Ambos eram
arcônidas e possuíam a letargia e o enfado peculiar de sua raça.
Perry Rhodan lançou um olhar ligeiro para Atlan e viu-o contorcer o
rosto numa expressão de desprezo.
A caminho
da sala de comando haviam retirado os trajes protetores, deixando-os
nas proximidades da comporta para que fossem descontaminados, isto é,
para que a poeira radiativa fosse retirada. Era a primeira vez, em
muitas horas, que podiam mover-se livremente, e a sensação de
alívio provocada por esse fato bastou para aumentar-lhes a coragem e
a iniciativa.
O
arcônida, que agora se erguera na poltrona, fitou prolongadamente os
convidados. O robô saiu da sala de comando. Perry Rhodan procurou
ver nas telas o que se passava no espaço, mas elas não mostravam
nada dos arredores da Lan-Zour.
— Pois
bem — disse Lathon em arcônida. — Aí estão os senhores.
Perry
Rhodan olhou para o lado. O homem indicado para palestras tão
profundas era Reginald Bell. Este entendeu o gesto.
Acenou a
cabeça com uma expressão furiosa e confirmou.
— É
verdade; aqui estamos nós. Muito obrigado por nos ter salvo.
Lathon fez
um gesto de desprezo.
— Ordens
— disse em tom cansado. — Apenas foram ordens. Pelo que vejo, há
um arcônida entre os senhores.
— O
senhor vê corretamente — disse Reginald Bell em tom amável. — É
um remanescente dos tempos em que os arcônidas ainda podiam olhar
para trás sem que seus pescoços tremessem de fraqueza.
Se Lathon
compreendeu a ofensa, não se sentiu impressionado.
— Qual é
seu nome? — perguntou, dirigindo-se a Atlan.
Atlan
cerrou os dentes e não respondeu.
Lathon não
se perturbou com isso. Voltou a dirigir-se a Bell numa atitude
presunçosa.
— Aonde
pretendem levar-nos? — indagou Bell.
Lathon
levantou a mão e fez um gesto pálido em direção à tela.
— Não
faço a menor idéia.
Bell ficou
sem fôlego. Reunindo todo o autocontrole de que ainda era capaz,
disse:
— O
senhor é o comandante desta nave, não é?
— Sim,
naturalmente. Mas será que só por isso tenho que saber qual é o
destino da nave?
A
hilaridade foi uma válvula para o nervosismo refreado de Reginald
Bell, que soltou uma estrondosa gargalhada. Depois disse em tom
cordato:
— Acho
que não. Tem toda razão. Apenas pensei que talvez o senhor
soubesse.
Lathon fez
um gesto negativo. Ao que parecia, cansava-se ao falar, mas julgava a
conversa suficientemente interessante, para submeter-se a esse
esforço.
— É
claro que poderíamos indagar ao computador principal qual é o
destino da Lan-Zour — sugeriu Lathon. — Mas não sei se ele
estaria disposto a fornecer esse tipo de informação, e além disso
saberemos de qualquer maneira quando chegarmos lá, não é?
Reginald
Bell fez que sim.
— Naturalmente.
É isso mesmo.
Dirigindo-se
a Perry Rhodan, disse em voz baixa, e em inglês:
— Fale
com esse idiota, senão ainda acabo perdendo as estribeiras.
Perry
Rhodan dirigiu-se a Lathon.
— De
qualquer maneira, eu lhe ficarei muito grato se quiser colher
informações junto ao computador positrônico — disse,
dirigindo-se ao comandante. — Seria muito desagradável se não
soubéssemos para onde estamos sendo levados.
— Terei
o maior prazer em atender ao seu pedido — respondeu Lathon. —
Basta chamar um robô e este formulará a indagação junto ao
computador.
Comprimiu
um botão embutido na braçadeira da poltrona.
— Há
mais algumas coisas que eu gostaria de saber — prosseguiu Perry
Rhodan. — Por exemplo, o que é feito dos nossos homens que...
— Oh! —
interrompeu Lathon em tom queixoso. — Receio que não consiga
lembrar-me de tudo. Forneça as perguntas ao robô.
Apontou
para a escotilha que acabara de abrir-se, dando entrada a um robô.
— Estou
pronto — disse o homem-máquina.
— Pergunte!
— pediu Lathon. — Ele está devidamente instruído.
Perry
Rhodan procedeu sistematicamente.
— Primeiro:
no momento do ataque a base de Fera Cinzenta tinha uma guarnição de
cento e cinqüenta e dois homens. Esses cento e cinqüenta e dois
homens pegaram naves transportadoras leves e procuraram salvar-se do
planeta que explodia. Sabe-se alguma coisa sobre o paradeiro dessas
naves e de seus ocupantes?
“Segundo:
duas horas depois de iniciado o ataque, meus companheiros e eu fomos
detidos por um robô arcônida. Esse robô vinha da Lan-Zour?
“Terceiro:
para onde seremos levados?
“Quarto:
desejamos ser conduzidos a um pequeno espaçoporto da frota terrana,
cujas coordenadas lhes seriam fornecidas. Este pedido está em
condições de ser atendido?
“Obrigado.
É só. Será que você poderia responder minhas perguntas?”
O robô
fez a repetição. Depois disso, atravessou a sala a passos pesados e
manipulou vários controles de um painel. Ao que parecia, estava
ligado diretamente com o computador positrônico. Quando se virou
para dar as respostas, Perry Rhodan e seus companheiros haviam ouvido
tão-somente o clique das chaves.
— Pergunta
número um — principiou o robô. — Quinze naves de transporte
terranas foram aprisionadas por naves arcônidas. Cento e trinta e
quatro terranos são prisioneiros da frota arcônida.
“Pergunta
número dois: a Lan-Zour desembarcou três robôs, a fim de salvar
eventuais sobreviventes do planeta que explodia.
Perry
Rhodan exibiu um sorriso feroz ao lembrar-se de que maneira Reginald
Bell seria salvo.
— Dois
robôs regressaram — prosseguiu — enquanto o terceiro anunciou
sua perda total.
“Pergunta
número três: a Lan-Zour chegará ao destino dentro de poucos
minutos. Quanto ao mais, nenhuma resposta.
“Pergunta
número quatro: o pedido não pode ser atendido.
“Fim.”
Perry
Rhodan olhou para baixo. Já esperava um não à quarta pergunta. Mas
o que o deixou deprimido foi a perda de dezoito homens que, ao que
tudo indicava, não conseguiram sair de Fera Cinzenta. Lembrou-se do
comandante da base, Mike Judson. Enquanto ainda houvesse alguém
correndo perigo, Judson não seria capaz de abandonar seu posto.
Concluiu que o tenente era um dos dezoito homens que encontraram a
morte em Fera Cinzenta.
Isso doía.
Rhodan sentiu ódio. O regente atacara a base sem aviso prévio,
porque esta o incomodava ou porque acreditava que fosse a Terra.
Haveria outras maneiras de eliminar a base de Fera Cinzenta. Maneiras
que permitiriam a salvação de todos. Mas o regente agira com a
insensibilidade própria de uma máquina.
Perry
Rhodan levantou os olhos.
— Obrigado
— respondeu. — Isso basta.
O robô
saiu. Mal a escotilha se fechou atrás dele, ela voltou a abrir-se,
dando passagem a outro robô. Este olhou para Lathon e disse:
— Chegamos
ao destino, senhor. Outra nave acolherá os visitantes. Pedem que nos
apressemos.
Lathon fez
um gesto de enfado.
— Sempre
essa maldita pressa! Levantou-se.
— Sinto
muito ter de perder tão depressa um visitante tão ilustre como o
senhor, Perry Rhodan — disse. Rhodan estremeceu ao ouvir pronunciar
seu nome. Não sabia que Lathon o conhecia. — Desejo-lhe uma boa
viagem — concluiu Lathon.
Isso
parecia uma amarga ironia, mas a intenção com que foram
pronunciadas estas palavras não era irônica. Lathon estava falando
sério. Era um homem velho e cansado, que não sabia nada do que se
passava em torno dele.
Inclinou-se,
e Perry Rhodan retribuiu o cumprimento. Depois deu as costas a Lathon
e deixou que o robô o levasse para fora. Voltaram à comporta pela
qual haviam entrado meia hora antes. A escotilha interna abriu-se. Na
câmara da comporta havia dois vultos altos que envergavam trajes
espaciais e faziam movimentos impacientes.
Na
comporta havia mais quatro trajes espaciais. Perry Rhodan envergou um
deles. Um dos dois vultos fez um gesto impaciente em direção ao
capacete. Rhodan compreendeu. Aquele indivíduo queria que ligasse o
rádio.
Rhodan
obedeceu, e logo ouviu uma série de palavras pronunciadas num
estranho dialeto arcônida.
— ...caramba,
andem mais depressa. Não podemos perder tempo. Lá fora está cheio
de terranos. Vamos embora!
Tirou do
bolso de seu traje uma arma de cano curto e balançou-a de um lado
para outro. Rhodan procurou compreender o que se passava. Havia naves
terranas nas proximidades.
Por que os
estavam transbordando justamente aqui? Se transmitisse um pedido de
socorro, será que os terranos poderiam tirá-lo do aperto?
Não havia
como responder à pergunta enquanto não lançasse um olhar para o
espaço. Ainda acontecia que o microcomunicador fora levado
juntamente com os trajes espaciais, para ser descontaminado. Seria
inútil pedir que lhe entregassem esses objetos. Os robôs da
Lan-Zour não os devolveriam.
Perry
Rhodan fechou o traje espacial. Atlan e Reginald Bell também estavam
prontos. Apenas Fellmer Lloyd teve dificuldade em arranjar-se. Perry
Rhodan resolveu ajudá-lo. Olhando pelo visor do capacete, notou que
o rosto de Lloyd estava vermelho e que o suor lhe corria profusamente
pela testa.
— Algo
de errado? — perguntou em tom de perplexidade.
— Não
sei — respondeu o mutante. — Sinto-me muito mal.
“Parece
que é febre”,
pensou Rhodan.
No mesmo
instante sentiu-se apavorado à idéia de que talvez Fellmer Lloyd
tivesse absorvido uma quantidade excessiva de poeira radiativa.
Quando a dose de radiações ficava entre cinqüenta e cem rens
muitas vezes surgia, logo após a absorção, a chamada febre gama ou
de cem rens. Em alguns casos, o resultado era a morte, mas antes
viria uma doença longa e desagradável.
— Ande
depressa! — pediu a Lloyd. — Ao que parece, essa gente é mais
ativa que Lathon. O senhor será tratado.
Fellmer
Lloyd nem sequer teve força para fechar o traje. Rhodan teve de
fazê-lo por ele.
— Pronto?
— perguntou um dos desconhecidos.
Rhodan fez
um gesto afirmativo. Os desconhecidos compreenderam o sinal. O robô
desapareceu pela escotilha interna, que se fechou. A seguir, a
escotilha externa abriu-se.
O quadro
que se ofereceu era o mesmo de sempre. Um verdadeiro oceano de
estrelas. Muito mais variado que o céu terrano, este parecia um
verdadeiro tapete luminoso. Em meio àquelas cintilações havia um
buraco circular. Era a nave dos desconhecidos. Estava pelo menos a
dez quilômetros de distância.
Junto ao
costado da Lan-Zour achava-se uma pequena nave auxiliar. Sempre
vigiados pelos desconhecidos, Rhodan e seus companheiros entraram na
mesma. Um dos desconhecidos tomou o lugar do piloto à sua frente,
enquanto o outro se acomodava atrás dos terranos.
Perry
Rhodan ficou triste ao pensar nas armas que haviam levado do abrigo
de Fera Cinzenta, e que agora se encontravam nos trajes protetores
deixados para trás. Caso tentassem apoderar-se da nave auxiliar,
poderiam ter possibilidades de êxito, mas seria uma ação
temerária...
O barco
partiu. A Lan-Zour foi ficando cada vez menor na pequena tela, e,
depois de algum tempo, estava reduzida a um buraco escuro no espaço.
A parede metálica da nave passou a tornar-se cada vez mais nítida e
brilhava à luz das estrelas. O embarque deu-se depressa e sem
incidentes. Ao que parecia, aqueles desconhecidos, fossem eles quem
fossem, tinham um respeito tremendo pela frota terrana. Uma fita e um
elevador gravitacional conduziram os quatro terranos à sala de
comando. Se a nave havia dado partida, não se percebia nada.
Ao
contrário do que acontecia na sala de comando da Lan-Zour, uma
atividade febril reinava na desta nave. Viam-se alguns robôs
pequenos e extremamente ágeis, que executavam trabalhos de
ordenança. Mas os seres orgânicos estavam em maioria. Ao vê-los
trabalhar tão apressadamente e falar uns com os outros, Rhodan
lembrou-se de quem eram eles. Eram ekhônidas, isto é, habitantes do
planeta Ekhas, situado em algum lugar nas profundezas da Galáxia.
Haviam emigrado na época de apogeu do Império Arcônida. Portanto,
eram verdadeiros arcônidas, que haviam conservado a vitalidade de
sua raça.
Na tela
panorâmica, via-se que o Universo estava em movimento. As estreitas
faixas coloridas, espalhadas na borda das telas, provavam que a nave
ekhônida estava prestes a atingir a velocidade relativista.
Provavelmente pretendia atingir o quanto antes a velocidade que lhe
permitisse penetrar no hiperespaço. A Lan-Zour havia desaparecido.
A maior
parte dos ocupantes da sala de comando não se interessou pelos
terranos. Apenas dois homens, um dos quais devia ser o comandante,
segundo se depreendia das insígnias que trazia, aproximaram-se de
Perry Rhodan e seus companheiros.
— Os
senhores são meus prisioneiros — disse o comandante, dando início
à palestra.
— Como
se arroga o direito de considerar-nos prisioneiros? — perguntou
Rhodan.
Perry já
havia tirado o capacete. Um sorriso irônico surgiu no rosto do
comandante.
— Terei
de levá-lo a determinado lugar e entregá-lo a quem de direito. Para
isso não preciso observar as leis. Os problemas jurídicos serão
resolvidos por meu superior.
— Será
nosso amigo, o computador-regente? — perguntou Rhodan em tom de
escárnio.
— Não
estou autorizado a dar informações, seja sobre o motivo de sua
prisão, seja sobre seu destino. Os senhores serão vigiados por três
homens e um robô. Forneça seus nomes e outros dados ao robô, para
que possa saber quem tenho a bordo. Dentro de vinte horas, deveremos
chegar ao destino. Uma vez lá, poderão formular as perguntas que
desejarem.
Três
homens e um robô aproximaram-se. Os homens tinham um aspecto tão
sombrio quanto o robô... Mas Rhodan teve sua atenção despertada
por outro fato. O comandante lhes havia pedido que fornecessem seus
nomes. Será que isso significava que não sabia quem eram os
prisioneiros?
O ekhônida
esteve a ponto de afastar-se.
— Um
instante — disse Rhodan. — É bom que saiba que na primeira
oportunidade que se oferecer protestarei contra o tratamento que me
está sendo dispensado. E posso garantir que Perry Rhodan...
O ekhônida
fez um gesto de desprezo.
— Ora,
Perry Rhodan! — disse. — Será que ainda não sabe que ele
explodiu juntamente com a base?
Rhodan
sabia o que deveria fazer, mas naquele instante teve de esforçar-se
para dar a seu rosto uma expressão que manifestasse o pavor.
— Rhodan...!
— disse em tom de perplexidade. — Explodiu? — soltou uma risada
forçada. — Pense em algo melhor para intimidar-nos.
O ekhônida
não parecia interessado na conversa. Respondeu:
— Acredite
no que quiser. Isso não me diz respeito. Apenas vim buscá-lo em
determinado lugar e o entregarei em outro lugar. Minha missão é
apenas esta.
— Isso
em nada altera o fato de que seu procedimento constitui uma infração
do direito galático — respondeu Rhodan em tom enérgico. — Sou
um terrano livre. Entre a Terra e Árcon não existe o estado de
guerra. Por isso, nenhum arcônida tem o direito de me tratar como se
fosse um prisioneiro.
O ekhônida
perdeu a paciência.
— Não
me amole! — disse em tom áspero.
Afastou-se,
dirigindo-se a seu posto. Os guardas ergueram as armas. O ekhônida
que os havia trazido abriu a escotilha.
Naquele
instante, as sereias de alarma começaram a uivar. Perry Rhodan
estacou. O ruído causava-lhe um nervosismo eletrizante. Se os
arcônidas estavam dando o alarma, havia naves terranas nas
proximidades. Sem dar atenção às armas que os guardas mantinham
apontadas para ele, Rhodan virou-se e olhou para a tela.
No centro
da mesma via-se uma bola reluzente branco-azulada.
Era uma
bomba ou uma nave que explodira atrás do veículo ekhônida?
As sereias
silenciaram, e as vozes exaltadas dos ekhônidas tornaram-se
perceptíveis. Os resultados das localizações goniométricas foram
anunciados. Perry Rhodan não conhecia o sistema ekhônida de
coordenadas, motivo por que os dados fornecidos não significavam
nada para ele. Em compensação, quando alguém gritou a plenos
pulmões, compreendeu perfeitamente o que havia acontecido.
— É a
Lan-Zour! Os terranos conseguiram abatê-la.
“Isso
mesmo”,
pensou Perry Rhodan, “pela
direção só poderia ser a Lan-Zour.”
O
comandante ekhônida transmitiu suas instruções com uma calma que
Perry Rhodan não pôde deixar de admirar. O veículo espacial
recorreu a um propulsor auxiliar para acelerar mais e atingir mais
depressa a velocidade de transição. Os observadores procuravam
febrilmente localizar outros sinais da presença de naves terranas,
mas não encontraram nenhum, antes que a nave entrasse em transição.
A dor
provocada pelo salto foi mínima. Perry Rhodan calculou que a
distância entre o ponto inicial e o ponto final da transição não
deveria ser superior a dez anos-luz. Ainda um tanto confuso, o
ekhônida olhou para ele.
— Escapamos
dos terranos — disse. Não parecia sentir-se muito orgulhoso. —
Bem que gostaria de possuir uma nave de tamanho suficiente para
enfrentá-los.
Perry
Rhodan limitou-se a fazer um sinal e foi andando. Os guardas formaram
um semicírculo atrás do grupo e obrigaram-no a sair pela escotilha.
Enquanto
percorria a reduzida distância que os separava dos camarotes em que
se abrigariam, Perry Rhodan refletiu sobre a Lan-Zour. Suspeitou de
algo, e à medida que pensava, a suspeita transformava-se em certeza.
Lathon
sabia quem era ele. O ekhônida não sabia. O computador-regente de
Árcon conhecia a mentalidade terrana e, como estrategista hábil,
devia empenhar-se, a fim de manter em segredo a prisão de Perry
Rhodan. Sabia que os terranos moveriam céus e infernos para libertar
o chefe, caso soubessem que este ainda estava vivo. Mas, se fossem
mantidos na crença de que Rhodan já estava morto, eles se manteriam
em silêncio e, além disso, demorariam um ano para vencer a
confusão.
O
computador-regente não fazia questão de que a prisão de Rhodan se
tornasse conhecida pelo Universo a fora.
Isso
lançava uma luz diferente sobre o destino da Lan-Zour. Não se pôde
evitar que Lathon conhecesse a identidade dos prisioneiros. Mas
pôde-se evitar que transmitisse seu conhecimento a uma pessoa não
credenciada.
Os
responsáveis pela destruição da Lan-Zour não eram as naves
terranas. O próprio regente ordenara ao computador da nave que a
fizesse explodir.
*
* *
Depois de
algumas horas de espera, a Drusus, comandada pelo General
Deringhouse, voltou ao ponto de reunião da frota terrana.
A espera
se revelara vã. A base de Fera Cinzenta estava perdida e Perry
Rhodan estava morto. O tempo X, ou seja, o momento do ataque contra
Árcon, já passara há seis horas. Quando retornou para junto da
frota que o esperava, Conrad Deringhouse já havia preparado seus
planos. Não se poderia pensar mais num ataque a Árcon.
O General
Deringhouse deu ordem para que a frota se retirasse. As unidades da
frota receberam ordens para se reunirem no sistema de Vega, situado a
pouco menos de trinta anos-luz da Terra.
As naves
foram saindo uma por uma ou em grupos de duas. Dez horas depois de
Deringhouse ter transmitido sua ordem, o setor espacial em que o
planeta Terra reunira suas forças para desferir o golpe decisivo
contra Árcon estava vazio e abandonado.
Apenas
três naves, um couraçado e dois cruzadores pesados, foram
destacadas por Conrad Deringhouse para manterem, às escondidas e sem
que os arcônidas o percebessem, as comunicações com a base de
Hades, situada na outra dimensão temporal.
*
* *
O robô
anotou os nomes e não apareceu mais, embora os guardas garantissem
que se mantinha constantemente nas proximidades. Naturalmente deram
nomes errados. Perry Rhodan passou a ser George Barrimore, Reginald
Bell usou o nome Frederick O’Lannigan e Fellmer Lloyd passou a
chamar-se de Walter Highman, enquanto Atlan transformou-se em
Talan-Nuur. O robô registrou os sons numa ficha, por meio de
impulsos, o que bastava para satisfazer às exigências do comando da
nave.
Os
prisioneiros foram alojados em três camarotes interligados. Um deles
servia de dormitório, outro de sala de estar, enquanto no terceiro
se encontrava o banheiro e os aparelhos de ginástica. Com isso, os
prisioneiros não poderiam queixar-se de falta de conforto, muito
embora as comodidades que lhes foram concedidas fossem de valor
apenas simbólico, pois não sabiam como utilizar as excelências da
cultura habitacional arcônida nas vinte horas que, segundo a
informação do comandante, deveria demorar o vôo.
Logo
constataram que era altamente provável que o quarto e a sala não
continham qualquer aparelho de escuta.
Mas, para
evitar qualquer risco, os prisioneiros conversaram sempre em voz
baixa, a fim de que os microfones — caso existissem — só
pudessem transmitir um murmúrio incompreensível.
Subitamente
Fellmer Lloyd desmaiou. O médico chamado às pressas aplicou duas
injeções contra a febre gama. Face à difícil situação, Atlan
disse:
— Precisamos
fazer alguma coisa. Acho que ninguém duvida de que o ekhônida nos
levará para Árcon pelo caminho mais rápido. O tempo de vôo
combina com esta suposição. Uma nave comum leva de quinze a vinte e
cinco horas para percorrer a distância que separa Fera Cinzenta de
Árcon. Quando estivermos em Árcon, não haverá mais salvação
para nós. O regente tomará todas as providências para que seus
prisioneiros não lhe escapem mais.
A única
resposta às palavras de Atlan foi um aceno de cabeça. Perry Rhodan
sabia tão bem quanto Reginald Bell que Atlan não estava exagerando.
Depois de chegarem a Árcon, seriam submetidos a um interrogatório
psicológico que destruiria seu corpo e sua mente. Se quisessem fazer
alguma coisa para salvar-se teriam de fazê-lo agora, enquanto se
encontravam a bordo da nave ekhônida.
Fossem
quais fossem as idéias concebidas nos minutos ou horas que se
seguiriam, uma coisa parecia certa: seria inútil lutar contra a
tripulação da nave, ainda mais que o grupo de terranos tinha entre
si um enfermo. Perry Rhodan apenas encontrou uma circunstância que
favorecia a ele e a seus amigos. O regente de Árcon fazia questão
de que os prisioneiros lhe fossem entregues vivos.
Por isso,
no momento decisivo, os ekhônidas hesitariam muito antes de empregar
outras armas que não as pistolas de choque. E para alguém que se vê
diante de um importante empreendimento, a esperança de que, se as
coisas correrem mal, provavelmente continuará vivo, já representa
um grande consolo.
*
* *
A alguns
milhares de anos-luz de distância, quase exatamente no centro
geométrico do grupo estelar M-13, o regente estava classificando as
informações fornecidas por cento e trinta e quatro prisioneiros
terranos. O regente não hesitara em recorrer aos recursos mais
modernos da psicofísica para interrogar os prisioneiros. Agia na
sábia convicção de que dificilmente um terrano estaria disposto a
revelar um segredo importante enquanto não fosse obrigado a tanto.
Apesar da
aplicação de modernos métodos, o resultado do interrogatório foi
escasso. O regente percebeu que os terranos haviam tomado suas
providências para o caso de uma catástrofe, isto é, a captura de
grande número de prisioneiros.
Na
verdade, o regente só conseguiu obter a seguinte informação: o
planeta destruído não era, conforme de início se supusera, a
Terra, mas apenas uma base avançada.
Porém
esta informação perdeu grande parte de seu valor, pois o regente já
a possuía antes do interrogatório dos terranos, pois, pouco antes
do início do bombardeio, as naves robotizadas haviam tirado
fotografias da superfície do planeta. Com exceção da área da
base, não descobriram qualquer indício de vida inteligente. Ninguém
seria capaz de acreditar que todas as cidades terranas eram
construídas no subsolo, portanto essa informação bastava para
provar que aquele mundo não era a Terra.
Restava
descobrir onde ficava o mundo dos terranos. Os prisioneiros foram
interrogados sobre a distância entre a Terra e a base destruída. De
início recusaram-se a dar qualquer resposta. Quando finalmente a dor
os obrigou a responder, indicaram cifras que iam de dez a quarenta
mil anos-luz. O psicodectetor revelou que a indicação desses
números não fora precedida de qualquer atuação da memória. Em
outras palavras, representavam uma invenção. O computador-regente
viu-se diante de um fato surpreendente: os homens de Perry Rhodan em
Fera Cinzenta não sabiam a que distância ficava seu mundo natal.
E as
informações que puderam dar sobre a direção onde ficava o planeta
Terra eram ainda mais escassas. Eram técnicos do tipo dos que
costumam ser empregados nas bases, ou seja, pessoal de superfície.
Nenhum deles possuía o menor conhecimento de galatonáutica. Por
isso, não foram capazes de indicar as coordenadas angulares que
indicariam a direção do vetor Fera Cinzenta—Terra.
A última
pergunta formulada aos prisioneiros dizia respeito a certos detalhes
do sistema solar terrano. O computador-regente estava convencido de
que, apesar de todas as falhas, conseguiria encontrar a Terra, se o
respectivo sistema fosse por exemplo um dos sistemas gigantescos
formados por mais de cem planetas ouse a própria Terra descrevesse
uma órbita altamente excêntrica em torno de seu sol. Essas
características extraordinárias eram mencionadas no catálogo
galático, daí não seria difícil localizar o sistema.
Infelizmente,
segundo as declarações dos prisioneiros, o sistema solar terrano
era o que havia de mais comum. Interrogados sobre as dimensões de
seu sistema, os prisioneiros mais uma vez formularam declarações
divergentes. Seus conhecimentos astronômicos eram extremamente
escassos.
O regente
concluiu que Perry Rhodan de propósito mantivera baixo o nível de
conhecimentos de seu pessoal. A única informação de valor, obtida
pelo regente, foi a de que um dos planetas do sistema terrano —
mais uma vez surgiram divergências entre as declarações dos
terranos sobre se era o quinto, o sexto, o sétimo ou o oitavo —
possuía um anel.
Porém
mesmo esse êxito tornou-se apenas relativo. Com ele, o número dos
sistemas possíveis ficou reduzido de alguns bilhões para algumas
centenas de milhões. Mais ou menos, dez por cento dos sistemas
planetários possuíam um anel.
A primeira
tentativa de descobrir a posição galáctica da Terra representou um
fracasso para o regente.
Mas, por
enquanto, o cérebro positrônico ainda não lançara seu grande
trunfo.
Perry
Rhodan estava preso e encontrava-se a caminho de Árcon. Era bem
verdade que o computador duvidava de que justamente Rhodan fosse
revelar a posição de seu mundo. No entanto, bastaria que lhe desse
uma certa liberdade de ação para que procurasse entrar em contato
com seus homens, do que poderiam resultar algumas indicações
preciosas.
O regente
concluiu que dominava a situação.
*
* *
Ao que
tudo indicava, o ekhônida pretendia vencer o trecho que o separava
de Árcon numa série de transições. Quem conhecesse o tamanho da
nave, contaria com isso. Mas foi só a primeira dor, seguida do
funcionamento dos propulsores, observado na tela, que devia acelerar
para a segunda transição, que lhes deu a certeza.
Os
prisioneiros sabiam perfeitamente que, só nas pausas entre as duas
transições, poderiam fazer qualquer coisa. Depois de realizado o
último hipersalto, já não haveria a menor esperança.
Face à
duração e à intensidade da dor da transição, Perry Rhodan e
Atlan calcularam a distância percorrida: de cinco a sete mil
anos-luz. A distância entre Fera Cinzenta e Árcon era de
aproximadamente trinta e sete mil anos-luz. Por outro lado, o lugar
em que passaram da Lan-Zour para a nave ekhônida ficava apenas a
alguns minutos-luz de Fera Cinzenta. Face a isso, podia-se calcular
que durante o vôo para Árcon seriam realizadas de cinco a oito
transições. Entre uma transição e outra havia uma pausa de
quarenta minutos, durante a qual a nave era acelerada. Teriam de agir
numa dessas pausas.
*
* *
Zachan
praguejou contra o serviço na frota espacial e especialmente contra
o tédio a bordo da Keenial. Zachan era um dos três guardas que
vigiavam os quatro prisioneiros terranos. E foi o único que ficou
pensando sobre os motivos por que um destes se parecia com um
arcônida. Ficou quebrando a cabeça. O que mais o espantava era que,
além dele, ninguém parecia interessar-se pela estranha
coincidência.
Zachan
andava de um lado para outro pelo corredor. Levava a tiracolo a arma
de choque de cano comprido. Colocara-a nas costas e segurava o cano
com a mão, pois assim o passeio se tornava mais agradável.
Na
verdade, Zachan e os dois outros guardas estavam mesmo passeando.
Ninguém calculava com a possibilidade de que os terranos pudessem
revoltar-se contra a sorte que os atingira.
Zachan
caminhava vinte passos e dava uma rápida volta. Nas últimas três
horas, as voltas rápidas e precisas foram seu único passatempo.
Durante o caminho de volta, um dos outros guardas passava por ele,
percorrendo também o caminho de vinte passos, que de um lado e de
outro terminava numa meia-volta. Zachan disse um palavrão e sorriu;
o outro não demorou a dar uma resposta...
O terceiro
homem, chamado Olthaur, estava sentado numa poltrona, num cruzamento
do corredor.
No momento
em que o outro guarda fazia meia-volta atrás de Zachan, este passou
pela porta que levava ao conjunto de camarotes. Olhou para trás,
para verificar se o outro sabia dar meia-volta tão bem quanto ele.
Quando voltou a virar a cabeça, percebeu que a porta estava
entreaberta. A meia altura da fresta, surgiu uma placa de plástico
reluzente. Zachan deu dois passos rápidos que o levaram para junto
da porta. Pegou a folha de plástico, olhou pela fresta da porta e
viu o vulto alto do terrano, que se parecia com um arcônida. Ouviu-o
cochichar:
— Ande
depressa! Não deixe que os outros três percebam.
Zachan
estacou.
“Os
outros três? Aqui fora só há dois”,
pensou e, quebrando a cabeça, chegou à conclusão de que o terrano,
que parecia um arcônida, deveria ter-se referido aos outros
prisioneiros.
A porta
voltou a fechar-se. Zachan ficou parado à frente da mesma, com o
bilhete na mão. O outro guarda percebeu alguma coisa. Até mesmo
Olthaur inclinou-se ligeiramente na confortável poltrona em que se
encontrava a fim de ver o que estava acontecendo.
Zachan
abriu o bilhete e viu que nele estavam escritas algumas linhas. Os
sinais de escrita eram arcônidas. Como os ekhônidas usassem os
mesmos símbolos, Zachan pôde ler o texto.
Tenho
uma coisa importante a comunicar
ao
comandante. Preciso falar a
sós
com ele. Os terranos não devem
perceber nada. Talan-Nuur.
O outro
guarda olhou por cima do ombro de Zachan.
— Avise
imediatamente! — disse. — Parece que é importante.
Zachan era
mais desconfiado. Era bem possível que aquilo não passasse de um
truque.
Mostrou o
bilhete a Olthaur. Este estudou-o com uma expressão de desconfiança.
— Acho
que será melhor informar o comandante — disse Zachan de repente.
— É
mesmo — confirmou Olthaur.
A poucos
metros de distância, havia uma cabina de intercomunicação.
Enquanto Olthaur continuava sentado na sua poltrona e a outra
sentinela começava novamente a andar nervosamente pelo corredor,
Zachan comunicou-se com a sala de comando. Falou em voz baixa, a fim
de que os prisioneiros não pudessem ouvi-lo. Zachan sentiu-se
surpreso ao notar que na sala de comando atribuíram tamanha
importância à notícia que o ligaram com o comandante Chollar em
pessoa. Este ouviu o que o guarda tinha a dizer. Prometeu enviar um
sinal, dando ordens para que Talan-Nuur fosse levado à sala de
comando.
Zachan
ficou satisfeito com o resultado de sua atuação.
Dali a
alguns minutos, um oficial apareceu. Era um homem jovem, bem mais
jovem que Zachan. E não estava armado.
— Tire
Talan-Nuur — ordenou. — Quero que vá comigo à sala de comando.
O senhor me acompanhará, pois estou desarmado.
“Que
homem imprudente”,
pensou Zachan. “Terei
de cuidar dele.”
Abriu a
porta do camarote e gritou:
— O
comandante quer falar com Talan-Nuur!
Nenhum dos
prisioneiros estava na sala da frente. Mas quando Zachan chamou, com
exceção do doente, os prisioneiros apareceram na porta que ligava
os dois aposentos. Zachan repetiu a ordem. Examinou atentamente os
prisioneiros, mas não notou nada de suspeito. Estava realmente
convencido de que Talan-Nuur desejava dar alguma informação
importante sobre os outros prisioneiros.
O oficial
mandou que Olthaur e o outro guarda tivessem muito cuidado durante a
ausência de Zachan. Disse que Zachan logo voltaria.
Puseram-se
a caminho da sala de comando. O oficial ia à frente, Talan-Nuur no
meio, enquanto Zachan fechava o grupo.
Os
camarotes dos prisioneiros ficavam num corredor circular. Depois de
alguns passos, este terminava num corredor provido de fitas rolantes.
A confusão
aconteceu no lugar em que o corredor secundário encontrava-se com o
corredor principal. E deu-se tão de repente que Zacham levou algum
tempo para compreender o que estava acontecendo...
O oficial
desaparecia na curva do corredor, seguido por Talan-Nuur. Zachan
esforçava-se para segui-lo bem de perto, pois não queria perder o
prisioneiro de vista por um instante sequer. Mas no momento em que
pretendia entrar na curva do corredor uma barulheira violenta surgiu
atrás dele. Zachan parou e olhou para trás, per- plexo. A porta do
camarote dos prisioneiros estava aberta. O maior dos terranos estava
parado na entrada, gesticulando nervosamente. Olthaur e o outro
guarda se haviam colocado à sua frente, com as armas apontadas.
Zachan
ficou totalmente perturbado. Finalmente lembrou-se de que sua tarefa
consistia em levar um prisioneiro à sala de comando, não em cuidar
do que Olthaur e o outro guarda faziam. Controlou-se e quis
prosseguir...
*
* *
Atlan só
estava esperando este momento!
À frente
dele, o jovem oficial, que não desconfiava de nada, pisou na mais
lenta das fitas rolantes. O guarda que vinha atrás dele estava
oculto pela curva do corredor. Enquanto isso, o ruidoso protesto de
Perry Rhodan se fazia ouvir no corredor lateral, conforme fora
combinado.
Numa das
paredes laterais do corredor, ficava a escotilha pressurizada: ali
localizava-se a saída de ar comprimido. Bastava que Atlan estendesse
a mão para tocá-la. No momento em que a voz forte de Perry Rhodan
começou a soar, Atlan escorregou para o lado. Suas mãos treinadas
não levaram mais de um segundo para destravar a escotilha e abri-la.
O poço de ar pressurizado era uma saída de emergência, e... uma
saída de emergência sempre possui uma entrada fácil de ser aberta!
No momento
em que Atlan abriu-a, ouviu-se um forte chiado. O jovem oficial, que
já se havia afastado alguns metros na fita rolante, percebeu que
alguma coisa não estava correndo bem. Virou-se e viu o arcônida
abaixar-se e entrar apressadamente no poço. Por um segundo ficou
mudo de pavor. E esse segundo foi suficiente para que Atlan
desaparecesse no poço e fechasse a escotilha atrás de si.
No
interior do poço, acendeu-se uma luz ofuscante. As paredes — lisas
e brilhantes — do longo tubo abriram-se à frente do arcônida. Não
se ouvia mais nenhum som vindo de fora. A escotilha era à prova de
pressão e de som. E, o que era mais importante, não se podia
abri-la, enquanto alguém se servisse das respectivas instalações.
Atlan
agachou-se no soalho redondo do tubo. Fazia mais de dez mil anos que
pela última vez saíra de forma tão desagradável de uma nave. Por
um instante sentiu-se deprimido com a lembrança de Tarts...
Recordava-se de que o guerreiro impetuoso o empurrara pelo tubo
pressurizado da Tosoma, gravemente danificada, quando Atlântida
estava submergindo.
Dali a um
segundo, bateu com o punho fechado no botão luminoso vermelho à sua
esquerda. Um forte ruído surgiu no interior do tubo. Bombas
gigantescas aspiraram o ar, causando uma queda de pressão ao longo
do eixo do tubo. Ouviu um chiado na altura da escotilha. O ar
pressurizado estava entrando, e aumentava a pressão na outra
extremidade do tubo. Uma tormenta rugiu em torno do arcônida,
fazendo seus cabelos esvoaçarem. Sofreu uma forte aceleração e o
sangue subiu-lhe à cabeça.
Viu a
escotilha da comporta à sua frente. Naquela comporta, terminavam
mais cinco poços de ar pressurizado, vindos de todas as direções.
Se o jovem oficial fosse bastante rápido, teria alarmado a nave e
ocupado a comporta o mais rápido possível. Nesse caso, alguns
ekhônidas zangados estariam atrás da escotilha para receberem Atlan
de armas em punho.
Uma dúvida
tomava conta da mente do arcônida. Se na comporta não houvesse
trajes espaciais, Atlan poderia regressar, mesmo que ninguém
apontasse a arma para ele, e anunciar a Perry Rhodan que seu plano
fracassara. Pois o plano não poderia ser executado sem um traje
espacial.
Impaciente
e nervoso, viu a escotilha deslizar para o lado. A câmara da
comporta estava vazia e profusamente iluminada. Em compensação,
pelo menos uma dezena de trajes espaciais, além de outros
equipamentos, estavam pendurados nas paredes.
Atlan
envergou um dos trajes o mais rápido que pôde. A escotilha interna
fechara-se automaticamente. Atlan abriu a externa e suspirou
aliviado. Enquanto esta estivesse aberta, ninguém poderia
alcançá-lo. Estava em segurança. Ninguém poderia impedir a
execução de seu plano. Bastaria agir com bastante prudência, e
praticamente já teriam conquistado a liberdade.
Examinou o
pequeno aparelho de retropropulsão embutido no traje espacial. Seu
funcionamento era impecável. Escolheu entre os inúmeros
equipamentos, pendurados às paredes, uma corda de plástico de cerca
de trezentos metros de comprimento e enganchou-a no cinto do traje
espacial. Prendeu a outra extremidade à alça presa da parede
interna da comporta.
Depois
saiu, fazendo a corda deslizar pela mão. No instante em que se
lançou para fora, sentiu-se abandonado pelo campo de gravitação
artificial existente no interior da nave. A aceleração parecia
querer arrastar a Keenial a uma velocidade terrível. Mas logo ligou
o retropropulsor. Face ao pequeno campo antigravitacional a pressão
tornou-se suportável e a corda não foi submetida a uma tensão
excessiva.
Atlan foi
planando lentamente ao longo do envoltório da nave, em direção à
protuberância equatorial que expelia para a escuridão as chamas
branco-azuladas dos bocais de jato.
*
* *
O som
estridente das sereias de alarma encheu todos os corredores e
compartimentos da nave. Perry Rhodan parou de discutir em inglês com
os dois guardas. Olthaur e seu camarada fitaram-se com uma expressão
de perplexidade.
Rhodan
esforçou-se para ocultar a sensação de triunfo. Se as coisas
continuassem a correr conforme haviam previsto, então...
As sereias
calaram-se. O silêncio que se seguiu tinha algo de fantasmagórico.
Olthaur lançou um olhar assustado para os prisioneiros e dirigiu-se
à cabina do intercomunicador. Perry Rhodan continuou parado na
porta, fitando o terceiro guarda, que o ameaçava de arma em punho.
Olthaur
manteve uma palestra ligeira e exaltada. Descansou o fone e disse em
tom nervoso:
— Os
prisioneiros serão levados à sala de comando.
Se
soubesse quanto Rhodan teve de esforçar-se para não suspirar
aliviado, teria desconfiado. No entanto, a única coisa que ouviu foi
o protesto formal de Rhodan:
— O
doente não pode ser transportado.
Ao que
parecia, Olthaur se sentia zangado com a própria insegurança.
— Pode
ser transportado, sim! — gritou em tom furioso. — Vamos logo! Não
quero conversa.
Perry
Rhodan entrou no camarote. Sem que o guarda o percebesse, lançou um
olhar encorajador para Reginald Bell.
Este,
muito sério, acenou com a cabeça.
Fellmer
Lloyd já havia recuperado os sentidos. Já estava melhor; o remédio
começava a fazer efeito. Fez questão de caminhar até a sala de
comando, mas Rhodan e Bell não deram atenção aos seus protestos e
levaram-no, amparando-o.
Os dois
guardas estavam atentos e prontos para disparar suas armas.
— Para
lá! — disse Olthaur em tom enérgico, apontando sua arma pelo
corredor.
*
* *
Atlan
conhecia a nave como a palma da mão. Era do mesmo tipo da que
comandara há vários milênios, quando instalou uma colônia no
sistema de Larsaf. Sabia qual era a ligação entre a abertura dos
bocais e a potência do empuxo. E também sabia que na parte externa
da nave, junto às saídas dos jatos, havia pequenos mecanismos
manuais, capazes de alterar a abertura de cada bocal.
Às vezes
os mecanismos manipulados a partir da sala de comando falhavam. E uma
nave não podia ser manobrada, caso não se pudesse regular a
abertura dos bocais e, com isso, a potência do empuxo. Para tanto,
havia dispositivos manuais, destinados a controlar os bocais.
Era mais
ou menos a mesma coisa que acontecia com os velhos automóveis dos
terranos. Além do motor de arranque elétrico, tinham uma manivela
capaz de pôr o veículo em movimento quando o arranque falhasse.
Atlan lembrou-se desses veículos e não pôde deixar de pensar nos
mesmos, enquanto se deslocava ao longo da protuberância equatorial,
em direção aos raios de partículas...
Agora,
poucos metros o separavam do primeiro mecanismo de regulagem manual.
Puxou
rapidamente a corda e percebeu a resistência que oferecia.
Precisaria da corda assim que começasse a trabalhar. Teria
necessidade também do retropropulsor e do campo antigravitacional.
É que os
mecanismos de regulagem manual não estavam acoplados aos mecanismos
neutralizadores de pressão da nave. Assim que modificasse a largura
dos bocais, a Keenial empinaria que nem um potro selvagem!
*
* *
Chollar
estava muito nervoso, mas não teve tempo de descarregar sua raiva
sobre os prisioneiros.
Perry
Rhodan sentiu a inquietação reinante na sala de comando. Um dos
prisioneiros desaparecera por um caminho estranho, raras vezes
trilhado. Abandonara a nave. Naquele instante vagava em algum lugar
do espaço.
Por quê?
Chollar
mandou que seus homens fossem procurá-lo. Os corredores principais
da nave estavam fortemente vigiados. Era possível que o prisioneiro
tentasse entrar por uma das comportas.
Metade dos
tripulantes preparou-se para sair da nave. Naquele instante, Chollar
ainda não conseguia imaginar que tipo de prejuízo um prisioneiro
desarmado, que se encontrasse do lado de fora, poderia causar à
nave. Porém tinha de contar com todas as possibilidades, e até com
aquelas que no momento não lhe ocorriam...
Os três
prisioneiros mantiveram-se nos fundos da grande sala. Estavam sendo
vigiados pelos dois guardas.
Perry
Rhodan contou os ocupantes da sala de comando. Incluídos os dois
guardas, eram dezessete pessoas. O número de ekhônidas não lhe
causava incômodo. Só no momento adequado veria como esses homens
reagiriam à surpresa que os aguardava.
Perry
Rhodan levantou cautelosamente o braço. Olthaur reagiu
imediatamente, entortando o dedo junto ao gatilho. Com um sorriso
amável, Rhodan sacudiu a cabeça e apontou para o relógio. Queria
apenas saber das horas.
Eram
dezoito horas e cinqüenta e três minutos. Em Terrânia, a noite
principiava. Mas não era isso que importava. O importante era que,
às dezoito horas e cinqüenta e cinco minutos, Atlan começaria a
agir.
*
* *
Atlan
lançou um olhar para o relógio. Faltavam quarenta segundos.
Sua mão
direita segurava a alavanca do pequeno mecanismo de regulagem. Tentou
empurrá-lo um milímetro. A alavanca obedecia perfeitamente.
Não teria
a menor dificuldade de, com um único movimento, modificar de tal
forma a abertura dos primeiros três bocais que a potência do empuxo
fosse reduzida em quarenta por cento.
Olhou para
cima, ou melhor, para o lugar em que, segundo a impressão do
momento, devia ser em cima. A grande comporta de carga continuava
fechada. Ao que parecia, até então ninguém tivera a idéia de
procurar o fugitivo junto à parede externa da nave.
Mais vinte
segundos.
*
* *
Finalmente
chegou a hora!
De início
houve um forte solavanco, que parecia fazer o estômago subir à
boca, seguido de um forte estrondo: o mecanismo propulsor, que
funcionava de forma assimétrica, obrigou a nave a descrever uma
curva fechada.
Os homens
de Chollar foram tomados de surpresa. Viram-se arrancados das
cadeiras, rolavam pelo chão, batiam com a cabeça, os ombros e as
pernas, e soltavam gritos de pavor.
Mesmo para
os terranos, que já contavam com aquilo, as coisas não foram boas.
O primeiro solavanco atirou Fellmer Lloyd ao chão e fê-lo perder os
sentidos. Perry Rhodan e Reginald Bell deram um tremendo salto para
perto daquela confusão de pernas e braços ekhônidas e,
imediatamente, passaram à realização da outra parte do plano.
Quando
Perry Rhodan conseguiu apoderar-se da primeira arma, a Keenial ainda
jogava violentamente. Era uma arma de choque, e Perry começou a
disparar sobre os homens deitados à sua frente. Não compreendia que
as coisas pudessem ser tão fáceis. Mas, quando conseguiu
levantar-se de forma pouco segura e procurou compensar o jogo da nave
com movimentos dos joelhos, viu que já havia colocado fora de
combate sete dos dezessete homens da sala de comando.
Nos fundos
da sala, Reginald Bell trabalhava que nem um louco. Segurando duas
armas de choque ao mesmo tempo, disparou salvas paralisantes sobre os
homens caídos, antes que estes compreendessem o que estava
acontecendo.
Parte dos
tripulantes já havia sido posta fora de ação por causa da queda.
Às dezenove horas e dois minutos, Reginald Bell e Perry Rhodan se
haviam apossado da sala de comando da Keenial. Recolheram as armas
dos homens inconscientes e trancaram as escotilhas de entrada. A sala
de comando foi transformada numa fortaleza.
Finalmente
Perry Rhodan foi ao painel de pilotagem e desligou os mecanismos
propulsores. Dali em diante, a Keenial cortava o espaço em
velocidade constante. Não havia qualquer aceleração.
No momento
em que os raios chamejantes dos propulsores se apagaram, Atlan soube
que o golpe fora bem sucedido.
*
* *
Um
silêncio sepulcral reinava na nave. Os oficiais chamaram a sala de
comando. Perry Rhodan lhes contou o que havia acontecido. Ao mesmo
tempo, foram advertidos de que não deveriam atacar a sala de
comando. Perry Rhodan deixou bem claro que os ocupantes da sala de
comando deviam ser considerados reféns.
A
advertência produziu o efeito desejado. Os terranos foram deixados
em paz.
Atlan
voltou por um tubo pressurizado que o conduziu diretamente à sala de
comando. Perry Rhodan apertou-lhe a mão, sem dizer uma palavra. Não
havia tempo para palavras, mas todos sabiam quanto o arcônida tinha
feito.
Perry
Rhodan começou a calcular os dados para o salto que levaria a nave a
um setor espacial controlado pela frota terrana. Teve alguns
problemas com o computador ekhônida.
Seu
trabalho progredia lentamente. Isso o deixava impaciente. Quanto mais
tempo a Keenial se deslocasse livremente pelo espaço, melhores
seriam as idéias que acudi-riam aos ekhônidas que se encontravam
nos corredores da nave, aguardando o inimigo cometer um erro.
Já há
algum tempo, Perry Rhodan bolava um plano simples e fácil de ser
executado, pois não representaria um perigo para quem quer que
fosse. Apenas o impediria de colocar a nave em movimento a fim de
pôr-se em segurança através um hipersalto.
“Vou
enviar uma mensagem enigmática...”,
pensou Rhodan.
De
repente, o suprimento de energia da sala de comando foi interrompido.
A partir desse instante, a sala de comando passou a ser um recinto
morto. Sem luz, calefação e renovação de ar!
Um único
aparelho continuava a funcionar, porque dispunha de gerador próprio.
Era o emissor de emergência. Aliás, era ele que estava nos planos
de Perry.
Rhodan e
Bell tatearam pela escuridão. Os corpos rígidos dos ekhônidas não
lhes davam muito trabalho. Encostaram-nos à parede, junto a duas
escotilhas trancadas.
— Fique
com os ouvidos bem atentos, almirante — disse Rhodan. — E não
atire contra Lloyd, quando ele recuperar os sentidos. Ele se encontra
nessa direção.
Depois
voltou à poltrona do piloto. O pequeno painel do transmissor de
emergência ficava à esquerda do painel geral. Perry Rhodan tateava,
procurando a chave mestra. Por fim a encontrou e logo a virou. Cinco
lâmpadas pequenas acenderam-se, espalhando uma claridade suficiente
para reconhecer o painel.
Enquanto
punha o transmissor a funcionar, ficou refletindo sobre o texto da
mensagem que deveria transmitir. Devia ser concebido de maneira a não
despertar a atenção das naves arcônidas, mas sim a dos terranos.
Devia
parecer uma mensagem de rotina, mas, apesar disso, a frota terrana
deveria compreender que havia um grupo de terranos em perigo.
Depois de
refletir por algum tempo, Perry Rhodan decidiu enviar a seguinte
mensagem: “Lamira
XII chamando YN-LISS. Posição Goshun.”
O texto
foi redigido em arcônida. A única palavra intraduzível foi a
palavra Goshun. Mas Perry Rhodan achava que os arcônidas que
captassem a mensagem acreditariam que Goshun fosse o nome de algum
planeta e não dariam maior importância ao fato. Certamente nenhum
deles saberia que Goshun era o nome do lago em cuja margem ficava a
capital da Terra, Terrânia.
Rhodan
pegou o microfone e repetiu o texto três vezes. Tinha a intenção
de repetir o chamado de dez em dez minutos, até que chegasse o
socorro.
*
* *
A
disposição espacial Terra—Fera Cinzenta—Árcon III formava um
triângulo irregular, com um ângulo obtuso no vértice
correspondente à Terra e um ângulo muito agudo, que media poucos
graus, no ponto em que ficava Árcon III. Ao sair de Fera Cinzenta, a
Keenial se deslocara pelo lado maior do triângulo, em direção a
Árcon. Em virtude disso, depois de duas transições, que a haviam
levado a uma distância de cerca de doze mil anos-luz, não estava
muito mais longe da Terra que por ocasião da partida.
Perry
Rhodan calculava que uma nave terrana, vinda do setor em que ficava o
planeta Terra, levaria cinco a seis horas até encontrar a Keenial.
Isso, naturalmente, se partisse assim que fosse captada a primeira
mensagem.
O
suprimento de ar da sala de comando, que estava isolada, também
daria para cinco ou seis horas. Se todas as esperanças fossem vãs,
ainda se poderia expedir um pedido de socorro em linguagem clara, que
evidentemente faria acorrer ao local naves vindas de todos os
setores.
É bem
verdade que, neste caso, as primeiras naves a aparecerem
provavelmente seriam as arcônidas.
A
tripulação da Keenial continuava tranqüila.
A espera
martirizante não queria chegar ao fim.
*
* *
Subitamente
houve movimento no interior da nave. Ouviram-se gritos e o som
cantante dos disparos energéticos atravessou as paredes. A Keenial
começou a tremer.
Os três
terranos que se encontravam na sala de comando logo se colocaram de
pé. Gritos e disparos! Isso só podia significar que, para os
ekhônidas, as pessoas, que procuravam penetrar na nave, eram
inimigas.
E, se
fossem inimigos dos ekhônidas, só poderiam ser terranos.
Os
prisioneiros continuavam inconscientes. Três horas e meia se haviam
passado a partir do momento em que Perry Rhodan expedira a primeira
mensagem... A nave terrana deveria estar bem longe da Terra, quando
recebeu a mensagem. De outra maneira, não poderia ter vindo tão
depressa.
O barulho
foi aumentando. Reginald Bell caminhou impacientemente na escuridão
e parou junto a uma das escotilhas. Aproximou-se da parede metálica
e procurou ouvir o que se passava lá fora.
Os ruídos
não puderam ser identificados. De qualquer maneira, uma luta
mortífera estava sendo travada nos conveses e corredores da nave. Os
ekhônidas pareciam oferecer um máximo de resistência ao intruso.
— Deveríamos
abrir a escotilha — sugeriu Reginald Bell. — Assim essa gente
ficaria entre dois fogos.
Perry
Rhodan achou que o plano seria muito arriscado.
— Vamos
esperar! — decidiu.
*
* *
O fragor
da luta crescia. A nave tremia.
Ao que
parecia, a resistência da tripulação ekhônida estava entrando em
colapso. O barulho foi-se aproximando. Reginald Bell encostou-se na
parede e ouviu perfeitamente as pisadas que corriam pelo corredor.
Os minutos
foram passando. Perry Rhodan olhou para as cifras luminosas de seu
relógio. A luta pela posse da Keenial já estava demorando mais de
uma hora.
Subitamente
uma das escotilhas começou a ribombar!
Atlan e
Rhodan abrigaram-se do lado oposto da sala. Não deram a menor
atenção aos prisioneiros.
— Não
abra! — ordenou Rhodan. — É uma armadilha!
O ruído
cessou. Perry Rhodan aproveitou um tempo para “enviar”
sinais. Bateu ritmicamente. Dava três batidas seguidas. Mas a pessoa
que se encontrava do lado de fora não parecia “disposta
a aprender”
o ritmo. Depois de algum tempo, a escotilha voltou a ribombar. Desta
vez, o ruído foi tão forte e furioso que os três terranos recuaram
alguns passos.
Era uma
situação irreal. Encontravam-se a bordo de uma nave inimiga, onde
ocupavam uma única sala, isolada do resto. Haviam irradiado um
pedido de socorro e esperavam que uma nave terrana viesse em seu
auxílio e os resgatasse. Esperavam que, do lado de fora, alguém
batesse na escotilha e gritasse: “Abram!”
Acontece
que a pessoa que se encontrava do lado de fora não dizia uma única
palavra. As pancadas, que fizeram a escotilha estremecer, eram tão
fortes que nem dez punhos humanos reunidos poderiam tê-las
desferido.
Uma
suspeita terrível surgiu na mente de Rhodan.
— Abram!
— ordenou. — E mantenham as armas para baixo.
Com um
ruído metálico, o fecho da escotilha correu. A escotilha abriu-se e
uma luminosidade profusa entrou na sala, avivando os contornos de um
vulto gigantesco, que fez o sangue gelar nas veias dos terranos.
Era um
“toco”,
um toco negro e em forma de cubo, que se mantinha sobre duas pernas,
que mais pareciam colunas. Na parte superior do toco havia uma esfera
sem cabelos, que era a cabeça. Os olhos facetados brilhavam mesmo na
escuridão, e a abertura triangular da boca estava escancarada. Os
braços pendiam ao lado do toco. Eram grossos e robustos e terminavam
num par de mãos que chegavam a ser ridículas de tão finamente
articuladas.
Aquele ser
era um druuf!
*
* *
Uma vez
passado o susto, notaram que o druuf estava armado e ainda trazia um
aparelho tradutor.
Subitamente
a boca triangular moveu-se. Aquilo nem de longe era uma fala. Os
druufs utilizavam outros órgãos para emitir as vibrações de
ultra-som que transmitiam sua fala ininteligível. Apesar disso, o
pequeno aparelho de fala começou a soar e disse numa voz impessoal e
mecânica:
— Ouvimos
sua mensagem. Chegamos à conclusão de que devem estar em situação
difícil e viemos para auxiliar. Nossa nave está à sua disposição.
Perry
Rhodan não levou muito tempo para recuperar o autocontrole. Uma nave
dos druufs estivera nas proximidades quando expediu o pedido de
socorro. Quer tivessem entendido a palavra Goshun, quer não, o fato
é que tinham vindo para ver o que estava acontecendo. Não
demonstraram o menor escrúpulo para com os tripulantes da Keenial.
Afastaram tudo que se interpôs em seu caminho.
Subitamente
teve uma idéia bastante desagradável. Os druufs fariam questão de
que ele, Atlan, Bell e Fellmer Lloyd subissem a bordo de sua nave. As
estranhas relações existentes entre os druufs e os terranos, que os
separavam mais do que os uniam, provavelmente fariam com que os
druufs os considerassem como prisioneiros.
Isso não
era tão ruim como poderia parecer à primeira vista.
Apesar
disso, Perry Rhodan resolveu fazer uma tentativa.
— Ficamos
muito gratos — disse. — Mas achamos que não precisamos valer-nos
de sua amável oferta. Nossas naves estarão aqui dentro de algumas
horas.
O aparelho
tradutor levou algum tempo para realizar a transladação. Assim que
isso aconteceu, mais cinco druufs apareceram na sala de comando.
— Não
acredito que nosso comandante goste da recusa — disse o primeiro
druuf. — Vemo-nos obrigados a insistir em que, daqui por diante, se
considerem nossos hóspedes.
“Quem
dera que a mentira fizesse você morder a língua”,
pensou Perry Rhodan numa disposição amarga.
Sabia que
já não havia nenhuma saída. A superioridade dos druufs era
tremenda. Teriam de acompanhá-los.
Em Fera
Cinzenta, já haviam passado de mal a pior, e mais uma vez sua
situação se modificava sem que conseguissem livrar-se. Passavam da
mão de um inimigo para a de outro. A liberdade dos terranos parecia
ter entrado num beco sem saída.
Num
galático beco sem saída!
Perry
Rhodan levantou a mão num gesto de concordância.
— Está
bem — disse. — Iremos com os senhores.
O druuf
esperou que o aparelho traduzisse estas palavras. Depois deu as
costas a Rhodan e saiu caminhando.
*
* *
A nave era
um dos gigantescos cilindros e parecia ser a conquista mais recente
na arte da construção de naves espaciais dos druufs. Os
prisioneiros receberam um tratamento amável, mas frio.
Indicaram-lhes alguns camarotes e postaram alguns druufs nas
respectivas portas, a fim de vigiá-los.
Conforme
se depreendeu de vários sinais, a nave — seu nome era composto de
vários sons sibilantes impronunciáveis pôs-se a caminho assim que
os prisioneiros foram colocados a bordo. Perry Rhodan teve certeza
absoluta de que os druufs procurariam passar pela área de
superposição, situada nas proximidades do sistema de Mirta, a fim
de retornar o quanto antes à sua dimensão temporal.
Perry
Rhodan teve pena dos companheiros, que, desde o momento em que surgiu
o druuf, mantiveram-se calados.
Rhodan
ainda tinha esperança. Era bem verdade que se encontravam numa
situação muitíssimo mais desagradável do que a inicial. Mas, de
qualquer maneira, entre os druufs estavam melhores do que estariam em
Árcon.
Ainda
havia um pouquinho de esperança.
Uma
pequena luz poderia surgir no fim do... beco sem saída.
*
* *
*
*
*
Até
parece que a morte de Thora deu início a uma fase negra na história
da Humanidade.
Perry
Rhodan e alguns homens mais importantes do Império Solar são dados
como mortos...
Em Nas
Cavernas dos Druufs, título do próximo volume, os medidores de
gravitação de Hades dão um sinal, transmitindo um S.O.S., e novas
emoções acontecem.

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