sexta-feira, 19 de agosto de 2016

P-079 - O Inferno Atômico - Kurt Mahr [Parte 2]

Depois puseram-se a caminho. Foram subindo, pensativos e em silêncio. Uma fita rolante de alta velocidade levou-os pelos corredores desertos, em direção ao poço do elevador da saída sudeste. O elevador levou menos de três minutos para vencer a distância de novecentos e cinqüenta metros que separava o fosso da superfície.
O poço do elevador terminava vinte metros abaixo da saída propriamente dita do abrigo, num corredor circular, dotado de uma série de fitas rolantes de diversas velocidades, que o ligava à saída.
Esse corredor também estava deserto. Quem estivera lá embaixo no momento em que surgira a frota arcônida, depois de atender ao alarma, dirigira-se aos seus postos junto às rampas de disparo ou às posições de artilharia. O abrigo estava vazio; os quatro ocupantes aos quais até então oferecera proteção contra o efeito mortífero das bombas arcônidas também se dispunham a abandoná-lo.
Felizmente a escada rolante que conduzia à saída estava intacta. No interior da pequena guarita havia uma série de telas e alto-falantes, que transmitiam tudo que se passava lá fora. Um furacão de violência nunca vista rugia pela savana, dirigindo-se à selva. O vento arrastava uma parede impenetrável de poeira e fumaça. O sol fulgurante havia desaparecido. Nos alto-falantes rugia um verdadeiro inferno de ruídos.
Os homens fecharam os capacetes. Apesar da tormenta furiosa que bramia lá fora, teriam de sair. Só poderiam dirigir-se a um destino: a cidade de Greenwich, abandonada pelos colonos, situada a quatro quilômetros do lugar em que se achavam, à margem do Rio Verde. Lá encontrariam veículos abandonados pelos colonos transferidos para Vênus. Se não conseguissem atingir Greenwich, correriam o risco de dirigir-se diretamente para a parede de fogo que vinha do oeste, e esta os devoraria.
O vento furioso arrancou-lhes a porta das mãos assim que a abriram. Rhodan foi o primeiro a sair. Hesitou um pouco, deu um grande passo e desapareceu. Bell e Atlan soltaram um grito de surpresa, mas Fellmer Lloyd, que, além de telepata, era localizador, levantou a mão num gesto tranqüilizador.
Não houve nada — disse em voz baixa. — Está lá na frente. Foi a tempestade que o arrastou.
Dali a alguns segundos, Rhodan chamou. Não o viram em meio à escuridão, mas ouviram a voz nos seus receptores:
Nem tentem andar! Teremos de rastejar para Greenwich!

* * *

Quando o primeiro impulso isolado foi seguido, poucos minutos depois, por uma série de mais de mil outros, captados pelos receptores da nave capitania Drusus, até mesmo o General Deringhouse se sentiu perplexo. O primeiro impulso não o deixara preocupado, mas a série seguinte significava que, naquela área, uma verdadeira frota estava em movimento. E a frota não poderia ser composta de naves terranas, pois o planeta Terra não dispunha de mil naves além daquelas que se mantinham silenciosas no espaço.
Eram naves arcônidas. Naturalmente era possível que o regente tivesse resolvido retirar parte da sua frota de bloqueio ou reforçá-la, mas Deringhouse teve a impressão de que havia algo de errado. Talvez o primeiro impulso lhe infundisse a idéia de que uma nave isolada estava sendo perseguida por um grupo de unidades arcônidas.
Refletiu por um instante e mandou enviar uma mensagem condensada para Fera Cinzenta. Não recebeu resposta e logo compreendeu que acontecera algo não previsto nos planos da frota terrana.
Fera Cinzenta não estava respondendo. General Deringhouse agiu imediatamente. Passou o comando da frota ao oficial que lhe seguia em graduação e mandou que a Drusus se preparasse para a transição. O setor de astronavegação recebeu ordens de percorrer num único salto a distância que separava a nave de Fera Cinzenta. Quinze minutos antes da transição, Deringhouse deu o alarma. Gastou cinco minutos para explicar aos tripulantes que a Drusus provavelmente pararia no meio de uma frota arcônida. À tripulação caberia destruir o maior número possível de unidades inimigas, e não deixar que a nave terrana fosse atingida. Também não ocultou o fato de que provavelmente a base de Fera Cinzenta estava perdida.
Apenas guardou para si um detalhe: no momento do ataque — se é que realmente houvera um ataque — Perry Rhodan se encontrava em Fera Cinzenta. Se os demais prognósticos eram corretos, nesse caso também ter-se-ia de admitir que Perry Rhodan estivesse morto.
A Drusus se pôs em movimento às doze e cinqüenta, hora de Terrânia. Às treze horas e um minuto, atingiu a velocidade mínima para a transição e desapareceu do espaço einsteiniano. No mesmo instante, emergiu do hiperespaço a poucas unidades astronômicas do sol Mirta. O salto fora muito bem calculado. Fera Cinzenta estava tão próximo que com os supertelescópios se reconheciam detalhes na superfície do planeta. Viram o cogumelo de uma gigantesca explosão nuclear, a superfície amarela da fogueira atômica a as extensas nuvens de fumaça que começavam a envolver toda a face diurna do planeta.
E observaram mais uma coisa! Viram centenas de pontos reluzentes. Cada ponto representava uma das naves. Achavam-se espalhadas e a uma distância segura sobre toda a superfície do planeta. Pareciam esperar, até que a fogueira nuclear tivesse destruído Fera Cinzenta.
Conrad Deringhouse deu ordem de atacar. Sabia que nem mesmo uma nave como a Drusus teria qualquer chance de êxito j numa luta contra mais de mil naves robotizadas da frota arcônida. Mas sentia uma espécie de necessidade psicológica de, num ataque fulminante, fazer o inimigo pagar ao menos pequena parte daquilo que fizera em Fera Cinzenta. Ainda acontecia que, em Fera Cinzenta, talvez pudesse haver sobreviventes, e que o ataque-relâmpago desfechado pela Drusus fosse capaz de infundir-lhes novas esperanças, convencendo-os de que a Terra ainda não os abandonara.
Quando deu ordem de avançar, Conrad Deringhouse sentiu uma tensão quase insuportável.
Só ele e os oficiais de patente mais elevada da nave capitania sabiam que, quando a frota terrana se reunira no lugar convencionado, para desferir seu golpe contra Árcon, Perry Rhodan ficara em Fera Cinzenta. Mas houve uma fonte secreta que criou um boato entre os tripulantes. Segundo o disse-me-disse, em Fera Cinzenta se perdera muito mais que uma simples base espacial. E o ataque desfechado contra a unidade mais próxima da frota arcônida foi interpretado como confirmação do boato.
Os arcônidas não deram mostras se já haviam ou não percebido a aproximação da nave terrana. Mantiveram-se em posição de espera. Ao que parecia, só estavam interessados numa coisa: aguardar que o planeta se transformasse por completo numa bola de fogo.
Mas a calma era enganadora. Assim que a Drusus se aproximara, em alta velocidade, a menos de dois mil quilômetros da nave que se encontrava mais perto, seus campos defensivos entraram em incandescência sob a ação dos disparos das naves arcônidas. Ao precipitar-se sobre a nave, estava transformada numa bola chamejante de energia concentrada. Sacudiu o fogo de vinte canhões inimigos como quem espanta uma mosca incômoda. Só começou a disparar quando a distância que a separava da nave inimiga estava reduzida ao mínimo.
A nave arcônida, que era um veículo de dimensões médias, estava em posição nitidamente inferior face a Drusus. Seus campos defensivos fizeram um esforço desesperado para repelir as tremendas energias disparadas pelos canhões térmicos e desintegradores. Dentro de três segundos, entraram em colapso. A nave desapareceu em meio à incandescência branca de uma explosão nuclear.
Quando viu a nave arcônida explodir, o General Deringhouse sentiu satisfação e raiva. Agindo com a frieza e a reflexão de quem executa um exercício tático, fez a Drusus passar uns dez mil quilômetros além do alvo. Acelerando sempre, a nave não demorou a entrar em transição e subtrair-se à ação da frota arcônida. Mas a satisfação não durou muito. Afinal, a vida de Rhodan valia mais que cem mil naves! Ainda mais que, provavelmente, a nave derrubada era robotizada...
Conrad Deringhouse nem sequer tinha motivo de orgulhar-se com o êxito alcançado. A nave era infinitamente inferior à Drusus e, ao escolhê-la em meio a uma poderosa formação arcônida, na verdade havia antes cometido uma tolice que realizado algo de notável.
Deringhouse obrigou-se a manter a calma. Teve de realizar algum esforço para compreender que a situação com que se defrontava não podia ser contemplada sob o ângulo sentimental. Era bem verdade que, segundo tudo indicava, Perry Rhodan estava morto, e a morte de um amigo é um motivo de tristeza para qualquer pessoa.
Mas o que estava em jogo aqui não era a pessoa de Perry Rhodan ou a tristeza de Conrad Deringhouse. O que realmente importava era a segurança da Terra. Novas medidas teriam de ser adotadas. Por enquanto não se poderia cogitar do ataque a Árcon. Talvez então se deveria considerar um ataque maciço contra a frota que cercava Fera Cinzenta...
Por quê? Para vingar-se? Será que a vingança poderia ajudar uma única das pessoas mortas em Fera Cinzenta?
Não!
Deringhouse logo abandonou a idéia. Em meio às reflexões, deu-se conta de um fato de que quase se esquecera. Daqui em diante, seria o único responsável pela frota terrana. Não havia mais ninguém a quem pudesse recorrer para pedir um conselho, e nenhuma pessoa dotada de uma genialidade inata estaria em condições de retificar os erros que ele, Deringhouse, viesse a cometer.
Dependia única e exclusivamente de si mesmo. Ao menos até que houvesse um novo governo na Terra.
Por enquanto só poderia fazer uma coisa: numa distância segura ficar aguardando, para ver se alguém tinha sobrevivido ao ataque traiçoeiro desfechado contra Fera Cinzenta, e agora estava esperando que alguém viesse buscá-lo antes do planeta transformar-se numa nuvem incandescente. Se o sobrevivente possuísse um minicomunicador ou um hiper-rádio de maior potência, não deixaria de irradiar o pedido de socorro.
A cinco horas-luz de Fera Cinzenta, a Drusus entrou em posição de espera. O boato de que um homem muito importante — talvez o próprio Perry Rhodan — ficara no planeta, ganhou corpo, transformando-se quase em certeza.
A cada hora que passava, o nervosismo de Conrad Deringhouse crescia. Não “viu” o menor sinal de vida. Fera Cinzenta manteve-se em silêncio.
Deringhouse sabia que seria inútil esperar mais de três dias. Se até então não houvesse nenhum chamado, as esperanças estariam perdidas. O incêndio nuclear não levaria mais de três dias para completar sua obra de destruição.

* * *

Os pesados trajes quase os esmagavam, mas eram a única proteção contra a furiosa tempestade que ameaçava tangê-los como folhas secas.
Os trajes estavam equipados com geradores antigravitacionais, que permitiam reduzir em determinada proporção o peso do homem e do equipamento. Reginald Bell desligou o gerador por um instante, quando pareceu-lhe que o traje o esmagaria. A tempestade levantou-o e o arrastou uns cinqüenta metros. Ficou inconsciente durante quinze minutos e levou outros trinta para reencontrar os companheiros em meio à escuridão quase impenetrável.
Perry rastejava na ponta do pequeno grupo. Em pleno meio-dia, as densas nuvens de fumaça vindas do oeste provocavam tamanha escuridão que Rhodan mal conseguia enxergar um metro. Com grande esforço, conseguiu orientar-se por meio dos detalhes do terreno de que ainda se lembrava. Mas, à medida que se afastavam da base, esses sinais iam diminuindo. Depois de algum tempo, Rhodan apenas pôde avançar em linha reta, não em curva ou em círculo.
Assim mesmo talvez tivessem errado o caminho. Mas quando tinham percorrido cerca de metade do trajeto, aconteceu alguma coisa com que Rhodan não contara!
Alcançaram uma estrada que ligava a cidade colonial de Greenwich com o espaçoporto. Essa estrada corria quase em ângulo reto em relação ao sentido em que Rhodan e seus companheiros de sofrimento se deslocavam. Dali se concluía que, apesar de todos os esforços, se haviam desviado bastante do caminho. Logo se defrontaram com um problema: deviam seguir para a esquerda ou para a direita? Perry Rhodan resolveu tomar a direita e, dali a algumas horas, viu que sua escolha fora acertada.
A escuridão cedeu a uma penumbra vermelho-amarelada. O incêndio nuclear vindo do oeste avançava com uma rapidez cada vez maior. Já não se via mais nada da bola incandescente gerada pela explosão do foguete. Em compensação, a parede de fogo amarela começou a brilhar por entre a fumaça, desenhando no horizonte, a oeste, um traço finíssimo de perigo mortal.
Teriam de agir depressa. O fogo avançava a uma velocidade aproximada de cinco quilômetros por hora, isso de maneira uniforme, em todas as direções. Dentro de muito pouco tempo, em duas horas no máximo, chegaria a Greenwich.
Os medidores revelavam que o teor de radiatividade alcançara uma tal intensidade que qualquer pessoa desprotegida seria morta num tempo extremamente curto. A temperatura exterior era de setenta graus centígrados, e a tempestade se tornara tão forte que já não podia ser medida com os instrumentos usuais.
Rastejando sempre e agarrando-se ao solo com as mãos enluvadas, Perry Rhodan e seus companheiros penetraram na cidade-fantasma.
As casas não estavam mais de pé. A tempestade as derrubara e as arrastara. Os alicerces quebrados assinalavam o lugar em que antes existiam as pequenas e primitivas casas pré-fabricadas dos colonos. A rua estava coberta de cacos de plástico transparente.
Protegendo-se atrás dos escombros, Perry Rhodan parou e olhou cautelosamente em torno. Não se atreveu a levantar a cabeça mais de um palmo acima dos alicerces. Teve a impressão de que, se o fizesse, a tempestade a arrancaria.
Se por aqui ainda existe algum veículo — gritou Rhodan — deve estar onde ficava a Prefeitura, ou na parte norte da cidade, junto à saída e na margem do rio. Lloyd, vá até o rio com Atlan. Cuidado para não se perderem.
Lloyd e o arcônida mal apareciam em meio à semi-escuridão. Confirmaram com um ligeiro “sim” e desapareceram.
Perry Rhodan e Reginald Bell seguiram em direção ao centro da cidade; o destino deles era o lugar em que, há algum tempo, os colonos haviam reunido as peças de duas casas para fazer uma, à qual deram o nome de Prefeitura.
O caminho a ser percorrido não ultrapassava cem metros. Apesar disso, levaram quinze minutos. A força da tempestade era crescente. E isso constituía prova da tremenda velocidade com que se aproximava o incêndio nuclear.
Perry Rhodan procurou lembrar-se em que lugar se encontrara a Prefeitura. Estivera poucas vezes em Greenwich e agora, que as casas tinham desaparecido, sentiu certa dificuldade em orientar-se.
Tomara que a tempestade não tenha carregado os veículos”, pensou.
Agachou-se atrás dos alicerces de uma casa e ergueu ligeiramente o corpo. A seguir, tentou acender a lâmpada embutida na parte da frente de seu capacete.
O potente feixe de luz recortou uma faixa branca em meio à penumbra. Do outro lado da rua viam-se restos branco-acinzentados de plástico, sobressaindo em meio à escuridão. A luz da lâmpada continuou a deslizar, e foi refletida pelos cacos de plástico transparente, espalhados pelo solo. Depois desapareceu em meio à poeira, turbilhonante, assim que Rhodan a fez girar, procurando olhar rua acima. Não viu nenhum veículo. — Talvez tenhamos de andar mais um pedaço — disse Bell.
É possível — confirmou Rhodan. — Vamos.
Desligou a lâmpada e deixou-se cair para a frente. Saiu cautelosamente detrás dos alicerces. Foi então que viu...
Talvez fosse apenas uma sombra irreal em meio à semi-escuridão poeirenta. Chamava a atenção pela rapidez com que se deslocava e pelo sentido em que ia. Seguia contra a tempestade. Mas tão rápida como surgiu, a sombra desapareceu.
Perry Rhodan estirou-se no solo e ficou parado. Reginald Bell apareceu a seu lado. Não vira a sombra.
Há alguém indo por ali — cochichou Rhodan.
Será Atlan ou Lloyd? — perguntou Bell em voz baixa.
Não pode ser. Estão lá no rio.
Subitamente a voz de Atlan se fez ouvir.
O que houve por aí? — perguntou o arcônida. — Ouvi meu nome.
Santo Deus, onde está você? — perguntou Rhodan.
Perto do rio — respondeu o arcônida. — Mas o rio não existe mais; secou.
Lloyd está com você?
Ao que parecia, o arcônida teve de procurá-lo antes de responder.
Lloyd! O senhor está aqui? Está, sim. Por enquanto...
Prestem atenção! — interrompeu-o Rhodan em tom apressado. — Há mais alguém na cidade, além de nós. Vi uma sombra. Tomem cuidado. Se fosse um dos nossos, teria ouvido nossa palestra e dado um sinal de sua presença.
Desde que use traje protetor.
Se não usasse, já estaria morto. Só pode ser um estranho.
Atlan ficou calado por um instante.
Está bem; e agora? — perguntou em tom tranqüilo.
Vamos continuar a procurar — disse Rhodan. — Fiquem de arma na mão e assim que virem alguma coisa, atirem.
Está bem — respondeu o arcônida. Nesse momento, Fellmer Lloyd se fez ouvir.
Acontece que não sinto nada, Sir — afirmou. — Se houvesse alguém na cidade, eu deveria ser capaz de constatar sua presença.
A não ser que seja um robô — ponderou Rhodan. — Não confie demais nos seus dotes.
Compreendo, Sir — respondeu Fellmer Lloyd. — É melhor confiar na minha pontaria.
Perry Rhodan suspirou aliviado. Se os homens ainda sabiam responder com sangue-frio, nem tudo estava perdido.
Procurou olhar para Reginald Bell e levou um tremendo susto ao descobrir que seu amigo desaparecera.
Que estúpido! Como foi que ele pôde sair na situação em que nos encontramos?”, pensou irritado.
Bell, seu idiota! — gritou Rhodan. — Volte imediatamente.
Algum tempo se passou sem que houvesse qualquer resposta. O pânico começou a dominar Rhodan.
Será que a sombra levara Reginald Bell?
Bell! — voltou a gritar. — Onde está você?
De repente, ouviu a resposta proferida em voz débil:
Perry! Estou aqui. Ajude-me!
A voz veio quase num cochicho. Perry Rhodan pôs-se em movimento. Nos poucos segundos em que conversara com Atlan e Lloyd, Bell não poderia ter-se afastado mais de dez metros. Portanto, bastaria procurar nas imediações.
Socorro! — ouviu Perry novamente, em voz abafada.
É a tempestade”, pensou Rhodan. “Deve tê-lo arrastado e atirado contra uma parede.
Saiu rastejando em direção ao lado oposto da rua. Na pressa ergueu-se demais. Foi quando a tempestade o agarrou e o atirou de cabeça contra uma parede baixa.
Instintivamente levantou os braços para amortecer o choque. Uma dor cruciante subiu do pulso esquerdo, tomando conta de todo o braço.
O incidente desorientou Perry Rhodan.
Bell! — gritou.
Aqui! — disse uma voz débil. — Ajude-me!
Já vou! — respondeu Rhodan. — Agüente firme, Bell.
Passou por cima do muro contra o qual fora atirado pelo vento e teve de cuidar-se para não ser arrastado de novo. As dores no braço esquerdo eram quase insuportáveis. Mas o sofrimento atiçou-lhe a raiva, e esta deu-lhe novas forças.
Aqui! Ajude-me! — cochichou a voz e estimulou Perry Rhodan a dar mais de si.
Encontrava-se atrás do muro e, ao menos por alguns segundos, não teve de preocupar-se com a tempestade. Esteve a ponto de levantar e acender a lanterna, quando a voz chamou de novo:
Perry! Estou aqui! Socorro!
Rhodan aguçou o ouvido. A voz parecia ter se aproximado. Reginald Bell deslocava-se na direção em que se encontrava...
E, caso estivesse em condições de locomover-se, teria motivo para pedir socorro de forma tão lamentosa?
Bell — chamou Rhodan em tom impaciente. — O que houve?
A única resposta foram as mesmas palavras de sempre:
Perry! Aqui. Ajude-me!
Rhodan continuou deitado. Depois de algum tempo, pôs-se de joelhos sob a proteção do muro.
Alguma coisa moveu-se na escuridão.
Bell, é você?
A única resposta foi um gemido abafado. Perry Rhodan abaixou-se. Viu que a sombra à sua frente crescia. Pelo microfone externo, ligado ao volume mínimo, ouvia o uivo da tempestade que investia contra outro obstáculo.
Naquele instante, Perry Rhodan percebeu que caíra numa armadilha. O que vinha em sua direção não era Bell. Era um monstro que não “se importava” em andar ereto em meio à tormenta escaldante de fim de mundo. Mantinha-se de pé sem a menor dificuldade. Rhodan apenas viu uma sombra confusa de mais de dois metros e meio de altura. Foi o suficiente. A arma de radiações térmicas praticamente “escorregou” para dentro de sua mão. Bastou girar o cano ligeiramente para cima e comprimir o gatilho.
Perry superestimara a distância. Bem à sua frente, alguma coisa explodiu com um forte estrondo.
Perry Rhodan viu um raio ofuscante e sentiu os golpes provocados pelos fragmentos da explosão. Foi atirado para trás. Sem proteção, a tempestade agarrou-o e tangeu-o mais um pedaço.
Foi a salvação!
Seu crânio bateu com tanta força contra os restos dos alicerces de uma construção que o deixou inconsciente por alguns minutos. Mas só assim escapou ao calor mortífero irradiado pelos destroços do monstro.
Uma voz angustiada chamou-o de volta à realidade.
Perry! Responda! O que houve, Perry? Que barulho foi esse?
Era a voz de Atlan. Perry Rhodan ergueu-se cautelosamente e olhou em torno. A dez metros do lugar em que se encontrava, uma fogueira vermelha brilhava em meio à escuridão. Assustado e ainda meio confuso, acreditou ser o incêndio nuclear que já havia chegado à cidade. Mas logo se lembrou do monstro contra o qual disparara. Suspirou aliviado. Além da dor no braço esquerdo, sentia um zumbido na cabeça. Mas o medo pelo destino de Bell fê-lo esquecer as dores.
Virou-se cautelosamente e saiu rastejando em direção ao lugar em que havia a incandescência cada vez mais fraca. Enquanto rastejava, respondeu ao chamado de Atlan.
Por aqui tudo em ordem — disse. — Parece que os arcônidas desembarcaram robôs em Fera Cinzenta. Um deles quis atrair-me a uma armadilha, mas eu o reconheci no último instante. Foi este o barulho que vocês ouviram. Mas há uma coisa muito pior. Bell desapareceu. Acho que os culpados sejam os robôs.
Ouviu a respiração ofegante do arcônida em meio ao uivo abafado da tempestade.
Sei que não conseguirei convencê-lo, bárbaro — respondeu Atlan em tom sério.
Acontece que o incêndio nuclear atingirá a cidade dentro de vinte minutos, muito mais cedo do que pensávamos. Daqui o vemos perfeitamente e se você quiser dar-se ao trabalho de olhar para o termômetro, acreditará no que estou dizendo. Encontramos um veículo de múltiplas finalidades, que resistiu à tempestade e está em condições de voar. Possui um potente estabilizador, e o aparelho lhe permite resistir à tempestade. Poderemos buscá-lo e tratar de sair quanto antes, mas...
É isso mesmo, almirante; mas... — respondeu Perry Rhodan em tom zangado — ...não sairei daqui antes de encontrar Bell. Ele deve estar nas proximidades. Esperem mais dez minutos. Se até lá não o tiver encontrado, dêem o fora. Ninguém lhes levará a mal se agirem assim.
Levará, sim — respondeu Fellmer Lloyd prontamente. — Eu mesmo me levaria a mal — de repente sua voz parecia zangada. — Irei até aí, Sir. Se Mr. Bell não estiver morto, eu o encontrarei dez vezes mais depressa que o senhor. Afinal, para que serve o veículo?
Subitamente ouviu-se uma risada que parecia vir de longe.
Está bem, bárbaro — disse Atlan em voz baixa. — Todos por um. Daqui a dois minutos estaremos aí.
Perry Rhodan suspirou aliviado. A idéia de Fellmer Lloyd era a mais acertada. Caso Reginald Bell estivesse vivo e se encontrasse por perto, Fellmer Lloyd, o telepata, registraria as vibrações de seu cérebro e o localizaria.
Continuou a rastejar. A incandescência vermelha do robô destruído já se apagara. Rhodan olhou para o termômetro. A temperatura era pouco inferior a duzentos graus.
Por várias vezes chamou Reginald Bell. Mas não houve resposta. Talvez estivesse inconsciente. Dali se concluía que o pedido de socorro não fora feito por Bell. E sim pelo robô!
Era um robô especial, cuja programação abrangia o conhecimento da língua inglesa.
Não haviam esquecido nada.
Passou perto do robô, ou melhor, do que sobrara dele depois da explosão. Mais adiante havia um pedaço de muro. Rhodan aproveitou-o para erguer-se e examinar a penumbra com o raio de sua lanterna.
Naquele instante ouviu a voz de Fellmer Lloyd:
Já chegaremos aí, Sir. Dentro de cinco minutos encontraremos Mr. Bell.
Aquelas palavras eram bastante reconfortadoras. Perry Rhodan sorriu. Dirigiu a luz da lanterna para um lugar cintilante, que se destacava dos arredores.
Não é necessário — respondeu. — Acabo de encontrar Bell. Do jeito que está deitado conclui-se que o robô lhe aplicou um choque...

* * *

Depois de dez horas de espera, durante as quais não aconteceu nada, o Major Brackett expediu o sinal de emergência. Era um único sinal modulado e condensado em alguns nanossegundos. Só os receptores terranos reagiriam automaticamente ao sinal. Um receptor estranho só o faria se por coincidência um operador ouvisse o chamado e lhe atribuísse um significado especial.
É claro que Paul Brackett sabia que esse perigo existia. Algumas dezenas de milhares de naves arcônidas estavam reunidas nesse setor da Galáxia, e a bordo de cada uma delas havia pelo menos um operador de rádio, destacado para ouvir sinais suspeitos.
Paul Brackett se arriscou a irradiar o sinal, pois estava convencido de que o inferno já estava a solta em Fera Cinzenta e achava que não valia a pena continuar inativo com a Rigel.
O sinal foi captado em vários pontos. As naves da frota terrana registraram o pedido de socorro com a maior atenção. A Drusus também o ouviu. E alguns operadores de rádio das naves arcônidas também o captaram. Procuraram determinar o código utilizado na feitura do sinal e ampliá-lo ao comprimento originário. Depois passaram à localização goniométrica do local em que o sinal foi expedido. Tudo isso era muito complicado e levaria algumas horas.
A Drusus não saiu do lugar em que se encontrava, pois pretendia continuar aguardando eventuais pedidos de socorro, vindos de Fera Cinzenta. No entanto, dois cruzadores pesados saíram da formação de naves terranas que aguardava ordem de atacar e, com uma transição rápida, transportaram-se ao ponto onde achava-se a Rigel.
Pelo rádio comum Paul Brackett transmitiu um relato ligeiro da situação. Sugeriu que os tripulantes de sua nave fossem transferidos para os dois cruzadores, e que a própria Rigel fosse destruída. Face à movimentação que se verificava nesse setor espacial e à circunstância de que a qualquer momento poderiam surgir naves arcônidas que também tinham captado o pedido de socorro, não havia idéia mais razoável que esta. A bordo da nave não existiam recursos que permitissem o reparo do neutralizador avariado. E a montagem de outro aparelho demoraria pelo menos cinco horas. Já o transbordo dos oitocentos tripulantes, muito bem treinados nesse tipo de ação, não demoraria mais de uma hora e meia.
Paul Brackett transmitiu as respectivas instruções. Foi o último a sair da Rigel. Preparou os explosivos nucleares que não deixariam que a preciosa nave caísse nas mãos do inimigo. Suas mãos estavam encharcadas de suor e sentia um nó na garganta. Comandava a nave há apenas seis meses...
Quando sua pequena nave auxiliar foi acolhida a bordo da Bilbao, Brackett não conseguiu dizer uma palavra. O Tenente Huyghens, comandante da Bilbao, teve bastante inteligência para compreender sua dor; limitou-se a apertar a mão de Brackett.
Brackett não testemunhou o fim da Rigel. Assim que subiu a bordo da Bilbao, os dois cruzadores partiram.
O que aconteceu com a Rigel foi uma coisa incrível!
Mal os dois cruzadores terranos desapareceram, um grupo de naves arcônidas emergiu do hiperespaço. Uma das espaçonaves arcônidas ainda teve tempo de colocar-se junto ao costado da Rigel e lançar uma série de naves auxiliares tripuladas por robôs, a fim de ocupar a nave terrana.
Enquanto os robôs se esforçavam para abrir a grande comporta da nave, as bombas explodiram. A Rigel, os robôs e a nave arcônida desmancharam-se numa gigantesca bola de fogo branco-azulada.

* * *

Reginald Bell estava vivo; não havia a menor dúvida. Mas achava-se paralisado, inerte. Foi muito difícil colocá-lo dentro do veículo. A tempestade atingira uma violência inacreditável.
A clareza em torno deles crescia rápida e constantemente. A oeste, o céu era uma única luminosidade, contra a qual se destacavam tristemente os restos das casas, as muralhas esfaceladas e os alicerces arrancados. A temperatura exterior havia se elevado a quatrocentos e trinta graus e subiu à razão de aproximadamente quatro graus a cada dez segundos. Os potentes mecanismos de refrigeração dos trajes espaciais passaram a funcionar a toda potência.
O uivo da tempestade estava sendo superado por um trovejar, que parecia vir das profundezas de Fera Cinzenta e fazia tremer o chão. Esperavam que a qualquer momento a terra se rompesse e soltasse torrentes de lava incandescente. Sabiam que uma catástrofe desse tipo era perfeitamente possível. O incêndio nuclear desenvolvia temperaturas de vários milhões de graus e fazia fundir os núcleos dos átomos. E a energia liberada, em virtude do desarranjo dos núcleos atômicos, fazia a temperatura subir cada vez mais, não permitindo que o incêndio se extinguisse.
A fusão dos núcleos atômicos admitia uma série de variantes. As funções da bomba de Árcon não se restringiam à fusão do silício com os núcleos do próprio silício ou do sódio com os núcleos dos átomos do cálcio. Embora isso fosse menos provável, também poderia ocorrer a fusão de dois núcleos atômicos diferentes, como por exemplo a de um núcleo de silício com um núcleo de sódio.
De qualquer maneira, a propagação da fogueira atômica se verificava com maior rapidez na direção em que a massa de fusão era mais homogênea, ou seja, mais uniforme, formada de um só elemento. Se, por exemplo, a oeste o fogo atingisse uma veia de cobre que surgisse à luz do dia e que se estendesse embaixo do solo em direção ao leste, nesse caso o fogo prosseguiria com maior rapidez subterraneamente, seguindo a porção de matéria homogênea.
Já na superfície, onde teria de atingir a massa heterogênea de vários elementos, sua propagação seria mais lenta. Não havia nenhum sinal pelo qual se pudesse saber se, naquele instante, o fogo já ardia sob os pés dos homens, ou melhor, sob os alicerces da antiga cidade de Greenwich. Só no momento em que o incêndio se alastrasse a uma camada de solo menos estável, o tremendo calor abriria caminho para cima, racharia o solo e atiraria para a superfície todos os produtos incrivelmente quentes do processo de fusão subterrânea.
O veículo encontrava-se na rua. Tiveram de reunir as últimas forças para erguer Reginald Bell por cima do muro atrás do qual estivera deitado. Quinze minutos pareciam passar num instante. A oeste, a parede de fogo continuava a crescer inexoravelmente. A escuridão já havia cedido lugar a uma claridade radiante. E o vento se tornara maligno. Toda vez que acreditavam dispor de uma pequena pausa, voltava a golpeá-los, atirando-os para trás.
Do outro lado da rua, os alicerces de uma casa explodiram ruidosamente. Uma chuva de fagulhas espalhou-se por todos os lados. Fellmer Lloyd abrigou-se instintivamente. Com isso, soltou Reginald Bell, que sob a força da tempestade voltou a escorregar para junto da muralha sobre a qual o haviam passado.
Tiveram de fazer o mesmo esforço outra vez!
Perry Rhodan sentiu que a dor de cabeça ameaçava estourar-lhe o crânio. O braço esquerdo, destroncado ao bater contra o muro, estava sendo inundado por verdadeiras ondas de dor. Mas, mesmo assim, continuou avançando banhado em suor. O ato da respiração havia ficado difícil. Sempre que abria a boca, como alguém que morre sufocado, e procurava encher os pulmões de ar, sentia uma pontada no peito que quase o deixava louco.
Gritava, dizia que Fellmer Lloyd era um idiota por ter soltado Bell e o recriminava por andar muito devagar. Mas Lloyd não ouvia nada, pois também gritava ininterruptamente. Até mesmo Atlan, o arcônida, já perdera a calma. Com palavrões arcônidas respondeu à sensação de medo que lhe oprimia a garganta.
Finalmente conseguiram. A parede de fogo já havia chegado à periferia da cidade. As peças de plástico que haviam resistido à tormenta derreteram-se e estouraram. O veículo começou a balançar. Reunindo as ultimas forças, arrastaram o corpo imóvel de Reginald Bell para cima e enfiaram-no pela escotilha da pequena comporta. Depois disso, mal lhes restava energia para penetrar na comporta, comprimir-se no reduzido espaço da cabina e fechar a escotilha.
O ar quente foi expelido muito devagar e substituído por ar puro e fresco, vindo do reservatório do veículo. No momento em que a luz verde se acendeu, Perry Rhodan deixou-se cair para o lado e bateu com o ombro direito contra a escotilha interna. A escotilha abriu-se. Rhodan entrou aos tropeções na cabina de passageiros, segurou-se na poltrona do piloto e jogou-se de encontro aos comandos.
Com alguns movimentos automáticos, acionou o motor.
De um instante para outro, os contornos chamejantes dos restos dos edifícios foram diminuindo. Depois de algum tempo, desapareceram sob o tapete do incêndio nuclear. Agindo como uma máquina, Perry Rhodan regulou a rota do veículo. Altitude: máxima. Velocidade: máxima. Direção: leste.
O estabilizador trabalhava a plena potência. À medida que o veículo subia, a velocidade da tormenta ia diminuindo. Em compensação, surgiram os componentes verticais da velocidade do vento. As superfícies aquecidas pelo incêndio nuclear faziam as massas de ar subirem na vertical, e sua influência tinha de ser neutralizada. Rhodan o fez apenas na medida em que isso se tornava necessário, para que o veiculo obedecesse ao comando. Aproveitou o resto da componente vertical, a fim de subir mais depressa do que o propulsor teria conseguido.
Dali a dez minutos, percebeu que estavam em segurança. A superfície incandescente do incêndio nuclear afastou-se para oeste. O veículo atingira uma altitude de quinze quilômetros e, nesse setor, a temperatura do ar era pouco superior ao normal.
Mas o sol não apareceu mais. As energias nucleares desencadeadas haviam atirado a fumaça e as nuvens de pó para as camadas superiores da atmosfera, impedindo, a partir de agora, que Fera Cinzenta visse a face do sol... a partir de agora e para sempre, pois, dentro de três ou quatro dias, o planeta deixaria de existir.
Pela primeira vez Rhodan teve tempo para olhar os colegas. Reginald Bell e Fellmer Lloyd jaziam imóveis no solo. Ao que parecia, o choque provocado pela aceleração, que o débil campo antigravitacional do veículo não conseguira neutralizar inteiramente, fizera com que Lloyd tombasse. O destino de Atlan fora idêntico. Mas agora o arcônida já começava a erguer-se entre dois bancos. Perry Rhodan o viu sorrir por entre a sujeira que cobria o visor de seu capacete. Era um sorriso cansado. E os olhos injetados de sangue e profundamente encovados completavam o quadro do esgotamento total.
Conseguimos, bárbaro? — perguntou o arcônida em voz baixa.
Perry Rhodan fez que sim. Pretendia responder alguma coisa, mas sua voz não obedecia. Teve de engolir fortemente por algumas vezes. Os pulmões martirizados libertaram-se por meio de um acesso de tosse, que durou vários minutos. O processo foi doloroso, mas as palavras foram perfeitamente inteligíveis:
Por enquanto sim, almirante. Você sabe que só estaremos a salvo, quando conseguirmos sair deste planeta.
Empurrando-se nos bancos, Atlan foi chegando para a frente e tomou lugar ao lado de Rhodan.
Fiquei refletindo sobre o robô arcônida — disse. — Tenho certeza de que não estava só.
Também tenho certeza — confirmou Rhodan.
Estava tão cansado que não conseguia sentir-se curioso para saber onde o arcônida pretendia chegar.
Devem ter vindo num barco espacial, que os trouxe de uma das naves arcônidas, não é?
Sem dúvida. Mas não tivemos tempo para procurar sua nave auxiliar. Além disso, devem ter dado o fora antes de nós.
Pois é. Mas é possível que voltem a procurar-nos, num lugar ainda distante da fogueira nuclear.
Perry Rhodan olhou para o lado e conseguiu esboçar um débil sorriso.
Nesse caso, almirante — respondeu em tom enfático — vamos cuidar o quanto antes de sua nave auxiliar.
Atlan acenou com a cabeça; parecia pensativo. Dali a alguns segundos, quando voltou a falar, o timbre de sua voz era diferente.
O que vamos fazer?
Muita coisa — respondeu Perry Rhodan. — Antes de mais nada precisamos procurar um lugar mais ou menos seguro onde possamos descansar algumas horas.
Numa ilha — sugeriu Atlan.
Fico satisfeito em notar que também neste ponto nossas opiniões coincidem — respondeu Perry Rhodan numa amável ironia. — O incêndio nuclear não atingiu a atmosfera de Fera Cinzenta. Por isso podemos admitir com toda segurança que as bombas de Árcon, lançadas no planeta, não (oram ajustadas para os elementos cujo número de ordem é sete e oito, ou seja, para o nitrogênio e o oxigênio. Uma das ajustagens mais comuns das bombas é a do número dez. Quando todos os elementos cujo número de ordem é superior a dez entram na reação, o núcleo sólido do planeta não escapa à destruição. E a destruição da atmosfera é por assim dizer automática.
Olhou para Atlan, que confirmou com um gesto.
Dali se conclui — disse este — que a água, composta dos elementos oxigênio e hidrogênio, originariamente não será atingida pelo fenômeno.
Originariamente — repetiu Perry Rhodan, enfatizando a palavra. — O incêndio nuclear não é detido na margem de um oceano. O calor que se desenvolve na periferia da área de incêndio não será suficiente para evaporar a água e deixar descoberto o fundo do mar. Mas o processo sofre um retardamento. A propagação através do fundo do mar é dez vezes mais lenta que na terra firme. É bem verdade que, para uma pessoa que se encontre numa ilha, existe outro perigo. O incêndio pode propagar-se embaixo do leito do oceano, avançando até a ilha, fazendo com que o homem insulado, que se acreditava em segurança, realmente esteja sentado sobre a cratera de um vulcão.
É verdade — disse Atlan. — De qualquer maneira, temos de aproveitar todas as chances, por menores, que sejam. Por isso pousaremos numa ilha.
Vamos trabalhar com o equipamento de localização — prosseguiu Rhodan — para verificar se os arcônidas ainda estão por aí. Em caso negativo emitiremos pedidos de socorro. Assim virão buscar-nos, dentro de poucas horas.
E depois?
Por algum tempo a pergunta parecia oprimi-los. Apesar do cansaço, Perry Rhodan não deixou de perceber o tom estranho que vibrava na voz de Atlan.
Depois — respondeu tranqüilamente — prosseguiremos nos preparativos para o ataque contra Árcon. Não se trata de um assunto puramente pessoal entre mim e o regente de Árcon. O que está em jogo é a existência da Terra. Perdemos uma base e alguns homens muito bons. Foi isso que mudou nestas últimas horas. Mas o que não mudou é a necessidade de obrigar o regente de Árcon a agir razoavelmente.
Atlan refletiu. Depois de alguns minutos, respondeu:
Acho que você tem razão, bárbaro. Admiro sua persistência.

* * *

O veículo deslocava-se a uma velocidade de quinhentos quilômetros por hora. Era o máximo que seus motores permitiam. Tratava-se de um veículo de múltiplas finalidades, que podia servir de automóvel, avião, barco e submarino. Destinava-se às expedições a serem realizadas depois do pouso de uma espaçonave num planeta estranho, nas quais não se pudesse escolher o terreno em que o veículo teria de operar. Seus construtores não tiveram a intenção de fazer dele um veículo de corrida.
Os quatro fugitivos, dois dos quais continuavam inconscientes, levaram pouco menos de três horas para atingir o litoral oriental do continente, situado a mil e quatrocentos quilômetros da base.
Em frente à costa leste, estendia-se uma península estreita que avançava do sul. Estava separada do continente por um braço de mar de oitenta quilômetros de largura. Além da península, começava o grande oceano central, que naquele lugar tinha uma largura de perto de sete mil quilômetros. Pelo oceano espalhavam-se algumas centenas de ilhas pequenas e minúsculas. Perry Rhodan escolheu uma que ficava no centro do oceano.
Enquanto voavam sobre a parte leste do continente, perceberam toda a extensão da catástrofe que se abatera sobre Fera Cinzenta. Sobrevoaram as áreas atingidas pelos incêndios provenientes de cinco bombas de Árcon.
Parecia o fim do mundo. Em muitos lugares, o incêndio nuclear havia penetrado profundamente no interior do planeta, para irromper em outro lugar com a violência de dez mil vulcões. Colunas de lava incandescente subiam no local de irrupção e, ao atingirem a estratosfera, espalhavam-se em gigantescos cogumelos. Verdadeiros oceanos de pedra liquefeita cobriam os lugares em que, no dia anterior, ainda havia uma selva verdejante. Os rios haviam desaparecido. As paredes recurvadas de vapores brancos assinalavam o traçado que tiveram no dia anterior. Os microfones externos da embarcação transmitiam os estouros, estalidos, chiados e burburinhos do cataclisma que, dentro de poucos dias, destruiria todo um planeta.
Nenhum sinal da dor, do medo e do pânico, que naquelas horas se apossava dos animais desse mundo, chegou às alturas onde se movia o veículo. A fantasia daqueles homens que procuravam colocar-se em segurança muito acima da fúria do elemento seria impotente para imaginar a miséria que se abatera sobre Fera Cinzenta.
Alcançaram a costa ao pôr-do-sol. Sabiam que era a hora em que o sol se punha. Não puderam ver o sol.
Pouco depois de terem sobrevoado a península, Fellmer Lloyd recuperou os sentidos. Queixou-se de dores de cabeça. Perry Rhodan pediu-lhe que fosse buscar a caixa com os medicamentos. Ele mesmo bem que precisava de uns comprimidos. Sua cabeça não estava melhor que a de Fellmer Lloyd, e a dor no pulso esquerdo crescera tanto que mal podia abrir a mão.
Dali a uma hora, Reginald Bell também recuperou os sentidos. O corpo já havia superado as piores conseqüências do choque nervoso. Ao despertar, deu sinal de sua presença da maneira seca e dramática que lhe era peculiar. Ergueu o corpo sobre os cotovelos, gemeu e finalmente disse num acesso de humor fúnebre:
Que hospital é este em que os pacientes são jogados no chão?
3



A disseminação de campos alternados hipereletromagnéticos, usada no sistema de comunicações instantâneas pelas amplidões incomensuráveis do espaço, constitui um exemplo flagrante do caráter dificilmente explicável dos fenômenos da física moderna. É bem verdade que as vibrações hipereletromagnéticas podem ser representadas por fórmulas matemáticas iguais às relativas aos fenômenos eletromagnéticos da eletrodinâmica clássica. Acontece que até esta possui alguns traços não explicitáveis.
Vista por uma pessoa não familiarizada com o assunto, a hipereletrodinâmica não fez outra coisa senão erigir em necessidade o caráter não explicável e fazer desaparecer os últimos remanescentes do explicitável. A capacidade de imaginação do homem não foi feita para conceber um vetor que pode ser decomposto em cinco componentes, que se distinguem pelos respectivos eixos e que periodicamente modifica seu tamanho no espaço de cinco dimensões. Além disso, precisa-se lançar mão de uma teoria física inteiramente nova para explicar como nesse espaço de cinco dimensões, também denominado hiperespaço, não prevalecem nem mesmo as restrições da mecânica relativista, e que, no mesmo, o decurso do tempo deve ser medido por um novo padrão, daí resultando que, no hiperespaço, todos os fenômenos se processam infinitamente mais depressa que no espaço normal ou einsteiniano.
É bem verdade que esse fenômeno não é só aproveitado na técnica de hipercomunicações. A astronáutica vale-se dele para os hipersaltos ou transições.
De resto, não é só quanto à representação através de fórmulas que as ondas hipereletromagnéticas, abreviadamente designadas como hiperondas, têm muito em comum com as ondas eletromagnéticas. Tal qual acontece com estas, são absorvidas ou refletidas por certos materiais, enquanto penetram em outros. Além disso, as hiperondas utilizadas nas comunicações usuais pelo rádio são dotadas de um volume energético equivalente aproximadamente às ondas roentgen do espectro eletromagnético, situadas na faixa entre os dez e os cem angstrom. Face a isso, a hiperonda é capaz de produzir os efeitos que já conhecemos nas ondas roentgen: é capaz de ionizar e estimular.
É nesse efeito que se baseia a técnica goniométrica de hiperrádio. Imaginemos uma esfera cujo material seja capaz de absorver uma percentagem elevada de hiperondas. Imaginemos ainda que a esfera é tão espessa que qualquer hiperonda, por mais potente que seja, não consiga penetrar além do centro da mesma. Dessa forma, teremos uma antena goniométrica de hiperrádio. A esfera é subdividida em milhares de pequenos setores esféricos, ou seja, de cones cujo vértice fica no centro da esfera e cuja base se situa na superfície da mesma. Assim, a antena esférica terá uma superfície facetada.
Para continuarmos fiéis à imagem, diremos que os pequenos cones são câmaras de ionização, feitas de matéria sólida. Pode-se medir a ionização causada pela hiperonda que incide sobre essa câmara. E também se pode medir a direção da qual provém a onda.
Finalmente, pode-se determinar a distância entre transmissor e receptor, desde que o operador domine o complicado mecanismo matemático da potência irradiada, potência captada, resistência às ondulações oferecida pelo vácuo e por todas as porções de matéria, situadas entre receptor e transmissor. Dessa forma, dispõe-se de todos os elementos de que precisa o goniometrista para localizar o transmissor: as duas coordenadas dos ângulos teta e phi e o valor do vetor do raio.
É bem verdade que o goniometrista terá outros problemas. Tal qual acontece com todas as medições, também a determinação da posição de um transmissor está ligada a uma margem de erro inevitável, determinada pelo poder de difusão do equipamento. É o que os goniometristas costumam chamar de fator de insegurança.
Se designarmos a distância entre o transmissor e o goniômetro por r, o fator de insegurança, segundo uma velha regra pragmática, crescerá à razão r1-6. Isso significa que, se a uma distância de um ano-luz o goniômetro pode determinar a posição do transmissor com uma precisão de mais ou menos mil quilômetros, numa distância de dez anos-luz, esse fator de insegurança crescerá para mais ou menos quarenta mil quilômetros, e numa distância de cem anos-luz, para mais ou menos seiscentos mil quilômetros.
O volume a ser vasculhado corresponde à terceira potência do fator de insegurança, uma vez que este representa o raio da esfera dentro da qual deve ser procurado o transmissor. Assim sendo, o tempo que deverá ser despendido para que se possa ter à mão uma transmissão crescerá em média na proporção de r4-6.
Apresentaremos outra ilustração numérica. O goniômetro, que constatou um emissor a uma distância de um ano-luz, precisará em média de um minuto para localizá-lo. Esse tempo não inclui o tempo gasto na aproximação, mas apenas a operação de busca na área-destino. Nessa hipótese, o goniometrista que, ao captar o sinal, se encontrava a uma distância de dez anos-luz, gastará, em vez de um minuto, quarenta mil minutos, ou seja, cerca de vinte e oito dias. É claro que isso se baseia na suposição de que tenha sido captado um único sinal, e que o transmissor não continue a emitir sinais durante as buscas.
É óbvio que estas indicações são unilaterais. Fundam-se numa série excessiva de pressupostos, como exemplo: o de que numa operação realizada a uma distância de dez anos-luz seria utilizada a mesma aparelhagem empregada à distância de um ano-luz, não um equipamento melhor, que reduziria o tempo de busca, ou um equipamento inferior, que o aumentaria. É claro que, nos cálculos práticos, estes fatores se revestem de uma importância marcante. Mas uma coisa permanece de pé: um goniometrista que se encontre a grande distância precisará de mais tempo para localizar um emissor, cuja presença já foi constatada, que aquele que se encontrava mais próximo.
Estas considerações não só são úteis para acostumar os aspirantes de oficiais de rádio da Academia Espacial com a técnica do hiperrádio. Num momento decisivo, poderão modificar radicalmente o curso da história galáctica.

* * *

Vista de cima, a ilha apresentou-se nas telas de luz infravermelha com um péssimo aspecto. Quando o veículo desceu, seus ocupantes perceberam que esse péssimo aspecto era devido a uma cadeia de montanhas de cerca de dois mil metros de altura que rodeava toda a ilha. Os quatro ocupantes do veículo nunca haviam visto uma ilha como aquela.
De qualquer maneira, porém, era um ótimo abrigo para quem quisesse permanecer em Fera Cinzenta durante as últimas horas que antecediam o fim do planeta. A cordilheira litorânea deteria os maremotos, que quisessem investir contra a ilha.
Enquanto descia sobre a ilha, o veículo balançava assustadoramente. Durante as dez horas ou mais de vôo, consumira vinte vezes mais energia na estabilização da rota que na propulsão. Segundo se concluía das indicações constantes do painel à frente de Perry Rhodan, nas condições atuais, as reservas dariam no máximo para cinqüenta quilômetros.
No entanto, os ocupantes do veículo sentiam-se muito melhor do que corresponderia às circunstâncias. Uma observação espacial, realizada há duas horas, revelara que, ao menos sobre a parte do planeta abrangida, não havia nenhuma nave arcônida. Era bem verdade que também não existia qualquer nave terrana.
Quer dizer que o inimigo se retirara. Estava convencido do êxito alcançado com o bombardeio. O mundo de Fera Cinzenta já não representava qualquer elemento de risco.
Fellmer Lloyd esvaziara a caixa de medicamentos e encontrara uma coisa para cada ocupante do aparelho. Para si mesmo, Atlan e Perry Rhodan encontrou um analgésico e, para Reginald Bell, um preparado que expelia do sangue os restos do choque nervoso.
Aguardavam febrilmente o momento em que, uma vez atingido um ponto fixo na superfície, pudessem expedir seu pedido de socorro e aguardar a chegada de uma nave terrana.
Perry Rhodan pousou bem no centro da ilha. Ficou sentado por um instante, deixou os olhos vagarem sobre a savana que enchia a bacia da ilha. Depois observou os instrumentos que registravam o teor de radiatividade fora do veículo. Esse teor chegava a sessenta rens por hora. Nenhum homem sensato se disporia a agüentar por alguns minutos tal índice de radiatividade.
Com um suspiro, Rhodan desligou as lâmpadas infravermelhas. A tela apagou-se. A pequena cabina do veículo estava totalmente isolada da escuridão, onde rugia o fim do mundo.
Ficaremos aqui! — decidiu Rhodan. — Não adianta pôr o nariz para fora.
Fez um sinal para Fellmer Lloyd. O mutante pegou a pequena bolsa, onde estava o transmissor, e colocou-a sobre o painel, ao lado de Perry. Rhodan levantou a tampa de plástico e fitou por alguns segundos o pequeno painel que surgiu sob a mesma.
O que acontecerá se o transmissor não estiver funcionando?”, pensou Rhodan martirizado.
Finalmente levantou a mão num gesto decidido e comprimiu o pequeno botão vermelho que ficava no canto inferior esquerdo do painel. No mesmo instante, a luz, de controle, embutida no botão, acendeu-se. O aparelho emitiu um zumbido agudo que, para os ocupantes do veículo, foi o ruído mais agradável ouvido nas últimas vinte e quatro horas.
Não havia praticamente mais nada a fazer. Como a bordo do veículo não existissem meios que permitissem fazer da antena do microcomunicador uma antena direcional, apontando-a para o lugar em que a frota terrana se reunira para o ataque contra Árcon, Perry Rhodan não teve outra alternativa senão irradiar um sinal difuso. O pedido de socorro estava codificado e especialmente programado no interior do transmissor. Bastaria comprimir um segundo botão para emitir e irradiar a mensagem.
Ouviu-se um ligeiro clique, quando Rhodan comprimiu o botão, e mais um quando o botão voltou à posição inicial.
Trinta a oitenta minutos a partir de agora — disse. — Depois disso, deverão aparecer.

* * *

André Larchalle era um jovem com um complexo de inferioridade profundamente enraizado. Na opinião de seus professores quase chegava a ser um gênio, mas na sua opinião ainda não havia realizado nada na vida; apenas conquistara a patente de tenente depois de seis semestres em vez de oito.
André Larchalle estava de plantão em uma das salas de rádio da Drusus. Conforme era de seu hábito, preferiu operar pessoalmente um dos aparelhos, em vez de recostar-se confortavelmente na poltrona do oficial e esperar que seu quarto de serviço passasse.
Assim que o sinal chegou, André Larchalle pôs-se de pé de um salto. Antes que o sargento de cabelos grisalhos que se encontrava três poltronas adiante, junto aos aparelhos de interpretação, percebesse que alguma coisa acabara de acontecer, Larchalle colocou-se atrás dele e disse:
Vamos logo! O que está esperando? O que diz a interpretação?
O sargento lançou um olhar contrariado para os aparelhos.
O que diz a interpretação sobre o quê, tenente? — perguntou com a voz tranqüila.
No mesmo instante, algumas lâmpadas acenderam-se à sua frente.
Sobre isso! — respondeu Larchalle um tanto zangado. — Ande depressa! Talvez seja o sinal de Fera Cinzenta.
O sinal. Esse sinal só poderia dizer uma coisa: “Socorro! Venham buscar-nos!” Há mais de seis horas todos os tripulantes da Drusus aguardavam esse sinal.
O sargento não levou mais de um segundo para sair do conforto sonolento para a atividade máxima. Seus dedos passaram com uma rapidez espantosa sobre as teclas de comando. No interior do painel que se encontrava à sua frente, ouviu-se um ruído matraqueante. Um pequeno computador positrônico estava interpretando os dados fornecidos pela antena esférica e extraía as necessárias conclusões dos mesmos.
Subitamente o computador forneceu os dados!
Com um gesto impaciente, André Larchalle arrancou a fita das mãos do sargento e caminhou rapidamente três poltronas adiante, a fim de entregá-la a um jovem cabo. Este enfiou-a com um movimento rápido na fenda de uma pequena caixa parafusada à mesa que tinha à sua frente. Depois disso, moveu algumas chaves que se encontravam na tampa da mesa e recostou-se confortavelmente.
Quanto tempo demorará? — perguntou Larchalle.
A pergunta era supérflua, pois ele já conhecia a resposta. A demora seria de dez a dois mil minutos, de acordo com a precisão da parte do catálogo que correspondia aos dados a serem interpretados.
André Larchalle voltou a seu lugar e obrigou-se a permanecer calmo.
Ficou refletindo sobre se devia notificar a sala de comando, antes de determinar o ponto do qual fora expedido o sinal. Esteve prestes a comprimir o botão de chamada do intercomunicador, mas refletiu um pouco. Naquele instante, ouviu-se o som da campainha. Com um salto, colocou-se ao lado do jovem cabo e arrancou-lhe das mãos a flta-resposta do computador-catálogo.
Apenas poucas linhas estavam impressas na pequena folha. Diziam o seguinte:

Sistema Mirta, órbita VII,
± 1.225.000 M.

Agora que segurava o resultado na mão e via que essa era a notícia que todos aguardavam, André Larchalle foi a calma em pessoa. Olhou em torno, e os homens que o fitavam atentamente viram que seus olhos brilhavam.
Nós os encontramos, gente! — exclamou em tom exultante. — Ainda existe gente viva em Fera Cinzenta!
Depois disso, voltou à sua poltrona e avisou a sala de comando.

* * *

O chão tremia.
Mas, no interior da cadeia circular de montanhas, a tempestade apenas tinha uma fração da força que lá fora causava tamanha desgraça.
Saíram do veículo e andaram pela escuridão. Quando a nave chegasse, esta seria alcançada mais depressa a pé do que com o veículo, pois este teria de ser introduzido pela comporta. Desde a emissão do sinal, já se haviam passado 20 minutos. Dali a mais dez, a nave salvadora poderia chegar. Deveriam sentir-se felizes com a salvação que estava prestes a vir, mas o tremor do solo constituía sinal de que o incêndio nuclear já havia chegado ao subsolo da ilha. Não sabiam se a desgraça os pouparia por mais dez minutos.
Perry Rhodan pendurou o microcomunicador ao pescoço e ligou o receptor a um contato de seu capacete. Esperava uma resposta, embora soubesse que não a obteria, a não ser que o comandante da nave que viesse em seu auxílio fosse um idiota. Na situação em que se encontravam, qualquer tráfego de rádio, por menor que fosse, representava um perigo.
Apesar disso, Rhodan esperava.
Falavam muito pouco. Sentados sobre pedras espalhadas pela savana, apoiavam os pés firmemente no chão e prestavam atenção ao rugido vindo das profundezas da terra. A temperatura exterior era pouco inferior a cem graus centígrados. Rhodan olhou para o relógio; vinte e cinco minutos já se haviam passado. Dentro de cinco minutos, transmitiria mais um sinal goniométrico, a fim de que a nave pudesse orientar-se.
Deixou cair o braço e começou a contar os segundos. Quando chegou ao número trinta e dois, alguma coisa vinda de baixo agarrou a pedra na qual estava sentado e atirou-a para o alto. Perry Rhodan foi junto!
Viu confusamente os contornos dos arbustos, que se aproximavam vertiginosamente. Abriu os braços para amortecer a queda. Com um estrondo imenso, caiu em meio a uma confusão de galhos e folhas duras. A queda foi então amortecida. O impacto do corpo de Rhodan dividiu em dois o arbusto sobre o qual caíra. Estava apenas um tanto confuso. Dali a dois segundos, pôs-se de pé e procurou descobrir a direção da qual viera.
Naquele instante, sentiu-se ofuscado por um forte raio de luz. Segundos depois, o ribombo de uma enorme explosão soou nos alto-falantes e fez seus ouvidos zumbirem. Pôs a mão no capacete e reduziu o volume dos microfones externos. Uma violenta onda de pressão aproximou-se do lugar em que estava. Na ofuscante luz amarela, viu os arbustos ondularem que nem a água de um lago. Abrigou-se antes que a onda o atingisse.
Pedras e blocos de pedra foram atirados contra ele, cobrindo-o. Os espinhos arranharam seu traje. Alguma coisa atingiu-o violentamente no ombro, fazendo-o sentir dores.
Perry Rhodan levantou-se com grande esforço e pôs-se a gritar. Chamou os nomes dos companheiros e, de algum lugar, veio uma resposta. Não entendeu o que diziam.
À sua direita, a menos de um quilômetro do lugar em que se encontrava, uma coluna incandescente subiu ao céu. Bramindo e roncando, os gases e a lava tangidos pela força de centenas de milhares de graus de calor subiam e continuavam a dilacerar a terra, abrindo sempre novas passagens para os fluxos chamejantes.
O incêndio nuclear atingira a ilha, que se esfacelava.
Perry Rhodan continuou no mesmo lugar. Não adiantava mais. Não havia salvação.
É o fim, seu idiota”, pensou numa disposição zangada. “Você pensou que, dentro de setenta anos, pudesse transformar a Terra na potência dominante da Via Láctea. Agora estão apresentando a conta, e você não poderá deixar de pagá-la. Não há saída.”
Olhou em torno, em atitude tranqüila, quase relaxada, conforme fizera durante toda a vida.
A coluna de lava, que dera início à destruição da ilha, transformou-se em vinte, quarenta, cem...
No centro da ilha, havia uma área estreita e alongada ainda não atingida pelo desastre. Os arbustos ardiam, mas o chão parecia firme.
Será que devo correr para lá a fim de prolongar minha vida por alguns segundos?”, refletiu.
Viu um vulto agachado que corria em meio à vegetação. Movia-se de forma grotesca, planando uns quatro metros a cada salto que dava. Era Bell, Atlan ou Lloyd. Ligara o gerador antigravitacional para diminuir o peso do corpo. Corria em direção ao lugar ainda não atingido pelo caos.
Perry Rhodan ficou espantado.
O que adiantava correr para salvar uma vida que, de qualquer maneira, estava perdida?
Estreitou os olhos, evitando que a claridade o perturbasse. Foi então que viu. Era um vulto reluzente e gigante, pouco nítido. A iluminação vinha de baixo.
Era a espaçonave!

* * *

Não foi necessário despertar o General Deringhouse. Ele jurara a si mesmo que, enquanto houvesse uma esperança de salvar alguém que se encontrasse em Fera Cinzenta, não dormiria.
Quando André Larchalle transmitiu sua informação, o próprio Conrad Deringhouse achava-se junto ao intercomunicador. Com a rapidez inimitável que os tripulantes admiravam em sua pessoa, preparou a Drusus para entrar em ação.
A nave passou a deslocar-se à velocidade máxima. Os instrumentos de observação mantinham-se em silêncio. Ao que parecia, não havia mais naves arcônidas por perto. Era bem verdade que Conrad Deringhouse envelhecera demais no exercício da profissão, para dar um excessivo valor às aparências.
Recomendou aos homens dos postos de observação que mantivessem um máximo de atenção. Sabia perfeitamente que era muito difícil localizar, a partir de uma nave em movimento, outro veículo espacial que se encontrava a alguns milhões de quilômetros de distância, mantendo-se em silêncio e com os propulsores desligados, sem transmitir qualquer mensagem pelo rádio.
E foi a desconfiança de Deringhouse que salvou a Drusus da destruição...
Quando a gigantesca nave se havia aproximado a dois milhões de quilômetros de Fera Cinzenta, o negrume do espaço começou a cuspir naves arcônidas. Os observadores constataram a presença do inimigo, quando as naves passaram a acelerar em direção à Drusus. Dali a mais alguns minutos, aproximaram-se à distância de um tiro.
Era uma frota composta de cerca de cem unidades. Conrad Deringhouse cerrou os dentes e deu ordem de abrir fogo. Por maior que fosse o número de arcônidas que se interpunham em seu caminho, teria de chegar a Fera Cinzenta.

* * *

Perry Rhodan corria sem parar. Ligou o pequeno gerador antigravitacional e logo sentiu seu peso diminuir. Empurrou-se com toda força do chão, passou por cima da fenda do solo que se abria naquele instante e parou a uns cinco metros de distância. Deu um segundo pulo e um terceiro. Quando estava preparando o quarto, a espaçonave escamoteou as colunas de apoio telescópicas e as comprimiu fortemente contra o chão balouçante.
À sua direita e à sua esquerda, viu mais dois vultos que tropeçavam e corriam. Chegaram ao mesmo tempo que Rhodan no lugar oval de pouco menos de cem metros de comprimento que fora poupado pela desgraça. A nave pousara no centro dessa área. Uma escotilha da comporta do pé da nave abriu-se. Era uma abertura de apenas dois metros por dois metros, mas esta representava a salvação. Ficava cinco metros acima do solo. Era demais para que pudesse ser alcançada num único salto. O homem, que Perry Rhodan vira correr em primeiro lugar, colocou-se embaixo da comporta, com os braços abertos, e olhou para cima. A extremidade de uma fita rolante surgiu na abertura, saiu pela mesma e desceu ao chão.
No momento em que a fita tocou o solo, os quatro estavam lado a lado: Perry Rhodan, Atlan, Reginald Bell e Fellmer Lloyd. Depois de tanta correria, finalmente tiveram tempo para lançar um olhar de estímulo uns aos outros.
Pisaram um após o outro na fita estreita que os levou para cima. Ela os levou pela abertura da comporta e colocou-os do lado de dentro. Logo subiu e escorregou para dentro da nave. Desapareceu na fenda do soalho que era o lugar em que ficava guardada. A escotilha externa da comporta fechou-se.
Abraçaram-se e balbuciaram palavras desconexas.
No último instante, ainda haviam enganado a morte.
Depois de alguns minutos, a tormenta de alegria amainou e os quatro amigos deram-se conta de que não poderiam permanecer na comporta, durante todo o tempo de vôo. Resolveram dirigir-se à sala de comando. Iriam transmitir seus agradecimentos ao comandante, fosse ele quem fosse.
Caminharam em direção à escotilha interna. Antes que a atingissem, ela abriu-se... Na abertura surgiu um monstro, um robô. Tinha dois metros de altura.
Perry Rhodan, que caminhava à frente do grupo, estacou. Como que num sonho viu o robô abrir sua boca repugnante. Ouviu as palavras proferidas pela voz mecânica e impessoal:
Sejam bem-vindos a bordo da Lan-Zour, uma das naves de Sua Alteza, o regente de Árcon.

* * *

Acelerando ao máximo, a Drusus atravessou as fileiras das naves inimigas, que investiam sobre ela, vindas de todos os lados. Entre os arcônidas não havia nenhuma nave que tivesse o tamanho da Drusus, motivo por que nenhuma delas isoladamente lhe traria maiores incômodos. Só mesmo o fogo conjunto de vários veículos espaciais poderia danificar a nave capitania da frota terrana.
Os campos defensivos da Drusus iluminaram-se sob o relampejar ininterrupto das descargas energéticas por eles absorvidas. Mas não houve sério perigo para o General Deringhouse e seus tripulantes. Em contrapartida, as torres de canhões, muito bem ajustadas da nave capitania, destruíram mais de dez naves inimigas, e causaram avarias tão pesadas em outras vinte e cinco que essas nem seriam capazes de deixar o sistema de Mirta com suas próprias forças.
A maior proteção da Drusus consistia em sua enorme velocidade. Conrad Deringhouse abandonou todas as normas que regulavam o deslocamento das grandes naves no interior dos sistemas planetários. Confiou na potência dos seus agregados e arrancou o máximo dos propulsores da nave. Não tinha um segundo a perder. Fera Cinzenta estava prestes a explodir.
Já as naves arcônidas eram dirigidas por robôs. E os robôs tinham recebido instruções sobre as manobras que poderiam arriscar nas imediações de um grande planeta. Não dispunham de poderes para deixar de lado essas instruções. Dessa forma, as unidades arcônidas foram bem mais lentas que a Drusus, que aos olhos dos seres orgânicos que sobreviveram à batalha devia parecer um monstro que cuspia fogo, trazendo a morte e a destruição, e contra o qual seria inútil lutar.
Conrad Deringhouse nem percebeu que o fogo inimigo diminuiu e acabou cessando de todo. Mantinha contato ininterrupto com a sala de rádio. Via na tela o rosto de André Larchalle, que estava rubro de excitação, aguardando que os sobreviventes de Fera Cinzenta enviassem o primeiro sinal goniométrico. Um dos operadores de rádio de Larchalle emitia sem cessar mensagens pelo telecomunicador, pedindo que Fera Cinzenta respondesse. Se lá embaixo houvesse alguém que possuísse um hiper-rádio, esse alguém não poderia deixar de ouvir as mensagens e respondê-las.
Mas era praticamente inacreditável que ainda houvesse alguma coisa viva naquela bola incandescente, que já atingira o dobro de seu tamanho normal...
Enquanto a Drusus freava a toda força, a fim de não penetrar em velocidade interestelar na atmosfera superaquecida, as proporções da devastação tornaram-se bem perceptíveis.
Havia um restinho de esperança de que lá embaixo ainda houvesse um pedacinho de chão firme no qual alguém, que estivesse equipado com um traje protetor, se conservasse vivo.
Mas o receptor continuou mudo. Era bem verdade que nas faixas extremas captavam ruídos esquisitos que jamais tinham sido ouvidos, tais como ondas de choque hipereletromagnéticas emitidas por um planeta moribundo. Porém desses ruídos não se podia extrair qualquer sentido, pois não provinham de um transmissor manejado por uma criatura pensante.
A Drusus penetrou nas massas de gases incandescentes. Com os mecanismos propulsores uivantes atravessou o caos, deixando atrás de si um rastro de gases ionizados incandescentes, cuja luminosidade chegava a ser mais forte que a das colunas de lava que subiam ao céu.
Conrad Deringhouse não estava disposto a capitular. Há quarenta minutos ainda existiam seres vivos lá embaixo, e esses seres humanos tinham expedido um pedido de socorro.
Por cinco vezes a Drusus circundou o planeta moribundo, deslocando-se de cada vez num ângulo diferente em relação ao eixo polar. Mesmo que, lá embaixo, houvesse um transmissor que já tivesse perdido noventa e nove por cento de sua potência, a sala de rádio não poderia deixar de ouvi-lo.
Mas não ouviram nada!
No momento em que Conrad Deringhouse se dispôs a iniciar a sexta volta em torno do planeta, Fera Cinzenta explodiu. Os instrumentos registraram o súbito aumento de pressão das massas gasosas. Deringhouse interpretou corretamente o fenômeno e desligou os estabilizadores de rota. A Drusus saiu da órbita pela qual até então se deslocara com o triplo da velocidade de fuga, e dirigiu-se ao espaço livre. Os homens dos postos de combate voltaram a prestar atenção à eventual presença de naves arcônidas.
As telas panorâmicas da sala de comando mostraram uma gigantesca bolha de gases branco-amarelenta que aumentava constantemente. Gigantescas línguas de fogo subiam do oceano de gases, e o hidrogênio das camadas superiores da atmosfera acrescentou seu verde-claro ao quadro. Outras cores surgiram, e Fera Cinzenta desfez-se em meio a uma visão irreal e colorida, que jamais o olho humano vira com tamanha intensidade.
Muito deprimido, Deringhouse ordenou a retirada. Enquanto a bola colorida, que antes fora Fera Cinzenta, ia minguando nas telas de popa, a nave atingiu a velocidade de transição e num salto ligeiro afastou-se do sistema.
Voltou a surgir no espaço einsteiniano em sua antiga posição de espera. Deringhouse mandou que a nave se mantivesse à espera por mais duas horas. Queria ver o que iria acontecer no sistema de Mirta.
Sabia que seria inútil. Toda e qualquer vida se extinguira em Fera Cinzenta. Qualquer coisa que os arcônidas fizessem naquele lugar ou em seus arredores não se revestiria de interesse para ele.
Depois do vozerio das ordens que se atropelaram nos últimos quarenta e cinco minutos, o silêncio voltou a reinar na sala de comando. Os oficiais de Deringhouse sabiam que tinham perdido uma batalha, muito embora um ou outro talvez fosse de outra opinião, em virtude da cifra das naves inimigas destruídas.
4



Reginald Bell foi o primeiro a dizer alguma coisa.
Caramba! — praguejou. — Logo deveria ter visto. Esta nave não tem duzentos metros de diâmetro, nem quinhentos. É um tipo intermediário, que não existe em nossa frota.
O robô esperou pacientemente.
Agora isso já não importa”, pensou Perry Rhodan em atitude resignada.
Olhou para trás. Fellmer Lloyd olhava para baixo, mas Atlan retribuiu seu olhar.
Até parece que você não demorará em rever sua pátria — disse Perry Rhodan.
Atlan quase não moveu os lábios ao responder:
Não gostaria de revê-la nestas condições.
O robô voltou a falar.
O comandante Lathon sentir-se-á honrado em cumprimentar os visitantes.
Aquilo era um pedido para que acompanhassem o robô. Perry Rhodan aproximou-se do homem-máquina, que se virou e foi caminhando pelo corredor, que começava logo após a escotilha interna. Os “visitantes” seguiram-no.
Passado o primeiro abalo, o raciocínio de Perry Rhodan começou a funcionar a toda força.
Era claro que os arcônidas os consideravam como prisioneiros. Restava saber o que pretendiam fazer com eles.
Rhodan achou que não seria má idéia insistir desde logo em que os levassem a um espaçoporto terrano situado nas proximidades. Não havia uma guerra oficialmente declarada entre Árcon e a Terra, e segundo os costumes arcônidas, como segundo as normas terranas, só a declaração de guerra justificava o status de prisioneiro de guerra. Por isso seria preferível nem mencionar perante o comandante Lathon a ação desencadeada contra Fera Cinzenta e, apesar do que se sabia, fazer de conta que não havia acontecido nada, fingindo se tratar de uma simples operação de resgate de náufragos. Em poucas palavras, o melhor seria fingir que não sabiam de nada.
A sala de comando da Lan-Zour estava quase vazia. Apenas dois homens estavam sentados ou quase deitados nas poltronas articuladas. Se não fossem os inúmeros instrumentos, o recinto circular e de tamanho médio da sala de comando, daria a impressão de uma platéia de teatro durante a pausa, num dia de pouco público.
Um dos dois homens ergueu o corpo, ficando sentado, quando o robô entrou com os quatro terranos. O robô deixou que os homens que o acompanhavam passassem à sua frente e anunciou sem a menor comoção:
Quatro sobreviventes do planeta que está explodindo, senhor.
O homem na poltrona fez um movimento de enfado, que significava compreensão, concordância e dispensa. E para o outro o assunto foi tão pouco interessante que nem sequer olhou para trás.

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