sexta-feira, 19 de agosto de 2016

P-079 - O Inferno Atômico - Kurt Mahr [Parte 3]

Ambos eram arcônidas e possuíam a letargia e o enfado peculiar de sua raça. Perry Rhodan lançou um olhar ligeiro para Atlan e viu-o contorcer o rosto numa expressão de desprezo.
A caminho da sala de comando haviam retirado os trajes protetores, deixando-os nas proximidades da comporta para que fossem descontaminados, isto é, para que a poeira radiativa fosse retirada. Era a primeira vez, em muitas horas, que podiam mover-se livremente, e a sensação de alívio provocada por esse fato bastou para aumentar-lhes a coragem e a iniciativa.
O arcônida, que agora se erguera na poltrona, fitou prolongadamente os convidados. O robô saiu da sala de comando. Perry Rhodan procurou ver nas telas o que se passava no espaço, mas elas não mostravam nada dos arredores da Lan-Zour.
Pois bem — disse Lathon em arcônida. — Aí estão os senhores.
Perry Rhodan olhou para o lado. O homem indicado para palestras tão profundas era Reginald Bell. Este entendeu o gesto.
Acenou a cabeça com uma expressão furiosa e confirmou.
É verdade; aqui estamos nós. Muito obrigado por nos ter salvo.
Lathon fez um gesto de desprezo.
Ordens — disse em tom cansado. — Apenas foram ordens. Pelo que vejo, há um arcônida entre os senhores.
O senhor vê corretamente — disse Reginald Bell em tom amável. — É um remanescente dos tempos em que os arcônidas ainda podiam olhar para trás sem que seus pescoços tremessem de fraqueza.
Se Lathon compreendeu a ofensa, não se sentiu impressionado.
Qual é seu nome? — perguntou, dirigindo-se a Atlan.
Atlan cerrou os dentes e não respondeu.
Lathon não se perturbou com isso. Voltou a dirigir-se a Bell numa atitude presunçosa.
Aonde pretendem levar-nos? — indagou Bell.
Lathon levantou a mão e fez um gesto pálido em direção à tela.
Não faço a menor idéia.
Bell ficou sem fôlego. Reunindo todo o autocontrole de que ainda era capaz, disse:
O senhor é o comandante desta nave, não é?
Sim, naturalmente. Mas será que só por isso tenho que saber qual é o destino da nave?
A hilaridade foi uma válvula para o nervosismo refreado de Reginald Bell, que soltou uma estrondosa gargalhada. Depois disse em tom cordato:
Acho que não. Tem toda razão. Apenas pensei que talvez o senhor soubesse.
Lathon fez um gesto negativo. Ao que parecia, cansava-se ao falar, mas julgava a conversa suficientemente interessante, para submeter-se a esse esforço.
É claro que poderíamos indagar ao computador principal qual é o destino da Lan-Zour — sugeriu Lathon. — Mas não sei se ele estaria disposto a fornecer esse tipo de informação, e além disso saberemos de qualquer maneira quando chegarmos lá, não é?
Reginald Bell fez que sim.
Naturalmente. É isso mesmo.
Dirigindo-se a Perry Rhodan, disse em voz baixa, e em inglês:
Fale com esse idiota, senão ainda acabo perdendo as estribeiras.
Perry Rhodan dirigiu-se a Lathon.
De qualquer maneira, eu lhe ficarei muito grato se quiser colher informações junto ao computador positrônico — disse, dirigindo-se ao comandante. — Seria muito desagradável se não soubéssemos para onde estamos sendo levados.
Terei o maior prazer em atender ao seu pedido — respondeu Lathon. — Basta chamar um robô e este formulará a indagação junto ao computador.
Comprimiu um botão embutido na braçadeira da poltrona.
Há mais algumas coisas que eu gostaria de saber — prosseguiu Perry Rhodan. — Por exemplo, o que é feito dos nossos homens que...
Oh! — interrompeu Lathon em tom queixoso. — Receio que não consiga lembrar-me de tudo. Forneça as perguntas ao robô.
Apontou para a escotilha que acabara de abrir-se, dando entrada a um robô.
Estou pronto — disse o homem-máquina.
Pergunte! — pediu Lathon. — Ele está devidamente instruído.
Perry Rhodan procedeu sistematicamente.
Primeiro: no momento do ataque a base de Fera Cinzenta tinha uma guarnição de cento e cinqüenta e dois homens. Esses cento e cinqüenta e dois homens pegaram naves transportadoras leves e procuraram salvar-se do planeta que explodia. Sabe-se alguma coisa sobre o paradeiro dessas naves e de seus ocupantes?
Segundo: duas horas depois de iniciado o ataque, meus companheiros e eu fomos detidos por um robô arcônida. Esse robô vinha da Lan-Zour?
Terceiro: para onde seremos levados?
Quarto: desejamos ser conduzidos a um pequeno espaçoporto da frota terrana, cujas coordenadas lhes seriam fornecidas. Este pedido está em condições de ser atendido?
Obrigado. É só. Será que você poderia responder minhas perguntas?”
O robô fez a repetição. Depois disso, atravessou a sala a passos pesados e manipulou vários controles de um painel. Ao que parecia, estava ligado diretamente com o computador positrônico. Quando se virou para dar as respostas, Perry Rhodan e seus companheiros haviam ouvido tão-somente o clique das chaves.
Pergunta número um — principiou o robô. — Quinze naves de transporte terranas foram aprisionadas por naves arcônidas. Cento e trinta e quatro terranos são prisioneiros da frota arcônida.
Pergunta número dois: a Lan-Zour desembarcou três robôs, a fim de salvar eventuais sobreviventes do planeta que explodia.
Perry Rhodan exibiu um sorriso feroz ao lembrar-se de que maneira Reginald Bell seria salvo.
Dois robôs regressaram — prosseguiu — enquanto o terceiro anunciou sua perda total.
Pergunta número três: a Lan-Zour chegará ao destino dentro de poucos minutos. Quanto ao mais, nenhuma resposta.
Pergunta número quatro: o pedido não pode ser atendido.
Fim.”
Perry Rhodan olhou para baixo. Já esperava um não à quarta pergunta. Mas o que o deixou deprimido foi a perda de dezoito homens que, ao que tudo indicava, não conseguiram sair de Fera Cinzenta. Lembrou-se do comandante da base, Mike Judson. Enquanto ainda houvesse alguém correndo perigo, Judson não seria capaz de abandonar seu posto. Concluiu que o tenente era um dos dezoito homens que encontraram a morte em Fera Cinzenta.
Isso doía. Rhodan sentiu ódio. O regente atacara a base sem aviso prévio, porque esta o incomodava ou porque acreditava que fosse a Terra. Haveria outras maneiras de eliminar a base de Fera Cinzenta. Maneiras que permitiriam a salvação de todos. Mas o regente agira com a insensibilidade própria de uma máquina.
Perry Rhodan levantou os olhos.
Obrigado — respondeu. — Isso basta.
O robô saiu. Mal a escotilha se fechou atrás dele, ela voltou a abrir-se, dando passagem a outro robô. Este olhou para Lathon e disse:
Chegamos ao destino, senhor. Outra nave acolherá os visitantes. Pedem que nos apressemos.
Lathon fez um gesto de enfado.
Sempre essa maldita pressa! Levantou-se.
Sinto muito ter de perder tão depressa um visitante tão ilustre como o senhor, Perry Rhodan — disse. Rhodan estremeceu ao ouvir pronunciar seu nome. Não sabia que Lathon o conhecia. — Desejo-lhe uma boa viagem — concluiu Lathon.
Isso parecia uma amarga ironia, mas a intenção com que foram pronunciadas estas palavras não era irônica. Lathon estava falando sério. Era um homem velho e cansado, que não sabia nada do que se passava em torno dele.
Inclinou-se, e Perry Rhodan retribuiu o cumprimento. Depois deu as costas a Lathon e deixou que o robô o levasse para fora. Voltaram à comporta pela qual haviam entrado meia hora antes. A escotilha interna abriu-se. Na câmara da comporta havia dois vultos altos que envergavam trajes espaciais e faziam movimentos impacientes.
Na comporta havia mais quatro trajes espaciais. Perry Rhodan envergou um deles. Um dos dois vultos fez um gesto impaciente em direção ao capacete. Rhodan compreendeu. Aquele indivíduo queria que ligasse o rádio.
Rhodan obedeceu, e logo ouviu uma série de palavras pronunciadas num estranho dialeto arcônida.
...caramba, andem mais depressa. Não podemos perder tempo. Lá fora está cheio de terranos. Vamos embora!
Tirou do bolso de seu traje uma arma de cano curto e balançou-a de um lado para outro. Rhodan procurou compreender o que se passava. Havia naves terranas nas proximidades.
Por que os estavam transbordando justamente aqui? Se transmitisse um pedido de socorro, será que os terranos poderiam tirá-lo do aperto?
Não havia como responder à pergunta enquanto não lançasse um olhar para o espaço. Ainda acontecia que o microcomunicador fora levado juntamente com os trajes espaciais, para ser descontaminado. Seria inútil pedir que lhe entregassem esses objetos. Os robôs da Lan-Zour não os devolveriam.
Perry Rhodan fechou o traje espacial. Atlan e Reginald Bell também estavam prontos. Apenas Fellmer Lloyd teve dificuldade em arranjar-se. Perry Rhodan resolveu ajudá-lo. Olhando pelo visor do capacete, notou que o rosto de Lloyd estava vermelho e que o suor lhe corria profusamente pela testa.
Algo de errado? — perguntou em tom de perplexidade.
Não sei — respondeu o mutante. — Sinto-me muito mal.
Parece que é febre”, pensou Rhodan.
No mesmo instante sentiu-se apavorado à idéia de que talvez Fellmer Lloyd tivesse absorvido uma quantidade excessiva de poeira radiativa. Quando a dose de radiações ficava entre cinqüenta e cem rens muitas vezes surgia, logo após a absorção, a chamada febre gama ou de cem rens. Em alguns casos, o resultado era a morte, mas antes viria uma doença longa e desagradável.
Ande depressa! — pediu a Lloyd. — Ao que parece, essa gente é mais ativa que Lathon. O senhor será tratado.
Fellmer Lloyd nem sequer teve força para fechar o traje. Rhodan teve de fazê-lo por ele.
Pronto? — perguntou um dos desconhecidos.
Rhodan fez um gesto afirmativo. Os desconhecidos compreenderam o sinal. O robô desapareceu pela escotilha interna, que se fechou. A seguir, a escotilha externa abriu-se.
O quadro que se ofereceu era o mesmo de sempre. Um verdadeiro oceano de estrelas. Muito mais variado que o céu terrano, este parecia um verdadeiro tapete luminoso. Em meio àquelas cintilações havia um buraco circular. Era a nave dos desconhecidos. Estava pelo menos a dez quilômetros de distância.
Junto ao costado da Lan-Zour achava-se uma pequena nave auxiliar. Sempre vigiados pelos desconhecidos, Rhodan e seus companheiros entraram na mesma. Um dos desconhecidos tomou o lugar do piloto à sua frente, enquanto o outro se acomodava atrás dos terranos.
Perry Rhodan ficou triste ao pensar nas armas que haviam levado do abrigo de Fera Cinzenta, e que agora se encontravam nos trajes protetores deixados para trás. Caso tentassem apoderar-se da nave auxiliar, poderiam ter possibilidades de êxito, mas seria uma ação temerária...
O barco partiu. A Lan-Zour foi ficando cada vez menor na pequena tela, e, depois de algum tempo, estava reduzida a um buraco escuro no espaço. A parede metálica da nave passou a tornar-se cada vez mais nítida e brilhava à luz das estrelas. O embarque deu-se depressa e sem incidentes. Ao que parecia, aqueles desconhecidos, fossem eles quem fossem, tinham um respeito tremendo pela frota terrana. Uma fita e um elevador gravitacional conduziram os quatro terranos à sala de comando. Se a nave havia dado partida, não se percebia nada.
Ao contrário do que acontecia na sala de comando da Lan-Zour, uma atividade febril reinava na desta nave. Viam-se alguns robôs pequenos e extremamente ágeis, que executavam trabalhos de ordenança. Mas os seres orgânicos estavam em maioria. Ao vê-los trabalhar tão apressadamente e falar uns com os outros, Rhodan lembrou-se de quem eram eles. Eram ekhônidas, isto é, habitantes do planeta Ekhas, situado em algum lugar nas profundezas da Galáxia. Haviam emigrado na época de apogeu do Império Arcônida. Portanto, eram verdadeiros arcônidas, que haviam conservado a vitalidade de sua raça.
Na tela panorâmica, via-se que o Universo estava em movimento. As estreitas faixas coloridas, espalhadas na borda das telas, provavam que a nave ekhônida estava prestes a atingir a velocidade relativista. Provavelmente pretendia atingir o quanto antes a velocidade que lhe permitisse penetrar no hiperespaço. A Lan-Zour havia desaparecido.
A maior parte dos ocupantes da sala de comando não se interessou pelos terranos. Apenas dois homens, um dos quais devia ser o comandante, segundo se depreendia das insígnias que trazia, aproximaram-se de Perry Rhodan e seus companheiros.
Os senhores são meus prisioneiros — disse o comandante, dando início à palestra.
Como se arroga o direito de considerar-nos prisioneiros? — perguntou Rhodan.
Perry já havia tirado o capacete. Um sorriso irônico surgiu no rosto do comandante.
Terei de levá-lo a determinado lugar e entregá-lo a quem de direito. Para isso não preciso observar as leis. Os problemas jurídicos serão resolvidos por meu superior.
Será nosso amigo, o computador-regente? — perguntou Rhodan em tom de escárnio.
Não estou autorizado a dar informações, seja sobre o motivo de sua prisão, seja sobre seu destino. Os senhores serão vigiados por três homens e um robô. Forneça seus nomes e outros dados ao robô, para que possa saber quem tenho a bordo. Dentro de vinte horas, deveremos chegar ao destino. Uma vez lá, poderão formular as perguntas que desejarem.
Três homens e um robô aproximaram-se. Os homens tinham um aspecto tão sombrio quanto o robô... Mas Rhodan teve sua atenção despertada por outro fato. O comandante lhes havia pedido que fornecessem seus nomes. Será que isso significava que não sabia quem eram os prisioneiros?
O ekhônida esteve a ponto de afastar-se.
Um instante — disse Rhodan. — É bom que saiba que na primeira oportunidade que se oferecer protestarei contra o tratamento que me está sendo dispensado. E posso garantir que Perry Rhodan...
O ekhônida fez um gesto de desprezo.
Ora, Perry Rhodan! — disse. — Será que ainda não sabe que ele explodiu juntamente com a base?
Rhodan sabia o que deveria fazer, mas naquele instante teve de esforçar-se para dar a seu rosto uma expressão que manifestasse o pavor.
Rhodan...! — disse em tom de perplexidade. — Explodiu? — soltou uma risada forçada. — Pense em algo melhor para intimidar-nos.
O ekhônida não parecia interessado na conversa. Respondeu:
Acredite no que quiser. Isso não me diz respeito. Apenas vim buscá-lo em determinado lugar e o entregarei em outro lugar. Minha missão é apenas esta.
Isso em nada altera o fato de que seu procedimento constitui uma infração do direito galático — respondeu Rhodan em tom enérgico. — Sou um terrano livre. Entre a Terra e Árcon não existe o estado de guerra. Por isso, nenhum arcônida tem o direito de me tratar como se fosse um prisioneiro.
O ekhônida perdeu a paciência.
Não me amole! — disse em tom áspero.
Afastou-se, dirigindo-se a seu posto. Os guardas ergueram as armas. O ekhônida que os havia trazido abriu a escotilha.
Naquele instante, as sereias de alarma começaram a uivar. Perry Rhodan estacou. O ruído causava-lhe um nervosismo eletrizante. Se os arcônidas estavam dando o alarma, havia naves terranas nas proximidades. Sem dar atenção às armas que os guardas mantinham apontadas para ele, Rhodan virou-se e olhou para a tela.
No centro da mesma via-se uma bola reluzente branco-azulada.
Era uma bomba ou uma nave que explodira atrás do veículo ekhônida?
As sereias silenciaram, e as vozes exaltadas dos ekhônidas tornaram-se perceptíveis. Os resultados das localizações goniométricas foram anunciados. Perry Rhodan não conhecia o sistema ekhônida de coordenadas, motivo por que os dados fornecidos não significavam nada para ele. Em compensação, quando alguém gritou a plenos pulmões, compreendeu perfeitamente o que havia acontecido.
É a Lan-Zour! Os terranos conseguiram abatê-la.
Isso mesmo”, pensou Perry Rhodan, “pela direção só poderia ser a Lan-Zour.”
O comandante ekhônida transmitiu suas instruções com uma calma que Perry Rhodan não pôde deixar de admirar. O veículo espacial recorreu a um propulsor auxiliar para acelerar mais e atingir mais depressa a velocidade de transição. Os observadores procuravam febrilmente localizar outros sinais da presença de naves terranas, mas não encontraram nenhum, antes que a nave entrasse em transição.
A dor provocada pelo salto foi mínima. Perry Rhodan calculou que a distância entre o ponto inicial e o ponto final da transição não deveria ser superior a dez anos-luz. Ainda um tanto confuso, o ekhônida olhou para ele.
Escapamos dos terranos — disse. Não parecia sentir-se muito orgulhoso. — Bem que gostaria de possuir uma nave de tamanho suficiente para enfrentá-los.
Perry Rhodan limitou-se a fazer um sinal e foi andando. Os guardas formaram um semicírculo atrás do grupo e obrigaram-no a sair pela escotilha.
Enquanto percorria a reduzida distância que os separava dos camarotes em que se abrigariam, Perry Rhodan refletiu sobre a Lan-Zour. Suspeitou de algo, e à medida que pensava, a suspeita transformava-se em certeza.
Lathon sabia quem era ele. O ekhônida não sabia. O computador-regente de Árcon conhecia a mentalidade terrana e, como estrategista hábil, devia empenhar-se, a fim de manter em segredo a prisão de Perry Rhodan. Sabia que os terranos moveriam céus e infernos para libertar o chefe, caso soubessem que este ainda estava vivo. Mas, se fossem mantidos na crença de que Rhodan já estava morto, eles se manteriam em silêncio e, além disso, demorariam um ano para vencer a confusão.
O computador-regente não fazia questão de que a prisão de Rhodan se tornasse conhecida pelo Universo a fora.
Isso lançava uma luz diferente sobre o destino da Lan-Zour. Não se pôde evitar que Lathon conhecesse a identidade dos prisioneiros. Mas pôde-se evitar que transmitisse seu conhecimento a uma pessoa não credenciada.
Os responsáveis pela destruição da Lan-Zour não eram as naves terranas. O próprio regente ordenara ao computador da nave que a fizesse explodir.

* * *

Depois de algumas horas de espera, a Drusus, comandada pelo General Deringhouse, voltou ao ponto de reunião da frota terrana.
A espera se revelara vã. A base de Fera Cinzenta estava perdida e Perry Rhodan estava morto. O tempo X, ou seja, o momento do ataque contra Árcon, já passara há seis horas. Quando retornou para junto da frota que o esperava, Conrad Deringhouse já havia preparado seus planos. Não se poderia pensar mais num ataque a Árcon.
O General Deringhouse deu ordem para que a frota se retirasse. As unidades da frota receberam ordens para se reunirem no sistema de Vega, situado a pouco menos de trinta anos-luz da Terra.
As naves foram saindo uma por uma ou em grupos de duas. Dez horas depois de Deringhouse ter transmitido sua ordem, o setor espacial em que o planeta Terra reunira suas forças para desferir o golpe decisivo contra Árcon estava vazio e abandonado.
Apenas três naves, um couraçado e dois cruzadores pesados, foram destacadas por Conrad Deringhouse para manterem, às escondidas e sem que os arcônidas o percebessem, as comunicações com a base de Hades, situada na outra dimensão temporal.

* * *

O robô anotou os nomes e não apareceu mais, embora os guardas garantissem que se mantinha constantemente nas proximidades. Naturalmente deram nomes errados. Perry Rhodan passou a ser George Barrimore, Reginald Bell usou o nome Frederick O’Lannigan e Fellmer Lloyd passou a chamar-se de Walter Highman, enquanto Atlan transformou-se em Talan-Nuur. O robô registrou os sons numa ficha, por meio de impulsos, o que bastava para satisfazer às exigências do comando da nave.
Os prisioneiros foram alojados em três camarotes interligados. Um deles servia de dormitório, outro de sala de estar, enquanto no terceiro se encontrava o banheiro e os aparelhos de ginástica. Com isso, os prisioneiros não poderiam queixar-se de falta de conforto, muito embora as comodidades que lhes foram concedidas fossem de valor apenas simbólico, pois não sabiam como utilizar as excelências da cultura habitacional arcônida nas vinte horas que, segundo a informação do comandante, deveria demorar o vôo.
Logo constataram que era altamente provável que o quarto e a sala não continham qualquer aparelho de escuta.
Mas, para evitar qualquer risco, os prisioneiros conversaram sempre em voz baixa, a fim de que os microfones — caso existissem — só pudessem transmitir um murmúrio incompreensível.
Subitamente Fellmer Lloyd desmaiou. O médico chamado às pressas aplicou duas injeções contra a febre gama. Face à difícil situação, Atlan disse:
Precisamos fazer alguma coisa. Acho que ninguém duvida de que o ekhônida nos levará para Árcon pelo caminho mais rápido. O tempo de vôo combina com esta suposição. Uma nave comum leva de quinze a vinte e cinco horas para percorrer a distância que separa Fera Cinzenta de Árcon. Quando estivermos em Árcon, não haverá mais salvação para nós. O regente tomará todas as providências para que seus prisioneiros não lhe escapem mais.
A única resposta às palavras de Atlan foi um aceno de cabeça. Perry Rhodan sabia tão bem quanto Reginald Bell que Atlan não estava exagerando. Depois de chegarem a Árcon, seriam submetidos a um interrogatório psicológico que destruiria seu corpo e sua mente. Se quisessem fazer alguma coisa para salvar-se teriam de fazê-lo agora, enquanto se encontravam a bordo da nave ekhônida.
Fossem quais fossem as idéias concebidas nos minutos ou horas que se seguiriam, uma coisa parecia certa: seria inútil lutar contra a tripulação da nave, ainda mais que o grupo de terranos tinha entre si um enfermo. Perry Rhodan apenas encontrou uma circunstância que favorecia a ele e a seus amigos. O regente de Árcon fazia questão de que os prisioneiros lhe fossem entregues vivos.
Por isso, no momento decisivo, os ekhônidas hesitariam muito antes de empregar outras armas que não as pistolas de choque. E para alguém que se vê diante de um importante empreendimento, a esperança de que, se as coisas correrem mal, provavelmente continuará vivo, já representa um grande consolo.

* * *

A alguns milhares de anos-luz de distância, quase exatamente no centro geométrico do grupo estelar M-13, o regente estava classificando as informações fornecidas por cento e trinta e quatro prisioneiros terranos. O regente não hesitara em recorrer aos recursos mais modernos da psicofísica para interrogar os prisioneiros. Agia na sábia convicção de que dificilmente um terrano estaria disposto a revelar um segredo importante enquanto não fosse obrigado a tanto.
Apesar da aplicação de modernos métodos, o resultado do interrogatório foi escasso. O regente percebeu que os terranos haviam tomado suas providências para o caso de uma catástrofe, isto é, a captura de grande número de prisioneiros.
Na verdade, o regente só conseguiu obter a seguinte informação: o planeta destruído não era, conforme de início se supusera, a Terra, mas apenas uma base avançada.
Porém esta informação perdeu grande parte de seu valor, pois o regente já a possuía antes do interrogatório dos terranos, pois, pouco antes do início do bombardeio, as naves robotizadas haviam tirado fotografias da superfície do planeta. Com exceção da área da base, não descobriram qualquer indício de vida inteligente. Ninguém seria capaz de acreditar que todas as cidades terranas eram construídas no subsolo, portanto essa informação bastava para provar que aquele mundo não era a Terra.
Restava descobrir onde ficava o mundo dos terranos. Os prisioneiros foram interrogados sobre a distância entre a Terra e a base destruída. De início recusaram-se a dar qualquer resposta. Quando finalmente a dor os obrigou a responder, indicaram cifras que iam de dez a quarenta mil anos-luz. O psicodectetor revelou que a indicação desses números não fora precedida de qualquer atuação da memória. Em outras palavras, representavam uma invenção. O computador-regente viu-se diante de um fato surpreendente: os homens de Perry Rhodan em Fera Cinzenta não sabiam a que distância ficava seu mundo natal.
E as informações que puderam dar sobre a direção onde ficava o planeta Terra eram ainda mais escassas. Eram técnicos do tipo dos que costumam ser empregados nas bases, ou seja, pessoal de superfície. Nenhum deles possuía o menor conhecimento de galatonáutica. Por isso, não foram capazes de indicar as coordenadas angulares que indicariam a direção do vetor Fera Cinzenta—Terra.
A última pergunta formulada aos prisioneiros dizia respeito a certos detalhes do sistema solar terrano. O computador-regente estava convencido de que, apesar de todas as falhas, conseguiria encontrar a Terra, se o respectivo sistema fosse por exemplo um dos sistemas gigantescos formados por mais de cem planetas ouse a própria Terra descrevesse uma órbita altamente excêntrica em torno de seu sol. Essas características extraordinárias eram mencionadas no catálogo galático, daí não seria difícil localizar o sistema.
Infelizmente, segundo as declarações dos prisioneiros, o sistema solar terrano era o que havia de mais comum. Interrogados sobre as dimensões de seu sistema, os prisioneiros mais uma vez formularam declarações divergentes. Seus conhecimentos astronômicos eram extremamente escassos.
O regente concluiu que Perry Rhodan de propósito mantivera baixo o nível de conhecimentos de seu pessoal. A única informação de valor, obtida pelo regente, foi a de que um dos planetas do sistema terrano — mais uma vez surgiram divergências entre as declarações dos terranos sobre se era o quinto, o sexto, o sétimo ou o oitavo — possuía um anel.
Porém mesmo esse êxito tornou-se apenas relativo. Com ele, o número dos sistemas possíveis ficou reduzido de alguns bilhões para algumas centenas de milhões. Mais ou menos, dez por cento dos sistemas planetários possuíam um anel.
A primeira tentativa de descobrir a posição galáctica da Terra representou um fracasso para o regente.
Mas, por enquanto, o cérebro positrônico ainda não lançara seu grande trunfo.
Perry Rhodan estava preso e encontrava-se a caminho de Árcon. Era bem verdade que o computador duvidava de que justamente Rhodan fosse revelar a posição de seu mundo. No entanto, bastaria que lhe desse uma certa liberdade de ação para que procurasse entrar em contato com seus homens, do que poderiam resultar algumas indicações preciosas.
O regente concluiu que dominava a situação.

* * *

Ao que tudo indicava, o ekhônida pretendia vencer o trecho que o separava de Árcon numa série de transições. Quem conhecesse o tamanho da nave, contaria com isso. Mas foi só a primeira dor, seguida do funcionamento dos propulsores, observado na tela, que devia acelerar para a segunda transição, que lhes deu a certeza.
Os prisioneiros sabiam perfeitamente que, só nas pausas entre as duas transições, poderiam fazer qualquer coisa. Depois de realizado o último hipersalto, já não haveria a menor esperança.
Face à duração e à intensidade da dor da transição, Perry Rhodan e Atlan calcularam a distância percorrida: de cinco a sete mil anos-luz. A distância entre Fera Cinzenta e Árcon era de aproximadamente trinta e sete mil anos-luz. Por outro lado, o lugar em que passaram da Lan-Zour para a nave ekhônida ficava apenas a alguns minutos-luz de Fera Cinzenta. Face a isso, podia-se calcular que durante o vôo para Árcon seriam realizadas de cinco a oito transições. Entre uma transição e outra havia uma pausa de quarenta minutos, durante a qual a nave era acelerada. Teriam de agir numa dessas pausas.

* * *

Zachan praguejou contra o serviço na frota espacial e especialmente contra o tédio a bordo da Keenial. Zachan era um dos três guardas que vigiavam os quatro prisioneiros terranos. E foi o único que ficou pensando sobre os motivos por que um destes se parecia com um arcônida. Ficou quebrando a cabeça. O que mais o espantava era que, além dele, ninguém parecia interessar-se pela estranha coincidência.
Zachan andava de um lado para outro pelo corredor. Levava a tiracolo a arma de choque de cano comprido. Colocara-a nas costas e segurava o cano com a mão, pois assim o passeio se tornava mais agradável.
Na verdade, Zachan e os dois outros guardas estavam mesmo passeando. Ninguém calculava com a possibilidade de que os terranos pudessem revoltar-se contra a sorte que os atingira.
Zachan caminhava vinte passos e dava uma rápida volta. Nas últimas três horas, as voltas rápidas e precisas foram seu único passatempo. Durante o caminho de volta, um dos outros guardas passava por ele, percorrendo também o caminho de vinte passos, que de um lado e de outro terminava numa meia-volta. Zachan disse um palavrão e sorriu; o outro não demorou a dar uma resposta...
O terceiro homem, chamado Olthaur, estava sentado numa poltrona, num cruzamento do corredor.
No momento em que o outro guarda fazia meia-volta atrás de Zachan, este passou pela porta que levava ao conjunto de camarotes. Olhou para trás, para verificar se o outro sabia dar meia-volta tão bem quanto ele. Quando voltou a virar a cabeça, percebeu que a porta estava entreaberta. A meia altura da fresta, surgiu uma placa de plástico reluzente. Zachan deu dois passos rápidos que o levaram para junto da porta. Pegou a folha de plástico, olhou pela fresta da porta e viu o vulto alto do terrano, que se parecia com um arcônida. Ouviu-o cochichar:
Ande depressa! Não deixe que os outros três percebam.
Zachan estacou.
Os outros três? Aqui fora só há dois”, pensou e, quebrando a cabeça, chegou à conclusão de que o terrano, que parecia um arcônida, deveria ter-se referido aos outros prisioneiros.
A porta voltou a fechar-se. Zachan ficou parado à frente da mesma, com o bilhete na mão. O outro guarda percebeu alguma coisa. Até mesmo Olthaur inclinou-se ligeiramente na confortável poltrona em que se encontrava a fim de ver o que estava acontecendo.
Zachan abriu o bilhete e viu que nele estavam escritas algumas linhas. Os sinais de escrita eram arcônidas. Como os ekhônidas usassem os mesmos símbolos, Zachan pôde ler o texto.

Tenho uma coisa importante a comunicar
ao comandante. Preciso falar a
sós com ele. Os terranos não devem
perceber nada. Talan-Nuur.

O outro guarda olhou por cima do ombro de Zachan.
Avise imediatamente! — disse. — Parece que é importante.
Zachan era mais desconfiado. Era bem possível que aquilo não passasse de um truque.
Mostrou o bilhete a Olthaur. Este estudou-o com uma expressão de desconfiança.
Acho que será melhor informar o comandante — disse Zachan de repente.
É mesmo — confirmou Olthaur.
A poucos metros de distância, havia uma cabina de intercomunicação. Enquanto Olthaur continuava sentado na sua poltrona e a outra sentinela começava novamente a andar nervosamente pelo corredor, Zachan comunicou-se com a sala de comando. Falou em voz baixa, a fim de que os prisioneiros não pudessem ouvi-lo. Zachan sentiu-se surpreso ao notar que na sala de comando atribuíram tamanha importância à notícia que o ligaram com o comandante Chollar em pessoa. Este ouviu o que o guarda tinha a dizer. Prometeu enviar um sinal, dando ordens para que Talan-Nuur fosse levado à sala de comando.
Zachan ficou satisfeito com o resultado de sua atuação.
Dali a alguns minutos, um oficial apareceu. Era um homem jovem, bem mais jovem que Zachan. E não estava armado.
Tire Talan-Nuur — ordenou. — Quero que vá comigo à sala de comando. O senhor me acompanhará, pois estou desarmado.
Que homem imprudente”, pensou Zachan. “Terei de cuidar dele.”
Abriu a porta do camarote e gritou:
O comandante quer falar com Talan-Nuur!
Nenhum dos prisioneiros estava na sala da frente. Mas quando Zachan chamou, com exceção do doente, os prisioneiros apareceram na porta que ligava os dois aposentos. Zachan repetiu a ordem. Examinou atentamente os prisioneiros, mas não notou nada de suspeito. Estava realmente convencido de que Talan-Nuur desejava dar alguma informação importante sobre os outros prisioneiros.
O oficial mandou que Olthaur e o outro guarda tivessem muito cuidado durante a ausência de Zachan. Disse que Zachan logo voltaria.
Puseram-se a caminho da sala de comando. O oficial ia à frente, Talan-Nuur no meio, enquanto Zachan fechava o grupo.
Os camarotes dos prisioneiros ficavam num corredor circular. Depois de alguns passos, este terminava num corredor provido de fitas rolantes.
A confusão aconteceu no lugar em que o corredor secundário encontrava-se com o corredor principal. E deu-se tão de repente que Zacham levou algum tempo para compreender o que estava acontecendo...
O oficial desaparecia na curva do corredor, seguido por Talan-Nuur. Zachan esforçava-se para segui-lo bem de perto, pois não queria perder o prisioneiro de vista por um instante sequer. Mas no momento em que pretendia entrar na curva do corredor uma barulheira violenta surgiu atrás dele. Zachan parou e olhou para trás, per- plexo. A porta do camarote dos prisioneiros estava aberta. O maior dos terranos estava parado na entrada, gesticulando nervosamente. Olthaur e o outro guarda se haviam colocado à sua frente, com as armas apontadas.
Zachan ficou totalmente perturbado. Finalmente lembrou-se de que sua tarefa consistia em levar um prisioneiro à sala de comando, não em cuidar do que Olthaur e o outro guarda faziam. Controlou-se e quis prosseguir...

* * *

Atlan só estava esperando este momento!
À frente dele, o jovem oficial, que não desconfiava de nada, pisou na mais lenta das fitas rolantes. O guarda que vinha atrás dele estava oculto pela curva do corredor. Enquanto isso, o ruidoso protesto de Perry Rhodan se fazia ouvir no corredor lateral, conforme fora combinado.
Numa das paredes laterais do corredor, ficava a escotilha pressurizada: ali localizava-se a saída de ar comprimido. Bastava que Atlan estendesse a mão para tocá-la. No momento em que a voz forte de Perry Rhodan começou a soar, Atlan escorregou para o lado. Suas mãos treinadas não levaram mais de um segundo para destravar a escotilha e abri-la. O poço de ar pressurizado era uma saída de emergência, e... uma saída de emergência sempre possui uma entrada fácil de ser aberta!
No momento em que Atlan abriu-a, ouviu-se um forte chiado. O jovem oficial, que já se havia afastado alguns metros na fita rolante, percebeu que alguma coisa não estava correndo bem. Virou-se e viu o arcônida abaixar-se e entrar apressadamente no poço. Por um segundo ficou mudo de pavor. E esse segundo foi suficiente para que Atlan desaparecesse no poço e fechasse a escotilha atrás de si.
No interior do poço, acendeu-se uma luz ofuscante. As paredes — lisas e brilhantes — do longo tubo abriram-se à frente do arcônida. Não se ouvia mais nenhum som vindo de fora. A escotilha era à prova de pressão e de som. E, o que era mais importante, não se podia abri-la, enquanto alguém se servisse das respectivas instalações.
Atlan agachou-se no soalho redondo do tubo. Fazia mais de dez mil anos que pela última vez saíra de forma tão desagradável de uma nave. Por um instante sentiu-se deprimido com a lembrança de Tarts... Recordava-se de que o guerreiro impetuoso o empurrara pelo tubo pressurizado da Tosoma, gravemente danificada, quando Atlântida estava submergindo.
Dali a um segundo, bateu com o punho fechado no botão luminoso vermelho à sua esquerda. Um forte ruído surgiu no interior do tubo. Bombas gigantescas aspiraram o ar, causando uma queda de pressão ao longo do eixo do tubo. Ouviu um chiado na altura da escotilha. O ar pressurizado estava entrando, e aumentava a pressão na outra extremidade do tubo. Uma tormenta rugiu em torno do arcônida, fazendo seus cabelos esvoaçarem. Sofreu uma forte aceleração e o sangue subiu-lhe à cabeça.
Viu a escotilha da comporta à sua frente. Naquela comporta, terminavam mais cinco poços de ar pressurizado, vindos de todas as direções. Se o jovem oficial fosse bastante rápido, teria alarmado a nave e ocupado a comporta o mais rápido possível. Nesse caso, alguns ekhônidas zangados estariam atrás da escotilha para receberem Atlan de armas em punho.
Uma dúvida tomava conta da mente do arcônida. Se na comporta não houvesse trajes espaciais, Atlan poderia regressar, mesmo que ninguém apontasse a arma para ele, e anunciar a Perry Rhodan que seu plano fracassara. Pois o plano não poderia ser executado sem um traje espacial.
Impaciente e nervoso, viu a escotilha deslizar para o lado. A câmara da comporta estava vazia e profusamente iluminada. Em compensação, pelo menos uma dezena de trajes espaciais, além de outros equipamentos, estavam pendurados nas paredes.
Atlan envergou um dos trajes o mais rápido que pôde. A escotilha interna fechara-se automaticamente. Atlan abriu a externa e suspirou aliviado. Enquanto esta estivesse aberta, ninguém poderia alcançá-lo. Estava em segurança. Ninguém poderia impedir a execução de seu plano. Bastaria agir com bastante prudência, e praticamente já teriam conquistado a liberdade.
Examinou o pequeno aparelho de retropropulsão embutido no traje espacial. Seu funcionamento era impecável. Escolheu entre os inúmeros equipamentos, pendurados às paredes, uma corda de plástico de cerca de trezentos metros de comprimento e enganchou-a no cinto do traje espacial. Prendeu a outra extremidade à alça presa da parede interna da comporta.
Depois saiu, fazendo a corda deslizar pela mão. No instante em que se lançou para fora, sentiu-se abandonado pelo campo de gravitação artificial existente no interior da nave. A aceleração parecia querer arrastar a Keenial a uma velocidade terrível. Mas logo ligou o retropropulsor. Face ao pequeno campo antigravitacional a pressão tornou-se suportável e a corda não foi submetida a uma tensão excessiva.
Atlan foi planando lentamente ao longo do envoltório da nave, em direção à protuberância equatorial que expelia para a escuridão as chamas branco-azuladas dos bocais de jato.

* * *

O som estridente das sereias de alarma encheu todos os corredores e compartimentos da nave. Perry Rhodan parou de discutir em inglês com os dois guardas. Olthaur e seu camarada fitaram-se com uma expressão de perplexidade.
Rhodan esforçou-se para ocultar a sensação de triunfo. Se as coisas continuassem a correr conforme haviam previsto, então...
As sereias calaram-se. O silêncio que se seguiu tinha algo de fantasmagórico. Olthaur lançou um olhar assustado para os prisioneiros e dirigiu-se à cabina do intercomunicador. Perry Rhodan continuou parado na porta, fitando o terceiro guarda, que o ameaçava de arma em punho.
Olthaur manteve uma palestra ligeira e exaltada. Descansou o fone e disse em tom nervoso:
Os prisioneiros serão levados à sala de comando.
Se soubesse quanto Rhodan teve de esforçar-se para não suspirar aliviado, teria desconfiado. No entanto, a única coisa que ouviu foi o protesto formal de Rhodan:
O doente não pode ser transportado.
Ao que parecia, Olthaur se sentia zangado com a própria insegurança.
Pode ser transportado, sim! — gritou em tom furioso. — Vamos logo! Não quero conversa.
Perry Rhodan entrou no camarote. Sem que o guarda o percebesse, lançou um olhar encorajador para Reginald Bell.
Este, muito sério, acenou com a cabeça.
Fellmer Lloyd já havia recuperado os sentidos. Já estava melhor; o remédio começava a fazer efeito. Fez questão de caminhar até a sala de comando, mas Rhodan e Bell não deram atenção aos seus protestos e levaram-no, amparando-o.
Os dois guardas estavam atentos e prontos para disparar suas armas.
Para lá! — disse Olthaur em tom enérgico, apontando sua arma pelo corredor.

* * *

Atlan conhecia a nave como a palma da mão. Era do mesmo tipo da que comandara há vários milênios, quando instalou uma colônia no sistema de Larsaf. Sabia qual era a ligação entre a abertura dos bocais e a potência do empuxo. E também sabia que na parte externa da nave, junto às saídas dos jatos, havia pequenos mecanismos manuais, capazes de alterar a abertura de cada bocal.
Às vezes os mecanismos manipulados a partir da sala de comando falhavam. E uma nave não podia ser manobrada, caso não se pudesse regular a abertura dos bocais e, com isso, a potência do empuxo. Para tanto, havia dispositivos manuais, destinados a controlar os bocais.
Era mais ou menos a mesma coisa que acontecia com os velhos automóveis dos terranos. Além do motor de arranque elétrico, tinham uma manivela capaz de pôr o veículo em movimento quando o arranque falhasse. Atlan lembrou-se desses veículos e não pôde deixar de pensar nos mesmos, enquanto se deslocava ao longo da protuberância equatorial, em direção aos raios de partículas...
Agora, poucos metros o separavam do primeiro mecanismo de regulagem manual.
Puxou rapidamente a corda e percebeu a resistência que oferecia. Precisaria da corda assim que começasse a trabalhar. Teria necessidade também do retropropulsor e do campo antigravitacional.
É que os mecanismos de regulagem manual não estavam acoplados aos mecanismos neutralizadores de pressão da nave. Assim que modificasse a largura dos bocais, a Keenial empinaria que nem um potro selvagem!

* * *

Chollar estava muito nervoso, mas não teve tempo de descarregar sua raiva sobre os prisioneiros.
Perry Rhodan sentiu a inquietação reinante na sala de comando. Um dos prisioneiros desaparecera por um caminho estranho, raras vezes trilhado. Abandonara a nave. Naquele instante vagava em algum lugar do espaço.
Por quê?
Chollar mandou que seus homens fossem procurá-lo. Os corredores principais da nave estavam fortemente vigiados. Era possível que o prisioneiro tentasse entrar por uma das comportas.
Metade dos tripulantes preparou-se para sair da nave. Naquele instante, Chollar ainda não conseguia imaginar que tipo de prejuízo um prisioneiro desarmado, que se encontrasse do lado de fora, poderia causar à nave. Porém tinha de contar com todas as possibilidades, e até com aquelas que no momento não lhe ocorriam...
Os três prisioneiros mantiveram-se nos fundos da grande sala. Estavam sendo vigiados pelos dois guardas.
Perry Rhodan contou os ocupantes da sala de comando. Incluídos os dois guardas, eram dezessete pessoas. O número de ekhônidas não lhe causava incômodo. Só no momento adequado veria como esses homens reagiriam à surpresa que os aguardava.
Perry Rhodan levantou cautelosamente o braço. Olthaur reagiu imediatamente, entortando o dedo junto ao gatilho. Com um sorriso amável, Rhodan sacudiu a cabeça e apontou para o relógio. Queria apenas saber das horas.
Eram dezoito horas e cinqüenta e três minutos. Em Terrânia, a noite principiava. Mas não era isso que importava. O importante era que, às dezoito horas e cinqüenta e cinco minutos, Atlan começaria a agir.

* * *

Atlan lançou um olhar para o relógio. Faltavam quarenta segundos.
Sua mão direita segurava a alavanca do pequeno mecanismo de regulagem. Tentou empurrá-lo um milímetro. A alavanca obedecia perfeitamente.
Não teria a menor dificuldade de, com um único movimento, modificar de tal forma a abertura dos primeiros três bocais que a potência do empuxo fosse reduzida em quarenta por cento.
Olhou para cima, ou melhor, para o lugar em que, segundo a impressão do momento, devia ser em cima. A grande comporta de carga continuava fechada. Ao que parecia, até então ninguém tivera a idéia de procurar o fugitivo junto à parede externa da nave.
Mais vinte segundos.

* * *

Finalmente chegou a hora!
De início houve um forte solavanco, que parecia fazer o estômago subir à boca, seguido de um forte estrondo: o mecanismo propulsor, que funcionava de forma assimétrica, obrigou a nave a descrever uma curva fechada.
Os homens de Chollar foram tomados de surpresa. Viram-se arrancados das cadeiras, rolavam pelo chão, batiam com a cabeça, os ombros e as pernas, e soltavam gritos de pavor.
Mesmo para os terranos, que já contavam com aquilo, as coisas não foram boas. O primeiro solavanco atirou Fellmer Lloyd ao chão e fê-lo perder os sentidos. Perry Rhodan e Reginald Bell deram um tremendo salto para perto daquela confusão de pernas e braços ekhônidas e, imediatamente, passaram à realização da outra parte do plano.
Quando Perry Rhodan conseguiu apoderar-se da primeira arma, a Keenial ainda jogava violentamente. Era uma arma de choque, e Perry começou a disparar sobre os homens deitados à sua frente. Não compreendia que as coisas pudessem ser tão fáceis. Mas, quando conseguiu levantar-se de forma pouco segura e procurou compensar o jogo da nave com movimentos dos joelhos, viu que já havia colocado fora de combate sete dos dezessete homens da sala de comando.
Nos fundos da sala, Reginald Bell trabalhava que nem um louco. Segurando duas armas de choque ao mesmo tempo, disparou salvas paralisantes sobre os homens caídos, antes que estes compreendessem o que estava acontecendo.
Parte dos tripulantes já havia sido posta fora de ação por causa da queda. Às dezenove horas e dois minutos, Reginald Bell e Perry Rhodan se haviam apossado da sala de comando da Keenial. Recolheram as armas dos homens inconscientes e trancaram as escotilhas de entrada. A sala de comando foi transformada numa fortaleza.
Finalmente Perry Rhodan foi ao painel de pilotagem e desligou os mecanismos propulsores. Dali em diante, a Keenial cortava o espaço em velocidade constante. Não havia qualquer aceleração.
No momento em que os raios chamejantes dos propulsores se apagaram, Atlan soube que o golpe fora bem sucedido.

* * *

Um silêncio sepulcral reinava na nave. Os oficiais chamaram a sala de comando. Perry Rhodan lhes contou o que havia acontecido. Ao mesmo tempo, foram advertidos de que não deveriam atacar a sala de comando. Perry Rhodan deixou bem claro que os ocupantes da sala de comando deviam ser considerados reféns.
A advertência produziu o efeito desejado. Os terranos foram deixados em paz.
Atlan voltou por um tubo pressurizado que o conduziu diretamente à sala de comando. Perry Rhodan apertou-lhe a mão, sem dizer uma palavra. Não havia tempo para palavras, mas todos sabiam quanto o arcônida tinha feito.
Perry Rhodan começou a calcular os dados para o salto que levaria a nave a um setor espacial controlado pela frota terrana. Teve alguns problemas com o computador ekhônida.
Seu trabalho progredia lentamente. Isso o deixava impaciente. Quanto mais tempo a Keenial se deslocasse livremente pelo espaço, melhores seriam as idéias que acudi-riam aos ekhônidas que se encontravam nos corredores da nave, aguardando o inimigo cometer um erro.
Já há algum tempo, Perry Rhodan bolava um plano simples e fácil de ser executado, pois não representaria um perigo para quem quer que fosse. Apenas o impediria de colocar a nave em movimento a fim de pôr-se em segurança através um hipersalto.
Vou enviar uma mensagem enigmática...”, pensou Rhodan.
De repente, o suprimento de energia da sala de comando foi interrompido. A partir desse instante, a sala de comando passou a ser um recinto morto. Sem luz, calefação e renovação de ar!
Um único aparelho continuava a funcionar, porque dispunha de gerador próprio. Era o emissor de emergência. Aliás, era ele que estava nos planos de Perry.
Rhodan e Bell tatearam pela escuridão. Os corpos rígidos dos ekhônidas não lhes davam muito trabalho. Encostaram-nos à parede, junto a duas escotilhas trancadas.
Fique com os ouvidos bem atentos, almirante — disse Rhodan. — E não atire contra Lloyd, quando ele recuperar os sentidos. Ele se encontra nessa direção.
Depois voltou à poltrona do piloto. O pequeno painel do transmissor de emergência ficava à esquerda do painel geral. Perry Rhodan tateava, procurando a chave mestra. Por fim a encontrou e logo a virou. Cinco lâmpadas pequenas acenderam-se, espalhando uma claridade suficiente para reconhecer o painel.
Enquanto punha o transmissor a funcionar, ficou refletindo sobre o texto da mensagem que deveria transmitir. Devia ser concebido de maneira a não despertar a atenção das naves arcônidas, mas sim a dos terranos.
Devia parecer uma mensagem de rotina, mas, apesar disso, a frota terrana deveria compreender que havia um grupo de terranos em perigo.
Depois de refletir por algum tempo, Perry Rhodan decidiu enviar a seguinte mensagem: “Lamira XII chamando YN-LISS. Posição Goshun.”
O texto foi redigido em arcônida. A única palavra intraduzível foi a palavra Goshun. Mas Perry Rhodan achava que os arcônidas que captassem a mensagem acreditariam que Goshun fosse o nome de algum planeta e não dariam maior importância ao fato. Certamente nenhum deles saberia que Goshun era o nome do lago em cuja margem ficava a capital da Terra, Terrânia.
Rhodan pegou o microfone e repetiu o texto três vezes. Tinha a intenção de repetir o chamado de dez em dez minutos, até que chegasse o socorro.

* * *

A disposição espacial Terra—Fera Cinzenta—Árcon III formava um triângulo irregular, com um ângulo obtuso no vértice correspondente à Terra e um ângulo muito agudo, que media poucos graus, no ponto em que ficava Árcon III. Ao sair de Fera Cinzenta, a Keenial se deslocara pelo lado maior do triângulo, em direção a Árcon. Em virtude disso, depois de duas transições, que a haviam levado a uma distância de cerca de doze mil anos-luz, não estava muito mais longe da Terra que por ocasião da partida.
Perry Rhodan calculava que uma nave terrana, vinda do setor em que ficava o planeta Terra, levaria cinco a seis horas até encontrar a Keenial. Isso, naturalmente, se partisse assim que fosse captada a primeira mensagem.
O suprimento de ar da sala de comando, que estava isolada, também daria para cinco ou seis horas. Se todas as esperanças fossem vãs, ainda se poderia expedir um pedido de socorro em linguagem clara, que evidentemente faria acorrer ao local naves vindas de todos os setores.
É bem verdade que, neste caso, as primeiras naves a aparecerem provavelmente seriam as arcônidas.
A tripulação da Keenial continuava tranqüila.
A espera martirizante não queria chegar ao fim.

* * *

Subitamente houve movimento no interior da nave. Ouviram-se gritos e o som cantante dos disparos energéticos atravessou as paredes. A Keenial começou a tremer.
Os três terranos que se encontravam na sala de comando logo se colocaram de pé. Gritos e disparos! Isso só podia significar que, para os ekhônidas, as pessoas, que procuravam penetrar na nave, eram inimigas.
E, se fossem inimigos dos ekhônidas, só poderiam ser terranos.
Os prisioneiros continuavam inconscientes. Três horas e meia se haviam passado a partir do momento em que Perry Rhodan expedira a primeira mensagem... A nave terrana deveria estar bem longe da Terra, quando recebeu a mensagem. De outra maneira, não poderia ter vindo tão depressa.
O barulho foi aumentando. Reginald Bell caminhou impacientemente na escuridão e parou junto a uma das escotilhas. Aproximou-se da parede metálica e procurou ouvir o que se passava lá fora.
Os ruídos não puderam ser identificados. De qualquer maneira, uma luta mortífera estava sendo travada nos conveses e corredores da nave. Os ekhônidas pareciam oferecer um máximo de resistência ao intruso.
Deveríamos abrir a escotilha — sugeriu Reginald Bell. — Assim essa gente ficaria entre dois fogos.
Perry Rhodan achou que o plano seria muito arriscado.
Vamos esperar! — decidiu.

* * *

O fragor da luta crescia. A nave tremia.
Ao que parecia, a resistência da tripulação ekhônida estava entrando em colapso. O barulho foi-se aproximando. Reginald Bell encostou-se na parede e ouviu perfeitamente as pisadas que corriam pelo corredor.
Os minutos foram passando. Perry Rhodan olhou para as cifras luminosas de seu relógio. A luta pela posse da Keenial já estava demorando mais de uma hora.
Subitamente uma das escotilhas começou a ribombar!
Atlan e Rhodan abrigaram-se do lado oposto da sala. Não deram a menor atenção aos prisioneiros.
Não abra! — ordenou Rhodan. — É uma armadilha!
O ruído cessou. Perry Rhodan aproveitou um tempo para “enviar” sinais. Bateu ritmicamente. Dava três batidas seguidas. Mas a pessoa que se encontrava do lado de fora não parecia “disposta a aprender” o ritmo. Depois de algum tempo, a escotilha voltou a ribombar. Desta vez, o ruído foi tão forte e furioso que os três terranos recuaram alguns passos.
Era uma situação irreal. Encontravam-se a bordo de uma nave inimiga, onde ocupavam uma única sala, isolada do resto. Haviam irradiado um pedido de socorro e esperavam que uma nave terrana viesse em seu auxílio e os resgatasse. Esperavam que, do lado de fora, alguém batesse na escotilha e gritasse: “Abram!”
Acontece que a pessoa que se encontrava do lado de fora não dizia uma única palavra. As pancadas, que fizeram a escotilha estremecer, eram tão fortes que nem dez punhos humanos reunidos poderiam tê-las desferido.
Uma suspeita terrível surgiu na mente de Rhodan.
Abram! — ordenou. — E mantenham as armas para baixo.
Com um ruído metálico, o fecho da escotilha correu. A escotilha abriu-se e uma luminosidade profusa entrou na sala, avivando os contornos de um vulto gigantesco, que fez o sangue gelar nas veias dos terranos.
Era um “toco”, um toco negro e em forma de cubo, que se mantinha sobre duas pernas, que mais pareciam colunas. Na parte superior do toco havia uma esfera sem cabelos, que era a cabeça. Os olhos facetados brilhavam mesmo na escuridão, e a abertura triangular da boca estava escancarada. Os braços pendiam ao lado do toco. Eram grossos e robustos e terminavam num par de mãos que chegavam a ser ridículas de tão finamente articuladas.
Aquele ser era um druuf!

* * *

Uma vez passado o susto, notaram que o druuf estava armado e ainda trazia um aparelho tradutor.
Subitamente a boca triangular moveu-se. Aquilo nem de longe era uma fala. Os druufs utilizavam outros órgãos para emitir as vibrações de ultra-som que transmitiam sua fala ininteligível. Apesar disso, o pequeno aparelho de fala começou a soar e disse numa voz impessoal e mecânica:
Ouvimos sua mensagem. Chegamos à conclusão de que devem estar em situação difícil e viemos para auxiliar. Nossa nave está à sua disposição.
Perry Rhodan não levou muito tempo para recuperar o autocontrole. Uma nave dos druufs estivera nas proximidades quando expediu o pedido de socorro. Quer tivessem entendido a palavra Goshun, quer não, o fato é que tinham vindo para ver o que estava acontecendo. Não demonstraram o menor escrúpulo para com os tripulantes da Keenial. Afastaram tudo que se interpôs em seu caminho.
Subitamente teve uma idéia bastante desagradável. Os druufs fariam questão de que ele, Atlan, Bell e Fellmer Lloyd subissem a bordo de sua nave. As estranhas relações existentes entre os druufs e os terranos, que os separavam mais do que os uniam, provavelmente fariam com que os druufs os considerassem como prisioneiros.
Isso não era tão ruim como poderia parecer à primeira vista.
Apesar disso, Perry Rhodan resolveu fazer uma tentativa.
Ficamos muito gratos — disse. — Mas achamos que não precisamos valer-nos de sua amável oferta. Nossas naves estarão aqui dentro de algumas horas.
O aparelho tradutor levou algum tempo para realizar a transladação. Assim que isso aconteceu, mais cinco druufs apareceram na sala de comando.
Não acredito que nosso comandante goste da recusa — disse o primeiro druuf. — Vemo-nos obrigados a insistir em que, daqui por diante, se considerem nossos hóspedes.
Quem dera que a mentira fizesse você morder a língua”, pensou Perry Rhodan numa disposição amarga.
Sabia que já não havia nenhuma saída. A superioridade dos druufs era tremenda. Teriam de acompanhá-los.
Em Fera Cinzenta, já haviam passado de mal a pior, e mais uma vez sua situação se modificava sem que conseguissem livrar-se. Passavam da mão de um inimigo para a de outro. A liberdade dos terranos parecia ter entrado num beco sem saída.
Num galático beco sem saída!
Perry Rhodan levantou a mão num gesto de concordância.
Está bem — disse. — Iremos com os senhores.
O druuf esperou que o aparelho traduzisse estas palavras. Depois deu as costas a Rhodan e saiu caminhando.

* * *

A nave era um dos gigantescos cilindros e parecia ser a conquista mais recente na arte da construção de naves espaciais dos druufs. Os prisioneiros receberam um tratamento amável, mas frio. Indicaram-lhes alguns camarotes e postaram alguns druufs nas respectivas portas, a fim de vigiá-los.
Conforme se depreendeu de vários sinais, a nave — seu nome era composto de vários sons sibilantes impronunciáveis pôs-se a caminho assim que os prisioneiros foram colocados a bordo. Perry Rhodan teve certeza absoluta de que os druufs procurariam passar pela área de superposição, situada nas proximidades do sistema de Mirta, a fim de retornar o quanto antes à sua dimensão temporal.
Perry Rhodan teve pena dos companheiros, que, desde o momento em que surgiu o druuf, mantiveram-se calados.
Rhodan ainda tinha esperança. Era bem verdade que se encontravam numa situação muitíssimo mais desagradável do que a inicial. Mas, de qualquer maneira, entre os druufs estavam melhores do que estariam em Árcon.
Ainda havia um pouquinho de esperança.
Uma pequena luz poderia surgir no fim do... beco sem saída.




* * *
* *
*




Até parece que a morte de Thora deu início a uma fase negra na história da Humanidade.
Perry Rhodan e alguns homens mais importantes do Império Solar são dados como mortos...
Em Nas Cavernas dos Druufs, título do próximo volume, os medidores de gravitação de Hades dão um sinal, transmitindo um S.O.S., e novas emoções acontecem.

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