— Encarregue-se
disso por mim — ordenou ao operador de rádio. — Todos deverão
colocar imediatamente os trajes protetores. Isso é mais importante
que qualquer outra coisa. Avise-me assim que haja algo de novo.
Parece que, no momento, os arcônidas se mantêm calmos, não é?
O homem do
posto de observação confirmou com um sinal. Judson interrompeu a
ligação.
Sabia que
não conseguiriam manter a base. Suas instalações defensivas eram
muito fracas, isso porque, na época de sua construção, ninguém
contara com a possibilidade de que os arcônidas pudessem passar a
operar com uma gigantesca frota a poucos anos-luz de Fera Cinzenta.
A proteção
mais eficaz da base residia no fato de que os arcônidas não a
conheciam. Se eles a tivessem descoberto há alguns dias atrás, a
frota ainda estaria por perto para rechaçar qualquer ataque. Mas,
naquele momento, só dispunham de algumas pequenas naves de
transporte, desarmadas, que se encontravam indefesas diante do
próximo ataque. Eram vinte e três, mas oito delas já estavam
reduzidas a sucata.
Do lado
oeste do campo de pouso, mais um foguete subiu ao céu. Estava
equipado com um dispositivo de auto comando. Dentro de poucos
instantes, atingiria o alvo e o transformaria numa nuvem reluzente de
gases. Os arcônidas sabiam disso. Por que não desferiam logo seu
golpe?
Mike
Judson olhou pela janela inclinada, fitando a escuridão.
Que faixa
de luz amarela era esta que se estendia ao noroeste? Seria um
incêndio?
Tolice!
Num campo de pouso de cromo plastificado não havia nada que pudesse
pegar fogo.
Mike
Judson passou a mão pelos olhos. Mas a faixa de luz amarela
continuava lá. Tornou-se mais forte e larga e parecia aproximar-se.
Judson voltou a chamar o posto de observação. Antes que a tela se
iluminasse, viu pelo canto dos olhos que os homens do posto de
foguetes mais próximo se levantaram e correram desabaladamente pelo
campo de pouso, em direção ao edifício do depósito. Dentro de
quinze minutos, no máximo, todos estariam usando os trajes
protetores.
De tão
nervoso, o rosto do homem do posto de observação tornara-se ainda
mais vermelho e o suor lhe escorria pela testa.
— Que
linha de fogo é esta que se vê no noroeste? — perguntou Judson.
O homem do
posto de observação já se esquecera do pedido de Judson; deu uma
resposta verbal. Judson viu que seus lábios se moviam; interrompeu-o
com um gesto contrariado.
— Escreva!
Dali a
alguns segundos, leu o papel.
— Causa
desconhecida. Supomos que se trate de um incêndio atômico provocado
por bombas de Árcon.
Mike
Judson soltou um assobio entre os dentes. Numa fração de segundo,
elaborou seu plano.
— Preste
atenção. Desligue seus rastreadores e não se preocupe mais com os
mesmos. Temos coisas mais importantes a fazer. Diga aos homens que
entrem, quanto antes, nas naves que ainda nos restam e dêem o fora
de Fera Cinzenta. Por aqui não temos mais nada a ganhar. Entendido?
O homem
não acenou com a cabeça. Inclinou-se para o lado e mostrou mais um
pedaço de papel. Nele, leu:
— Qual é
o destino?
— Nenhum
destino — gritou Judson. — Se conseguirem passar pelas linhas das
naves arcônidas, deverão dirigir-se a Peep ou qualquer outro
planeta do sistema onde possam abrigar-se até que a frota venha
buscá-los.
Quando
percebeu que o observador ainda hesitava, acrescentou:
— Vamos
logo! Não podemos perder tempo!
Apesar
disso, o observador escreveu mais um bilhete. Judson leu:
— E o
senhor?
— Não
se preocupe comigo! — gritou Judson. — Saberei arranjar-me.
Desligo.
De
qualquer maneira, sentiu-se feliz porque o homem perguntara por ele.
“Tudo
em ordem”,
pensou, tentando ser otimista. “Dentro
de alguns minutos, todos já terão abandonado Fera Cinzenta. Agora
preciso arranjar um traje protetor para mim.”
Levantou-se
e saiu. Lá fora rugia uma forte tormenta. O ar estava quente e
abafado. Mike Judson sentiu-se mal ao pensar que o ambiente exterior
devia conter boa dose de partículas radiativas.
Reuniu
todas as energias e disparou...
Apesar da
frente de fogo amarelo que se estendia ao noroeste, a escuridão era
tamanha que receava não achar o caminho do depósito. Procurou
localizar os outros homens, mas estes deviam estar passando a mais de
dez metros dele, ou então já estavam devidamente escondidos.
Mike
Judson compreendeu por que os arcônidas não faziam mais nada.
Haviam lançado suas bombas de Árcon em vários pontos do planeta e
esperavam até que o incêndio atômico se espalhasse. Não tinham
motivo para preocupar-se com os postos de foguetes terranos. Uma das
bombas caíra nas proximidades do campo de pouso. Numa questão de
minutos o incêndio atingiria as posições defensivas. Ainda
acontecia que as naves eram dirigidas por robôs. E o instinto de
autoconservação dos mesmos era puramente mecânico, subordinando-se
às considerações táticas.
A tormenta
fez Judson cambalear. Depois de algum tempo, foi atirado contra um
obstáculo que parecia uma casamata. A dor fez Judson praguejar, mas
sentia-se satisfeito por ter alcançado o objetivo.
Uma vez no
interior, Mike Judson apoiou fortemente o corpo contra a porta e
esforçou-se para fechá-la, apesar da tormenta que insistia em
mantê-la aberta. Depois disso, encostou-se à parede e descansou
para respirar profundamente.
A surdez
não o incomodava. Conhecia perfeitamente o interior do depósito.
Levou menos de um minuto para encontrar o armário no qual estavam
guardados os pesados trajes. Tirou um deles e abriu os fechos.
Em dois
minutos conseguiu colocar a pesada armação e fechá-la. Nesses dois
minutos ficou olhando pelas amplas janelas e viu cinco manchas
luminosas pálidas que se ergueram por cima da parede do fogo e
desapareceram em direção ao céu. Eram cinco naves que se punham a
caminho, para retirar os homens do inferno atômico de Fera Cinzenta.
Enquanto
se dirigia à porta, Judson esbarrou na mesinha sobre a qual estava
guardado o intercomunicador. Subitamente lembrou-se de que há quinze
minutos — ou seriam duas horas? — Reginald Bell lhe dissera que
ele e o arcônida viriam para cima, a fim de dar-lhe apoio...
“Santo
Deus! Não terão a menor chance de me encontrar, quanto mais de
ajudar-me!”,
pensou apavorado.
Com um
movimento desajeitado da mão enluvada segurou o microfone. Errou
três vezes ao apertar as teclas numeradas, mas finalmente chamou o
número do abrigo subterrâneo. A tela iluminou-se, mas a única
coisa que Judson viu foi o sinal vermelho de espera. A linha estava
desocupada, mas do outro lado não havia ninguém que pudesse
responder ao chamado.
Mike
Judson sentiu-se dominado pelo pavor. Estavam subindo! Rhodan, Bell,
o arcônida e o mutante. Não estavam informados a respeito do
incêndio atômico desencadeado pelos arcônidas. Conforme a saída
escolhida, poderiam correr diretamente para dentro do fogo.
Isso não
deveria acontecer em hipótese alguma!
Mike
Judson resolveu voltar.
E voltou!
Agora que
envergava o traje pesado e o capacete contra radiações já não
sentia o calor trazido pela tormenta. Mas o ar era como uma pesada
tábua que tivesse de empurrar com o peito para avançar.
A parede
luminosa amarela crescera e espalhava uma luminosidade pálida em
meio à poeira. Mike Judson seguiu para a direita, ou seja, para o
norte, a fim de chegar à saída do abrigo situado nas proximidades
do lugar onde antes ficara seu posto de comando. Não sabia o que
deveria fazer para avisar Perry Rhodan e seus companheiros sobre o
caos reinante na superfície do planeta. Mas achou que seria boa
idéia entrar no abrigo e atravessar o corredor circular do pavimento
superior, que ligava as quinze saídas.
Vez por
outra, via bolas de luz pálida que subiam à esquerda, no oeste.
Eram os mecanismos propulsores das naves que decolavam, cuja imagem
sofria uma deformação grotesca produzida pelo calor e pela
tormenta. Contara as decolagens e sabia que das quinze naves intactas
apenas três ainda permaneciam no solo. Sentiu uma alegria feroz pela
fuga bem sucedida dos homens. Fazia votos de que nenhum deles fosse
tolo a ponto de esperá-lo na última nave. E torcia para que os
veículos espaciais conseguissem atravessar as linhas arcônidas, sem
serem notados.
Viu
destroços à sua frente. Eram os remanescentes de alguns edifícios.
Reconheceu o perfil oval de um tanque de água. O tanque propriamente
dito fora arrancado pela explosão, mas sua base continuava intacta.
Judson
avançava aos tropeções. A tormenta atirou-o ao solo e arrastou-o
por alguns metros. Sentiu uma dor ao bater contra uma coisa dura e
pontuda. Ao levantar-se seu peito doía tanto que teve a impressão
de estar com uma costela fraturada.
“Só
faltava isso!”,
pensou. “A
entrada do abrigo fica a mais de duzentos metros. Preciso chegar lá.”
Viu que a
parede de fogo amarela crescera mais, erguendo-se na altura de uma
casa. Ao norte e ao sul, estendia-se a perder de vista. Já devia ter
atingido o centro do campo de pouso. Mas não continuava a crescer em
altura. Judson percebeu que, na parte superior, sua luminosidade era
muito menos intensa que na inferior. Sem querer, lembrou-se do que
aprendera sobre as bombas de Árcon. Uma vez reguladas para o número
de ordem de um ou vários elementos, desencadeava, logo após a
detonação, o processo de fissão nuclear desses elementos,
iniciando um incêndio atômico que só se extinguia depois de
consumido todo o “combustível”.
O fato de
que o incêndio só se propagava pelo solo, sem estender-se à
atmosfera, levava a concluir que os arcônidas preferiram não
regular o artefato nuclear para os números de ordem sete e oito,
correspondentes ao nitrogênio e ao oxigênio. O efeito das bombas
estendia-se aos elementos pesados.
Mike
Judson sentiu falta de ar. A dor no peito era insuportável.
“Preciso
chegar lá”,
pensava.
Prosseguiu,
sempre tropeçando, sem saber se estava caminhando na direção
certa.
Depois de
longo tempo, viu os remanescentes de um edifício. Reconheceu-o. Fora
uma das cantinas. Dali em diante, deveria seguir para a esquerda,
obliquamente em direção à parede de fogo amarela. Os escombros do
muro serviram-lhe de apoio. Arrastando-se por lá, economizava suas
forças e conseguia avançar mais depressa.
Só
faltavam cinqüenta metros até a entrada do abrigo. Mike Judson nem
se lembrou de que a cada passo que dava a temperatura ambiente subia.
E também não se lembrou de que, acima de determinado limite de
temperatura, o traje que usava deixaria de funcionar. Só se fixava
nos cinqüenta metros que faltavam, e na necessidade de vencê-los.
Fungando,
suando e gemendo de dor, avançou penosamente em meio a um mundo no
qual rugia o caos, mas que era completamente silencioso. Nem se deu
conta do irreal da situação. Sentia-se dominado pela idéia de que
devia chegar ao abrigo e prevenir Perry Rhodan. Já não olhava para
a parede fulgurante da fogueira nuclear que se aproximava pelo
pavimento do espaçoporto, e não se dava conta de que sua
temperatura seria suficiente para provocar certos acontecimentos
perigosos, como, por exemplo, a fusão de duas metades distintas de
um catalisador de urânio.
Depois de
ter vencido vinte e cinco ou trinta metros dos cinqüenta que ainda
faltavam, suas forças o abandonaram. Deu um passo cambaleante e
tombou para a frente. Usou a energia que lhe restava para resistir à
tormenta mortífera que ameaçava carregá-lo dali.
“Só
um instante...”,
pensou. “Daqui
a pouco poderei andar de novo. Só alguns segundos...”
O
raciocínio venceu o corpo.
Mike
Judson voltou a levantar-se e prosseguiu cambaleando, embora quase
não lhe restassem forças para mover as pernas e resistir à
tempestade.
Viu a
casinha da guarda do abrigo surgir em meio à bruma da poeira
radiativa. A consciência de estar tão próximo do destino deu-lhe
novas forças. Tropeçando, fungando, cambaleando, avançava metro
por metro, passo a passo. Naquele momento, veio uma lufada
escaldante, levantou-o do solo e atirou-o vinte metros para trás.
Caiu pesadamente ao solo e, sob a força do impacto, perdeu a
consciência.
Isso até
parece que aconteceu para que não tivesse de assistir ao inferno
que, naquele momento, desabou sobre a base espacial de Fera Cinzenta.
Inferno este que, dentro de poucos segundos, devoraria tudo...
inclusive Mike Judson.
*
* *
Às doze e
quarenta e nove, hora de Terrânia, a muralha de fogo atiçada pelas
bombas de Árcon atingiu a posição de foguetes XVII, situada na
parte norte do campo de pouso. Meia hora antes, um foguete fora
preparado para ser disparado. Naquele mesmo instante, foi divulgado o
comando do Tenente Judson, para que os ocupantes da base vestissem os
trajes protetores. Os homens, que guarneciam a posição, obedeceram
à ordem e deixaram o foguete no lugar onde se encontrava. Assim que
envergaram os trajes protetores, subiram a bordo das naves de
transporte que os aguardavam.
Ninguém
se lembrava do foguete, cujo dispositivo de segurança fora
destravado.
O fogo
derreteu as duas partes do catalisador, reunindo-as numa massa
crítica. A temperatura superior a um milhão de graus derreteu a
espoleta de fusão do detonador.
Uma bola
incandescente de energia nuclear ergueu-se sobre o campo de pouso de
Fera Cinzenta, fazendo com que, por alguns segundos, empalidecesse
até mesmo a clareza radiante da frente de fogo nuclear.
Às doze e
quarenta e nove, hora de Terrânia, a base terrana de Fera Cinzenta
deixou de existir.
2
No momento
em que a explosão da bomba nuclear fez estremecer o abrigo, Perry
Rhodan compreendeu que iria perder Fera Cinzenta. Os arcônidas
estavam atacando. A base não possuía instalações que permitissem
uma defesa eficaz. Sua arma mais importante fora o segredo que
cercava sua posição galáctica. E agora um acaso ridículo, um
defeito num pequeno aparelho, o neutralizador da nave Rigel,
arrancara essa arma das mãos dos terranos. Fera Cinzenta estava
praticamente indefesa diante do ataque tremendo do inimigo. A frota
terrana encontrava-se a quinhentos anos-luz de distância. Era uma
distância tão grande que qualquer tentativa de intervenção
estaria fadada ao fracasso.
Além
disso, não havia a menor possibilidade de avisar a frota. A explosão
da bomba nuclear pusera fora de ação o grande transmissor de
hiperrádio, que fazia as ligações entre Fera Cinzenta e o mundo
exterior. Havia grande número de aparelhos menores, mas estes
estavam espalhados pelos depósitos e escritórios. O único aparelho
pertencente ao equipamento de emergência do abrigo não tinha
potência suficiente para romper a camada de terra de quase um
quilômetro de espessura que o cobria.
Quinze
minutos depois de iniciado o ataque, o observador espacial informou
Perry Rhodan de que uma parede de fogo amarela se aproximava, vinda
do noroeste. E o homem manifestou diante de Rhodan a mesma suspeita
que transmitira a Mike Judson através de um pequeno bilhete. Os
arcônidas haviam lançado bombas de Árcon.
Dali em
diante, Rhodan não perdeu mais tempo. Se as bombas estivessem
reguladas de forma a desencadear o processo de fusão nuclear no
elemento número quatorze, ou seja, no silício, a fogueira atômica
penetraria no solo, atingindo em pouco tempo o lugar mais profundo do
abrigo.
Só
restava a fuga. E, já que o fogo vinha do noroeste, deveriam fugir
na direção sudeste. Nessa direção havia uma saída que atingia a
superfície quinze quilômetros além da extremidade sul do
espaçoporto. Isso bastava para que estivessem a salvo da fogueira
nuclear pelo menos por uma hora.
Reginald
Bell teve suas dúvidas. Prometera subir para ajudar Mike Judson.
Perry Rhodan procurou entrar em contato com o Tenente Judson pelo
intercomunicador, a fim de explicar-lhe que a luta estava perdida. A
guarnição da base devia receber ordem para afastar-se do campo de
pouso ou sair de Fera Cinzenta nas pequenas naves de transporte, se é
que alguma delas havia resistido à explosão da primeira bomba.
Mas o
aparelho se manteve num silêncio total. Durante sua palestra com
Judson, o próprio Reginald Bell vira a explosão destruir a pequena
casa do comandante. As comunicações ficaram interrompidas e,
conforme informavam os homens do posto de observação, Judson saíra
para o ar livre. Era de supor que ele mesmo já havia dado ordens de
evacuar a base. Não se podia fazer mais nada em relação a Judson e
ao resto da guarnição. Se não quisessem ser queimados pela
fogueira nuclear, eles mesmos teriam de procurar um lugar seguro.
Revelando
a prudência e a tranqüilidade costumeiras, Perry Rhodan procurou em
meio às provisões de emergência tudo de que pudesse precisar um
grupo de quatro homens num planeta devastado por uma fogueira
nuclear; retirou antes de mais nada um minicomunicador, alguns
instrumentos de medição, mantimentos e armas.

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