Depois
puseram-se a caminho. Foram subindo, pensativos e em silêncio. Uma
fita rolante de alta velocidade levou-os pelos corredores desertos,
em direção ao poço do elevador da saída sudeste. O elevador levou
menos de três minutos para vencer a distância de novecentos e
cinqüenta metros que separava o fosso da superfície.
O poço do
elevador terminava vinte metros abaixo da saída propriamente dita do
abrigo, num corredor circular, dotado de uma série de fitas rolantes
de diversas velocidades, que o ligava à saída.
Esse
corredor também estava deserto. Quem estivera lá embaixo no momento
em que surgira a frota arcônida, depois de atender ao alarma,
dirigira-se aos seus postos junto às rampas de disparo ou às
posições de artilharia. O abrigo estava vazio; os quatro ocupantes
aos quais até então oferecera proteção contra o efeito mortífero
das bombas arcônidas também se dispunham a abandoná-lo.
Felizmente
a escada rolante que conduzia à saída estava intacta. No interior
da pequena guarita havia uma série de telas e alto-falantes, que
transmitiam tudo que se passava lá fora. Um furacão de violência
nunca vista rugia pela savana, dirigindo-se à selva. O vento
arrastava uma parede impenetrável de poeira e fumaça. O sol
fulgurante havia desaparecido. Nos alto-falantes rugia um verdadeiro
inferno de ruídos.
Os homens
fecharam os capacetes. Apesar da tormenta furiosa que bramia lá
fora, teriam de sair. Só poderiam dirigir-se a um destino: a cidade
de Greenwich, abandonada pelos colonos, situada a quatro quilômetros
do lugar em que se achavam, à margem do Rio Verde. Lá encontrariam
veículos abandonados pelos colonos transferidos para Vênus. Se não
conseguissem atingir Greenwich, correriam o risco de dirigir-se
diretamente para a parede de fogo que vinha do oeste, e esta os
devoraria.
O vento
furioso arrancou-lhes a porta das mãos assim que a abriram. Rhodan
foi o primeiro a sair. Hesitou um pouco, deu um grande passo e
desapareceu. Bell e Atlan soltaram um grito de surpresa, mas Fellmer
Lloyd, que, além de telepata, era localizador, levantou a mão num
gesto tranqüilizador.
— Não
houve nada — disse em voz baixa. — Está lá na frente. Foi a
tempestade que o arrastou.
Dali a
alguns segundos, Rhodan chamou. Não o viram em meio à escuridão,
mas ouviram a voz nos seus receptores:
— Nem
tentem andar! Teremos de rastejar para Greenwich!
*
* *
Quando o
primeiro impulso isolado foi seguido, poucos minutos depois, por uma
série de mais de mil outros, captados pelos receptores da nave
capitania Drusus, até mesmo o General Deringhouse se sentiu
perplexo. O primeiro impulso não o deixara preocupado, mas a série
seguinte significava que, naquela área, uma verdadeira frota estava
em movimento. E a frota não poderia ser composta de naves terranas,
pois o planeta Terra não dispunha de mil naves além daquelas que se
mantinham silenciosas no espaço.
Eram naves
arcônidas. Naturalmente era possível que o regente tivesse
resolvido retirar parte da sua frota de bloqueio ou reforçá-la, mas
Deringhouse teve a impressão de que havia algo de errado. Talvez o
primeiro impulso lhe infundisse a idéia de que uma nave isolada
estava sendo perseguida por um grupo de unidades arcônidas.
Refletiu
por um instante e mandou enviar uma mensagem condensada para Fera
Cinzenta. Não recebeu resposta e logo compreendeu que acontecera
algo não previsto nos planos da frota terrana.
Fera
Cinzenta não estava respondendo. General Deringhouse agiu
imediatamente. Passou o comando da frota ao oficial que lhe seguia em
graduação e mandou que a Drusus se preparasse para a transição. O
setor de astronavegação recebeu ordens de percorrer num único
salto a distância que separava a nave de Fera Cinzenta. Quinze
minutos antes da transição, Deringhouse deu o alarma. Gastou cinco
minutos para explicar aos tripulantes que a Drusus provavelmente
pararia no meio de uma frota arcônida. À tripulação caberia
destruir o maior número possível de unidades inimigas, e não
deixar que a nave terrana fosse atingida. Também não ocultou o fato
de que provavelmente a base de Fera Cinzenta estava perdida.
Apenas
guardou para si um detalhe: no momento do ataque — se é que
realmente houvera um ataque — Perry Rhodan se encontrava em Fera
Cinzenta. Se os demais prognósticos eram corretos, nesse caso também
ter-se-ia de admitir que Perry Rhodan estivesse morto.
A Drusus
se pôs em movimento às doze e cinqüenta, hora de Terrânia. Às
treze horas e um minuto, atingiu a velocidade mínima para a
transição e desapareceu do espaço einsteiniano. No mesmo instante,
emergiu do hiperespaço a poucas unidades astronômicas do sol Mirta.
O salto fora muito bem calculado. Fera Cinzenta estava tão próximo
que com os supertelescópios se reconheciam detalhes na superfície
do planeta. Viram o cogumelo de uma gigantesca explosão nuclear, a
superfície amarela da fogueira atômica a as extensas nuvens de
fumaça que começavam a envolver toda a face diurna do planeta.
E
observaram mais uma coisa! Viram centenas de pontos reluzentes. Cada
ponto representava uma das naves. Achavam-se espalhadas e a uma
distância segura sobre toda a superfície do planeta. Pareciam
esperar, até que a fogueira nuclear tivesse destruído Fera
Cinzenta.
Conrad
Deringhouse deu ordem de atacar. Sabia que nem mesmo uma nave como a
Drusus teria qualquer chance de êxito j numa luta contra mais de mil
naves robotizadas da frota arcônida. Mas sentia uma espécie de
necessidade psicológica de, num ataque fulminante, fazer o inimigo
pagar ao menos pequena parte daquilo que fizera em Fera Cinzenta.
Ainda acontecia que, em Fera Cinzenta, talvez pudesse haver
sobreviventes, e que o ataque-relâmpago desfechado pela Drusus fosse
capaz de infundir-lhes novas esperanças, convencendo-os de que a
Terra ainda não os abandonara.
Quando deu
ordem de avançar, Conrad Deringhouse sentiu uma tensão quase
insuportável.
Só ele e
os oficiais de patente mais elevada da nave capitania sabiam que,
quando a frota terrana se reunira no lugar convencionado, para
desferir seu golpe contra Árcon, Perry Rhodan ficara em Fera
Cinzenta. Mas houve uma fonte secreta que criou um boato entre os
tripulantes. Segundo o disse-me-disse, em Fera Cinzenta se perdera
muito mais que uma simples base espacial. E o ataque desfechado
contra a unidade mais próxima da frota arcônida foi interpretado
como confirmação do boato.
Os
arcônidas não deram mostras se já haviam ou não percebido a
aproximação da nave terrana. Mantiveram-se em posição de espera.
Ao que parecia, só estavam interessados numa coisa: aguardar que o
planeta se transformasse por completo numa bola de fogo.
Mas a
calma era enganadora. Assim que a Drusus se aproximara, em alta
velocidade, a menos de dois mil quilômetros da nave que se
encontrava mais perto, seus campos defensivos entraram em
incandescência sob a ação dos disparos das naves arcônidas. Ao
precipitar-se sobre a nave, estava transformada numa bola chamejante
de energia concentrada. Sacudiu o fogo de vinte canhões inimigos
como quem espanta uma mosca incômoda. Só começou a disparar quando
a distância que a separava da nave inimiga estava reduzida ao
mínimo.
A nave
arcônida, que era um veículo de dimensões médias, estava em
posição nitidamente inferior face a Drusus. Seus campos defensivos
fizeram um esforço desesperado para repelir as tremendas energias
disparadas pelos canhões térmicos e desintegradores. Dentro de três
segundos, entraram em colapso. A nave desapareceu em meio à
incandescência branca de uma explosão nuclear.
Quando viu
a nave arcônida explodir, o General Deringhouse sentiu satisfação
e raiva. Agindo com a frieza e a reflexão de quem executa um
exercício tático, fez a Drusus passar uns dez mil quilômetros além
do alvo. Acelerando sempre, a nave não demorou a entrar em transição
e subtrair-se à ação da frota arcônida. Mas a satisfação não
durou muito. Afinal, a vida de Rhodan valia mais que cem mil naves!
Ainda mais que, provavelmente, a nave derrubada era robotizada...
Conrad
Deringhouse nem sequer tinha motivo de orgulhar-se com o êxito
alcançado. A nave era infinitamente inferior à Drusus e, ao
escolhê-la em meio a uma poderosa formação arcônida, na verdade
havia antes cometido uma tolice que realizado algo de notável.
Deringhouse
obrigou-se a manter a calma. Teve de realizar algum esforço para
compreender que a situação com que se defrontava não podia ser
contemplada sob o ângulo sentimental. Era bem verdade que, segundo
tudo indicava, Perry Rhodan estava morto, e a morte de um amigo é um
motivo de tristeza para qualquer pessoa.
Mas o que
estava em jogo aqui não era a pessoa de Perry Rhodan ou a tristeza
de Conrad Deringhouse. O que realmente importava era a segurança da
Terra. Novas medidas teriam de ser adotadas. Por enquanto não se
poderia cogitar do ataque a Árcon. Talvez então se deveria
considerar um ataque maciço contra a frota que cercava Fera
Cinzenta...
Por quê?
Para vingar-se? Será que a vingança poderia ajudar uma única das
pessoas mortas em Fera Cinzenta?
Não!
Deringhouse
logo abandonou a idéia. Em meio às reflexões, deu-se conta de um
fato de que quase se esquecera. Daqui em diante, seria o único
responsável pela frota terrana. Não havia mais ninguém a quem
pudesse recorrer para pedir um conselho, e nenhuma pessoa dotada de
uma genialidade inata estaria em condições de retificar os erros
que ele, Deringhouse, viesse a cometer.
Dependia
única e exclusivamente de si mesmo. Ao menos até que houvesse um
novo governo na Terra.
Por
enquanto só poderia fazer uma coisa: numa distância segura ficar
aguardando, para ver se alguém tinha sobrevivido ao ataque
traiçoeiro desfechado contra Fera Cinzenta, e agora estava esperando
que alguém viesse buscá-lo antes do planeta transformar-se numa
nuvem incandescente. Se o sobrevivente possuísse um minicomunicador
ou um hiper-rádio de maior potência, não deixaria de irradiar o
pedido de socorro.
A cinco
horas-luz de Fera Cinzenta, a Drusus entrou em posição de espera. O
boato de que um homem muito importante — talvez o próprio Perry
Rhodan — ficara no planeta, ganhou corpo, transformando-se quase em
certeza.
A cada
hora que passava, o nervosismo de Conrad Deringhouse crescia. Não
“viu”
o menor sinal de vida. Fera Cinzenta manteve-se em silêncio.
Deringhouse
sabia que seria inútil esperar mais de três dias. Se até então
não houvesse nenhum chamado, as esperanças estariam perdidas. O
incêndio nuclear não levaria mais de três dias para completar sua
obra de destruição.
*
* *
Os pesados
trajes quase os esmagavam, mas eram a única proteção contra a
furiosa tempestade que ameaçava tangê-los como folhas secas.
Os trajes
estavam equipados com geradores antigravitacionais, que permitiam
reduzir em determinada proporção o peso do homem e do equipamento.
Reginald Bell desligou o gerador por um instante, quando pareceu-lhe
que o traje o esmagaria. A tempestade levantou-o e o arrastou uns
cinqüenta metros. Ficou inconsciente durante quinze minutos e levou
outros trinta para reencontrar os companheiros em meio à escuridão
quase impenetrável.
Perry
rastejava na ponta do pequeno grupo. Em pleno meio-dia, as densas
nuvens de fumaça vindas do oeste provocavam tamanha escuridão que
Rhodan mal conseguia enxergar um metro. Com grande esforço,
conseguiu orientar-se por meio dos detalhes do terreno de que ainda
se lembrava. Mas, à medida que se afastavam da base, esses sinais
iam diminuindo. Depois de algum tempo, Rhodan apenas pôde avançar
em linha reta, não em curva ou em círculo.
Assim
mesmo talvez tivessem errado o caminho. Mas quando tinham percorrido
cerca de metade do trajeto, aconteceu alguma coisa com que Rhodan não
contara!
Alcançaram
uma estrada que ligava a cidade colonial de Greenwich com o
espaçoporto. Essa estrada corria quase em ângulo reto em relação
ao sentido em que Rhodan e seus companheiros de sofrimento se
deslocavam. Dali se concluía que, apesar de todos os esforços, se
haviam desviado bastante do caminho. Logo se defrontaram com um
problema: deviam seguir para a esquerda ou para a direita? Perry
Rhodan resolveu tomar a direita e, dali a algumas horas, viu que sua
escolha fora acertada.
A
escuridão cedeu a uma penumbra vermelho-amarelada. O incêndio
nuclear vindo do oeste avançava com uma rapidez cada vez maior. Já
não se via mais nada da bola incandescente gerada pela explosão do
foguete. Em compensação, a parede de fogo amarela começou a
brilhar por entre a fumaça, desenhando no horizonte, a oeste, um
traço finíssimo de perigo mortal.
Teriam de
agir depressa. O fogo avançava a uma velocidade aproximada de cinco
quilômetros por hora, isso de maneira uniforme, em todas as
direções. Dentro de muito pouco tempo, em duas horas no máximo,
chegaria a Greenwich.
Os
medidores revelavam que o teor de radiatividade alcançara uma tal
intensidade que qualquer pessoa desprotegida seria morta num tempo
extremamente curto. A temperatura exterior era de setenta graus
centígrados, e a tempestade se tornara tão forte que já não podia
ser medida com os instrumentos usuais.
Rastejando
sempre e agarrando-se ao solo com as mãos enluvadas, Perry Rhodan e
seus companheiros penetraram na cidade-fantasma.
As casas
não estavam mais de pé. A tempestade as derrubara e as arrastara.
Os alicerces quebrados assinalavam o lugar em que antes existiam as
pequenas e primitivas casas pré-fabricadas dos colonos. A rua estava
coberta de cacos de plástico transparente.
Protegendo-se
atrás dos escombros, Perry Rhodan parou e olhou cautelosamente em
torno. Não se atreveu a levantar a cabeça mais de um palmo acima
dos alicerces. Teve a impressão de que, se o fizesse, a tempestade a
arrancaria.
— Se por
aqui ainda existe algum veículo — gritou Rhodan — deve estar
onde ficava a Prefeitura, ou na parte norte da cidade, junto à saída
e na margem do rio. Lloyd, vá até o rio com Atlan. Cuidado para não
se perderem.
Lloyd e o
arcônida mal apareciam em meio à semi-escuridão. Confirmaram com
um ligeiro “sim”
e desapareceram.
Perry
Rhodan e Reginald Bell seguiram em direção ao centro da cidade; o
destino deles era o lugar em que, há algum tempo, os colonos haviam
reunido as peças de duas casas para fazer uma, à qual deram o nome
de Prefeitura.
O caminho
a ser percorrido não ultrapassava cem metros. Apesar disso, levaram
quinze minutos. A força da tempestade era crescente. E isso
constituía prova da tremenda velocidade com que se aproximava o
incêndio nuclear.
Perry
Rhodan procurou lembrar-se em que lugar se encontrara a Prefeitura.
Estivera poucas vezes em Greenwich e agora, que as casas tinham
desaparecido, sentiu certa dificuldade em orientar-se.
“Tomara
que a tempestade não tenha carregado os veículos”,
pensou.
Agachou-se
atrás dos alicerces de uma casa e ergueu ligeiramente o corpo. A
seguir, tentou acender a lâmpada embutida na parte da frente de seu
capacete.
O potente
feixe de luz recortou uma faixa branca em meio à penumbra. Do outro
lado da rua viam-se restos branco-acinzentados de plástico,
sobressaindo em meio à escuridão. A luz da lâmpada continuou a
deslizar, e foi refletida pelos cacos de plástico transparente,
espalhados pelo solo. Depois desapareceu em meio à poeira,
turbilhonante, assim que Rhodan a fez girar, procurando olhar rua
acima. Não viu nenhum veículo. — Talvez tenhamos de andar mais um
pedaço — disse Bell.
— É
possível — confirmou Rhodan. — Vamos.
Desligou a
lâmpada e deixou-se cair para a frente. Saiu cautelosamente detrás
dos alicerces. Foi então que viu...
Talvez
fosse apenas uma sombra irreal em meio à semi-escuridão poeirenta.
Chamava a atenção pela rapidez com que se deslocava e pelo sentido
em que ia. Seguia contra a tempestade. Mas tão rápida como surgiu,
a sombra desapareceu.
Perry
Rhodan estirou-se no solo e ficou parado. Reginald Bell apareceu a
seu lado. Não vira a sombra.
— Há
alguém indo por ali — cochichou Rhodan.
— Será
Atlan ou Lloyd? — perguntou Bell em voz baixa.
— Não
pode ser. Estão lá no rio.
Subitamente
a voz de Atlan se fez ouvir.
— O que
houve por aí? — perguntou o arcônida. — Ouvi meu nome.
— Santo
Deus, onde está você? — perguntou Rhodan.
— Perto
do rio — respondeu o arcônida. — Mas o rio não existe mais;
secou.
— Lloyd
está com você?
Ao que
parecia, o arcônida teve de procurá-lo antes de responder.
— Lloyd!
O senhor está aqui? Está, sim. Por enquanto...
— Prestem
atenção! — interrompeu-o Rhodan em tom apressado. — Há mais
alguém na cidade, além de nós. Vi uma sombra. Tomem cuidado. Se
fosse um dos nossos, teria ouvido nossa palestra e dado um sinal de
sua presença.
— Desde
que use traje protetor.
— Se não
usasse, já estaria morto. Só pode ser um estranho.
Atlan
ficou calado por um instante.
— Está
bem; e agora? — perguntou em tom tranqüilo.
— Vamos
continuar a procurar — disse Rhodan. — Fiquem de arma na mão e
assim que virem alguma coisa, atirem.
— Está
bem — respondeu o arcônida. Nesse momento, Fellmer Lloyd se fez
ouvir.
— Acontece
que não sinto nada, Sir — afirmou. — Se houvesse alguém na
cidade, eu deveria ser capaz de constatar sua presença.
— A não
ser que seja um robô — ponderou Rhodan. — Não confie demais nos
seus dotes.
— Compreendo,
Sir — respondeu Fellmer Lloyd. — É melhor confiar na minha
pontaria.
Perry
Rhodan suspirou aliviado. Se os homens ainda sabiam responder com
sangue-frio, nem tudo estava perdido.
Procurou
olhar para Reginald Bell e levou um tremendo susto ao descobrir que
seu amigo desaparecera.
“Que
estúpido! Como foi que ele pôde sair na situação em que nos
encontramos?”,
pensou irritado.
— Bell,
seu idiota! — gritou Rhodan. — Volte imediatamente.
Algum
tempo se passou sem que houvesse qualquer resposta. O pânico começou
a dominar Rhodan.
Será que
a sombra levara Reginald Bell?
— Bell!
— voltou a gritar. — Onde está você?
De
repente, ouviu a resposta proferida em voz débil:
— Perry!
Estou aqui. Ajude-me!
A voz veio
quase num cochicho. Perry Rhodan pôs-se em movimento. Nos poucos
segundos em que conversara com Atlan e Lloyd, Bell não poderia
ter-se afastado mais de dez metros. Portanto, bastaria procurar nas
imediações.
— Socorro!
— ouviu Perry novamente, em voz abafada.
“É
a tempestade”,
pensou Rhodan. “Deve
tê-lo arrastado e atirado contra uma parede.”
Saiu
rastejando em direção ao lado oposto da rua. Na pressa ergueu-se
demais. Foi quando a tempestade o agarrou e o atirou de cabeça
contra uma parede baixa.
Instintivamente
levantou os braços para amortecer o choque. Uma dor cruciante subiu
do pulso esquerdo, tomando conta de todo o braço.
O
incidente desorientou Perry Rhodan.
— Bell!
— gritou.
— Aqui!
— disse uma voz débil. — Ajude-me!
— Já
vou! — respondeu Rhodan. — Agüente firme, Bell.
Passou por
cima do muro contra o qual fora atirado pelo vento e teve de
cuidar-se para não ser arrastado de novo. As dores no braço
esquerdo eram quase insuportáveis. Mas o sofrimento atiçou-lhe a
raiva, e esta deu-lhe novas forças.
— Aqui!
Ajude-me!
— cochichou a voz e estimulou Perry Rhodan a dar mais de si.
Encontrava-se
atrás do muro e, ao menos por alguns segundos, não teve de
preocupar-se com a tempestade. Esteve a ponto de levantar e acender a
lanterna, quando a voz chamou de novo:
— Perry!
Estou aqui! Socorro!
Rhodan
aguçou o ouvido. A voz parecia ter se aproximado. Reginald Bell
deslocava-se na direção em que se encontrava...
E, caso
estivesse em condições de locomover-se, teria motivo para pedir
socorro de forma tão lamentosa?
— Bell —
chamou Rhodan em tom impaciente. — O que houve?
A única
resposta foram as mesmas palavras de sempre:
— Perry!
Aqui. Ajude-me!
Rhodan
continuou deitado. Depois de algum tempo, pôs-se de joelhos sob a
proteção do muro.
Alguma
coisa moveu-se na escuridão.
— Bell,
é você?
A única
resposta foi um gemido abafado. Perry Rhodan abaixou-se. Viu que a
sombra à sua frente crescia. Pelo microfone externo, ligado ao
volume mínimo, ouvia o uivo da tempestade que investia contra outro
obstáculo.
Naquele
instante, Perry Rhodan percebeu que caíra numa armadilha. O que
vinha em sua direção não era Bell. Era um monstro que não “se
importava”
em andar ereto em meio à tormenta escaldante de fim de mundo.
Mantinha-se de pé sem a menor dificuldade. Rhodan apenas viu uma
sombra confusa de mais de dois metros e meio de altura. Foi o
suficiente. A arma de radiações térmicas praticamente “escorregou”
para dentro de sua mão. Bastou girar o cano ligeiramente para cima e
comprimir o gatilho.
Perry
superestimara a distância. Bem à sua frente, alguma coisa explodiu
com um forte estrondo.
Perry
Rhodan viu um raio ofuscante e sentiu os golpes provocados pelos
fragmentos da explosão. Foi atirado para trás. Sem proteção, a
tempestade agarrou-o e tangeu-o mais um pedaço.
Foi a
salvação!
Seu crânio
bateu com tanta força contra os restos dos alicerces de uma
construção que o deixou inconsciente por alguns minutos. Mas só
assim escapou ao calor mortífero irradiado pelos destroços do
monstro.
Uma voz
angustiada chamou-o de volta à realidade.
— Perry!
Responda! O que houve, Perry? Que barulho foi esse?
Era a voz
de Atlan. Perry Rhodan ergueu-se cautelosamente e olhou em torno. A
dez metros do lugar em que se encontrava, uma fogueira vermelha
brilhava em meio à escuridão. Assustado e ainda meio confuso,
acreditou ser o incêndio nuclear que já havia chegado à cidade.
Mas logo se lembrou do monstro contra o qual disparara. Suspirou
aliviado. Além da dor no braço esquerdo, sentia um zumbido na
cabeça. Mas o medo pelo destino de Bell fê-lo esquecer as dores.
Virou-se
cautelosamente e saiu rastejando em direção ao lugar em que havia a
incandescência cada vez mais fraca. Enquanto rastejava, respondeu ao
chamado de Atlan.
— Por
aqui tudo em ordem — disse. — Parece que os arcônidas
desembarcaram robôs em Fera Cinzenta. Um deles quis atrair-me a uma
armadilha, mas eu o reconheci no último instante. Foi este o barulho
que vocês ouviram. Mas há uma coisa muito pior. Bell desapareceu.
Acho que os culpados sejam os robôs.
Ouviu a
respiração ofegante do arcônida em meio ao uivo abafado da
tempestade.
— Sei
que não conseguirei convencê-lo, bárbaro — respondeu Atlan em
tom sério.
— Acontece
que o incêndio nuclear atingirá a cidade dentro de vinte minutos,
muito mais cedo do que pensávamos. Daqui o vemos perfeitamente e se
você quiser dar-se ao trabalho de olhar para o termômetro,
acreditará no que estou dizendo. Encontramos um veículo de
múltiplas finalidades, que resistiu à tempestade e está em
condições de voar. Possui um potente estabilizador, e o aparelho
lhe permite resistir à tempestade. Poderemos buscá-lo e tratar de
sair quanto antes, mas...
— É
isso mesmo, almirante; mas... — respondeu Perry Rhodan em tom
zangado — ...não sairei daqui antes de encontrar Bell. Ele deve
estar nas proximidades. Esperem mais dez minutos. Se até lá não o
tiver encontrado, dêem o fora. Ninguém lhes levará a mal se agirem
assim.
— Levará,
sim — respondeu Fellmer Lloyd prontamente. — Eu mesmo me levaria
a mal — de repente sua voz parecia zangada. — Irei até aí, Sir.
Se Mr. Bell não estiver morto, eu o encontrarei dez vezes mais
depressa que o senhor. Afinal, para que serve o veículo?
Subitamente
ouviu-se uma risada que parecia vir de longe.
— Está
bem, bárbaro — disse Atlan em voz baixa. — Todos por um. Daqui a
dois minutos estaremos aí.
Perry
Rhodan suspirou aliviado. A idéia de Fellmer Lloyd era a mais
acertada. Caso Reginald Bell estivesse vivo e se encontrasse por
perto, Fellmer Lloyd, o telepata, registraria as vibrações de seu
cérebro e o localizaria.
Continuou
a rastejar. A incandescência vermelha do robô destruído já se
apagara. Rhodan olhou para o termômetro. A temperatura era pouco
inferior a duzentos graus.
Por várias
vezes chamou Reginald Bell. Mas não houve resposta. Talvez estivesse
inconsciente. Dali se concluía que o pedido de socorro não fora
feito por Bell. E sim pelo robô!
Era um
robô especial, cuja programação abrangia o conhecimento da língua
inglesa.
Não
haviam esquecido nada.
Passou
perto do robô, ou melhor, do que sobrara dele depois da explosão.
Mais adiante havia um pedaço de muro. Rhodan aproveitou-o para
erguer-se e examinar a penumbra com o raio de sua lanterna.
Naquele
instante ouviu a voz de Fellmer Lloyd:
— Já
chegaremos aí, Sir. Dentro de cinco minutos encontraremos Mr. Bell.
Aquelas
palavras eram bastante reconfortadoras. Perry Rhodan sorriu. Dirigiu
a luz da lanterna para um lugar cintilante, que se destacava dos
arredores.
— Não é
necessário — respondeu. — Acabo de encontrar Bell. Do jeito que
está deitado conclui-se que o robô lhe aplicou um choque...
*
* *
Depois de
dez horas de espera, durante as quais não aconteceu nada, o Major
Brackett expediu o sinal de emergência. Era um único sinal modulado
e condensado em alguns nanossegundos. Só os receptores terranos
reagiriam automaticamente ao sinal. Um receptor estranho só o faria
se por coincidência um operador ouvisse o chamado e lhe atribuísse
um significado especial.
É claro
que Paul Brackett sabia que esse perigo existia. Algumas dezenas de
milhares de naves arcônidas estavam reunidas nesse setor da Galáxia,
e a bordo de cada uma delas havia pelo menos um operador de rádio,
destacado para ouvir sinais suspeitos.
Paul
Brackett se arriscou a irradiar o sinal, pois estava convencido de
que o inferno já estava a solta em Fera Cinzenta e achava que não
valia a pena continuar inativo com a Rigel.
O sinal
foi captado em vários pontos. As naves da frota terrana registraram
o pedido de socorro com a maior atenção. A Drusus também o ouviu.
E alguns operadores de rádio das naves arcônidas também o
captaram. Procuraram determinar o código utilizado na feitura do
sinal e ampliá-lo ao comprimento originário. Depois passaram à
localização goniométrica do local em que o sinal foi expedido.
Tudo isso era muito complicado e levaria algumas horas.
A Drusus
não saiu do lugar em que se encontrava, pois pretendia continuar
aguardando eventuais pedidos de socorro, vindos de Fera Cinzenta. No
entanto, dois cruzadores pesados saíram da formação de naves
terranas que aguardava ordem de atacar e, com uma transição rápida,
transportaram-se ao ponto onde achava-se a Rigel.
Pelo rádio
comum Paul Brackett transmitiu um relato ligeiro da situação.
Sugeriu que os tripulantes de sua nave fossem transferidos para os
dois cruzadores, e que a própria Rigel fosse destruída. Face à
movimentação que se verificava nesse setor espacial e à
circunstância de que a qualquer momento poderiam surgir naves
arcônidas que também tinham captado o pedido de socorro, não havia
idéia mais razoável que esta. A bordo da nave não existiam
recursos que permitissem o reparo do neutralizador avariado. E a
montagem de outro aparelho demoraria pelo menos cinco horas. Já o
transbordo dos oitocentos tripulantes, muito bem treinados nesse tipo
de ação, não demoraria mais de uma hora e meia.
Paul
Brackett transmitiu as respectivas instruções. Foi o último a sair
da Rigel. Preparou os explosivos nucleares que não deixariam que a
preciosa nave caísse nas mãos do inimigo. Suas mãos estavam
encharcadas de suor e sentia um nó na garganta. Comandava a nave há
apenas seis meses...
Quando sua
pequena nave auxiliar foi acolhida a bordo da Bilbao, Brackett não
conseguiu dizer uma palavra. O Tenente Huyghens, comandante da
Bilbao, teve bastante inteligência para compreender sua dor;
limitou-se a apertar a mão de Brackett.
Brackett
não testemunhou o fim da Rigel. Assim que subiu a bordo da Bilbao,
os dois cruzadores partiram.
O que
aconteceu com a Rigel foi uma coisa incrível!
Mal os
dois cruzadores terranos desapareceram, um grupo de naves arcônidas
emergiu do hiperespaço. Uma das espaçonaves arcônidas ainda teve
tempo de colocar-se junto ao costado da Rigel e lançar uma série de
naves auxiliares tripuladas por robôs, a fim de ocupar a nave
terrana.
Enquanto
os robôs se esforçavam para abrir a grande comporta da nave, as
bombas explodiram. A Rigel, os robôs e a nave arcônida
desmancharam-se numa gigantesca bola de fogo branco-azulada.
*
* *
Reginald
Bell estava vivo; não havia a menor dúvida. Mas achava-se
paralisado, inerte. Foi muito difícil colocá-lo dentro do veículo.
A tempestade atingira uma violência inacreditável.
A clareza
em torno deles crescia rápida e constantemente. A oeste, o céu era
uma única luminosidade, contra a qual se destacavam tristemente os
restos das casas, as muralhas esfaceladas e os alicerces arrancados.
A temperatura exterior havia se elevado a quatrocentos e trinta graus
e subiu à razão de aproximadamente quatro graus a cada dez
segundos. Os potentes mecanismos de refrigeração dos trajes
espaciais passaram a funcionar a toda potência.
O uivo da
tempestade estava sendo superado por um trovejar, que parecia vir das
profundezas de Fera Cinzenta e fazia tremer o chão. Esperavam que a
qualquer momento a terra se rompesse e soltasse torrentes de lava
incandescente. Sabiam que uma catástrofe desse tipo era
perfeitamente possível. O incêndio nuclear desenvolvia temperaturas
de vários milhões de graus e fazia fundir os núcleos dos átomos.
E a energia liberada, em virtude do desarranjo dos núcleos atômicos,
fazia a temperatura subir cada vez mais, não permitindo que o
incêndio se extinguisse.
A fusão
dos núcleos atômicos admitia uma série de variantes. As funções
da bomba de Árcon não se restringiam à fusão do silício com os
núcleos do próprio silício ou do sódio com os núcleos dos átomos
do cálcio. Embora isso fosse menos provável, também poderia
ocorrer a fusão de dois núcleos atômicos diferentes, como por
exemplo a de um núcleo de silício com um núcleo de sódio.
De
qualquer maneira, a propagação da fogueira atômica se verificava
com maior rapidez na direção em que a massa de fusão era mais
homogênea, ou seja, mais uniforme, formada de um só elemento. Se,
por exemplo, a oeste o fogo atingisse uma veia de cobre que surgisse
à luz do dia e que se estendesse embaixo do solo em direção ao
leste, nesse caso o fogo prosseguiria com maior rapidez
subterraneamente, seguindo a porção de matéria homogênea.
Já na
superfície, onde teria de atingir a massa heterogênea de vários
elementos, sua propagação seria mais lenta. Não havia nenhum sinal
pelo qual se pudesse saber se, naquele instante, o fogo já ardia sob
os pés dos homens, ou melhor, sob os alicerces da antiga cidade de
Greenwich. Só no momento em que o incêndio se alastrasse a uma
camada de solo menos estável, o tremendo calor abriria caminho para
cima, racharia o solo e atiraria para a superfície todos os produtos
incrivelmente quentes do processo de fusão subterrânea.
O veículo
encontrava-se na rua. Tiveram de reunir as últimas forças para
erguer Reginald Bell por cima do muro atrás do qual estivera
deitado. Quinze minutos pareciam passar num instante. A oeste, a
parede de fogo continuava a crescer inexoravelmente. A escuridão já
havia cedido lugar a uma claridade radiante. E o vento se tornara
maligno. Toda vez que acreditavam dispor de uma pequena pausa,
voltava a golpeá-los, atirando-os para trás.
Do outro
lado da rua, os alicerces de uma casa explodiram ruidosamente. Uma
chuva de fagulhas espalhou-se por todos os lados. Fellmer Lloyd
abrigou-se instintivamente. Com isso, soltou Reginald Bell, que sob a
força da tempestade voltou a escorregar para junto da muralha sobre
a qual o haviam passado.
Tiveram de
fazer o mesmo esforço outra vez!
Perry
Rhodan sentiu que a dor de cabeça ameaçava estourar-lhe o crânio.
O braço esquerdo, destroncado ao bater contra o muro, estava sendo
inundado por verdadeiras ondas de dor. Mas, mesmo assim, continuou
avançando banhado em suor. O ato da respiração havia ficado
difícil. Sempre que abria a boca, como alguém que morre sufocado, e
procurava encher os pulmões de ar, sentia uma pontada no peito que
quase o deixava louco.
Gritava,
dizia que Fellmer Lloyd era um idiota por ter soltado Bell e o
recriminava por andar muito devagar. Mas Lloyd não ouvia nada, pois
também gritava ininterruptamente. Até mesmo Atlan, o arcônida, já
perdera a calma. Com palavrões arcônidas respondeu à sensação de
medo que lhe oprimia a garganta.
Finalmente
conseguiram. A parede de fogo já havia chegado à periferia da
cidade. As peças de plástico que haviam resistido à tormenta
derreteram-se e estouraram. O veículo começou a balançar. Reunindo
as ultimas forças, arrastaram o corpo imóvel de Reginald Bell para
cima e enfiaram-no pela escotilha da pequena comporta. Depois disso,
mal lhes restava energia para penetrar na comporta, comprimir-se no
reduzido espaço da cabina e fechar a escotilha.
O ar
quente foi expelido muito devagar e substituído por ar puro e
fresco, vindo do reservatório do veículo. No momento em que a luz
verde se acendeu, Perry Rhodan deixou-se cair para o lado e bateu com
o ombro direito contra a escotilha interna. A escotilha abriu-se.
Rhodan entrou aos tropeções na cabina de passageiros, segurou-se na
poltrona do piloto e jogou-se de encontro aos comandos.
Com alguns
movimentos automáticos, acionou o motor.
De um
instante para outro, os contornos chamejantes dos restos dos
edifícios foram diminuindo. Depois de algum tempo, desapareceram sob
o tapete do incêndio nuclear. Agindo como uma máquina, Perry Rhodan
regulou a rota do veículo. Altitude: máxima. Velocidade: máxima.
Direção: leste.
O
estabilizador trabalhava a plena potência. À medida que o veículo
subia, a velocidade da tormenta ia diminuindo. Em compensação,
surgiram os componentes verticais da velocidade do vento. As
superfícies aquecidas pelo incêndio nuclear faziam as massas de ar
subirem na vertical, e sua influência tinha de ser neutralizada.
Rhodan o fez apenas na medida em que isso se tornava necessário,
para que o veiculo obedecesse ao comando. Aproveitou o resto da
componente vertical, a fim de subir mais depressa do que o propulsor
teria conseguido.
Dali a dez
minutos, percebeu que estavam em segurança. A superfície
incandescente do incêndio nuclear afastou-se para oeste. O veículo
atingira uma altitude de quinze quilômetros e, nesse setor, a
temperatura do ar era pouco superior ao normal.
Mas o sol
não apareceu mais. As energias nucleares desencadeadas haviam
atirado a fumaça e as nuvens de pó para as camadas superiores da
atmosfera, impedindo, a partir de agora, que Fera Cinzenta visse a
face do sol... a partir de agora e para sempre, pois, dentro de três
ou quatro dias, o planeta deixaria de existir.
Pela
primeira vez Rhodan teve tempo para olhar os colegas. Reginald Bell e
Fellmer Lloyd jaziam imóveis no solo. Ao que parecia, o choque
provocado pela aceleração, que o débil campo antigravitacional do
veículo não conseguira neutralizar inteiramente, fizera com que
Lloyd tombasse. O destino de Atlan fora idêntico. Mas agora o
arcônida já começava a erguer-se entre dois bancos. Perry Rhodan o
viu sorrir por entre a sujeira que cobria o visor de seu capacete.
Era um sorriso cansado. E os olhos injetados de sangue e
profundamente encovados completavam o quadro do esgotamento total.
— Conseguimos,
bárbaro? — perguntou o arcônida em voz baixa.
Perry
Rhodan fez que sim. Pretendia responder alguma coisa, mas sua voz não
obedecia. Teve de engolir fortemente por algumas vezes. Os pulmões
martirizados libertaram-se por meio de um acesso de tosse, que durou
vários minutos. O processo foi doloroso, mas as palavras foram
perfeitamente inteligíveis:
— Por
enquanto sim, almirante. Você sabe que só estaremos a salvo, quando
conseguirmos sair deste planeta.
Empurrando-se
nos bancos, Atlan foi chegando para a frente e tomou lugar ao lado de
Rhodan.
— Fiquei
refletindo sobre o robô arcônida — disse. — Tenho certeza de
que não estava só.
— Também
tenho certeza — confirmou Rhodan.
Estava tão
cansado que não conseguia sentir-se curioso para saber onde o
arcônida pretendia chegar.
— Devem
ter vindo num barco espacial, que os trouxe de uma das naves
arcônidas, não é?
— Sem
dúvida. Mas não tivemos tempo para procurar sua nave auxiliar. Além
disso, devem ter dado o fora antes de nós.
— Pois
é. Mas é possível que voltem a procurar-nos, num lugar ainda
distante da fogueira nuclear.
Perry
Rhodan olhou para o lado e conseguiu esboçar um débil sorriso.
— Nesse
caso, almirante — respondeu em tom enfático — vamos cuidar o
quanto antes de sua nave auxiliar.
Atlan
acenou com a cabeça; parecia pensativo. Dali a alguns segundos,
quando voltou a falar, o timbre de sua voz era diferente.
— O que
vamos fazer?
— Muita
coisa — respondeu Perry Rhodan. — Antes de mais nada precisamos
procurar um lugar mais ou menos seguro onde possamos descansar
algumas horas.
— Numa
ilha — sugeriu Atlan.
— Fico
satisfeito em notar que também neste ponto nossas opiniões
coincidem — respondeu Perry Rhodan numa amável ironia. — O
incêndio nuclear não atingiu a atmosfera de Fera Cinzenta. Por isso
podemos admitir com toda segurança que as bombas de Árcon, lançadas
no planeta, não (oram ajustadas para os elementos cujo número de
ordem é sete e oito, ou seja, para o nitrogênio e o oxigênio. Uma
das ajustagens mais comuns das bombas é a do número dez. Quando
todos os elementos cujo número de ordem é superior a dez entram na
reação, o núcleo sólido do planeta não escapa à destruição. E
a destruição da atmosfera é por assim dizer automática.
Olhou para
Atlan, que confirmou com um gesto.
— Dali
se conclui — disse este — que a água, composta dos elementos
oxigênio e hidrogênio, originariamente não será atingida pelo
fenômeno.
— Originariamente
— repetiu Perry Rhodan, enfatizando a palavra. — O incêndio
nuclear não é detido na margem de um oceano. O calor que se
desenvolve na periferia da área de incêndio não será suficiente
para evaporar a água e deixar descoberto o fundo do mar. Mas o
processo sofre um retardamento. A propagação através do fundo do
mar é dez vezes mais lenta que na terra firme. É bem verdade que,
para uma pessoa que se encontre numa ilha, existe outro perigo. O
incêndio pode propagar-se embaixo do leito do oceano, avançando até
a ilha, fazendo com que o homem insulado, que se acreditava em
segurança, realmente esteja sentado sobre a cratera de um vulcão.
— É
verdade — disse Atlan. — De qualquer maneira, temos de aproveitar
todas as chances, por menores, que sejam. Por isso pousaremos numa
ilha.
— Vamos
trabalhar com o equipamento de localização — prosseguiu Rhodan —
para verificar se os arcônidas ainda estão por aí. Em caso
negativo emitiremos pedidos de socorro. Assim virão buscar-nos,
dentro de poucas horas.
— E
depois?
Por algum
tempo a pergunta parecia oprimi-los. Apesar do cansaço, Perry Rhodan
não deixou de perceber o tom estranho que vibrava na voz de Atlan.
— Depois
— respondeu tranqüilamente — prosseguiremos nos preparativos
para o ataque contra Árcon. Não se trata de um assunto puramente
pessoal entre mim e o regente de Árcon. O que está em jogo é a
existência da Terra. Perdemos uma base e alguns homens muito bons.
Foi isso que mudou nestas últimas horas. Mas o que não mudou é a
necessidade de obrigar o regente de Árcon a agir razoavelmente.
Atlan
refletiu. Depois de alguns minutos, respondeu:
— Acho
que você tem razão, bárbaro. Admiro sua persistência.
*
* *
O veículo
deslocava-se a uma velocidade de quinhentos quilômetros por hora.
Era o máximo que seus motores permitiam. Tratava-se de um veículo
de múltiplas finalidades, que podia servir de automóvel, avião,
barco e submarino. Destinava-se às expedições a serem realizadas
depois do pouso de uma espaçonave num planeta estranho, nas quais
não se pudesse escolher o terreno em que o veículo teria de operar.
Seus construtores não tiveram a intenção de fazer dele um veículo
de corrida.
Os quatro
fugitivos, dois dos quais continuavam inconscientes, levaram pouco
menos de três horas para atingir o litoral oriental do continente,
situado a mil e quatrocentos quilômetros da base.
Em frente
à costa leste, estendia-se uma península estreita que avançava do
sul. Estava separada do continente por um braço de mar de oitenta
quilômetros de largura. Além da península, começava o grande
oceano central, que naquele lugar tinha uma largura de perto de sete
mil quilômetros. Pelo oceano espalhavam-se algumas centenas de ilhas
pequenas e minúsculas. Perry Rhodan escolheu uma que ficava no
centro do oceano.
Enquanto
voavam sobre a parte leste do continente, perceberam toda a extensão
da catástrofe que se abatera sobre Fera Cinzenta. Sobrevoaram as
áreas atingidas pelos incêndios provenientes de cinco bombas de
Árcon.
Parecia o
fim do mundo. Em muitos lugares, o incêndio nuclear havia penetrado
profundamente no interior do planeta, para irromper em outro lugar
com a violência de dez mil vulcões. Colunas de lava incandescente
subiam no local de irrupção e, ao atingirem a estratosfera,
espalhavam-se em gigantescos cogumelos. Verdadeiros oceanos de pedra
liquefeita cobriam os lugares em que, no dia anterior, ainda havia
uma selva verdejante. Os rios haviam desaparecido. As paredes
recurvadas de vapores brancos assinalavam o traçado que tiveram no
dia anterior. Os microfones externos da embarcação transmitiam os
estouros, estalidos, chiados e burburinhos do cataclisma que, dentro
de poucos dias, destruiria todo um planeta.
Nenhum
sinal da dor, do medo e do pânico, que naquelas horas se apossava
dos animais desse mundo, chegou às alturas onde se movia o veículo.
A fantasia daqueles homens que procuravam colocar-se em segurança
muito acima da fúria do elemento seria impotente para imaginar a
miséria que se abatera sobre Fera Cinzenta.
Alcançaram
a costa ao pôr-do-sol. Sabiam que era a hora em que o sol se punha.
Não puderam ver o sol.
Pouco
depois de terem sobrevoado a península, Fellmer Lloyd recuperou os
sentidos. Queixou-se de dores de cabeça. Perry Rhodan pediu-lhe que
fosse buscar a caixa com os medicamentos. Ele mesmo bem que precisava
de uns comprimidos. Sua cabeça não estava melhor que a de Fellmer
Lloyd, e a dor no pulso esquerdo crescera tanto que mal podia abrir a
mão.
Dali a uma
hora, Reginald Bell também recuperou os sentidos. O corpo já havia
superado as piores conseqüências do choque nervoso. Ao despertar,
deu sinal de sua presença da maneira seca e dramática que lhe era
peculiar. Ergueu o corpo sobre os cotovelos, gemeu e finalmente disse
num acesso de humor fúnebre:
— Que
hospital é este em que os pacientes são jogados no chão?
3
A
disseminação de campos alternados hipereletromagnéticos, usada no
sistema de comunicações instantâneas pelas amplidões
incomensuráveis do espaço, constitui um exemplo flagrante do
caráter dificilmente explicável dos fenômenos da física moderna.
É bem verdade que as vibrações hipereletromagnéticas podem ser
representadas por fórmulas matemáticas iguais às relativas aos
fenômenos eletromagnéticos da eletrodinâmica clássica. Acontece
que até esta possui alguns traços não explicitáveis.
Vista por
uma pessoa não familiarizada com o assunto, a hipereletrodinâmica
não fez outra coisa senão erigir em necessidade o caráter não
explicável e fazer desaparecer os últimos remanescentes do
explicitável. A capacidade de imaginação do homem não foi feita
para conceber um vetor que pode ser decomposto em cinco componentes,
que se distinguem pelos respectivos eixos e que periodicamente
modifica seu tamanho no espaço de cinco dimensões. Além disso,
precisa-se lançar mão de uma teoria física inteiramente nova para
explicar como nesse espaço de cinco dimensões, também denominado
hiperespaço, não prevalecem nem mesmo as restrições da mecânica
relativista, e que, no mesmo, o decurso do tempo deve ser medido por
um novo padrão, daí resultando que, no hiperespaço, todos os
fenômenos se processam infinitamente mais depressa que no espaço
normal ou einsteiniano.
É bem
verdade que esse fenômeno não é só aproveitado na técnica de
hipercomunicações. A astronáutica vale-se dele para os hipersaltos
ou transições.
De resto,
não é só quanto à representação através de fórmulas que as
ondas hipereletromagnéticas, abreviadamente designadas como
hiperondas, têm muito em comum com as ondas eletromagnéticas. Tal
qual acontece com estas, são absorvidas ou refletidas por certos
materiais, enquanto penetram em outros. Além disso, as hiperondas
utilizadas nas comunicações usuais pelo rádio são dotadas de um
volume energético equivalente aproximadamente às ondas roentgen do
espectro eletromagnético, situadas na faixa entre os dez e os cem
angstrom. Face a isso, a hiperonda é capaz de produzir os efeitos
que já conhecemos nas ondas roentgen: é capaz de ionizar e
estimular.
É nesse
efeito que se baseia a técnica goniométrica de hiperrádio.
Imaginemos uma esfera cujo material seja capaz de absorver uma
percentagem elevada de hiperondas. Imaginemos ainda que a esfera é
tão espessa que qualquer hiperonda, por mais potente que seja, não
consiga penetrar além do centro da mesma. Dessa forma, teremos uma
antena goniométrica de hiperrádio. A esfera é subdividida em
milhares de pequenos setores esféricos, ou seja, de cones cujo
vértice fica no centro da esfera e cuja base se situa na superfície
da mesma. Assim, a antena esférica terá uma superfície facetada.
Para
continuarmos fiéis à imagem, diremos que os pequenos cones são
câmaras de ionização, feitas de matéria sólida. Pode-se medir a
ionização causada pela hiperonda que incide sobre essa câmara. E
também se pode medir a direção da qual provém a onda.
Finalmente,
pode-se determinar a distância entre transmissor e receptor, desde
que o operador domine o complicado mecanismo matemático da potência
irradiada, potência captada, resistência às ondulações oferecida
pelo vácuo e por todas as porções de matéria, situadas entre
receptor e transmissor. Dessa forma, dispõe-se de todos os elementos
de que precisa o goniometrista para localizar o transmissor: as duas
coordenadas dos ângulos teta e phi
e o valor do vetor do raio.
É bem
verdade que o goniometrista terá outros problemas. Tal qual acontece
com todas as medições, também a determinação da posição de um
transmissor está ligada a uma margem de erro inevitável,
determinada pelo poder de difusão do equipamento. É o que os
goniometristas costumam chamar de fator de insegurança.
Se
designarmos a distância entre o transmissor e o goniômetro por r, o
fator de insegurança, segundo uma velha regra pragmática, crescerá
à razão r1-6.
Isso significa que, se a uma distância de um ano-luz o goniômetro
pode determinar a posição do transmissor com uma precisão de mais
ou menos mil quilômetros, numa distância de dez anos-luz, esse
fator de insegurança crescerá para mais ou menos quarenta mil
quilômetros, e numa distância de cem anos-luz, para mais ou menos
seiscentos mil quilômetros.
O volume a
ser vasculhado corresponde à terceira potência do fator de
insegurança, uma vez que este representa o raio da esfera dentro da
qual deve ser procurado o transmissor. Assim sendo, o tempo que
deverá ser despendido para que se possa ter à mão uma transmissão
crescerá em média na proporção de r4-6.
Apresentaremos
outra ilustração numérica. O goniômetro, que constatou um emissor
a uma distância de um ano-luz, precisará em média de um minuto
para localizá-lo. Esse tempo não inclui o tempo gasto na
aproximação, mas apenas a operação de busca na área-destino.
Nessa hipótese, o goniometrista que, ao captar o sinal, se
encontrava a uma distância de dez anos-luz, gastará, em vez de um
minuto, quarenta mil minutos, ou seja, cerca de vinte e oito dias. É
claro que isso se baseia na suposição de que tenha sido captado um
único sinal, e que o transmissor não continue a emitir sinais
durante as buscas.
É óbvio
que estas indicações são unilaterais. Fundam-se numa série
excessiva de pressupostos, como exemplo: o de que numa operação
realizada a uma distância de dez anos-luz seria utilizada a mesma
aparelhagem empregada à distância de um ano-luz, não um
equipamento melhor, que reduziria o tempo de busca, ou um equipamento
inferior, que o aumentaria. É claro que, nos cálculos práticos,
estes fatores se revestem de uma importância marcante. Mas uma coisa
permanece de pé: um goniometrista que se encontre a grande distância
precisará de mais tempo para localizar um emissor, cuja presença já
foi constatada, que aquele que se encontrava mais próximo.
Estas
considerações não só são úteis para acostumar os aspirantes de
oficiais de rádio da Academia Espacial com a técnica do hiperrádio.
Num momento decisivo, poderão modificar radicalmente o curso da
história galáctica.
*
* *
Vista de
cima, a ilha apresentou-se nas telas de luz infravermelha com um
péssimo aspecto. Quando o veículo desceu, seus ocupantes perceberam
que esse péssimo aspecto era devido a uma cadeia de montanhas de
cerca de dois mil metros de altura que rodeava toda a ilha. Os quatro
ocupantes do veículo nunca haviam visto uma ilha como aquela.
De
qualquer maneira, porém, era um ótimo abrigo para quem quisesse
permanecer em Fera Cinzenta durante as últimas horas que antecediam
o fim do planeta. A cordilheira litorânea deteria os maremotos, que
quisessem investir contra a ilha.
Enquanto
descia sobre a ilha, o veículo balançava assustadoramente. Durante
as dez horas ou mais de vôo, consumira vinte vezes mais energia na
estabilização da rota que na propulsão. Segundo se concluía das
indicações constantes do painel à frente de Perry Rhodan, nas
condições atuais, as reservas dariam no máximo para cinqüenta
quilômetros.
No
entanto, os ocupantes do veículo sentiam-se muito melhor do que
corresponderia às circunstâncias. Uma observação espacial,
realizada há duas horas, revelara que, ao menos sobre a parte do
planeta abrangida, não havia nenhuma nave arcônida. Era bem verdade
que também não existia qualquer nave terrana.
Quer dizer
que o inimigo se retirara. Estava convencido do êxito alcançado com
o bombardeio. O mundo de Fera Cinzenta já não representava qualquer
elemento de risco.
Fellmer
Lloyd esvaziara a caixa de medicamentos e encontrara uma coisa para
cada ocupante do aparelho. Para si mesmo, Atlan e Perry Rhodan
encontrou um analgésico e, para Reginald Bell, um preparado que
expelia do sangue os restos do choque nervoso.
Aguardavam
febrilmente o momento em que, uma vez atingido um ponto fixo na
superfície, pudessem expedir seu pedido de socorro e aguardar a
chegada de uma nave terrana.
Perry
Rhodan pousou bem no centro da ilha. Ficou sentado por um instante,
deixou os olhos vagarem sobre a savana que enchia a bacia da ilha.
Depois observou os instrumentos que registravam o teor de
radiatividade fora do veículo. Esse teor chegava a sessenta rens
por hora. Nenhum homem sensato se disporia a agüentar por alguns
minutos tal índice de radiatividade.
Com um
suspiro, Rhodan desligou as lâmpadas infravermelhas. A tela
apagou-se. A pequena cabina do veículo estava totalmente isolada da
escuridão, onde rugia o fim do mundo.
— Ficaremos
aqui! — decidiu Rhodan. — Não adianta pôr o nariz para fora.
Fez um
sinal para Fellmer Lloyd. O mutante pegou a pequena bolsa, onde
estava o transmissor, e colocou-a sobre o painel, ao lado de Perry.
Rhodan levantou a tampa de plástico e fitou por alguns segundos o
pequeno painel que surgiu sob a mesma.
“O
que acontecerá se o transmissor não estiver funcionando?”,
pensou Rhodan martirizado.
Finalmente
levantou a mão num gesto decidido e comprimiu o pequeno botão
vermelho que ficava no canto inferior esquerdo do painel. No mesmo
instante, a luz, de controle, embutida no botão, acendeu-se. O
aparelho emitiu um zumbido agudo que, para os ocupantes do veículo,
foi o ruído mais agradável ouvido nas últimas vinte e quatro
horas.
Não havia
praticamente mais nada a fazer. Como a bordo do veículo não
existissem meios que permitissem fazer da antena do microcomunicador
uma antena direcional, apontando-a para o lugar em que a frota
terrana se reunira para o ataque contra Árcon, Perry Rhodan não
teve outra alternativa senão irradiar um sinal difuso. O pedido de
socorro estava codificado e especialmente programado no interior do
transmissor. Bastaria comprimir um segundo botão para emitir e
irradiar a mensagem.
Ouviu-se
um ligeiro clique, quando Rhodan comprimiu o botão, e mais um quando
o botão voltou à posição inicial.
— Trinta
a oitenta minutos a partir de agora — disse. — Depois disso,
deverão aparecer.
*
* *
André
Larchalle era um jovem com um complexo de inferioridade profundamente
enraizado. Na opinião de seus professores quase chegava a ser um
gênio, mas na sua opinião ainda não havia realizado nada na vida;
apenas conquistara a patente de tenente depois de seis semestres em
vez de oito.
André
Larchalle estava de plantão em uma das salas de rádio da Drusus.
Conforme era de seu hábito, preferiu operar pessoalmente um dos
aparelhos, em vez de recostar-se confortavelmente na poltrona do
oficial e esperar que seu quarto de serviço passasse.
Assim que
o sinal chegou, André Larchalle pôs-se de pé de um salto. Antes
que o sargento de cabelos grisalhos que se encontrava três poltronas
adiante, junto aos aparelhos de interpretação, percebesse que
alguma coisa acabara de acontecer, Larchalle colocou-se atrás dele e
disse:
— Vamos
logo! O que está esperando? O que diz a interpretação?
O sargento
lançou um olhar contrariado para os aparelhos.
— O que
diz a interpretação sobre o quê, tenente? — perguntou com a voz
tranqüila.
No mesmo
instante, algumas lâmpadas acenderam-se à sua frente.
— Sobre
isso! — respondeu Larchalle um tanto zangado. — Ande depressa!
Talvez seja o sinal de Fera Cinzenta.
O sinal.
Esse sinal só poderia dizer uma coisa: “Socorro!
Venham buscar-nos!”
Há mais de seis horas todos os tripulantes da Drusus aguardavam esse
sinal.
O sargento
não levou mais de um segundo para sair do conforto sonolento para a
atividade máxima. Seus dedos passaram com uma rapidez espantosa
sobre as teclas de comando. No interior do painel que se encontrava à
sua frente, ouviu-se um ruído matraqueante. Um pequeno computador
positrônico estava interpretando os dados fornecidos pela antena
esférica e extraía as necessárias conclusões dos mesmos.
Subitamente
o computador forneceu os dados!
Com um
gesto impaciente, André Larchalle arrancou a fita das mãos do
sargento e caminhou rapidamente três poltronas adiante, a fim de
entregá-la a um jovem cabo. Este enfiou-a com um movimento rápido
na fenda de uma pequena caixa parafusada à mesa que tinha à sua
frente. Depois disso, moveu algumas chaves que se encontravam na
tampa da mesa e recostou-se confortavelmente.
— Quanto
tempo demorará? — perguntou Larchalle.
A pergunta
era supérflua, pois ele já conhecia a resposta. A demora seria de
dez a dois mil minutos, de acordo com a precisão da parte do
catálogo que correspondia aos dados a serem interpretados.
André
Larchalle voltou a seu lugar e obrigou-se a permanecer calmo.
Ficou
refletindo sobre se devia notificar a sala de comando, antes de
determinar o ponto do qual fora expedido o sinal. Esteve prestes a
comprimir o botão de chamada do intercomunicador, mas refletiu um
pouco. Naquele instante, ouviu-se o som da campainha. Com um salto,
colocou-se ao lado do jovem cabo e arrancou-lhe das mãos a
flta-resposta do computador-catálogo.
Apenas
poucas linhas estavam impressas na pequena folha. Diziam o seguinte:
Sistema
Mirta, órbita VII,
±
1.225.000 M.
Agora que
segurava o resultado na mão e via que essa era a notícia que todos
aguardavam, André Larchalle foi a calma em pessoa. Olhou em torno, e
os homens que o fitavam atentamente viram que seus olhos brilhavam.
— Nós
os encontramos, gente! — exclamou em tom exultante. — Ainda
existe gente viva em Fera Cinzenta!
Depois
disso, voltou à sua poltrona e avisou a sala de comando.
*
* *
O chão
tremia.
Mas, no
interior da cadeia circular de montanhas, a tempestade apenas tinha
uma fração da força que lá fora causava tamanha desgraça.
Saíram do
veículo e andaram pela escuridão. Quando a nave chegasse, esta
seria alcançada mais depressa a pé do que com o veículo, pois este
teria de ser introduzido pela comporta. Desde a emissão do sinal, já
se haviam passado 20 minutos. Dali a mais dez, a nave salvadora
poderia chegar. Deveriam sentir-se felizes com a salvação que
estava prestes a vir, mas o tremor do solo constituía sinal de que o
incêndio nuclear já havia chegado ao subsolo da ilha. Não sabiam
se a desgraça os pouparia por mais dez minutos.
Perry
Rhodan pendurou o microcomunicador ao pescoço e ligou o receptor a
um contato de seu capacete. Esperava uma resposta, embora soubesse
que não a obteria, a não ser que o comandante da nave que viesse em
seu auxílio fosse um idiota. Na situação em que se encontravam,
qualquer tráfego de rádio, por menor que fosse, representava um
perigo.
Apesar
disso, Rhodan esperava.
Falavam
muito pouco. Sentados sobre pedras espalhadas pela savana, apoiavam
os pés firmemente no chão e prestavam atenção ao rugido vindo das
profundezas da terra. A temperatura exterior era pouco inferior a cem
graus centígrados. Rhodan olhou para o relógio; vinte e cinco
minutos já se haviam passado. Dentro de cinco minutos, transmitiria
mais um sinal goniométrico, a fim de que a nave pudesse orientar-se.
Deixou
cair o braço e começou a contar os segundos. Quando chegou ao
número trinta e dois, alguma coisa vinda de baixo agarrou a pedra na
qual estava sentado e atirou-a para o alto. Perry Rhodan foi junto!
Viu
confusamente os contornos dos arbustos, que se aproximavam
vertiginosamente. Abriu os braços para amortecer a queda. Com um
estrondo imenso, caiu em meio a uma confusão de galhos e folhas
duras. A queda foi então amortecida. O impacto do corpo de Rhodan
dividiu em dois o arbusto sobre o qual caíra. Estava apenas um tanto
confuso. Dali a dois segundos, pôs-se de pé e procurou descobrir a
direção da qual viera.
Naquele
instante, sentiu-se ofuscado por um forte raio de luz. Segundos
depois, o ribombo de uma enorme explosão soou nos alto-falantes e
fez seus ouvidos zumbirem. Pôs a mão no capacete e reduziu o volume
dos microfones externos. Uma violenta onda de pressão aproximou-se
do lugar em que estava. Na ofuscante luz amarela, viu os arbustos
ondularem que nem a água de um lago. Abrigou-se antes que a onda o
atingisse.
Pedras e
blocos de pedra foram atirados contra ele, cobrindo-o. Os espinhos
arranharam seu traje. Alguma coisa atingiu-o violentamente no ombro,
fazendo-o sentir dores.
Perry
Rhodan levantou-se com grande esforço e pôs-se a gritar. Chamou os
nomes dos companheiros e, de algum lugar, veio uma resposta. Não
entendeu o que diziam.
À sua
direita, a menos de um quilômetro do lugar em que se encontrava, uma
coluna incandescente subiu ao céu. Bramindo e roncando, os gases e a
lava tangidos pela força de centenas de milhares de graus de calor
subiam e continuavam a dilacerar a terra, abrindo sempre novas
passagens para os fluxos chamejantes.
O incêndio
nuclear atingira a ilha, que se esfacelava.
Perry
Rhodan continuou no mesmo lugar. Não adiantava mais. Não havia
salvação.
“É
o fim, seu idiota”,
pensou numa disposição zangada. “Você
pensou que, dentro de setenta anos, pudesse transformar a Terra na
potência dominante da Via Láctea. Agora estão apresentando a
conta, e você não poderá deixar de pagá-la. Não há saída.”
Olhou em
torno, em atitude tranqüila, quase relaxada, conforme fizera durante
toda a vida.
A coluna
de lava, que dera início à destruição da ilha, transformou-se em
vinte, quarenta, cem...
No centro
da ilha, havia uma área estreita e alongada ainda não atingida pelo
desastre. Os arbustos ardiam, mas o chão parecia firme.
“Será
que devo correr para lá a fim de prolongar minha vida por alguns
segundos?”,
refletiu.
Viu um
vulto agachado que corria em meio à vegetação. Movia-se de forma
grotesca, planando uns quatro metros a cada salto que dava. Era Bell,
Atlan ou Lloyd. Ligara o gerador antigravitacional para diminuir o
peso do corpo. Corria em direção ao lugar ainda não atingido pelo
caos.
Perry
Rhodan ficou espantado.
O que
adiantava correr para salvar uma vida que, de qualquer maneira,
estava perdida?
Estreitou
os olhos, evitando que a claridade o perturbasse. Foi então que viu.
Era um vulto reluzente e gigante, pouco nítido. A iluminação vinha
de baixo.
Era a
espaçonave!
*
* *
Não foi
necessário despertar o General Deringhouse. Ele jurara a si mesmo
que, enquanto houvesse uma esperança de salvar alguém que se
encontrasse em Fera Cinzenta, não dormiria.
Quando
André Larchalle transmitiu sua informação, o próprio Conrad
Deringhouse achava-se junto ao intercomunicador. Com a rapidez
inimitável que os tripulantes admiravam em sua pessoa, preparou a
Drusus para entrar em ação.
A nave
passou a deslocar-se à velocidade máxima. Os instrumentos de
observação mantinham-se em silêncio. Ao que parecia, não havia
mais naves arcônidas por perto. Era bem verdade que Conrad
Deringhouse envelhecera demais no exercício da profissão, para dar
um excessivo valor às aparências.
Recomendou
aos homens dos postos de observação que mantivessem um máximo de
atenção. Sabia perfeitamente que era muito difícil localizar, a
partir de uma nave em movimento, outro veículo espacial que se
encontrava a alguns milhões de quilômetros de distância,
mantendo-se em silêncio e com os propulsores desligados, sem
transmitir qualquer mensagem pelo rádio.
E foi a
desconfiança de Deringhouse que salvou a Drusus da destruição...
Quando a
gigantesca nave se havia aproximado a dois milhões de quilômetros
de Fera Cinzenta, o negrume do espaço começou a cuspir naves
arcônidas. Os observadores constataram a presença do inimigo,
quando as naves passaram a acelerar em direção à Drusus. Dali a
mais alguns minutos, aproximaram-se à distância de um tiro.
Era uma
frota composta de cerca de cem unidades. Conrad Deringhouse cerrou os
dentes e deu ordem de abrir fogo. Por maior que fosse o número de
arcônidas que se interpunham em seu caminho, teria de chegar a Fera
Cinzenta.
*
* *
Perry
Rhodan corria sem parar. Ligou o pequeno gerador antigravitacional e
logo sentiu seu peso diminuir. Empurrou-se com toda força do chão,
passou por cima da fenda do solo que se abria naquele instante e
parou a uns cinco metros de distância. Deu um segundo pulo e um
terceiro. Quando estava preparando o quarto, a espaçonave escamoteou
as colunas de apoio telescópicas e as comprimiu fortemente contra o
chão balouçante.
À sua
direita e à sua esquerda, viu mais dois vultos que tropeçavam e
corriam. Chegaram ao mesmo tempo que Rhodan no lugar oval de pouco
menos de cem metros de comprimento que fora poupado pela desgraça. A
nave pousara no centro dessa área. Uma escotilha da comporta do pé
da nave abriu-se. Era uma abertura de apenas dois metros por dois
metros, mas esta representava a salvação. Ficava cinco metros acima
do solo. Era demais para que pudesse ser alcançada num único salto.
O homem, que Perry Rhodan vira correr em primeiro lugar, colocou-se
embaixo da comporta, com os braços abertos, e olhou para cima. A
extremidade de uma fita rolante surgiu na abertura, saiu pela mesma e
desceu ao chão.
No momento
em que a fita tocou o solo, os quatro estavam lado a lado: Perry
Rhodan, Atlan, Reginald Bell e Fellmer Lloyd. Depois de tanta
correria, finalmente tiveram tempo para lançar um olhar de estímulo
uns aos outros.
Pisaram um
após o outro na fita estreita que os levou para cima. Ela os levou
pela abertura da comporta e colocou-os do lado de dentro. Logo subiu
e escorregou para dentro da nave. Desapareceu na fenda do soalho que
era o lugar em que ficava guardada. A escotilha externa da comporta
fechou-se.
Abraçaram-se
e balbuciaram palavras desconexas.
No último
instante, ainda haviam enganado a morte.
Depois de
alguns minutos, a tormenta de alegria amainou e os quatro amigos
deram-se conta de que não poderiam permanecer na comporta, durante
todo o tempo de vôo. Resolveram dirigir-se à sala de comando. Iriam
transmitir seus agradecimentos ao comandante, fosse ele quem fosse.
Caminharam
em direção à escotilha interna. Antes que a atingissem, ela
abriu-se... Na abertura surgiu um monstro, um robô. Tinha dois
metros de altura.
Perry
Rhodan, que caminhava à frente do grupo, estacou. Como que num sonho
viu o robô abrir sua boca repugnante. Ouviu as palavras proferidas
pela voz mecânica e impessoal:
— Sejam
bem-vindos a bordo da Lan-Zour, uma das naves de Sua Alteza, o
regente de Árcon.
*
* *
Acelerando
ao máximo, a Drusus atravessou as fileiras das naves inimigas, que
investiam sobre ela, vindas de todos os lados. Entre os arcônidas
não havia nenhuma nave que tivesse o tamanho da Drusus, motivo por
que nenhuma delas isoladamente lhe traria maiores incômodos. Só
mesmo o fogo conjunto de vários veículos espaciais poderia
danificar a nave capitania da frota terrana.
Os campos
defensivos da Drusus iluminaram-se sob o relampejar ininterrupto das
descargas energéticas por eles absorvidas. Mas não houve sério
perigo para o General Deringhouse e seus tripulantes. Em
contrapartida, as torres de canhões, muito bem ajustadas da nave
capitania, destruíram mais de dez naves inimigas, e causaram avarias
tão pesadas em outras vinte e cinco que essas nem seriam capazes de
deixar o sistema de Mirta com suas próprias forças.
A maior
proteção da Drusus consistia em sua enorme velocidade. Conrad
Deringhouse abandonou todas as normas que regulavam o deslocamento
das grandes naves no interior dos sistemas planetários. Confiou na
potência dos seus agregados e arrancou o máximo dos propulsores da
nave. Não tinha um segundo a perder. Fera Cinzenta estava prestes a
explodir.
Já as
naves arcônidas eram dirigidas por robôs. E os robôs tinham
recebido instruções sobre as manobras que poderiam arriscar nas
imediações de um grande planeta. Não dispunham de poderes para
deixar de lado essas instruções. Dessa forma, as unidades arcônidas
foram bem mais lentas que a Drusus, que aos olhos dos seres orgânicos
que sobreviveram à batalha devia parecer um monstro que cuspia fogo,
trazendo a morte e a destruição, e contra o qual seria inútil
lutar.
Conrad
Deringhouse nem percebeu que o fogo inimigo diminuiu e acabou
cessando de todo. Mantinha contato ininterrupto com a sala de rádio.
Via na tela o rosto de André Larchalle, que estava rubro de
excitação, aguardando que os sobreviventes de Fera Cinzenta
enviassem o primeiro sinal goniométrico. Um dos operadores de rádio
de Larchalle emitia sem cessar mensagens pelo telecomunicador,
pedindo que Fera Cinzenta respondesse. Se lá embaixo houvesse alguém
que possuísse um hiper-rádio, esse alguém não poderia deixar de
ouvir as mensagens e respondê-las.
Mas era
praticamente inacreditável que ainda houvesse alguma coisa viva
naquela bola incandescente, que já atingira o dobro de seu tamanho
normal...
Enquanto a
Drusus freava a toda força, a fim de não penetrar em velocidade
interestelar na atmosfera superaquecida, as proporções da
devastação tornaram-se bem perceptíveis.
Havia um
restinho de esperança de que lá embaixo ainda houvesse um pedacinho
de chão firme no qual alguém, que estivesse equipado com um traje
protetor, se conservasse vivo.
Mas o
receptor continuou mudo. Era bem verdade que nas faixas extremas
captavam ruídos esquisitos que jamais tinham sido ouvidos, tais como
ondas de choque hipereletromagnéticas emitidas por um planeta
moribundo. Porém desses ruídos não se podia extrair qualquer
sentido, pois não provinham de um transmissor manejado por uma
criatura pensante.
A Drusus
penetrou nas massas de gases incandescentes. Com os mecanismos
propulsores uivantes atravessou o caos, deixando atrás de si um
rastro de gases ionizados incandescentes, cuja luminosidade chegava a
ser mais forte que a das colunas de lava que subiam ao céu.
Conrad
Deringhouse não estava disposto a capitular. Há quarenta minutos
ainda existiam seres vivos lá embaixo, e esses seres humanos tinham
expedido um pedido de socorro.
Por cinco
vezes a Drusus circundou o planeta moribundo, deslocando-se de cada
vez num ângulo diferente em relação ao eixo polar. Mesmo que, lá
embaixo, houvesse um transmissor que já tivesse perdido noventa e
nove por cento de sua potência, a sala de rádio não poderia deixar
de ouvi-lo.
Mas não
ouviram nada!
No momento
em que Conrad Deringhouse se dispôs a iniciar a sexta volta em torno
do planeta, Fera Cinzenta explodiu. Os instrumentos registraram o
súbito aumento de pressão das massas gasosas. Deringhouse
interpretou corretamente o fenômeno e desligou os estabilizadores de
rota. A Drusus saiu da órbita pela qual até então se deslocara com
o triplo da velocidade de fuga, e dirigiu-se ao espaço livre. Os
homens dos postos de combate voltaram a prestar atenção à eventual
presença de naves arcônidas.
As telas
panorâmicas da sala de comando mostraram uma gigantesca bolha de
gases branco-amarelenta que aumentava constantemente. Gigantescas
línguas de fogo subiam do oceano de gases, e o hidrogênio das
camadas superiores da atmosfera acrescentou seu verde-claro ao
quadro. Outras cores surgiram, e Fera Cinzenta desfez-se em meio a
uma visão irreal e colorida, que jamais o olho humano vira com
tamanha intensidade.
Muito
deprimido, Deringhouse ordenou a retirada. Enquanto a bola colorida,
que antes fora Fera Cinzenta, ia minguando nas telas de popa, a nave
atingiu a velocidade de transição e num salto ligeiro afastou-se do
sistema.
Voltou a
surgir no espaço einsteiniano em sua antiga posição de espera.
Deringhouse mandou que a nave se mantivesse à espera por mais duas
horas. Queria ver o que iria acontecer no sistema de Mirta.
Sabia que
seria inútil. Toda e qualquer vida se extinguira em Fera Cinzenta.
Qualquer coisa que os arcônidas fizessem naquele lugar ou em seus
arredores não se revestiria de interesse para ele.
Depois do
vozerio das ordens que se atropelaram nos últimos quarenta e cinco
minutos, o silêncio voltou a reinar na sala de comando. Os oficiais
de Deringhouse sabiam que tinham perdido uma batalha, muito embora um
ou outro talvez fosse de outra opinião, em virtude da cifra das
naves inimigas destruídas.
4
Reginald
Bell foi o primeiro a dizer alguma coisa.
— Caramba!
— praguejou. — Logo deveria ter visto. Esta nave não tem
duzentos metros de diâmetro, nem quinhentos. É um tipo
intermediário, que não existe em nossa frota.
O robô
esperou pacientemente.
“Agora
isso já não importa”,
pensou Perry Rhodan em atitude resignada.
Olhou para
trás. Fellmer Lloyd olhava para baixo, mas Atlan retribuiu seu
olhar.
— Até
parece que você não demorará em rever sua pátria — disse Perry
Rhodan.
Atlan
quase não moveu os lábios ao responder:
— Não
gostaria de revê-la nestas condições.
O robô
voltou a falar.
— O
comandante Lathon sentir-se-á honrado em cumprimentar os visitantes.
Aquilo era
um pedido para que acompanhassem o robô. Perry Rhodan aproximou-se
do homem-máquina, que se virou e foi caminhando pelo corredor, que
começava logo após a escotilha interna. Os “visitantes”
seguiram-no.
Passado o
primeiro abalo, o raciocínio de Perry Rhodan começou a funcionar a
toda força.
Era claro
que os arcônidas os consideravam como prisioneiros. Restava saber o
que pretendiam fazer com eles.
Rhodan
achou que não seria má idéia insistir desde logo em que os
levassem a um espaçoporto terrano situado nas proximidades. Não
havia uma guerra oficialmente declarada entre Árcon e a Terra, e
segundo os costumes arcônidas, como segundo as normas terranas, só
a declaração de guerra justificava o status de prisioneiro de
guerra. Por isso seria preferível nem mencionar perante o comandante
Lathon a ação desencadeada contra Fera Cinzenta e, apesar do que se
sabia, fazer de conta que não havia acontecido nada, fingindo se
tratar de uma simples operação de resgate de náufragos. Em poucas
palavras, o melhor seria fingir que não sabiam de nada.
A sala de
comando da Lan-Zour estava quase vazia. Apenas dois homens estavam
sentados ou quase deitados nas poltronas articuladas. Se não fossem
os inúmeros instrumentos, o recinto circular e de tamanho médio da
sala de comando, daria a impressão de uma platéia de teatro durante
a pausa, num dia de pouco público.
Um dos
dois homens ergueu o corpo, ficando sentado, quando o robô entrou
com os quatro terranos. O robô deixou que os homens que o
acompanhavam passassem à sua frente e anunciou sem a menor comoção:
— Quatro
sobreviventes do planeta que está explodindo, senhor.
O homem na
poltrona fez um movimento de enfado, que significava compreensão,
concordância e dispensa. E para o outro o assunto foi tão pouco
interessante que nem sequer olhou para trás.

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